A Verdade de Cada Um


      Zibia Gaspareto




     Ditado por Lcios.
Prlogo
Em meio a escurido da noite, Elisa caminhava sem perceber bem por onde ia, tentando
segurar as lgrimas que teimavam em escorrer pelas suas faces, toldando-lhe a viso.
Em SEU desespero, pouco se importava com os carros que passavam a toda velocidade
pelo meio da rua, fechada ao mundo exterior, dobrada ao peso de sua dor.
Tantos anos de dedicao e de renncias, de carinho e de amizade e agora, depois de
tudo, ele a deixara. Seduzido por outra mulher, embalado nas iluses da juventude dela,
no titubeara em abandonar a casa, a famlia, tudo. Era como se o teto houvesse
desabado sobre sua cabea inesperadamente sem que pudesse fazer nada para impedir.
Doa. Doa muito. No podia compreender como um homem podia trocar o amor de
uma estranha, os prazeres ilusrios do corpo, pelo sorriso alegre de Marina, o olhar
inocente e confiante do Juninho e as risadas francas e espontneas da Nelinha.
De que matria era feito o Geninho, para ser to cruel?
Elisa passou a mo nervosamente pelas faces numa tentativa quase intil de limpar as
lgrimas. O que fazer de sua vida agora? Como viver dali para frente? O que dizer aos
filhos sobre o pai? Eles eram to pequenos ainda, to confiantes! Nelinha completara
trs anos, Juninho estava com cinco e Marina com sete. Eram crianas amorosas e bem-
comportadas. O que seria deles dali para frente? Como manter a casa?
Ela nunca havia trabalhado fora. Sua famlia, de classe mdia, vivia com conforto e ao
casar-se, o Geninho no a deixara trabalhar. "Minha mulher no precisa trabalhar. Sou
mais do que suficiente para sustentar minha famlia."
E embora ele controlasse o dinheiro e no lhe desse autonomia nas compras da casa,
Elisa habituara-se a seu modo de viver, de dispor de tudo, de decidir o que fazer, o que
comprar etc.
Ela no se queixava. Afinal, o homem era o chefe da casa. Sua me sempre dizia que o
papel da mulher dentro do lar  agradar o marido, obedecendo-o e cuidando do seu bem-
estar.
Durante os doze anos de casamento, Elisa cumprira religiosamente esses princpios.
No fazia nada sem perguntar ao marido se podia, o que ele pensava. Como ele era
econmico, ela poupara o mais que podia. Se tinha algum dinheiro nas mos, pensava
logo nele e nos filhos. Ela podia esperar. Afinal, eles eram mais importantes.
Ele foi economizando, melhorando a vida no trabalho e comprando carro do ano, roupas
da melhor qualidade, cuidando mais da aparncia, e ela compreendia que ele precisava
vestir-se bem, apresentar-se melhor. Afinal, o cargo que ocupava na empresa onde
trabalhava assim exigia.
Ela ia ficando para depois. Gostaria de cortar os cabelos em um bom cabeleireiro,
melhorar a aparncia, comprar alguns vestidos na moda. Mas isso era sonhar com o
impossvel. O dinheiro era escasso, e o Geninho vivia dizendo que ela gastava demais.
O jeito era conformar-se com os vestidos que costurava em casa mesmo, reformando-os
de vez em quando ou vestindo as roupas que sua irm Olvia lhe mandava de tempos em
tempos.
Olvia era o oposto dela. Jamais se conformara em viver com pouco. Era exigente, e
tudo quanto sua me lhe dissera sobre o casamento, no a convencera. No se casara,
contudo era muito disputada pelos homens elegantes e inteligentes que a cercavam de
atenes e de presentes, desejosos de conquist-la. Mas Olvia tratava-os amavelmente,
saa com eles algumas vezes sem envolver-se ou permitir intimidades.
Era como uma deusa que concedia suas graas de vez em quando. Vestia-se ao rigor da
moda, freqentava os melhores lugares, tinha intensa vida social e era muito bem-vista
nas melhores rodas da sociedade.
Trabalhava em uma grande empresa onde conquistara posio de destaque junto a
diretoria, o que lhe garantia dinheiro suficiente para ser independente, dentro do padro
de luxo que exigia e estava acostumada.
Vrias vezes tentara convencer Elisa a cuidar-se um pouco mais, a ser mais exigente
com o marido, a conquistar seu prprio espao dentro do lar. Quando elas conversavam
sobre isso, quase sempre acabavam discutindo. Ao final, Olvia desistia. Apesar da sua
postura independente e muito pessoal, ela gostava de Elisa, que embora dois anos mais
velha, era dcil e afetiva, ingnua at. Observando essa ingenuidade, Olvia tornava-se
por vezes autoritria com
ela, temerosa de que os outros abusassem, o que muitas vezes acabava ocorrendo.
Elisa continuava caminhando desesperada, sem rumo e sem enxergar nada a no ser a
dor que lhe ia no corao. O desinteresse gradativo do Geninho, nos ltimos tempos,
no a fizera perceber que ele tinha outra mulher. Ele dizia que estava cheio de trabalho,
que fazia horas extras e ela acreditava.
-- A vida est muito cara -- repetia ele -- voc cada dia gasta mais. No tenho outro
recurso seno trabalhar mais, fazer hora extra. Voc devia se dar por feliz por ter um
marido trabalhador e interessado no bem-estar da famlia.
-- As crianas sentem sua falta -- respondia ela. -- Quase no o tm visto.
-- O que posso fazer? Estou me matando no trabalho pelo bem-estar de todos.  o meu
dever.
E ela esforava-se mais para multiplicar o dinheiro que ele lhe dava para as despesas,
privando-se at do necessrio para que nada faltasse a ele. Afinal, ele era quem
mantinha a casa. Tinha todo o direito ao melhor bife,  cervejinha gelada, ao pssego
em calda do qual ele tanto gostava. As crianas queriam comer tudo, mas ela dava um
pedacinho para cada um e guardava para ele.
Elisa sentiu aumentar a raiva. Como se arrependia da sua passividade! De que lhe valera
tanta renncia, tanta obedincia?
Nada do que fizera o impedira de, naquela manh, arrumar sua mala e dizer-lhe
friamente:
-- Elisa, eu sinto muito, mas nosso amor acabou. Voc est muito diferente da mulher
que conheci e me casei. Apaixonei-me por outra. Estou indo embora. Estou levando o
necessrio para dois ou trs dias. Gostaria que voc arrumasse minhas coisas e dentro de
alguns dias mandarei buscar.
Essas palavras tiveram sobre ela o efeito de uma bomba. Jamais esperara isso. No
conseguiu articular palavra. Sentiu um n na garganta, pensou no estar ouvindo bem.
Colocando algum dinheiro sobre a cmoda, ele saiu calmamente sem se despedir das
crianas que brincavam no quintal.
Elisa ficou parada, olhos fixos na porta sem querer acreditar no que estava acontecendo.
Nervosa, olhou-se no espelho e a mulher que viu estava longe de ser a Elisa que ela
fora, ou que ainda imaginava que fosse. Aos trinta e quatro anos era uma mulher mal
vestida, deselegante, feia e velha.
Essa descoberta chocou-a. Correu apanhar o lbum do fotografias do seu casamento, e a
moa de olhos brilhantes, elegante,
cheia de vida, lindos cabelos, que l estava, parecia outra pessoa.
Como no se dera conta do quanto mudara? Por que nunca Geninho lhe dissera nada?
Preocupada em fazer tudo para eles, esquecera-se de si mesma. No era isso que haviam
lhe ensinado a fazer? No era nobre dedicar-se aos outros,  famlia, esquecendo-se de
suas prprias necessidades? Por que dera errado? Por que estava sendo punida se
procurara fazero melhor?
No. No era possvel. Devia ser algum engano. O Geninho no seria capaz de tanto.
Fizera isso para experiment-la. Logo mais,  noite, voltaria para casa e tudo estaria
como antes. Na certa, ele desejava que ela percebesse que precisava cuidar melhor da
aparncia. Ele tinha razo, ela se desleixara. Geninho no teria mais nenhum motivo de
queixa dali para frente.
Tentando ignorar o que acontecera, passou o dia cuidando de tudo com mais capricho e,
principalmente, tratou de melhorar a prpria aparncia. Foi  cabeleireira, deu um jeito
nos cabelos, procurou seu melhor vestido, fez um jantar caprichado e esperou.
As horas foram passando e o Geninho no voltava. E se ele houvesse dito a verdade? E
se ele no voltasse mais mesmo?
Agoniada, Elisa foi ficando cada vez mais inquieta, andando de um lado a outro sem
parar. As crianas dormiam tranqilas, e ela, no suportando mais a presso, resolveu
sair e andar um pouco, sentia-se sufocar dentro de casa.
Fechou a casa e saiu caminhando desesperada, ruminando sua dor, sua impotncia, sua
decepo, seu fracasso.
As lgrimas continuavam descendo pelo seu rosto, obscurecendo sua viso. Elisa
caminhava sem destino, compulsivamente, como se nesse caminhar, ela fosse encontrar
respostas para seu conflito interior.
Numa curva da esquina, ao atravessar a rua, uma brecada, um grito e o corpo de Elisa
atirado longe. Correria, gente procurando socorrer, enquanto o motorista do carro, aflito,
repetia assustado:
-- Ela atravessou de repente, sem ver. Nem olhou sequer. No tive culpa!
A polcia compareceu ao local e constatou que infelizmente o acidente fora fatal. Ela
estava morta. Procuraram documentos, mas ela no tinha nada. Ao remover o corpo
para o Instituto de Medicina Legal, o atendente comentou:
-- Que pena, era ainda moa. Quem ser? Ter famlia?
-- Vamos guardar o corpo, talvez aparea algum.
E como era de rotina, procuraram esquecer o acidente e conversar sobre outros assuntos.
Captulo 1

Olvia remexeu-se no leito preguiosamente. O telefone tocava insistentemente, e ela
ainda sonada atendeu:
-- Al!
-- Tia, aqui  a Marina. Mame est a com voc?
-- Aqui? No. Claro que no. Ela no est a?
-- No. Procurei na casa inteira, mas ela no est. Pensei que estivesse a.
-- Vai ver que ela saiu para comprar alguma coisa. Seu pai j acordou?
-- Papai saiu ontem e acho que aconteceu alguma coisa. Ele viajou, e mame chorou
muito.
Olvia sentou-se no leito bem acordada:
-- Ele no voltou pra casa ontem?
-- No. Mame fez o jantar, esperou, esperou, mas ele no veio. Ela estava muito triste.
Voc sabe onde ela foi? Eu ia chamar a D. Glria, porque fiquei com medo. A Nelinha
est chorando, quer a mame. Eu no pude ir, porque a porta est fechada e a chave
sumiu.
-- Quer dizer que vocs esto sozinhos trancados em casa? Ainda  muito cedo. Vai
ver que sua me foi at a padaria e volta logo.
-- A carteira dela est na cozinha, ela sempre leva a carteira quando vai comprar
alguma coisa. O Juninho queria pular a janela, mas eu no deixei.
-- No faa nada, nem saiam da. Vou ver o que houve. Dentro de alguns minutos,
estarei a.
Olvia sentiu um aperto no corao. Elisa era muito preocupada com os filhos. Jamais os
deixaria sozinhos por muito tempo. O que teria acontecido?
Levantou-se rpida, vestiu-se e dentro de alguns minutos estava no carro. Sabia que o
casamento de Elisa no ia durar muito.
Apesar do esforo que ela fazia para demonstrar que tudo estava bem, Olvia percebia
que Geninho estava se desinteressando da famlia.
Enquanto Elisa passivamente cuidava de tudo, privando-se at do necessrio, ele levava
vida folgada, metendo-se com mulheres e amigos bomios. Quem sabe agora, Elisa
tomasse coragem para separar-se de uma vez. Aquilo no era vida. Ela era jovem e
podia trabalhar.
Onde teria ido? Geninho teria abandonado a famlia ou s viajado? As perguntas se
sucediam, e Olvia angustiada no via a hora de chegar.
Parou em frente  casa da irm e viu logo os trs sobrinhos na janela.
-- Sua me no chegou? -- indagou parada na calada.
-- No, tia. Estamos esperando -- respondeu Nelinha.
-- Abra a porta. Quero entrar.
-- No posso, tia -- disse Marina. -- Est trancada e no temos a chave.
-- No  possvel! Onde teria ido sua me? Procure direito. No  possvel que no
exista outra chave.
-- J procurei -- disse Marina. -- S tinha a dela e do papai. Eles saram e levaram.
-- Vocs no podem ficar a fechados. Vamos dar um jeito nisso.
Olvia procurou na bolsa e encontrou algumas chaves que experimentou sem resultado.
Decidida, tocou a campainha da casa vizinha.
Glria abriu a porta e admirou-se:
-- Olvia! To cedo! Aconteceu alguma coisa?
-- Aconteceu. Elisa saiu, Geninho tambm e as crianas esto fechadas por dentro sem
chave. Estou preocupada. Elisa nunca se ausentaria deixando-os sozinhos por muito
tempo. No sei o que fazer.
-- Tenho uma escada e se voc quiser, pode pular o muro. Enquanto isso, chamo o
Ernesto para ver o que pode fazer. Ele entende de fechaduras.
-- Obrigada, Glria.. Vou aceitar. Estou realmente assustada.
As duas foram at o quintal, Glria colocou a escada junto ao muro e Olvia subiu. Era
um pouco alto e ela estava com medo de descer do outro lado.
Glria chamou as crianas, e Marina colocou uma escada
do outro lado, assim Olvia pde descer. Abraou e beijou as crianas.
-- Estou com fome, tia -- foi dizendo o Juninho.
-- Calma. Vou fazer o caf. Vocs vo me contar tudo como aconteceu. -- E
levantando a voz: -- Obrigada, Glria. Se seu Ernesto puder me ajudar, ficarei muito
grata.
Entrou em casa e sua angstia cresceu. O jantar da vspera ainda estava sobre o fogo, a
mesa posta caprichosamente na sala de jantar, os pratos limpos e intocados. Eles no
haviam jantado.
-- Vocs no jantaram ontem?
-- Jantamos, sim -- respondeu Marina. -- Mame serviu a gente primeiro na copa. Ela
disse que ia esperar o papai.
-- Sei. E depois, ela disse mais alguma coisa?
-- No. Colocou a gente na cama como sempre. E eu estava com sono. Dormi logo --
esclareceu Marina.
-- Ela brigou com seu pai?
-- Eu vi que quando ele desceu com a mala, ela no sabia que ele ia viajar. Ficou muito
admirada -- continuou Marina.
-- Sei. E o que foi que ele disse?
-- Ele mandou a gente ir pro quintal -- contou Juninho -- a eu fui.
-- Eu fui com ele -- disse Nelinha.
-- Eu fingi que fui, mas fiquei espiando -- disse Marina. -- Voc no conta pra eles?
-- Claro que no. Preciso saber o que aconteceu.
-- Ele disse que no gostava mais dela e que ia embora.
-- Ele disse isso?
-- Disse, tia. Ela ficou branca. Chorou, mas ele no se importou. Pegou a mala e saiu.
Disse que no ia voltar mais. Fiquei com medo e fui para o quintal. No queria que ela
visse que eu estava espiando.
-- E o que ela fez depois?
-- Nada. Parecia mais animada. Me levou pra escola e quando eu voltei, vi que ela
estava mais bonita, mais arrumada. Foi cortar o cabelo, pintar as unhas. Fez o jantar.
Perguntei se o papai vinha, e ela disse que sim. A eu perguntei: -- E a mala? Por que
ele levou a mala?
-- S pra fingir que ia embora. Ele no vai agentar. Logo mais estar em casa para o
jantar.
-- Mas, tia, acho que ele no voltou. Ela ficou esperando, Fui dormir e ela ainda
esperava. Ser que ela foi busc-lo?
-- No sei, Marina. Vamos ao quarto dela, ver se encon
tramos alguma coisa.
Ao entrar no quarto, Olvia estremeceu: a cama estava intacta. Elisa sara durante a noite
e ainda no voltara. O que teria acontecido? Teria feito alguma loucura? No. Isso, no.
Ela era muito agarrada aos filhos. No faria nada que pudesse separ-la deles. Com
certeza fora atrs daquele patife. Mas, por que deixara as crianas sozinhas por tanto
tempo?
De uma coisa Olvia tinha certeza: Elisa sara e no pudera voltar ainda. O que teria
acontecido?
-- D. Olvia! Estou tentando abrir a porta!
Olvia desceu imediatamente e as crianas a acompanharam.
-- Por favor.Sr. Ernesto. Faa-nos essa gentileza.
-- Aqui por fora no  possvel. Preciso ir para dentro. Vou pular o muro.
-- Vou colocar a escada de novo.
Ernesto entrou e conseguiu finalmente abrir a porta.
-- Precisamos encontrar um serralheiro. Consegui abrir, mas  preciso que ele venha
arrumar.
-- Muito obrigada, Sr. Ernesto. Estou preocupada com Elisa. Onde teria ido? Ela nunca
se ausenta tanto tempo.
Glria, que entrara para saber o que estava acontecendo, disse:
-- Ela nunca saa sem as crianas e jamais deixaria a porta trancada desse jeito! 
melhor ir procurar, Olvia. Se quiser, posso ir junto.
-- As crianas esto com fome. Preciso dar o caf pra elas. Depois iremos.
-- Quero a mame! -- disse Nelinha chorosa. -- Aonde ela foi?
Olvia abraou-a, tentando acalm-la, embora seu corao estivesse oprimido e
angustiado.
Foi  cozinha, alimentou as crianas e consultou o relgio. Eram sete horas ainda. O
Geninho s entrava s nove. No sabia onde encontr-lo. Que situao!
Glria sugeriu ir procurar nos hospitais ou na polcia, mas Olvia queria esperar o
cunhado. Ele talvez, soubesse o que acontecera. Tentou acalmar-se. Talvez ela estivesse
com ele. Podia imaginar como Elisa reagira ao que ele dissera. Ela era to crente! Tudo
que o Geninho dizia, ela acreditava. O malandro! Elisa era boba demais.
Olvia trincou os dentes com raiva.
-- Ah! Se fosse comigo! -- pensou. -- Ele ia ver uma coisa.
Mas Elisa era passiva demais. Por que ela no reagia? Teria medo de perd-lo? Seria
por amor?
Ela sabia, por experincia prpria, que contemporizar no adiantava. Ao contrrio.
Sempre apressava o desfecho. Quando o interesse acaba, no adianta tentar segurar.
Nesses casos, era sempre melhor agir primeiro. Percebendo a mudana, o desinteresse,
era reagir, acabar com tudo. Essa era sua forma de pensar. E o curioso  que quando
agira assim, as coisas haviam se invertido. O interesse dele fora reativado, mas o dela 
que esfriara. Para ela, se uma pessoa no sabia apreciar suas qualidades, no a
interessava mais. Ela era uma mulher digna, inteligente, bonita, atraente, livre,
independente. Queria um homem que tivesse a sensibilidade de perceber tudo isso.
Qualquer pequeno sinal de desvalorizao, esfriava seu entusiasmo, e ela queria partir
para outra.
No entendia por que depois disso eles a procuravam insistentemente. Elisa era o
oposto. Pensava que quanto mais dedicada fosse, mais valorizasse o marido, mais o
tratasse bem, mais se sacrificasse pelo lar, mais ele a amaria.
Como estava enganada! Nunca conhecera um homem que preferisse uma boa dona de
casa a uma mulher espirituosa, cheia de mistrio e charme, perfumada e bonita.
Alis, era muito cmodo para o Geninho, e como ele, ela conhecia vrios, contar com a
esposa em casa cuidando de tudo com capricho, enquanto ele, na rua, levava uma vida
cheia de divertimentos, no se privando de nada, namorando abertamente e tratando-se
muito bem. Vestindo-se elegantemente, tendo um bom carro, chorando em casa o
minguado salrio que dava  esposa. Era confortvel e muito barato.
Por que Elisa no a ouvira? Por que se deixara arrastar a essa situao to triste e
dolorosa? Por que muitas mulheres se submetem a esse papel? Para elas, amar
representava abdicar da dignidade?
No entendia isso. Com ela nunca aconteceria. O respeito a si mesma era fundamental.
Como iria respeitar-se sendo sustentada por um homem? Isso no lhe dava o direito de
exigir obedincia o vida diferenciada?
As crianas crivavam-na de perguntas, e Olvia no sabia o que fazer. Telefonou ao
escritrio dizendo que no podia ir trabalhar. Ligou para a firma do Geninho, e ele ainda
no havia chegado. Ser que estavam juntos?
Eram mais de dez horas quando finalmente conseguiu
encontr-lo.
-- Olvia? O que quer? -- disse ele com frieza. Provavelmente, Elisa fora chorar no
colo da irm.
-- Voc precisa vir at sua casa imediatamente. Elisa desapareceu, as crianas estavam
fechadas em casa sozinhas. Eu estou aqui com elas. Venha imediatamente.
-- Como? Voc est com Elisa?
-- No. Estou em sua casa, mas Elisa desapareceu.
-- Voc est brincando comigo. No volto pra casa, se quer saber. Estou decidido.
Acabou. O casamento acabou. No acredito nessa histria.  um jogo de Elisa para ter-
me de volta. Fique sabendo que no voltarei.
Olvia ficou rubra de raiva.
-- Voc  um idiota. Saiba que dou graas a Deus se Elisa nunca mais olhar na sua cara.
Se ela me ouvisse, teria acabado com essa farsa h muito tempo. Mas a casa  sua, os
filhos so seus, e ela sumiu. Marina me ligou, e o seu Ernesto conseguiu abrir a porta
desmontando a fechadura pelo lado de dentro. Precisamos de um serralheiro, seno a
casa vai dormir aberta esta noite. Se no vier, darei queixa  polcia, e ela ir busc-lo
com toda certeza para saber o que fez com Elisa.
Pelo tom de Olvia, Geninho percebeu que ela falava srio. E essa agora? O que teria
acontecido? Onde Elisa teria ido? Ela nunca deixava as crianas!
-- Tem certeza mesmo de que ela sumiu? Que no foi fazer alguma compra?
-- Estou aqui desde as seis horas e j so mais de dez. At agora ela no apareceu.
Saiba que ela no dormiu em casa, porque a cama no foi desarrumada.
-- No  possvel! No pensei que ela fosse to irresponsvel!
-- O irresponsvel a no  ela. Ela nunca foi. Vai vir logo, ou prefere que eu mande a
polcia busc-lo?
-- Eu vou. Vamos ver o que fez ela agora.
Olvia bateu o telefone. Tinha ganas de dizer um monte de desaforos. Ela naquela
aflio e o patife, o sem-vergonha, ainda se dava ares de grande homem. Ela no era
Elisa, e ele ia ver com quantos paus se faz uma canoa. Ele tinha que dar conta de Elisa,
seno ia denunci-lo  polcia como mau marido e responsvel pelo desaparecimento
dela.
Quando Geninho chegou, as crianas agarraram-se a ele chorando e chamando pela
me.
-- Calma -- repetia ele.-- Calma. No aconteceu nada. Logo ela estar aqui. Vocs
vo ver.
-- Voc vai me contar direitinho tudo que fez a ela ontem.
-- Eu no fiz nada. Veja como fala.
-- No? Eu sei o que voc vem aprontando por a. Tenho visto muitas coisas. Elisa 
muito ingnua e bondosa. Confiava em voc. No esperava o que lhe disse.
-- Esse  um assunto que no lhe diz respeito.  meu e dela.  bom que no se meta.
-- Nunca me meti, mesmo sabendo que voc era um mau carter. Mas agora que ela
desapareceu e eu estou suspeitando de voc, se ela no aparecer, voc vai ter que dar
contas  polcia. Eu juro que no vou deixar por menos. Ai de voc, se fez alguma coisa
a ela alm do que j fez a vida inteira.
-- No seja exagerada. Quando sa ontem pela manh, ela estava perfeitamente bem.
Como posso saber o que ela fez depois? Eu no voltei para casa.
-- Ela no foi atrs de voc?
-- Claro que no. Ela nem sabia onde eu estava!
-- Belo papel o seu! Nem deixou endereo. Se aconteceu alguma coisa, ela no pde
falar com voc. Se  que isso  verdade.
-- Por que duvida?
-- Porque ela sumiu e jamais faria isso.
-- Isso no  pretexto para eu vir at em casa?
-- Acha que eu me prestaria a uma coisa dessas? Para mim, quanto antes voc
desaparecer da vida de Elisa melhor.
-- Estou decidido. Nada que Elisa fizer, vai me fazer voltar atrs.
-- Olha aqui, seu ignorante, Elisa desapareceu, no dormiu em casa esta noite e as
crianas ficaram sozinhas fechadas  chave. Acha pouco isso?
Nelinha chorava desconsolada chamando pela me. Os outros dois, assustados, olhavam
para a tia e para o pai esperando que eles fizessem alguma coisa.
Olvia decidiu-se.
-- Fique com Nelinha que vou procurar. Os outros dois iro comigo.
-- Aonde vai?
-- At a delegacia.
-- Voc est exagerando. No aconteceu nada disso. Logo ela estar aqui e pronto.
-- No vou esperar mais, vou agora mesmo. Vamos
meninos.
Arrumou as crianas e saiu sem atender as ponderaes de Geninho. Uma vez na
delegacia, foi orientada para procurar nos prontos-socorros da cidade, e Olvia comeou
a percorr-los. No encontrou nada. Voltou para casa da irm. Geninho, vendo-a,
perguntou:
-- E ento? Descobriu alguma coisa?
-- No -- disse Olvia desanimada atirando a bolsa sobre uma cadeira.
-- Estou com fome, tia -- disse o Juninho.
-- Eu tambm -- tornou Marina.
-- Andamos tanto e at esqueci de que no comemos nada desde cedo.
-- Vou at a padaria comprar um lanche -- sugeriu Geninho.
-- No  preciso. H comida na geladeira. Aquela que Elisa fez para esper-lo. Eu
guardei tudo l.
Olvia dirigiu-se  cozinha e colocou a comida para esquentar. Sentia o corao
apertado e muita angstia. Onde estaria Elisa? O que lhe teria acontecido?
Eugnio aproximou-se da cunhada.
-- Tem certeza mesmo de que ela no dormiu em casa?
-- Tenho. A cama estava arrumada.
-- Ela poderia ter arrumado antes de sair.
-- Ela nunca sairia cedo deixando as crianas sozinhas fechadas em casa, sem avisar
ningum.
-- Estou comeando a ficar preocupado. Aquela sonsa! Onde teria ido?
-- Ah! Agora voc comeou a preocupar-se! Pode contar-me o que aconteceu aqui
entre vocs? O que foi que fez a ela?
-- Nada. Eu no fiz nada. Tomei uma deciso. Que diabo. No suportava mais esta
vida. Tenho o direito de ser feliz. Fui honesto e disse a verdade. Nosso amor acabou. S
isso. Quero cuidar da minha vida, e ela que cuide da dela.
-- Disse isso assim, sem mais nem menos,  queima-roupa, fez a mala e foi-se embora?
Jogou a famlia fora como se fosse um traste que no serve mais? No pensou nas
crianas?
--  melhor no falarmos nisso diante deles.
-- No? Pois eu quero  falar. Eles precisam saber a verdade. Do que tem medo? Que
eles saibam que resolveu ir-se embora? Isso, eles j sabem. Ou pensa que eles no
perceberam nada?
As crianas, amedrontadas, abraaram-se  tia que como-
vida no conseguiu falar mais. Eugnio estava sem saber o que dizer. No imaginara
que fosse to difcil aquele momento. Por que Elisa desaparecera, por qu?
Ela deveria ficar com as crianas que precisavam da me. Ele lhe dissera que mandaria
dinheiro de vez em quando, para as despesas. Por que abandonara tudo?
-- Eu no pensei que Elisa sasse de casa! Fui embora, mas deixei-os com ela. Vocs
me criticam, mas ela foi pior do que eu. Fechou-os em casa e desapareceu.
-- No acredito que ela os tivesse abandonado. Isso, ela nunca faria. Para mim, ela saiu
por alguma razo e no conseguiu voltar. S pode ter sido isso! Pea a Deus que no lhe
tenha acontecido nada de grave.
-- Eu quero a mame! -- tornou Nelinha chorosa.
-- Eu tambm -- disse Juninho nervoso.
-- Calma, meus filhos. Eu estou aqui.
Eugnio tentou abraar os dois, mas eles agarraram-se mais  tia.
-- Voc foi embora e nos deixou! -- disse Marina com raiva. -- A culpa  sua. Mame
chorou o dia inteiro por sua causa.
-- Mas eu agora estou aqui com vocs.
-- Ns queremos a mame! -- disse Marina. -- No gosto mais de voc!
Eugnio deixou cair os braos que estendera.
-- Vocs so pequenos, no podem entender. Gostaria que compreendessem.
-- No adianta agora. O que voc fez est feito. O que precisamos  encontrar Elisa.
-- Vou sair para procurar. Onde vocs foram?
-- A todos os prontos-socorros e  delegacia do bairro.
-- Vou levar um retrato dela e dar uma busca. O Ernesto tocou a campainha e
perguntou:
-- Alguma notcia de D.Elisa?
-- Nenhuma -- respondeu Eugnio. -- Vou sair para continuar procurando.
-- Irei com o senhor. Vamos com meu carro.
Vendo-os sair, Olvia sentiu aumentar a angstia. E se Elisa no voltasse? E se eles no
mais a encontrassem?
-- Bobagem -- pensou ela. -- Ela logo estar de volta e tudo ficar em paz.
Mas Elisa no voltava e as horas iam passando. Olvia forava-se para distrair as
crianas, procurando esconder a angstia
que lhe ia na alma.
A noite estava chegando, e ela deu banho nas crianas, deu-lhes o jantar e colocou-as na
cama.
Procurou dissimular a preocupao, contou-lhes histrias e quando elas dormiram,
sentou-se com Glria na sala, dando vazo  sua tristeza.
-- Eles esto demorando. Onde tero ido?
Passava das dez quando eles voltaram. Eugnio, plido, mostrava no rosto a angstia e a
dor. Ernesto fez um sinal para a esposa, chamando-a a um canto, dizendo-lhe algo em
voz baixa. Imediatamente, ela abraou Olvia que, desfigurada e trmula, esperava o que
eles iam dizer. Vendo-os calados, indagou:
-- E ento? O que descobriram? Foi Ernesto quem respondeu:
-- Aconteceu um acidente. Acho que D. Elisa saiu e atravessou a rua sem olhar...
O olhar de Olvia ia do rosto de Ernesto ao do cunhado esperando.
-- Ela est mal... -- disse ele tentando amenizar as coisas.
-- Meu Deus! Diga a verdade! Ela est morta?
Os trs baixaram a cabea sem coragem para responder, e Olvia sentiu que tudo rodava
a sua volta, perdeu os sentidos.
Quando se recuperou, parecia estar vivendo um sonho, um momento irreal que a
qualquer instante iria acabar e tudo voltaria a ser como antes.
Glria levou as crianas para casa durante o velrio de Elisa no Ara. Eugnio,
arrasado, no ousava dizer nada, sentindo o olhar acusador da cunhada e sem coragem
de encarar as crianas. Parecia um pesadelo. Por que acontecera? Por qu?
Depois do enterro, Ernesto levou Olvia e Eugnio de volta a casa. A situao era
delicada. Ele abstinha-se de fazer qualquer comentrio. Procurou confort-los como
pde, oferecendo-se para ajud-los no que precisassem.
As crianas haviam adormecido em casa de Glria, e ela aconselhava deix-las l at a
manh do dia seguinte.
Quando Ernesto se foi, Olvia viu-se a ss com o cunhado. Olhou-o cheia de mgoa. Ele
no sabia o que dizer. O golpe fora fundo e doloroso. Nunca imaginara que isso pudesse
lhe acontecer. Tantos maridos se separam e tudo dava certo, por que com ele acabara
naquela tragdia?
Ele amava outra mulher. Estava loucamente apaixonado. No tinha o direito 
felicidade? Sentindo o olhar acusador de Olvia
pousado nele, tentou explicar-se:
-- Estou arrasado -- disse. -- Nunca pensei que isso pudesse nos acontecer.
-- Ela ficou desnorteada por sua causa. Ela era muito dedicada. Voc era tudo que ela
amava alm dos filhos. Ela no podia viver sem voc!
-- Teria se suicidado? -- indagou ele, aterrorizado.
-- No creio. Ela nunca faria isso por causa das crianas. Foi acidente mesmo. Ela
estava chorando e no viu o carro. Foi isso. Voc a matou.
Eugnio deu um salto da cadeira, andando de um lado a outro inquieto.
-- Eu esperava que dissesse isso. O tempo todo voc me olhou acusando! Saiba que
apesar de tudo eu gostava de Elisa. No desejava para ela o fim to trgico.
-- No acredito. Se gostasse dela, no teria feito o que fez.
-- Olvia! No me culpe! Eu me apaixonei por outra mulher. No queria ser falso.
Tenho o direito  felicidade! Hoje em dia a separao  to comum! Pensei at que
Elisa, um dia, poderia refazer sua vida, era moa ainda. Eu gostava dela como pessoa,
mas no mais como mulher.
-- Depois de tudo quanto ela fez por voc! Ela se transformou por sua causa! Ela
esqueceu de si mesma para fazer-lhe as vontades, cuidar do seu bem-estar! Como pde
ser to ingrato?
-- Eu preferia que ela no houvesse feito tudo isso. Gostaria que ela apenas fosse a
mulher do comeo a quem eu amava. Mas ela mudou. No era a mesma h tempos.
Parecia uma sombra. No se pode admirar ou amar uma pessoa que se apaga e se omite.
Apesar da sua raiva, Olvia reconheceu que no fundo ele tinha um pouco de razo. Ela
mesma muitas vezes chamara a ateno de Elisa sobre isso. No deixou transparecer seu
ponto de vista e retrucou:
-- Ela era uma mulher digna, honesta, excelente me e o amava muito. Deu o mximo
que podia. Dedicou-se  famlia de corpo e alma.
-- Voc no vai me entender. Um homem precisa de um pouco mais! Eu aprecio as
qualidades dela. Mas, eu queria mais. Eu queria algum para amar. Uma mulher fria
como voc jamais me entender!
-- O que voc fez com Elisa foi imperdovel. Nunca esquecerei que se no fosse isso,
ela ainda estaria conosco, viva e feliz. Sua leviandade deixou trs crianas na orfandade.
Agora, o que vai
fazer? Mand-las para um orfanato?
Eugnio suspirou agoniado. Esse pensamento o estava incomodando. Claro que no iria
intern-los. A forma como tudo acontecera o colocara no triste papel de vilo diante dos
prprios filhos. Ao deix-los naquela triste manh, o fizera na certeza de que Elisa
cuidaria deles melhor do que ele mesmo. Mas e agora? Sem ela, o que fazer?
Andava de um lado a outro pensativo. A certa altura parou e disse:
-- Essa idia nunca me passou pela cabea! O que julga que eu sou?
-- Um homem apaixonado que deixou a famlia por causa de outra mulher.
-- Pretendia morar com ela pelo resto da vida.
-- Agora vai morar com os filhos, o que  um pouco diferente.
-- Talvez possamos morar todos juntos. Eunice me ajudar a cuidar das crianas.
-- Isso no! Os filhos de Elisa serem criados pela outra? A mulher que foi a causa de
tudo?
-- Ela no foi causa de nada. No tem culpa do que nos aconteceu. No planejamos
nada disso.
-- Vocs planejaram tudo!
-- Planejamos apenas viver juntos. Ns nos amamos. Ningum imaginou essa tragdia!
-- Mas aconteceu. E agora? No acho justo as crianas irem morar logo com essa
mulher.
-- Nesse caso, elas poderiam ir viver com voc!
-- Ah! Isso  o que voc gostaria, no  mesmo? Ficar livre e bem-disposto para
realizar o que pretendia! No se envergonha de dizer-me isso?
-- Amo Eunice e decidi viver com ela. No esperava essa situao, mas agora no
tenho outra alternativa. As crianas iro comigo. Se no gosta, pacincia. J que no
quer ficar com elas, no tem o direito de intrometer-se em minha vida.
-- So meus nicos sobrinhos e me preocupo com o que lhes acontece. Desejo zelar
pelo futuro deles. Visit-los quando sentir vontade. Fazer-lhes companhia. Cuidar deles
como Elisa gostaria que eu fizesse. Se for morar com essa mulher, no poderei fazer
isso.
-- Por que no? Se voc  orgulhosa e vingativa, a culpa  sua. Eunice no fez nenhum
mal a Elisa. No  culpada de nada nem
de eu haver me apaixonado por ela.
-- Elisa no gostaria de ver as crianas vivendo ao lado dessa mulher que lhe roubou o
marido. Depois, ela pode judiar das crianas.
-- Ela no faria isso!
--  o que voc diz.
-- Seja como for, est decidido. No posso ficar sozinho com as crianas. Tenho que
trabalhar. Preciso de uma mulher para cuidar delas.
-- Pode arrumar uma boa empregada. No precisa dela para nada.
-- Voc no pode intrometer-se dessa forma em minha vida. Eu sou o pai. Logo, o que
eu decidir, est decidido.
-- Eu sou a tia. Se teimar, irei  justia e no permitirei que cometa essa barbaridade.
-- Voc no far isso. Nenhum advogado se prestar a esse papel.
-- Pretendo acus-lo de moralmente haver causado a morte de minha irm.
-- Est louca!
-- Estou. Elisa era minha famlia. Voc a matou. Nunca o perdoarei. Ainda se
arrepender de haver feito o que fez.
-- V embora e me deixe em paz.
-- Eu no sou Elisa. Sei o que estou dizendo. Ficarei aqui at quando achar
conveniente!
-- Nesse caso, quem vai sou eu!
-- No pense que indo embora, voc vai ver-se livre dos filhos. Eu estou aqui hoje, mas
no vou tomar conta deles para voc. Nunca me meti em sua vida com Elisa, mas de
hoje em diante, voc vai descobrir o que  me ter como sua inimiga. Porque eu nunca
lhe darei paz. Voc vai pagar tudo o que fez a ela. Isso eu juro!
-- Voc est exaltada. V descansar, tome um calmante. Hoje no  um bom dia para
falarmos dessas coisas.
-- Hoje no  um bom dia mesmo. Mas saiba que no vou voltar atrs. De hoje em
diante, hei de vigi-lo de todas as formas. Hei de cobrar tudo que as crianas tm direito
e no lhe darei sossego. Voc ver.
-- Estou exausto e no agento mais ouvir voc. Vou dormir. Amanh com certeza
voc mudar de idia. Voltar  razo. Durma se puder!
Eugnio foi para o quarto, fechando a porta com fora. Olvia ficou ali, ruminando sua
dor, sua tristeza, seu rancor. Ela no
pretendia esquecer. Eugnio precisava pagar. A ingenuidade de Elisa aumentava sua
dor. Ela no merecia aquele fim trgico, aquele desespero que ele lhe causara.
Ela, Olvia, estava ali, vigilante. Ela o faria pagar minuto a minuto por tudo quanto
fizera. Estava disposta a fazer isso, ainda que para tal tivesse que dedicar toda sua vida a
esse objetivo.
Depois daquele dia, Eugnio nunca mais seria feliz. Apertou as mos com fora: sua
irm seria vingada.

Captulo 2

Eugnio acordou sobressaltado. Por alguns instantes, pensou que tudo no passara de
um pesadelo. Elisa deveria estar na cozinha como todas as manhs, as crianas se
preparando para o caf. Ele tomaria seu banho como sempre fizera e iria para o
trabalho. Apanhou o relgio sobre a mesa de cabeceira. Nove horas. Passou os olhos em
volta. Sobre a cmoda, viu os papis dobrados. Sentiu um aperto no corao. Fora
mesmo verdade. Ali estavam o atestado de bito, os documentos do cemitrio etc.
Aflito, passou a mo pelos cabelos em desespero. O que fazer agora? Olvia era a nica
famlia de Elisa, cujos pais haviam morrido h tempos. Lembrou-se de sua me.
Precisava de algum para cuidar das crianas. Olvia se recusava a faz-lo. Tinha que
trabalhar e algum teria que tomar conta delas. Por causa dos acontecimentos,
conseguira uma semana de licena na firma, mas nunca cuidara de crianas e no tinha a
menor idia de como fazer isso.
Talvez Olvia concordasse em ajud-lo, pelo menos nos primeiros dias, at que
conseguisse uma soluo. Pretendia falar com Eunice e pedir-lhe que o ajudasse a
cuidar delas. Afinal, ele queria viver com ela e juntos poderiam ser felizes. Agora estava
livre at para casar de novo.
No. Casar de novo, no. E se Eunice mudasse como Elisa? As mulheres adoram o
papel de boa esposa. Mas como pedir-lhe para assumir seus filhos sem dar nada em
troca?
Mesmo que Eunice concordasse, ele precisava deixar o tempo passar. As crianas
estavam muito ressentidas com ele. A culpa era de Olvia que o colocara no papel de
vilo. Era fcil julgar os outros. Ele sabia que nunca desejara nenhum mal a Elisa.
Jamais poderia supor que as coisas acontecessem daquela forma.
Suspirou angustiado. De qualquer maneira, seus filhos no aceitariam a presena de
Eunice depois do que acontecera. Era preciso dar algum tempo. Eles esqueceriam e,
ento, tudo seria mais
fcil.
O difcil era resolver a questo do presente. Temia que sua me no aceitasse tomar
conta da casa e das crianas por algum tempo. O suficiente para ele resolver tudo. Ela
residia no interior de Minas Gerais e era muito metdica. Nunca deixava seu pai
sozinho por nada do mundo. Nem ao enterro viera. Na verdade, no viera a So Paulo
nem para o casamento. Apenas suas duas irms haviam comparecido na ocasio.
Eugnio dava-se muito bem com a famlia, possua bom relacionamento com as irms e
os cunhados. Mas sabia que no podia contar com eles para o que queria, porque eles
tinham filhos. Suas irms tinham suas prprias obrigaes, no podiam tomar conta de
sua casa.
Chocado com o que acontecera, e pelo fato do corpo de Elisa haver sido colocado em
lugar refrigerado em meio aos indigentes, ele apressara o velrio e o sepultamento. No
quisera prolongar a espera para que suas irms viessem. Melhor assim. Eles no haviam
convivido muito com Elisa. Gostavam dela, admiravam-na por ser uma tima esposa e
me, nada mais.
Agora, arrependia-se um pouco disso. Odete ou Diva talvez lhe dessem algumas
sugestes. Olvia era intratvel. No podia esperar nada dela, a no ser recriminao e
rancor.
E se ela j tivesse ido embora? Apesar de tudo, sentia-se mais seguro com ela por perto.
Tratar de crianas era coisa de mulher. No sabia como proceder.
Apressado, levantou-se e abriu a porta do quarto. Escutou a voz de Olvia na cozinha e
respirou aliviado. Tentou encorajar-se. Reagiu. Era uma bobagem. Afinal, o mundo no
se acabara. Decidiu agir. Tomou um banho, fez a barba, vestiu-se e desceu.
A mesa estava posta e as crianas j haviam tomado caf. As xcaras usadas ainda
estavam sobre a mesa. Eugnio notou que no havia uma xcara para ele. Ficou
esperando, parado na porta da cozinha.
Olvia falava com as crianas tentando confort-las e ajud-las a enfrentar a nova
situao.
-- Eu no quero que a mame v embora para sempre -- queixava-se Nelinha. -- A
av da Mrcia morreu e nunca mais voltou. A me dela disse que morrer  pra sempre.
A gente nunca mais v a pessoa.
-- No  bem assim -- disse Olvia contendo o pranto. -- Ela precisou partir.  como
uma viagem. Ela foi para um lugar melhor do que aqui e por certo vir sempre nos ver.
S que nossos olhos no podero v-la, porque agora ela tornou-se invisvel.
-- Eu no quero uma me invisvel -- disse Juninho choroso. -- Eu quero que ela me
abrace, fique comigo, como at agora.
-- Eu tambm gostaria, mas Deus resolveu diferente. Ela era to boa que ele no
resistiu. Precisava de um anjo l no cu e escolheu ela. De l, ela continuar tomando
conta de vocs. Ela foi, porque quando Deus quer, ningum consegue resistir. Mas se
ela pudesse, teria ficado conosco. Isso eu garanto.
-- Deus  mau -- reclamou Nelinha. -- Tirou minha me.
-- Deus no  mau. No diga isso. s vezes ns no entendemos o que ele quer, ou por
que ele age de certa maneira. Mas ele nunca erra. Se ele agiu assim, foi porque era o
melhor. Deus sempre faz o melhor. Ele  amor e sabedoria.
-- Tia, eu ainda no posso concordar com voc -- disse Marina pensativa. -- Estou
com muita tristeza e no acho que isso seja melhor. Estou to agoniada!
Olvia, contendo as lgrimas, abraou-a com carinho. Eugnio sentiu os olhos molhados
e no pde articular palavra. Continuou parado, esperando. Vendo que Olvia no se
preocupava com sua presena, perguntou:
-- Voc fez caf?
-- Fiz. As crianas j comeram.
-- Sei. Eu gostaria de tomar o meu agora.
-- Fique  vontade. A casa  sua. Ainda tem caf na trmica. Talvez ainda tenha leite
na geladeira.
Chamando as crianas, Olvia deixou a cozinha. Eugnio sentiu-se meio perdido. Nunca
se ocupara com as coisas da casa. Que diferena da Elisa. Quando ele descia, a mesa
estava sempre bem posta, limpa, sua xcara disposta com apuro. O leite fumegante no
bule e o caf cheiroso e fresquinho. O po estalando e o queijo mineiro meia cura j
cortado e sem a casca, como ele preferia.
Procurou uma xcara no armrio e serviu-se de caf tomando-o em p mesmo. No se
sentaria em uma mesa em desordem, cheia de xcaras usadas e farelos de po por toda
parte. Ele era um homem civilizado e de classe.
Apesar de tudo, o caf deu-lhe mais coragem. Era preciso enfrentar aquela situao. O
que fazer? Como resolver os problemas da casa at que sua situao com Eunice se
consolidasse?
Procurou Olvia.
-- Olvia. Deixe um pouco as crianas e venha at a sala. Quero conversar com voc.
Sentou-se na sala e esperou. Quando ela entrou, ele foi logo dizendo:
-- Olvia. No sei o que fazer. Nunca tomei conta de casa e muito menos de crianas.
No tenho jeito para isso. Alm do mais, preciso trabalhar. Vivemos do meu salrio.
Tenho uma semana de licena, mas o que fazer quando ela acabar? Mesmo agora, sinto-
me perdido. No tenho jeito para cuidar das crianas. Elas precisam de uma mulher.
-- Eu posso ajudar por alguns dias. Eles esto muito sofridos. No desejo abandon-los
agora. Mas eu vivo do meu salrio e tambm preciso trabalhar.
-- Voc poderia ficar aqui por alguns dias at resolvermos esta situao.
-- Posso ficar. Mas deixo claro que no  porque voc est me pedindo.  porque eles
esto sofrendo muito e no posso deix-los agora.
-- Fico grato da mesma forma.
-- Daqui a pouco vou sair com eles, para distra-los. Vou a uma agncia procurar uma
boa empregada.
-- Empregada? Ns nunca precisamos de uma. Temos uma faxineira uma vez por
semana.
-- Pois agora vo ter uma. E prepare-se para pagar um bom salrio, com registro na
carteira e tudo. Ns no podemos colocar aqui uma pessoa desclassificada. E o que 
bom, custa caro.
Eugnio irritou-se:
-- Pelo jeito, voc pretende me arruinar.
-- Eu no preciso de ningum. Quem precisa  voc. E se quer ser servido, casa limpa,
roupa lavada e passada, os filhos bem cuidados, a casa brilhando, tudo decente, precisa
pagar. Ningum vai fazer isso para voc de graa. A no ser que voc se case de novo e
arranje outra ingnua feito a Elisa.
-- Voc quer mesmo  me arrasar.  rancorosa e vingativa.
-- Sou como sou. Voc sabe como eu penso. E se estou me prontificando a ficar alguns
dias, arranjar uma pessoa boa para trabalhar aqui,  s por causa das crianas, para que
nada lhes falte. Voc  bem capaz de esquecer de dar comida a eles, ou de deix-los
sozinhos o dia inteiro.
--  difcil conversar com voc. Eu preciso sair, tratar de algumas coisas. J que as
crianas esto com voc, vou aproveitar.
-- Com certeza vai chorar nos braos daquela desavergonhada.
-- No fale assim de Eunice. Ela  mulher de muita classe e finura. No  o que voc
pensa.
-- Com toda finura, deu em cima de um homem casado,
destruiu um lar e uma famlia. Marcou nossas vidas para sempre.
-- No seja dramtica. Pensei que fosse mais moderna. Estava enganado. Nem isso
voc .
-- No faa me arrepender de estar aqui.
-- Olvia, estou cansado de discusses. Estamos cheios de problemas e essa no  a
melhor forma de resolv-los.
-- Concordo. Tambm estou cansada de discutir. Preciso de dinheiro para comprar
comida e se encontrar alguma pessoa na agncia, talvez tenha que pagar a taxa para
contrat-la.
Eugnio, contrariado, puxou o talo de cheques dizendo:
-- Vou lhe dar cem mil cruzeiros. Olvia riu irnica:
-- O qu? Cem mil cruzeiros? No vai dar nem para o comeo. Em que poca voc
vive?
Ele ia dizer que Elisa ficava satisfeita com o que ele lhe desse, mas arrependeu-se. Isso
iria provocar novas discusses.
-- Quanto voc acha que resolve? -- indagou procurando dissimular a raiva.
-- Uns quinhentos mil.
-- Quinhentos mil?!! Voc enlouqueceu?
-- No quero pedir dinheiro toda hora. Alm do mais, somos cinco pessoas, e eu no
tenho idia do quanto iremos consumir. E j falei que tem a agncia.
--  muito dinheiro. E se eu me recusar?
-- O problema  seu. A famlia tambm  sua. Vou s dar comida para as crianas e
tanto a loua, como a roupa vo amontoar-se. Eu  que no vou fazer isso. No gosto,
no preciso, no sei. Tentei resolver do meu jeito. E garanto que  a melhor maneira. Se
no quiser, pacincia. Fica tudo como est.
Eugnio tentou conter a raiva. Olvia estava se vingando dele ou ela era assim mesmo?
Nem parecia mulher. Por isso estava sozinha. Nenhum homem haveria de querer casar-
se com ela. Ela dava-se ares de difcil, mas pensando daquele jeito, ia ficar mesmo para
titia.
Ele estava nas mos dela, resolveu concordar. Preencheu o cheque e entregou-o a ela,
dizendo:
-- Est me levando em um minuto o que gastvamos durante um ms inteiro.
-- No se envergonha de dizer isso? Com toda essa pose, belo carro, gravatas italianas,
camisas de seda, perfume francs. Onde est sua classe? Seus filhos e sua casa no
merecem tambm o melhor?
-- Agora chega. No preciso ficar ouvindo suas ironias.
Enquanto Olvia guardava o cheque na bolsa, Eugnio apanhou a pasta e saiu. Sentia-se
sufocar dentro daquela casa. Pensara ter alcanado a liberdade, e a vida o apanhara em
uma armadilha. Desejava alar vo, rumo a uma vida nova, mais bela e mais feliz, e
fora arremessado de volta a uma priso cheia de obrigaes e problemas que ele no
sabia como resolver.
Ia  procura de Eunice. Sentia vontade de desabafar, chorar suas mgoas, abra-la,
sentir-se confortado, compreendido. Essa luta o deixara exausto. A incerteza e a
preocupao ainda mais. Contava que ela o fosse apoiar.
Chegando no apartamento, tocou a campainha e esperou. Eunice abriu e vendo-o,
abraou-o dizendo:
-- Sinto muito o que aconteceu. Depois que voc me telefonou contando tudo, senti-me
angustiada. Foi uma tragdia. No queria nada disso.
-- Eu tambm no. Elisa era uma boa pessoa. Eu sempre disse isso a voc. Eu no a
amava mais, mas ela era muito bondosa, fiel, boa me, excelente dona de casa. E agora,
o que ser de mim e das crianas?
-- Venha -- disse ela fechando a porta e puxando-o pela mo. -- Sentemos no sof e
vamos conversar.
-- Sim. Temos muito que conversar.
-- H o apartamento que alugamos. O contrato j foi assinado. S amos comprar os
mveis. E agora? Voc no vai voltar atrs, no ?
-- Claro que no. Vivo sonhando com o momento de podermos viver juntos de uma
vez. s claras e sem precisar nos esconder como criminosos.
--  que agora voc precisa resolver como cuidar das crianas para depois podermos
cuidar de ns.
-- Esse  exatamente o problema mais urgente e que me preocupa. Minha cunhada est
l em casa por alguns dias. Est procurando uma empregada. Depois veremos.
-- Voc no tem ningum que possa morar l com elas? Algum parente?
-- No. Minha me no deixa meu pai nem por um dia, e a casa dela  pequena demais
para levar as crianas l. Depois, ela no gostaria de assumir isso. Nem dos netos mais
chegados, meus sobrinhos que moram perto dela, ela toma conta. Diz sempre que j fez
sua parte, criou os filhos e que cada um cuide de suas obrigaes.
   Hum! Nesse caso, ter que ser uma empregada mesmo.
Eugnio animou-se, segurou as mos dela entre as suas e continuou:
-- Bom, eu sei que  muito cedo. Teremos que esperar. Mas eu sei que um dia eles iro
aceitar voc. Ns moraremos todos juntos e seremos felizes. Mal posso esperar esse dia.
Eunice procurou dissimular o desagrado. Ela no gostava de crianas. No se sentia
preparada para atur-las dentro de sua prpria casa. No estava em sua cogitao ter
filhos e muito menos criar filhos dos outros. Tentou contemporizar. Gostava do
Eugnio. Ele era boa companhia e fazia-lhe todas as vontades. Levava-a aos lugares de
classe que ela sonhara freqentar. Sabia tratar uma mulher. Era impetuoso e
apaixonado. Como homem, nada deixava a desejar. Mas filhos, crianas, isso era
demais!
-- No sei, no -- foi dizendo com ar preocupado. -- Eu nunca tive filhos e no tenho
jeito para lidar com crianas. Alm do mais, voc disse que eles ficaram com raiva de
voc por causa da separao.
-- Olvia fez o favor de culpar-me pela morte de Elisa, na frente deles. Claro que
ficaram revoltados. Principalmente Marina que j est mais crescida.
--  claro que se ficaram assim com voc, comigo ser muito pior.
-- Eu sei disso. Mas eles so amorosos. Sempre foram carinhosos e logo esquecero.
Pretendo reconquist-los. Eu gosto deles. Nunca pretendi abandon-los. Se os deixei, foi
porque Elisa estava l e ela cuidava deles muito bem. Mas agora ela se foi, e eles
precisam de mim.
-- Sua cunhada no quer ficar com eles?
-- No. Ela os quer muito bem, mas  uma mulher liberada, trabalha e foi bastante
clara. No quer assumir a guarda deles. Sabe o que ela teve o desplante de me dizer?
Que vai me vigiar, ver se eu cuido bem deles. Caso contrrio, far um barulho dos
diabos. Ameaou-me at de ir  polcia.
-- Que mulher mal-educada! Logo agora que os sobrinhos precisam dela. Elisa no era
sua nica irm?
-- Era. Como eu disse, as duas eram sozinhas no mundo.
-- Ento. O ideal seria que ela tomasse conta deles. Voc poderia dar-lhes uma mesada,
e tudo estaria resolvido.
-- Pensei nisso, sei que ela cuidaria deles to bem quanto Elisa, embora seja
completamente diferente dela.  obstinada, mas sabe ser dedicada quando quer. Sempre
apoiou Elisa. Mas ela recusou.
 O mximo que consegui dela foi sair para procurar uma empregada e ficar alguns dias
l em casa, at que a empregada acostumasse.
-- J  alguma coisa.
-- Mas eu no posso manter duas casas. Voc sabe que gosto de viver bem. Estou bem
empregado, mas no ganho tanto assim.
-- Sempre me disse que ganhava bem. Pensei que dinheiro no fosse problema para
voc.
-- E no . Mas duas casas d muito trabalho e fica muito difcil.
-- Mas o apartamento j foi alugado. Fizemos o contrato e eu contava que nos
mudaramos dentro de mais alguns dias.
Eugnio baixou a cabea pensativo. Arrependia-se de ter alugado aquele apartamento.
Ele o fizera, porque no pensara em tirar Elisa e as crianas da casa onde residiam. Era
uma boa casa, confortvel. Ele a comprara h alguns anos e j acabara de pagar. Agora
que Elisa se fora, contava que com o tempo Eunice poderia ir morar l com eles.
Mandaria pintar e decorar a casa e pronto. Nem precisariam pagar aluguel.
-- As coisas agora esto diferentes -- foi dizendo lentamente. -- No sei bem como
vo ficar. Estou perdido. No posso abandonar meus filhos agora.
-- Nem eu pediria tanto.  claro que precisa cuidar deles, deix-los bem instalados, aos
cuidados de uma pessoa da sua confiana. Mas isso, para ns, no far nenhuma
diferena. Poderemos mobiliar o apartamento, arrumar tudo, e eu mudarei para l e
naturalmente voc estar comigo sempre que puder.
-- No foi isso que sonhei para ns dois. Contava morar com voc definitivamente,
sem dividir meu tempo com ningum.
-- Agora no resta outro recurso. Construiremos nosso ninho de amor assim mesmo.
No nos deixaremos abater pelo destino.
-- Gostaria de esperar alguns dias mais para tomar essa deciso. Ainda estou aturdido.
Falta-me o cho debaixo dos ps.
-- Elisa faz tanta falta assim?
-- Faz. Ela era uma me maravilhosa. To resignada, dedicada, s pensava na nossa
felicidade. Esquecia de si mesma para cuidar da casa, das crianas e do meu bem-estar.
-- No era isso que voc me dizia. S porque morreu, ela virou santa?
-- No seja injusta. Nunca falei nada de Elisa.  verdade que meu amor por ela acabou.
Mas a estima, a amizade, isso eu
sempre senti. No se pode desfazer de uma pessoa que s fez bem. E ela sempre me
ajudou em tudo.
-- Se veio aqui para falar bem dela, pode ir saindo. Sinto cimes. No gosto que fale de
nenhuma mulher na minha frente.
Ele abraou-a carinhoso:
-- Bobinha! Nenhuma mulher ocupar o seu lugar. Sabe que eu a amo acima de
qualquer outra coisa no mundo.
-- Mas est querendo me deixar de lado, desistir dos nossos projetos, s por causa de
seus filhos. Se me amasse mesmo, no faria isso. Estou comeando a pensar que voc
no gosta de mim tanto quanto eu imaginava. J nem quer mais mobiliar o
apartamento...
-- Quem disse isso? Eu apenas pedi algum tempo para resolver minha situao. Minha
mulher foi enterrada ontem! O que aconteceu me tirou do equilbrio. No consigo ver as
coisas de maneira clara.
-- Tem certeza de que me ama? No vai me deixar de lado por causa do que aconteceu?
-- Claro que no. Eu no poderia mais viver longe de voc! Meu maior sonho  ficar a
seu lado para sempre. Por que duvida?
Eugnio beijou-a nos lbios com paixo. Eunice entregou-se ao prazer de sentir-se
amada, procurando vencer o receio de que ele insistisse naquela idia louca de trazer as
crianas para morar com eles.
Ela desejava manter vivo o interesse dele, a tal ponto que ele a colocasse em primeiro
plano em sua vida, mesmo quando ela lhe dissesse que no pretendia morar junto com
os filhos dele.
As crianas iam tirar a sua privacidade, interpor-se entre ela e ele, atrapalhar tudo. Isso
ela no estava disposta a tolerar. Contudo, sentia que precisava usar de diplomacia. A
morte de Elisa estava ainda muito recente. Com mais alguns dias, ele voltaria atrs,
acabaria por compreender que o que pretendia, no era possvel.
Deixaria as crianas com a empregada, iria l de vez em quando, arcaria com todas as
despesas, no deixaria lhes faltar nada e pronto. Eles estariam livres para cuidar da
prpria felicidade.
Decidiu dar um tempo e no discutir. Afinal, aquele no era um bom momento para
isso. Ele precisava ser confortado. Resolveu fazer o seu jogo.
-- Pobre do meu amor -- foi dizendo, passando a mo delicadamente pelos cabelos
dele. -- Sei como se sente. Mas eu estou aqui para abra-lo e dizer que o amo muito.
Juntos venceremos qualquer obstculo.
Eugnio sentiu-se melhor. Eunice sabia como acalm-lo. Ele tambm no se sentia com
foras para tomar nenhuma deciso naquele momento. Mergulhou nos braos dela e
esqueceu de tudo o mais.
Olvia chegou em casa com as crianas um tanto desanimada. Procurara uma pessoa
para trabalhar na casa, mas no encontrara ningum. Fora a algumas agncias de
empregos e deixara l o endereo com as especificaes que desejava.
Olhou a cozinha em desordem, a loua sobre a mesa e a pia. As panelas sobre o fogo.
Ela no estava a fim de trabalhar naquele servio. Detestava-o. Mas, por outro lado,
gostava de limpeza e de ter tudo na mais completa ordem.
-- Vou buscar a Alzira -- pensou.
Alzira trabalhava para ela j h algum tempo. Cuidava do seu apartamento com
eficincia. Entrava s 9 e saa s 5 da tarde. Quando Olvia chegava do trabalho l pelas
sete da noite, encontrava tudo na mais perfeita ordem. Sua roupa lavada, passada,
guardada, mesa posta e o jantar prontinho sobre o fogo.
Sabia que ela morava longe, tinha famlia e no podia dormir no emprego. Mas pelo
menos poderia dar uma mo na limpeza. Passou a mo no telefone e ligou para sua casa.
Foi a prpria Alzira quem atendeu.
-- Al!
-- Alzira, sou eu.
-- D. Olvia! Estou sabendo do que aconteceu. Estou chocada.
-- Imagine eu. Estou aqui com as crianas, precisamos da sua ajuda. Tome um txi e
venha at aqui.
-- Sim, senhora.  que eu ainda no acabei o servio aqui.
-- Deixe tudo como est. Estou precisando de voc. Venha depressa.
-- Sim, senhora.
-- Tome o txi e eu pagarei aqui.
Enquanto esperava, Olvia tentou dar uma ordem na casa, procurando guardar o que era
possvel e recolocar no lugar.
Alm da cozinha, os banheiros estavam em estado precrio. As crianas haviam tomado
banho e as roupas estavam espalhadas por todos os lados.
Olvia tentou junt-las no cesto de roupa suja. No desejava que Alzira se assustasse
com o estado da casa. Seu apartamento era sempre impecvel, e ela sempre fora muito
exigente. Contava com ela pelo menos para o mais urgente.
        Alzira chegou pouco depois, olhando penalizada para as
crianas. Ela tinha dois filhos e comovia-se ao pensar no que acontecera.
Olvia recebeu-a com alegria.
-- Ainda bem que voc veio! Ainda estamos atordoados com o ocorrido. Parece um
sonho. Sinto-me sem coragem para nada.
-- Deixe comigo, D. Olvia. Vim disposta  ajudar.
-- Fui a duas agncias para ver se conseguia algum para trabalhar aqui. Mas no
consegui nada.
-- Vou ver se consigo algum no meu bairro. No  muito fcil, mas vou empenhar-me.
-- As crianas precisam de algum que fique com elas. Quando acabar minha licena,
terei que voltar ao trabalho. Meu cunhado tambm precisa trabalhar. Tenho apenas uma
semana para resolver este assunto. Sinto-me aflita.
-- As crianas parecem que se agarraram  senhora.
--  verdade. Eu tambm, a eles. Di-me o corao ter que deix-los.
-- Foi uma infelicidade! D. Elisa, to boa... Olvia sentiu que as lgrimas lhe vinham
aos olhos.
-- Foi uma injustia -- disse. -- Antes houvesse sido eu que no tenho ningum. Logo
ela, to boa, com tantos filhos!
Alzira suspirou resignada:
--So coisas da vida, D. Olvia. Deus escreve direito por linhas tortas!
-- Deus! Acho que ele estava ausente quando Elisa saiu naquela noite!
-- No diga isso.  triste, mas Deus tem os seus motivos. Ele sempre faz o que  certo.
Ele no erra.
-- No concordo. Desta vez, ele errou e muito. Levar Elisa, to necessria ainda aqui,
com filhos to pequenos.
Alzira meneou a cabea pensativa:
-- Eu, se fosse a senhora, no criticaria o que no conheo. Agora no  hora de
reclamar, mas de rezar. Rezar alivia a alma e alimenta o corao.
-- H muito que no rezo mais. Agora, ento, depois do que aconteceu, menos ainda.
-- Vou pegar no servio na cozinha.
-- Isso. V mesmo. Eu fiz caf, est na garrafa trmica. Se quiser tomar, fique 
vontade.
-- Sim, senhora.
Enquanto Alzira cuidava da arrumao, Olvia procurou entreter
as crianas, cuidando para que no se entristecessem, nem chamassem pela me.
Tentara explicar-lhes o que acontecera, mas no sabia at que ponto eles haviam
entendido.
Sentia uma tristeza imensa dentro do peito, uma vontade de chorar, de gritar sua revolta,
sua dor, seu desconsolo. Mas no podia. Precisava dominar-se para no magoar ainda
mais aquelas crianas que adorava.
De quando em vez, lembrava-se de Eugnio, com raiva. O malvado sara h horas e
naturalmente fora  procura daquela desavergonhada. Era l que ele fora chorar as
mgoas. Queixar-se dela, com certeza, dizer que precisava cuidar dos filhos agora.
Apesar da dor que sentia, de uma certa forma, a frustrao dos planos de Eugnio com
Eunice dava-lhe certa satisfao. Ele sara de casa prazerosamente, tentando libertar-se
do peso da famlia, deixando-o todo sobre os frgeis ombros de Elisa. A vida, porm,
dispusera de outra forma e o chamara  responsabilidade. Cortara-lhe a chance de largar
a famlia. Agora ele estava sendo obrigado a continuar assumindo, com a agravante de
ter que faz-lo sozinho. Elisa j no estava mais l para aliviar seu fardo, fazer tudo por
ele. Ele agora no podia mais fugir  sua obrigao de pai.
Esse era um dos motivos pelos quais Olvia no desejava assumir os sobrinhos
definitivamente. Sabia que podia fazer isso. Colocaria uma boa governanta e continuaria
trabalhando do mesmo jeito. Obrigaria Eugnio a pagar todas as despesas deles e tudo
estaria resolvido.
Mas, ela no ia fazer o jogo dele. No ia deix-lo livre para usufruir da sua traio. Elisa
precisava ser vingada, e ela o faria. Ele seria responsabilizado por tudo e teria que sentir
na pele a falta que a esposa lhe fazia.
Olvia no estava disposta a facilitar as coisas para ele. Ao contrrio. Claro que pensava
no conforto e no bom atendimento das crianas, mas ele teria que estar ali, dia a dia,
noite a noite, hora a hora.
 verdade que as crianas estavam se apegando muito a ela. Assustadas, chorando pela
me, elas procuravam em seu colo acolhedor o agasalho e o conforto. Abraada a eles,
Olvia sentia que no podia deix-los. Era como abandonar Elisa no momento em que
ela mais precisava de sua ajuda. Abraava-os carinhosamente procurando suprir de
alguma forma a ausncia da me, tentando faz-los esquecer um pouco a tragdia de
que haviam sido vtimas.
Nelinha chamava pela me e chorava de vez em quando, e o Juninho agarrava-se a ela,
olhos muito abertos, num pedido mudo de
ajuda e conforto. Nessa hora, Olvia tentava distra-los, chamar sua ateno para outras coisas,
numa tentativa desesperada de diminuir o sofrimento deles.
Conversara com Marina, pedindo-lhe sua ajuda. Ela, como mais velha, tinha mais condies de
entender o que acontecera. Fora decisiva e franca. A morte era uma condio definitiva. Chorar,
lamentar-se, sofrer, no iria trazer Elisa de volta. A vida continuava, portanto, eles precisavam
aceitar e procurar viver da melhor forma possvel.
Era difcil, ela sabia, mas com o tempo eles se acostumariam  nova situao.
Marina ouvira tudo procurando conter as lgrimas e prometera cooperar.
--Tia -- disse ela -- eu nunca vou perdoar meu pai.
--Tambm no  assim. Ele errou, mas agora se arrependeu e vai ficar com vocs.
-- S porque no tem outro remdio. O que ele queria mesmo  ficar com aquela mulher. Eu
ouvi quando ele disse que queria nos levar para viver com ela. Eu no vou. Juro que no vou.
Olvia abraou-a com carinho.
-- Claro. Isso eu no vou deixar. Ele tem mais  que ficar aqui, cuidando da famlia, que  sua
obrigao.
-- Por obrigao, eu no quero -- continuou Marina com raiva. -- Ele no gosta de ns. Ele
nos abandonou.
-- Vocs so pequenos, no podem viver sozinhos. Apesar de tudo, ele gosta de vocs e vai
ficar, porque sabe que  preciso.
-- Quando eu crescer e puder, vou embora desta casa. Se voc no me quiser, eu vou para bem
longe e ningum nunca mais me ver.
-- No fale assim. Eu gosto muito de voc, a Nelinha e o Juninho tambm. Se voc se for, ns
sentiremos muito sua falta.
-- Eu fico s por causa de vocs, seno eu fugia, ia embora.
-- Revoltar-se no adianta. O que voc precisa  ter uma boa formao. Estudar muito,
aproveitar para aprender uma profisso, para ser independente e ganhar seu prprio dinheiro. S
assim far o que quer e como quer.
-- Um dia eu posso ser como voc? Ter um carro, trabalhar o fazer tudo que eu quero?
-- Claro, Marina. Eu mesma farei tudo para que voc consiga. Mas agora precisa ter pacincia.
Sua me no est mais aqui, e seu pai  que vai cuidar de tudo. Ele no tem muita prtica com
crianas,
 mas ele aprender.
-- Isso vai demorar muito! -- disse ela, pensativa.
-- Que nada. O tempo passa depressa, voc ver.
-- Voc vai ficar morando aqui? -- perguntou Juninho.
-- S por alguns dias. Eu tenho minha casa, no posso abandon-la.
Os trs abraaram-na assustados.
-- Eu no quero ficar sozinha -- disse Nelinha, chorosa.
-- Eu tambm no -- disse Juninho. -- Estou com medo.
-- Calma. Vocs no vo ficar sozinhos nunca. Como eu no posso ficar aqui todo o
tempo, vamos arrumar uma pessoa boa, que ficar com vocs enquanto seu pai est
trabalhando e eu tambm.
-- Eu quero ficar com voc! -- choramingou Juninho.
-- Eu tambm! -- gemeu Nelinha.
-- No pensemos nisso agora. Saibam que eu nunca os deixarei. Estarei sempre
cuidando de vocs. No precisam ter medo de nada.
Alzira, na porta da cozinha, os observava com os olhos cheios de lgrimas. Era triste e
sem remdio. Ela iria empenhar-se em arranjar uma pessoa boa.
Mas, naquele momento, observando a tristeza das crianas, se perguntava intimamente
por que Deus permitira que essa tragdia se consumasse.

Captulo 3

Eugnio levantou-se apressado. Dormira demais. Tinha um compromisso logo cedo no
escritrio e se atrasara. J eram nove horas!
Pulou da cama e entrou rapidamente embaixo do chuveiro e, em menos de dez minutos,
estava saindo. Olvia tentou det-lo para falar-lhe de Euvira, a empregada que Alzira
conseguira perto de sua casa, mas ele no lhe deu ateno.
-- Estou atrasado -- gritou esbaforido. -- Tem gente me esperando desde as oito e
meia!
No carro, nervoso, procurando vencer a ansiedade, no meio do trnsito, ele percebeu
que seu rosto ardia. Apanhou um leno e passou-o no local. Estava sangrando. Tambm,
ele se barbeara com tanta pressa que havia se cortado.
-- Que dia! -- pensou irritado.
Aquele negcio era importante para a empresa, e ele no podia falhar. Por que se
atrasara daquela forma? E o relgio, por que no despertara?
Havia dormido tarde. Eunice insistira para que fosse ficando, embora ele lhe houvesse
dito que teria que levantar-se cedo na manh seguinte. Para ela, era fcil! Pudera. No
fazia nada. Ficava na cama at tarde!
Ela parecia-lhe mudada. Antes era agradvel, alegre, agora dera para insistir em coisas
sem importncia. Queria comprar os mveis do apartamento, vivia procurando coisas
para gastar o seu dinheiro. Sim, porque os recursos dela, por certo no dariam para
tantas exigncias.
Parecia no compreender que as coisas haviam mudado. Que ele agora estava cheio de
problemas difceis, gastando muito mais dinheiro. Tendo que preocupar-se com as
crianas, tendo Olvia sempre lhe cobrando alguma coisa.
Aquela era outra que parecia no entender! Ele no era de
ferro! Pensando bem, naquela histria toda, quem perdera fora ele, s ele. Todo mundo
se queixava, mas enquanto Elisa estava viva, ele tivera mais liberdade e conforto.
Agora, o peso da famlia ficara todo em seus ombros.
Precisava trabalhar, ter a cabea fria para poder continuar a melhorar na firma, mas,
com tantos problemas, j se sentia prejudicado.
Que bom se ele pudesse sair, largar tudo, sozinho, ir para bem longe e descansar! Mas
no era possvel. Estava preso. Obrigado a dar satisfaes de sua vida no s  cunhada
como a Eunice. Seus filhos estavam ariscos, e Marina o hostilizava abertamente.
Olvia teria coragem para falar mal dele s crianas? Se a apanhasse fazendo isso, a
colocaria na rua. No toleraria uma coisa dessas. Dentro de sua prpria casa!
Mulherzinha irritante! Se no fosse o medo das crianas ficarem sozinhas, e ele ter que
ficar em casa at arranjar quem cuidasse delas, ele j teria feito isso. Afinal, quem ela
pensava que era?
Sentiu saudades de Elisa. Ela, sim, era uma mulher maravilhosa! Ele fora muito
precipitado! Se tivesse sido mais comedido, nada teria acontecido.
O carro da frente parou, e ele deu uma brecada em cima! Soltou um palavro. O
motorista do outro carro ficou furioso e desceu com cara de poucos amigos.
-- O que foi que disse? -- perguntou colocando a mo na cintura. -- Repete agora, na
minha cara!
Eugnio engoliu em seco. Ele estava com pressa. De forma alguma queria brigar e
perder mais tempo.
-- Nada. Eu no disse nada. Estou atrasado e tenho pressa.
-- Por que no passa por cima? No viu que havia uma pessoa atravessando a rua?
Queria que eu a atropelasse?
-- Eu no queria nada. Vamos embora. Preciso trabalhar. Estou atrasado.
-- Pois da prxima vez, saia mais cedo de casa.
Lentamente o outro foi para o carro enquanto Eugnio, irritado, procurava conter-se.
Sentiu vontade de descer e brigar. Conteve-se. No teve outro jeito seno esperar o
outro sair da sua frente.
Finalmente chegou ao escritrio. Olhou o relgio, eram quase dez horas. Entrou e foi
logo perguntando  secretria:
-- D. Irm, o dr. Medeiros ainda est a?
-- O dr. Medeiros telefonou s oito e quinze para avisar que ele no podia vir aqui hoje.
Pediu desculpas e vai lhe telefonar 
Tarde.
Eugnio irritou-se ainda mais:
-- E por que voc no me ligou? No sabe que eu corri como um louco, me cortei,
quase bati o carro, e ele j havia lhe avisado que no viria? Viu o que fez?
Irm olhou-o ofendida e assustada. Ele nunca a tratara daquele jeito. Que horror!
Eugnio entrou em sua sala e fechou a porta com raiva. Uma funcionria que observava
tudo, disse a Irm:
-- No ligue. Deixe pra l. No vale a pena.
-- Voc viu? Ele parecia louco. Nunca vi o Sr. Eugnio assim!
-- Era de esperar. Ele perdeu a mulher atropelada. Esqueceu disso? J pensou nas trs
crianas sem me? Eu sinto pena dele, deve estar passando por mil problemas.
-- Isso . Voc tem razo. Trabalho com ele h dois anos e ele nunca foi grosseiro. Ao
contrrio. Sempre mostrou-se amvel, educado. Realmente, hoje ele no est bem.
Eugnio sentou-se em frente a sua mesa e passou a mo pelos cabelos. Precisava
acalmar-se. Irritar-se no ia resolver seus problemas. Levantou-se e apanhou um copo
de gua.
De repente, a vida que era s alegria, s prazer, havia se transformado em um inferno. E
o pior  que ele no via nenhuma soluo a curto prazo. Seus filhos eram muito
pequenos. O tempo ia custar a passar at que eles crescessem e pudessem cuidar de si
mesmos. Enquanto isso, o jeito era ficar l, cuidando de tudo.
Foi ao banheiro e olhou o pequeno corte que fizera no queixo. Ainda ardia. Precisava
passar alguma coisa. Na mar em que ele estava, aquilo poderia infeccionar. Procurou
na gaveta onde guardava um vidro de gua de colnia, para as ocasies especiais,
quando saa direto do escritrio para um encontro agradvel.
Abriu o frasco e passou um pouco do perfume no local. Ardeu, mas ele sentiu-se bem,
aspirando gostosamente o aroma delicado.
No podia continuar assim nervoso, preocupado, tenso. Tinha que cuidar-se, relaxar.
Antes, Eunice o revigorava. Seus encontros eram sempre muito agradveis. E ele
adorava estar com ela depois de um dia tenso de trabalho. Mas agora ela pusera na
cabea de ir para o tal apartamento e s falava nisso. Parecia idia fixa. Que diabo, ela
estava muito bem instalada, o apartamento era deles mesmo. Por que, justamente
naquele momento em que ele se sentia inseguro e com maiores despesas, ela insistia
nisso?
Ele havia concordado em alugar aquele apartamento. Claro que ele no iria morar com
ela l, onde ela residia. Era pequeno para os dois e ele estava acostumado ao luxo e ao
conforto. Sonhara um local delicioso, onde eles viveriam juntos sempre. Mas agora isso
tornara-se um sonho impossvel, e ela no compreendia isso.
Ele a amava. Quanto a isso no tinha dvida. E entendia que se ela o amasse, aceitaria o
que ele lhe podia oferecer. Naquele momento, preocupado com o futuro, ele no
desejava aumentar as despesas.
Sentou-se novamente pensativo. O que ele precisava era falar com ela. Colocar as cartas
na mesa. Se ela o amasse mesmo, saberia esperar com calma at que a soluo ideal
aparecesse.
Qual seria a soluo ideal para ele? Casar-se com ela? Sentiu leve repulsa. No gostaria
de casar-se de novo. Mas diante da necessidade dos filhos, poderia at sacrificar-se.
Contudo, j percebera que Eunice no havia se entusiasmado com a idia de assumir sua
famlia. Reconhecia que mulher como Elisa, era difcil. To dedicada! Ao lado dela sua
vida sempre correra fcil, tudo em ordem, no lugar.
Ela at parecia mgica. Conseguia cuidar das crianas, da casa, da comida, de tudo e
estava sempre pronta e alegre quando ele chegava. Nunca se queixava.
Ele nunca mais encontraria outra igual a ela. Em todo caso, ela se fora e ele ficara. Era
um mal sem remdio. Tinha que conformar-se.
Lembrou-se que Olvia falara qualquer coisa sobre uma empregada. Preocupou-se. Por
que no lhe perguntara o salrio? Aquela irresponsvel bem podia ter contratado a moa
por uma fortuna. Afinal, o dinheiro no era dela. Era ele quem teria que pagar!
Precisava ver isso antes que fosse tarde. Telefonaria a Eunice e no iria jantar com ela
naquela noite. Estava cansado. Iria para casa e tentaria tomar as rdeas da situao.
Olvia lhe dissera que ficaria apenas uma semana e j fazia mais de quinze dias que ela
estava l.
Durante esse tempo, eles quase no se viram. Ele lhe dissera que comeria fora para
aliviar o trabalho em casa. Almoava em restaurante e  noite jantava com Eunice,
chegando em casa sempre muito tarde, quando todos estavam dormindo.
Nos primeiros dias, no caf da manh, tentara aproximar-se dos filhos, mas eles, sempre
agarrados a Olvia, no se mostraram afetivos. Por isso, ele saa logo e mal os via.
Olvia olhava-o com ar de reprovao. E uma vez o criticara
por isso. Mas ele no lhe dera ateno. Quando ela se fosse, ele teria os filhos s para si
e poderia reconquist-los. Tinha a certeza de que conseguiria.
Telefonou a Eunice, disse-lhe que no estava se sentindo muito bem e que no jantaria
com ela naquela noite. Iria para casa mais cedo. Saiu do escritrio s sete horas e
resolveu dar uma volta para comer alguma coisa. Em casa, por certo, no teria nada.
Jantou em um pequeno restaurante e foi para casa. Entrou um silncio e viu na sala de
estar Olvia, sentada no sof, tendo Nelinha no colo, Juninho ao lado e Marina a seus
ps, conversando tranqilamente. Percebeu que ela contava uma histria de princesas e
fadas, e eles a ouviam fascinados.
-- Ainda bem que pelo menos ela cuidava bem das crianas -- pensou ele.
Fez um pequeno rudo e todos olharam para ele. Olvia calou-se. Pretendendo
aproximar-se, Eugnio entrou na sala dizendo com suavidade:
-- Vim mais cedo hoje para v-los. Estava com saudades. Aproximou-se e sentou-se ao
lado de Juninho. Marina levantou-se imediatamente. Eugnio continuou:
-- Venha aqui, minha filha. Quero falar com voc. Ela olhou para Olvia e no disse
nada.
Eugnio puxou-a delicadamente pelo brao, dizendo:
-- Est na hora de conversarmos.  preciso que nos entendamos.
Marina o olhava em silncio e de semblante carregado.
-- Papai tem estado muito ocupado, trabalhado muito, no pode ficar em casa com
vocs o tempo todo, mas eu gosto muito de vocs e se pudesse, ficaria aqui.
Marina soltou-se e deu alguns passos para trs.
-- Isso  mentira! -- gritou em lgrimas. -- Se voc gostasse de ns, no teria ido
embora de casa e mame estaria viva! Voc no trabalha at tarde da noite. A verdade 
que prefere a outra mulher a ficar aqui em casa. Quando eu crescer, vou embora e voc
nunca mais me ver! Eu juro!
Eugnio empalideceu e passou a mo pelos cabelos nervosamente. Olhou para Olvia
com raiva. Ela com certeza era responsvel por essa atitude de Marina. Ela era pequena
demais para perceber certas coisas.
-- No me olhe assim -- foi dizendo Olvia com calma. -- Eu no tenho nada com
isso.
-- No brigue com ela! -- pediu Nelinha em pranto.
Eugnio tentou contornar.
-- Eu no disse nada. Vim cedo, pensei em ficar com vocs um pouco mais e parece
que vocs no querem.
Os dois pequenos agarraram-se mais a Olvia abraando-a, e Marina, olhando o pai com
rancor, disse:
-- Ns no precisamos de voc, temos tia Olvia. Ela sim gosta de ns! Voc nos
abandonou, agora no adianta fingir. Pode ir embora. Ns queremos ficar  com tia
Olvia.
-- Sua tia no quer ficar com vocs -- disse ele, irritado. -- Por isso, acho bom se
acostumar. Tero que ficar comigo mesmo. Eu sou o pai de vocs. Exijo respeito e
obedincia. Quando voc crescer, far o que quiser, mas enquanto for pequena, ter que
me obedecer.
Olvia levantou-se e, segurando as duas crianas pela mo, foi dizendo:
-- Agora vamos. Est na hora de dormir. Digam boa noite ao seu pai e vamos para
cama.
-- E a histria? -- perguntou Nelinha.
-- L em cima eu acabo.
Eugnio aproximou-se das crianas beijando-as na testa, dizendo:
-- Durmam bem.
Enquanto Olvia subia com os trs para o quarto, ele sentou-se no sof pensativo. Ia ser
difcil. Se ao menos Marina pudesse entender! Os outros dois eram pequenos e seria
mais fcil conduzi-los. Logo esqueceriam a tragdia.
Olvia bem poderia tomar conta deles! Ela poderia mudar-se para sua casa, alugar o
apartamento. Ele iria morar com Eunice, como sempre desejara. Ficaria caro. Teria que
sustentar a casa, mas sua liberdade valeria a pena.
Pensando bem, no era apenas pela liberdade. Ele se sentia inibido, sem saber bem
como agir com as crianas. Se ao menos Olvia o ajudasse! Ela parecia bem  vontade
cuidando delas. Infelizmente, no podia contar com a cunhada. Sabia que se no fosse
pelo amor que sentia pelas crianas, no teria ficado ali durante tanto tempo.
Aguardou pacientemente que Olvia descesse. Quando a viu, foi logo dizendo:
-- Vim mais cedo tambm porque precisamos conversar. Tenho estado ocupado
mesmo. Depois, todos aqui me hostilizam e eu no tenho nenhum prazer em voltar para
casa.
-- Claro. No era bem aqui que voc gostaria de ficar. Eu
sei que voc vem contrariado. Alis, at as crianas percebem sua m vontade.
-- Olhe aqui, eu no pretendo brigar com voc. Deve convir que o ambiente aqui no
est nada bom para mim. Alm das lembranas de Elisa, as crianas esto com raiva de
mim. Mas eu gosto de meus filhos e voc precisa reconhecer isso. No pode fazer
guerra contra mim, instigando as crianas a que me odeiem.
Olvia sacudiu a cabea negativamente.
-- Engana-se. Embora conhea voc e saiba que foi o culpado da morte de Elisa,
reconheo que no posso prejudicar as crianas. Voc  o pai delas e elas precisam de
voc. Eu no seria capaz de fazer isso. Se eu no o elogio, tambm no falo mal, disso
pode ter certeza.
-- Ajudaria muito se fizesse mesmo isso. Eles esto fugindo de mim. Agora eu sou a
nica pessoa com quem tero que contar neste mundo.
-- No exagere. Eu tambm gosto deles.
-- No a ponto de sacrificar-se por eles. De ficar com eles para sempre.
Olvia riu com ironia.
-- Isso  o que voc desejaria! Assim, ficaria livre para levar sua vida com aquela
desavergonhada. Eu at poderia ficar com eles, seria at um prazer, mas nunca farei
isso, porque o dever  seu. Voc enche a boca para dizer que  pai. Pois faa sua
obrigao. Seja um bom pai pelo menos, j que nunca foi um bom marido para minha
irm.
-- Voc  injusta comigo. Est certo, o tempo passou, Elisa mudou, eu me apaixonei
por outra mulher, mas isso aconteceu. Pode acontecer a qualquer um.
-- Pode. Quando o marido  ingrato e no sabe avaliar a prola que tem em casa. Elisa
era boa demais para voc. Por isso abusou dela a vida inteira.
Eugnio suspirou resignado. Olvia jamais compreenderia.
-- Voc torna as coisas mais difceis do que so. Gosta de complicar tudo.
-- Pelo contrrio. Larguei minha casa e estou aqui tentando ajudar. Mas fao isso pelas
crianas e por Elisa. Por voc, no moveria uma palha.
-- Isso eu sei. No precisa repetir. Voc e eu nunca nos entenderemos. Vim cedo hoje
querendo resolver este assunto. Desejo fazer-lhe uma proposta.
-- Proposta? -- perguntou ela, desconfiada. -- Qual ?
-- Esta casa  confortvel, voc poderia vir para c e morar definitivamente com as
crianas. No teria nenhuma despesa, eu pagaria tudo e ainda poderia alugar seu
apartamento. Seria uma soluo boa.
-- Eu nunca moraria com voc aqui.
-- Eu irei embora, alugarei um apartamento para mim. Olvia olhou-o com raiva.
-- Estou entendendo! Quer ver-se livre das crianas para correr e ir morar com aquela
messalina.
Eugnio fez um gesto desalentado:
-- No  nada disso.  que voc tem jeito para cuidar das crianas e elas gostam de
voc. De uma certa forma, elas transferiram o amor da me a voc. O que ser delas
quando voc se for?
Pelos olhos de Olvia passou um brilho de emoo. Muitas vezes se fizera a mesma
pergunta. Contudo, no pretendia ceder.
-- Elas precisam entender que sou apenas tia. Gosto delas, podem contar comigo
sempre, mas no vou assumir o lugar da me. E depois, elas tm pai. Minha empregada,
a Alzira, j arranjou uma pessoa boa para trabalhar aqui. Ela vai comear amanh e se
ela for como espero, dentro de mais dois ou trs dias, voltarei para casa.
-- Tem certeza mesmo de que  uma boa pessoa?
-- A Alzira me garantiu.
-- J combinou o salrio?
-- Sim.
-- Por que no me deixou fazer isso?
-- Porque voc nunca est aqui. Depois, ela vai trabalhar das 8 at as 20 horas.
-- Ela no vai dormir aqui?
-- No. Voc  vivo e nenhuma delas aceitaria dormir aqui.
Eugnio irritou-se:
-- Que besteira! Acham que eu desrespeitaria minha prpria casa?
-- Isso eu no sei. Mas elas no querem ficar. Est difcil conseguir uma pessoa que
queira cuidar de trs crianas, lavar, passar, cozinhar, tudo. Foi o melhor que pudemos
arranjar.
Havia um brilho malicioso nos olhos de Olvia quando ela continuou: -- voc vai ter
que assumir o seu papel de pai, todas as noites.
Eugnio passou a mo pelos cabelos desalentado:
-- Eu no saberia. Nunca cuidei deles.
-- Pois ter que aprender agora.
De repente, Eugnio sentiu uma onda de revolta. Disse com raiva:
-- No farei isso. Voc fez de propsito. Vou arranjar algum que fique todo o tempo.
Voc vai ver.
Olvia deu de ombros:
-- Pois faa isso, se puder. Por agora, ficaremos com essa. A casa  sua, os filhos so
seus, e se conseguir coisa melhor, ser timo.
-- Voc no vai me deixar na mo. Vai esperar eu arranjar uma pessoa que possa
dormir no emprego.
Olvia sacudiu a cabea negativamente.
-- Preciso trabalhar e no posso ficar mais. Portanto, se a nova empregada for boa, irei
embora domingo. Assim poderei recomear a trabalhar na segunda-feira.
-- Voc bem que poderia vir dormir aqui.
-- Isso  impossvel.
-- Pelo menos durante mais algum tempo. As crianas vo sentir muito sua falta.
-- Tero que se acostumar. Virei v-las sempre que puder.
-- No seja vingativa. Aceite minha proposta! S ter a lucrar.
-- No posso. Vou cuidar da minha vida. Voc que cuide da sua.
Eugnio olhou-a firme nos olhos enquanto dizia:
-- Voc  a pessoa mais injusta e mais vingativa que conheci. Para me ferir, vai acabar
ferindo as crianas.
Olvia irritou-se:
-- Nunca mais repita isso! As crianas esto acima de qualquer coisa. Mas eu nunca
vou assumir um papel que no  meu, uma obrigao que no  minha. Ela  sua. Voc
ps esses filhos no mundo, voc acabou com a vida da me e agora tenha pelo menos a
decncia de fazer o que lhe cabe.
-- Voc  intratvel! E eu que pensei que poderia sensibiliz-la! Voc no tem corao.
-- No tenho mesmo. No adianta se colocar no papel do pobre homem incapaz.
Sempre foi capaz de fazer tudo o que fez. Nunca pensou em ningum a no ser em si
mesmo. Agora no venha tentar me usar. Voc fez isso a vida inteira com Elisa, mas
comigo, no. Nunca permitirei. Tenha a dignidade de assumir sua famlia. Tenho a
certeza que, se quiser, poder fazer isso muito bem. Agora, boa noite. J  tarde.
Amanh, Alzira trar a moa s sete.
-- Boa noite -- resmungou Eugnio, tentando dissimular a
raiva. Aquela mulher era intragvel. Que diferena de Elisa, sempre amvel e serena.
Nunca se negava a nada. Atendia tudo com disposio e alegria. Como podiam ser
irms?
Foi para o quarto e no conseguiu dormir. Eram mais de onze horas quando o telefone
tocou. Eugnio atendeu. Era Eunice:
-- Al, meu bem. Senti saudades! -- foi dizendo logo.-- No consegui dormir. Voc
melhorou?
-- No -- respondeu Eugnio, desanimado.
-- O que voc tem?
Eunice sentia-se insegura. A situao parecia-lhe modificada. Tinha a impresso que o
Geninho estava tirando o corpo fora. No comprara os mveis, falara em morar com ela
e as crianas. Estaria mesmo pensando nisso? Chegou a sentir cime. Teria arranjado
outra mulher? Por isso, resolvera telefonar.
-- Sinto-me cansado, indisposto. Tudo isso que tem acontecido, tem me feito mal.
Estou cheio de problemas aqui em casa. Minha cunhada  arrogante e faz tudo para me
irritar.
-- Se voc tivesse vindo aqui, eu saberia ajud-lo a relaxar e a esquecer. Eu amo voc.
-- Eu tambm amo voc -- disse ele mais confortado.
-- Ainda penso que se estivssemos morando juntos, s ns dois, voc no teria que
passar por tantos aborrecimentos.
-- Voc fala como se eu pudesse fazer isso! Esquece-se de que tenho trs filhos
pequenos e que agora preciso cuidar deles?
-- Voc? Um homem no tem jeito para essas coisas. Voc precisa arranjar algum que
cuide deles, que more com eles. Pode ir v-los com freqncia.
-- Pensei nisso, mas est difcil arranjar algum. No posso deix-los com qualquer
pessoa.
-- Talvez possa coloc-los em um colgio. H colgios maravilhosos, que cuidam de
tudo e educam muito bem. Seria melhor para eles. Sairiam aos dezoito anos e teriam
vida prpria.
-- Voc acha isso? J esto sem me, e ficariam entre pessoas estranhas.
-- Pessoas especializadas que cuidariam deles melhor do que voc. Teriam uma boa
formao. Se fossem meus filhos,  o que eu faria.
-- No  o que eu gostaria, mas pode vir a ser uma soluo.
-- Pense nisso, meu bem. Eles estariam em segurana e voc ficaria tranqilo para
trabalhar e cuidar de sua vida.
-- Vou pensar.
-- Amanh voc vir mais cedo?
-- Vamos ver. Talvez.
-- No fale assim. Parece at que no sente mais vontade de me ver! Se me amasse
mesmo, viria correndo.
-- Amanh, veremos. Agora estou cansado. Um beijo e durma bem.
-- At amanh. Estarei esperando ansiosamente. Eugnio desligou o telefone pensativo.
Teria coragem de colocar as crianas em um colgio? Marina jamais compreenderia.
Ficaria mais revoltada e o odiaria ainda mais. No, ele no podia fazer isso. Pelo menos
naquele momento, enquanto eles ainda estavam muito chocados com a morte da me.
Eugnio sentiu um aperto no corao. Por que acontecera aquela desgraa, por qu?
Sentou-se no leito, colocando a cabea entre as mos, e no conseguiu mais reter o
pranto. Comeou a chorar.

Captulo 4

Eugnio saiu do escritrio s seis e meia. Estava cansado e indisposto. Decididamente
as coisas no iam bem para ele. Baixara uma mar de m sorte, e isso o deixava de mau
humor. Estava para fechar dois grandes negcios e quando as coisas estavam
praticamente acertadas, eles voltaram atrs. Perdera uma boa comisso, que o deixaria
tranqilo pelo resto do ms.
Na rua parou indeciso. Aonde iria? Eunice o estaria esperando, com certeza, mas ele
no se sentia disposto a conversar. Sabia que quando lhe contasse que precisaria ir para
casa todas as noites antes das oito, ela iria protestar. Ele no estava habituado a ser
pressionado. Detestava isso.
Agora, era s o que lhe coubera. De um lado Olvia, de outro, Eunice. E ainda seu
chefe, olhando-o preocupado, querendo saber com detalhes por que ele perdera os dois
negcios.
Sentia-se sufocar. Sempre fizera o que queria e sua vida at ento havia decorrido muito
bem. O que mudara? Por que de repente tudo comeara a lhe acontecer?
-- Pensando na vida?
Eugnio levantou a cabea e, vendo o Amaro, respondeu:
-- Ultimamente no tenho feito outra coisa. Feliz de voc que  solteiro. No sabe do
que se livrou.
Amaro era seu colega de trabalho. Alegre, simptico, trabalhador e muito requisitado
pelas mulheres, as quais tratava com galanteria, mas aos quarenta e dois anos ainda
conservava a liberdade. Nenhuma delas conseguira lev-lo ao casamento.
-- Que  isso, Eugnio. Todos temos nosso dia de infelicidade, mas tudo passa e voc
no precisa ficar a, com essa cara.
Eugnio no se deu por achado:
-- Fala isso, porque no aconteceu com voc! Amaro pegou o amigo pelo brao,
dizendo:
-- Sei que foi difcil, mas quando uma coisa  irremedivel,
o que se pode fazer seno conformar-se e tentar esquecer?
Eugnio sentiu que lgrimas lhe vinham aos olhos. A solidariedade do amigo o
confortava e o fazia sentir ainda mais sua infelicidade.
-- O que estava fazendo a parado? Para onde vai?
-- Era justamente o que eu estava pensando. Em casa tudo est muito triste, a Marina
revoltada e pensando que eu fui o culpado pela morte de Elisa. A dor deles  difcil de
agentar. To pequenos e sem a me! Por outro lado, h Olvia. J lhe falei dela?
-- Aquela sua cunhada durona que vivia instigando Elisa contra voc?
-- Essa mesmo.  outra que me culpa pela morte da irm, como se eu fosse responsvel
pelo acidente. No agento mais a presso!
Amaro sorriu e deu uma piscada maliciosa:
-- Mas eu sei que voc tem um lugar onde as coisas andam melhor. A Eunice, que
voc me disse ser a mulher de sua vida, ainda est l. Agora voc est livre para fazer o
que quiser. Pode ser feliz com ela.
Eugnio suspirou triste:
-- No sei o que aconteceu, mas parece que tudo mudou. At Eunice que era uma
mulher dcil e amvel, agora deu para me pressionar, exigir coisas. Eu estava aqui
pensando e no sentia vontade de ir para minha casa nem para a dela.
-- Nesse caso, venha comigo. Vamos tomar alguma coisa. Voc precisa relaxar.
Eugnio acompanhou o amigo de bom grado. Precisava mesmo desabafar. Conversar
com algum que o pudesse compreender.
Sentados na mesa de um bar, com um copo de cerveja entre as mos, entre um
salgadinho e outro, Eugnio foi desabafando. Falou de suas esperanas, sua vontade de
ser feliz com Eunice. Do seu amor por Elisa. De como ela mudara depois do casamento,
e ele perdera muito da atrao que sentia por ela. No que tivesse deixado de gostar
dela, de apreciar suas qualidades de mulher, isso no! Elisa como esposa era perfeita.
Ele sabia que quanto a isso, nunca encontraria outra igual a ela. Mas, e o amor? E a sua
necessidade de ter uma mulher com a qual realizasse suas fantasias amorosas? Afinal de
contas, ele era homem fogoso, no podia ficar sem essas emoes. Pensara que Elisa era
boa e compreenderia sua situao. Com o tempo, aceitaria a separao e continuaria
cuidando amorosamente da famlia. Ele no pretendia desampar-los. Isso no. De
forma alguma.
Eugnio finalizou:
-- Quem poderia prever o que aconteceu? Elisa com certeza saiu para fazer alguma
compra, na padaria talvez, e aconteceu o acidente. Ela nunca sairia para ir longe
deixando as crianas sozinhas em casa.
-- Quando voc falou com ela naquele dia, como ela reagiu?
-- Ficou triste. Claro.  natural. Ela no esperava que eu tomasse aquela deciso.
-- Ela nunca desconfiou que voc tinha outra mulher?
-- Nunca. Sempre respeitei minha famlia. Fui discreto.
-- Nesse caso, ela deve ter ficado muito abalada.
-- Pode ser. Mas na hora pareceu aceitar com calma. At acho que ela no acreditou
muito que fosse verdade. Sabe que naquela noite ela fez o jantar e ps a mesa para ns
dois? Quando cheguei l no dia seguinte, a mesa ainda estava posta e a comida sobre o
fogo.
Amaro olhou o amigo penalizado, mas no disse o que estava pensando. Eugnio
continuou:
-- Foi um acidente. Infelizmente ela morreu. E Olvia me acusa. Diz que ela saiu para
rua desesperada e que no viu o carro por causa disso.
-- Ela acha que Elisa se suicidou?
-- No. Isso no. Ela sabe que Elisa nunca faria isso por causa das crianas. Ela era
muito apegada a elas e nunca as deixaria por nada neste mundo.
-- Nesse caso, foi acidente mesmo.
-- Foi, claro que foi. Mas ela jura que vai me infernizar a vida, que eu nunca serei
feliz, me acusa e at Marina acha isso. No sei se por ouvir a tia falar.
Amaro meneou a cabea com tristeza.
-- Isso  mau. Essas coisas na infncia so sempre muito traumticas.
--  o que eu penso. Procuro evitar isso, mas at agora no consegui nada. Ela no me
aceita, est ressentida. Sabe, ela ficou escondida e ouviu a conversa que eu tive com
Elisa naquela malfadada manh.
-- Humm. Nada poderia ter sido pior.
-- Pra voc ver minha situao.
Eugnio continuou relatando minuciosamente tudo ao amigo e finalizou:
-- Agora, estou em uma encruzilhada. No sei como agir, o que fazer da minha vida. 
presso por todo lado. No sei o que est acontecendo comigo. De repente tudo
comeou a dar para trs. At nos negcios, o azar apareceu. No consigo realizar nada.
Este ms, vou sofrer um corte brutal nos meus vencimentos. Logo agora que as despesas
aumentaram assustadoramente. O dinheiro que economizei durante tanto tempo, est
indo embora vertiginosamente.
-- , companheiro, voc est numa mar de m sorte.
-- Em minha vida nunca tive disso. Preciso me livrar dessa confuso. Quero que tudo
volte a ser como antes.
-- As coisas agora esto diferentes.
-- Eu sei. Mas quero ter tranqilidade, resolver meus problemas com calma. Eu me
sinto agitado, insatisfeito, meus pensamentos esto tumultuados. Durmo mal, tenho
pesadelos. Acordo assustado vrias vezes no meio da noite. Penso muito em Elisa.
Minhas idias no esto claras.
-- Estou comeando a pensar que voc est precisando ir a um Centro Esprita.
-- Eu? Voc est louco? Para qu?
-- No sei, no. Pelo que me disse, est mal, confuso, perturbado, angustiado. Estou
pensando em uma coisa...
-- O qu?
-- Elisa era muito apegada a voc e  famlia?
-- Era, mas e da?
-- Ela morreu de repente, num acidente. Pode ser que seu esprito esteja ainda do seu
lado, querendo alguma coisa.
Eugnio estremeceu e seu rosto empalideceu.
-- Voc est louco. Eu no acredito nessas coisas. Quem morreu se foi para sempre e
nunca mais voltar.
-- Pois eu, se fosse voc, procurava investigar. Tenho visto alguns casos de pessoas que
morrem e como no querem aceitar isso, ficam na casa, com a famlia, tentando
interferir e ajudar as pessoas. Ocorre que como elas tambm no esto bem, acabam
sempre atrapalhando, causando problemas.
Eugnio passou a mo pelos cabelos em um gesto nervoso.
-- Era s o que me faltava. Outra a me pressionar! J no basta Olvia, Eunice, Marina
e agora a Elisa. Isso  demais. No posso acreditar. No  possvel.
--  possvel, sim. Voc no disse que tudo est indo mal? At Eunice j no  mais a
mesma. Voc perdeu o entusiasmo. Ser que no  o esprito de Elisa que est a? Quais
os sentimentos dela para com Eunice?
-- Eu sempre pensei que voc fosse equilibrado. Falar de espritos uma hora dessas!
-- Preste ateno ao que estou dizendo. Se no tomar providncias, as coisas podem
piorar.
-- Mais ainda?
-- Claro. Agora j est atingindo seu campo profissional.
-- Elisa nunca faria isso. Ela era muito boa.
-- Se esquece que ela foi trada, desprezada, trocada por outra? Ela amava voc
profundamente. Dedicou-se de corpo e alma ao casamento e o que foi que conseguiu?
Eugnio remexeu-se inquieto na cadeira.
-- Isso  bobagem. No acredito. O que preciso  tomar pulso da situao e esfriar a
cabea para resolver meus problemas. S isso.
-- Experimente rezar. Em seu caso, ajuda muito.
-- Por que insiste nisso?
-- Porque a orao acalma e fortalece.
-- No sabia que voc era religioso.
-- No sou religioso. Mas sou pessoa de f e rezo todos os dias. Sinto que isso me
ajuda. Pelo menos faa isso. Ver que ficar mais calmo.
-- Vou tentar.
A conversa seguiu solta e s horas depois foi que Eugnio foi para casa. Tudo estava em
silncio, e ele procurou no fazer barulho. Notou que tudo estava mais limpo e
arrumado, quase como nos velhos tempos. Lembrou-se que Olvia falara algo sobre uma
empregada. Estaria trabalhando?
Estirado no leito, Eugnio lembrou-se de Elisa. Que loucura! Pensar que ela poderia
estar ali, a seu lado. Isso era impossvel. A morte era o fim e nada que fizesse poderia
devolver-lhe a esposa. Isso de esprito era coisa de gente simples, sem cultura e de boa
f. No ele, homem de cidade, instrudo e moderno.
Recordou-se do rosto doce de Elisa e sentiu um aperto no corao. Ele lamentava sua
morte. Faria tudo para que ela ainda estivesse ali, com sua doura e delicadeza.
Sentiu uma onda de tristeza e de revolta. Aceitar a morte era muito difcil. Ela era jovem
e cheia de sade. As lgrimas afloraram e ele as deixou correr livremente durante alguns
minutos, depois, enxugou os olhos pensando admirado:
-- Estou ficando fraco. Nunca me lembro de haver chorado assim antes.
Pensou nas crianas com dor e tristeza. Precisava decidir.
Ele no podia ficar preso em casa todas as noites. Iria sufocar. No era do seu feitio.
Lembrou-se das palavras de Eunice. Talvez um bom colgio o ajudasse at que pudesse
t-los em sua companhia.
Pensou em Elisa. Se ela estivesse viva, jamais o deixaria colocar as crianas em um
colgio interno. Sua tristeza aumentou. No, ele no poderia fazer isso.
Ele se revirava no leito sem conseguir dormir. Levantou-se e foi  cozinha, tomar gua.
L, na semi-obscuridade, pensou ver Elisa circulando, como sempre fazia, indo e vindo,
cuidando de tudo. Passou a mo pela testa como querendo afastar essa lembrana.
-- Estou impressionado -- pensou. -- O Amaro, com aquela conversa, me deixou pior.
Foi para o quarto decidido a reagir. Apanhou um comprimido e engoliu-o pensando:
-- Se eu no dormir, no acordarei cedo amanh. J  madrugada.
Deitou-se novamente e sentindo um torpor, aos poucos adormeceu. Ele no percebeu
que um vulto de mulher debruou-se sobre seu corpo adormecido, chorando
copiosamente.

Captulo 5

Elisa acordou e olhou ao redor admirada, tentando recordar-se do que lhe acontecera.
Estava em um quarto estranho. Como viera parar ali? Lembrou-se de Eugnio. Ele a
deixara. Seria verdade mesmo ou teria sonhado?
Sentia-se atordoada e um tanto fraca. Aos poucos, foi se lembrando do que acontecera
naquele dia. Todos os detalhes voltaram-lhe  lembrana. Ela sara desesperada para
respirar um pouco. Assustou-se. Meu Deus! E as crianas? Elas estavam sozinhas em
casa.
Olhou em volta. No conhecia aquele lugar. Precisava ir embora imediatamente. Que
horas seriam? As crianas teriam acordado? Quanto tempo ela teria dormido? Por que
se encontrava ali? Teria desmaiado?
Levantou-se apressada. Sentia-se um pouco tonta, mas no podia demorar-se mais. H
quanto tempo teria sado de casa? Ia sair, lembrou-se da chave. Onde estaria? No a
encontrou. T-la-ia perdido?
A porta abriu-se, e uma mulher de meia-idade entrou. Vendo-a, Elisa perguntou:
-- Por favor, senhora, diga-me onde estou? O que aconteceu?
-- Voc sofreu um acidente, mas agora est tudo bem.
-- Acidente? Meu Deus! No me lembro de nada!
-- Agora j passou.
-- Eu preciso voltar para casa, mas no encontro a chave. Estou preocupada com as
crianas. Elas ficaram sozinhas. Eu no devia ter feito isso, mas estava to aflita! Tinha
que andar um pouco, respirar. Por acaso ter visto minha chave? Ser que algum a
guardou?
-- No se preocupe. No vai precisar mais dela.
-- No? Por qu? O que aconteceu? H quanto tempo estou
aqui?
-- H alguns dias.
Elisa deixou-se cair sentada no leito assustada.
-- E as crianas? Algum cuidou delas? Olvia e o Eugnio j sabem que estou aqui?
-- J. Fique tranqila. Tudo est bem agora. No precisa preocupar-se com nada. As
crianas esto muito bem. Olvia est cuidando delas.
Elisa suspirou fundo.
-- Seja como for, eu agora estou bem e preciso voltar para casa.
-- No pode.
--Porqu?
-- Precisa cuidar da sua sade. Ainda no est bem.
-- Eu quero voltar. Sinto-me bem. No posso deixar as crianas durante tanto tempo.
Olvia precisa trabalhar.
-- No momento, o melhor ser cuidar de voc. Quando estiver bem, poder v-los.
Elisa passou a mo pela testa, como querendo afastar um pensamento doloroso. Depois
perguntou:
-- O Eugnio sabe o que me aconteceu?
-- Sabe.
-- Ele tem vindo me ver?
-- Ele no veio, porque no pde. Mas est cuidando das crianas.
Pelo semblante de Elisa passou um vislumbre de alegria.
-- Ento ele voltou para casa!
-- Voltou.
-- Quer dizer que no era verdade? Que ele no tinha outra mulher e no ia me deixar!
Como eu fui boba! Por que acreditei?
-- Acalme-se. Tudo est bem agora. Deite-se e tente repousar um pouco.
-- No. Eu quero voltar para casa. Quero ver se tudo est bem. Preciso cuidar de minha
famlia.
-- Voc ainda no teve alta. Deve repousar.
-- Mas eu no estou doente. No pode me impedir de voltar para casa.
-- Acalme-se. Vou falar com o mdico e veremos. Por agora, deite-se e descanse.
-- Ele vir logo?
-- Vamos ver.
-- No suporto mais a saudade. Quero ver as crianas.
-- Verei o que posso fazer por voc. Meu nome  Lina. Se desejar alguma coisa,  s
apertar aquele boto. Mas lembre-se que precisa refazer-se. Quanto mais descansar,
mais depressa ficar boa.
-- Est bem. Vou esperar pelo mdico. Preciso ir para casa.
Elisa acomodou-se no leito, e Lina colocou a mo sobre sua testa, pedindo:
-- Feche os olhos e relaxe.
Elisa obedeceu. Das mos de Lina saam energias coloridas que penetravam o frontal de
Elisa e, dentro de alguns instantes, ela adormeceu.
Lina saiu, encaminhando-se para uma sala onde um homem de cabelos grisalhos e rosto
simptico, ocupava-se em ler atentamente um relatrio. Vendo-a chegar, levantou os
olhos e disse:
-- E ento?
-- Elisa acordou e como pensvamos, ela no recobrou a conscincia espiritual. Pensa
que est na Terra e quer voltar para casa, cuidar dos filhos etc.
-- Eu esperava isso.
-- O que pretende fazer?
-- Contar-lhe a verdade. Porm, antes  preciso que ela se fortalea um pouco mais.
Apegada como , o golpe poder desequilibr-la ainda mais.
-- Sinto que ela nos vai dar trabalho. No esperava o que lhe aconteceu. Precisei faz-la
adormecer para mant-la no quarto.
-- Vou tentar mant-la aqui. Ser melhor para ela. Se voltar para casa, difcil ser tir-la
de l novamente.
-- O que lhe direi quando acordar?
-- Que irei v-la. Tentarei conversar com ela. Avise-me quando for o momento.
-- Est bem.
Lina saiu, indo atender a outros pacientes. Naquele lugar de recuperao, havia sempre
muito trabalho a fazer e ela o desempenhava com dedicao e disposio. Estava
habituada aos problemas humanos. Muitos eram os que voltavam da Terra em doloroso
estado de perturbao, envoltos ainda pelos problemas que vivenciaram no mundo,
presos aos laos afetivos e  rotina que obedeceram durante muitos anos, no
conseguiam de pronto recuperar a memria astral.
S o tempo, despojando-os das energias e das formas pensamentos que alimentaram
durante tanto tempo, ia aos poucos fazendo a transformao, e era ali, naquele lugar de
recuperao, que
muitos estagiavam recebendo os recursos do esclarecimento e da ajuda energtica para
recuperarem a memria astral.
Elisa fora conduzida para l inconsciente, e Lina, sensibilizada pelo seu drama de me,
a tratara com excepcional carinho. Contudo, temia sua reao quando acordasse. Estava
atenta com ela, para ajud-la sempre que pudesse.
Elisa acordou horas mais tarde. Dessa vez, lembrou-se com mais facilidade do que lhe
acontecera. Apesar disso, no se lembrava do acidente. Por mais que tentasse, no
conseguia recordar-se a no ser da sua sada de casa em desespero, e as lgrimas
correndo pelo seu rosto, enquanto ela andava pelas ruas na escurido da noite.
Levantou-se apressada. Havia um armrio e ela o abriu. Estava vazio. Era estranho.
Olvia no lhe teria levado algumas roupas? Olhou-se no espelho. Claro. Ela estava com
outro vestido. No era o mesmo que vestira naquela noite para esperar o Eugnio.
Mas algum lhe trouxera aquele vestido. Teria sido o Geninho? Pensando nele, seu
corao abalou-se. Ele teria se arrependido? Claro. Ele a amava e amava a famlia.
Nunca iria deix-los. Sentiu saudades. Gostaria de saber tudo, abra-lo, dizer-lhe o
quanto havia sofrido s em pensar que ele pudesse ir embora.
E o mdico que no vinha? Ela estava impaciente. Resolveu aprontar-se para adiantar.
Mas no tinha nada em mos. Nem um pente sequer. Em cima da cmoda, havia uma
escova e ela apressou-se em escovar os cabelos. Depois, apertou o boto chamando
Lina.
A porta abriu-se e Lina apareceu, acompanhada pelo homem de meia-idade.
-- Este  o doutor Nelson -- foi dizendo ela. Elisa sorriu satisfeita:
-- Ainda bem que veio, doutor. Eu o estava esperando ansiosamente.
-- Como tem passado?
-- Muito bem. Depois deste repouso de hoje, acordei muito melhor. J posso ter alta e
voltar para casa. Gostaria de avisar minha famlia para vir buscar-me.
Nelson a olhou nos olhos e disse com voz firme:
-- Sinto, mas no poder fazer isso.
-- No? E por qu?
-- Porque aqui no temos meios para isso.
-- No? Afinal, onde estamos ns? Que lugar  esse to difcil assim?
Nelson tomou as mos de Elisa dizendo com simplicidade:
-- Sente-se, minha filha. Precisamos conversar. Vrias coisas se passaram e voc ainda
no pode voltar para casa.
-- Mas o que  isso? Por que me prendem aqui e me impedem de ver minha famlia? Eu
quero ver as crianas! No podem fazer isso! Eles so muito pequenos e precisam de
mim!
-- Ningum a impede de voltar para casa. Isso no depende de ns. Mas de onde ns
estamos agora, ningum pode voltar a Terra.
Elisa abriu os olhos desmensuradamente.
-- Como? Ns no estamos na Terra? Isso no pode ser. Vocs esto me enganando.
Por que fizeram isso comigo?
-- No fomos ns. Foi o acidente.
-- O acidente?
-- Sim -- disse Nelson olhando-a fixamente nos olhos.-- Voc no viu o automvel e
foi atropelada.
-- Atropelada? Eu?
-- Sim.
-- Meu Deus! O que aconteceu? Por acaso... me ajudem... digam-me... o que aconteceu
realmente?
-- Voc estava desesperada, chorava. Ao atravessar a rua, no viu o carro e foi
atropelada. Seu corpo morreu instantaneamente.
-- Meu corpo morreu... quer dizer que eu morri? -- gritou Elisa em desespero.
-- Sim -- disse ele com voz firme. -- Seu corpo morreu, mas voc vive. Seu esprito 
eterno.
-- Meu Deus! E agora, o que vai ser daquelas crianas? Quem cuidar delas? Eu as
deixei fechadas em casa e ningum sabia. Eu preciso ir l, ver como esto, o que
aconteceu!
-- J lhe disse que est tudo bem -- disse Lina procurando dominar a emoo. --
Olvia est com elas e Eugnio voltou para casa. Eles esto cuidando de tudo.
Elisa, banhada em lgrimas, torcia as mos em desespero.
-- No posso acreditar que isso seja verdade. No pode ser. Eu me sinto mais viva do
que nunca. Olhe, aperte meu brao, est como sempre foi. No v que eu estou viva?
-- Claro que est. Ns tambm. S que estamos em outro mundo. Em outra dimenso
de onde  muito difcil comunicar-se com a Terra.
-- No me conformo. Tenho que voltar, ver como as COISAS esto em casa. Meu Deus,
como posso abandonar minha famlia? Vocs no compreendem? Eu preciso ir l, v-
los, saber como esto.
Por favor, deixem-me ir.
-- Acalme-se e me escute -- disse Nelson segurando a mo gelada de Elisa,
procurando enviar-lhe energias calmantes.-- Agora, voc ainda no est bem. Aqui, ns
temos tratamentos especiais de recuperao e se nos ouvir, voc logo estar bem e ento
poder ir ajudar sua famlia. Mas agora como voc est, s iria perturb-los ainda mais.
-- No creio nisso. Eu nunca perturbaria minha famlia. Eu os amo. No posso esperar.
Eu preciso ir v-los o quanto antes.
-- Voc no sabe como os problemas podem se agravar se no se controlar.  preciso
lembrar que Deus cuida de tudo e confiar. Sem confiana em Deus e ajuda dos nossos
irmos maiores, no conseguir seno perturb-los ainda mais. Espere. Cuide do seu
equilbrio, depois ento poder ir ter com eles.
Elisa sacudiu a cabea negativamente:
-- No posso acreditar no que me dizem. Por alguma razo, querem impedir-me de
voltar para casa. Por favor! Entendam. Eu preciso ir. No posso ficar aqui.
-- Que interesse teramos em fazer isso? Estamos dizendo a verdade. Seu corpo morreu.
Agora, precisa conformar-se. Aceitar o que no tem remdio, equilibrar-se. Depois,
poder visitar sua famlia. Mas a permisso s  concedida quando voc puder suportar
essa emoo sem descontrolar-se. Ainda  muito cedo para isso.
Elisa abriu a boca e tornou a fech-la permanecendo em silncio por alguns instantes.
Depois disse:
-- Vou pensar no que me disse. Mas preciso sair deste quarto, andar um pouco.
Nelson trocou um olhar com Lina em silncio, depois tornou:
-- Poder sair, passear pelos nossos jardins, se se sentir bem.
-- Gostaria de saber que lugar  este.
-- Um hospital de recuperao para os que deixam a Terra -- respondeu Lina.
Elisa calou-se novamente pensativa.
Era-lhe difcil acreditar no que eles estavam lhe dizendo. Sentia-se viva. Apalpava-se e
tudo lhe parecia como antes. Teria tido alguma crise e sido internada em algum
hospcio? Tinha que verificar. Resolveu contemporizar.
-- Sinto-me bem. Posso dar uma volta?
-- Tem certeza de que pode fazer isso? -- indagou Nelson.
-- Tenho. Sinto-me muito bem.
-- Nesse caso, pode ir. Lina lhe far companhia. Se precisar de alguma coisa, me
procure. Estou aqui para ajud-la.
       -- Obrigada.
Nelson saiu e Elisa disse em seguida:
-- Tudo isto  muito estranho. Lina sorriu:
--  porque voc ainda no recuperou sua memria astral.
-- Memria astral? O que  isso?
-- As lembranas de antes de voc reencarnar na Terra.
-- Eu vivi antes disso?
-- Sim. Todos vivemos muitas vidas na Terra. No sabia disso? Nunca ouviu falar de
reencarnao?
-- J. Mas nunca acreditei. Parecia to fantstico!
-- Por qu? As transformaes so to naturais no universo! A vida  rica em
oportunidades de aprendizagem.
-- Mesmo assim. Se isso fosse verdade, eu me lembraria. Lina sacudiu a cabea e
sorriu:
-- O esquecimento  condio essencial para quem recomea uma nova experincia. O
apagar do passado descansa e favorece o desenvolvimento de novos aspectos da nossa
personalidade.
Pelos olhos de Elisa passou um brilho singular. Ela no est acreditando em nada disso
-- pensou Lina. -- Est querendo ganhar tempo e descobrir a verdade.
-- Venha, vamos sair um pouco. Quero que conhea o lugar onde estamos -- disse Lina
enfiando seu brao no dela.
Elisa acompanhou-a pensativa. Parecia-lhe estar sonhando. Andando pelos corredores,
passando por salas onde as pessoas circulavam, algumas trabalhando, outras sendo
atendidas, olhava tudo atentamente, na esperana de encontrar a chave do mistrio.
Estava em um hospital, disso no tinha dvida. Mas os mveis e os aparelhos eram
diferentes dos que conhecia.
Deram uma volta pelos jardins que cercavam o edifcio, e Elisa aspirou gostosamente o
ar leve que circulava por entre as rvores frondosas. O lugar era lindo e acolhedor. Ela o
apreciaria se no estivesse to preocupada. Tinha que fugir dali o quanto antes,
descobrir a verdade. Voltar para casa e saber como as crianas estavam. Por que a
retinham ali? Estaria prisioneira? Andando pelos jardins, embora dissimulando seus
verdadeiros pensamentos, seus olhos percorriam todos os detalhes na esperana de
encontrar um lugar por onde pudesse escapar.
Os muros eram altos e os pesados portes, fechados. Contudo, ela precisava sair. Fingia
ouvir com ateno os comentrios de
Lina sobre os costumes e benfeitorias do local onde se encontravam, mas sequer
entendia o que ela estava dizendo. Seu pensamento buscava uma sada.
Quando voltaram ao quarto de Elisa, Lina despediu-se dizendo:
-- Tente repousar um pouco. Far-lhe- bem.
-- Estou acostumada a trabalhar. No gosto de ficar sem nada para fazer.
-- Agora precisa recuperar-se. Assim que melhorar, poder ocupar-se com o que
desejar. H muitas coisas interessantes para fazer aqui.
Elisa concordou. Lina saiu  procura de Nelson:
-- E ento? -- indagou ele.
-- Ela est fingindo. No acreditou em nada do que lhe dissemos. Procura uma forma
de fugir. No sei se conseguiremos mant-la conosco. No teremos alguma maneira de
ajud-la?
-- Se ela resolver ir embora, nada poderemos fazer.
-- Se ela fizer isso, vai sofrer ainda mais. Perturbada e infeliz, sem uma viso
esclarecida da realidade espiritual, difcil ser equilibrar-se.
Nelson pensou um pouco e depois respondeu:
-- Est na hora de voc compreender que a dificuldade, tanto quanto o problema e a
dor, existem para solucionar as feridas da alma. Eles no so obstculos, como nos
parecem s vezes, mas ferramentas para o amadurecimento do esprito. Aparecem em
nosso caminho para resolver os impasses e permitir que alcancemos dias melhores e
mais felizes. Por isso, se no conseguirmos reter Elisa e ela se for, certamente ser
porque ela necessita experimentar outros caminhos. Vamos manter a calma e sustentar a
nossa paz.
Lina baixou a cabea. Nelson tinha razo. Decidida, foi a seu quarto e entregou-se a
meditao por alguns minutos. Quando saiu, sentia-se renovada e serena.
Elisa, em seu quarto, no conseguia dominar a ansiedade. Por que sara naquela noite,
por qu? Teria mesmo sido atropelada? Por que no se lembrava de nada?
Estendeu-se no leito e pensou nas crianas. Recordou a fisionomia de cada um com
saudade e tristeza. Ah! como gostaria de estar l ao lado deles, abra-los e beij-los.
Sentiu um aperto no peito ao pensar em Nelinha. To pequenina ainda! Reviu seu
rostinho amado e nesse instante pareceu v-la em lgrimas dizendo:
-- Me, por que voc no vem? Eu quero voc!
Seu rostinho angustiado apareceu em sua frente e Elisa,
tomada de emoo e desespero, gritou aflita:
-- Filha, eu j estou indo. Eu nunca os deixarei!
E tal foi a fora do seu pensamento, que Elisa sentiu que estava abraando Nelinha e
misturando suas lgrimas com as dela. Contudo, a menina no retribuiu seu abrao.
Continuou chorando e Olvia aproximou-se, tomando-a nos braos com carinho,
dizendo:
-- Eu estou aqui. Vou tomar conta de voc.
Por entre lgrimas, Elisa olhou em redor. Que milagre era aquele? Estava em sua casa!
Exultou de felicidade! Ela havia voltado. Os problemas haviam se acabado, ela voltara
para assumir novamente o comando da famlia.
Aproximou-se de Olvia abraando-a com alegria.
-- Olvia, estou aqui. Voltei para tomar conta da minha famlia. Tudo est bem agora.
Olvia pareceu no v-la. Reuniu as crianas e com carinho sentou-se com elas no sof,
conversando amorosamente.
-- Tia, eu quero minha me! -- choramingou Nelinha. Elisa correu abra-la, dizendo:
-- Filha, eu estou aqui.
Olvia, olhos brilhantes de emoo, tentando segurar as lgrimas, sentou-se no sof e
ps Nelinha no colo, enquanto os outros dois sentavam-se a seu lado, e foi dizendo:
-- Eu j disse que isso  impossvel! Ela est no cu e no pode voltar. Mas eu estou
aqui e nunca vou deixar vocs.
Elisa olhava-os aturdida. Seus olhos estavam abertos e seu corao batia
descompassadamente como se quisesse sair do peito. Falavam dela! Seria verdade
mesmo? Ela teria morrido? Ao pensar nisso, ficou apavorada, sentiu uma onda de
fraqueza e desfaleceu.
Quando acordou, j era noite e as luzes na rua estavam acesas e a casa s escuras. A sala
estava vazia. Angustiada, lembrou-se do que lhe acontecera. Nelson teria dito a
verdade? Ela estaria mesmo morta? Em sua casa ningum a vira e por mais que tentasse,
no responderam s suas palavras.
Passou a mo pelos cabelos em um gesto de desespero. O que fazer? A casa estava
silenciosa, e ela subiu e verificou que todos estavam dormindo. A quem recorrer para
saber a verdade? Ela no queria sair dali, voltar ao hospital. Nem sequer sabia como
fazer isso. No entendia como conseguira voltar para casa. O relgio da sala deu as doze
badaladas.
--  meia-noite! E Eugnio, por que no est em casa? Teria mesmo ido embora?
Mil pensamentos tumultuados passavam pela cabea de
Elisa, sem que ela encontrasse resposta. Sentou-se ali, na sala, tentando encontrar uma
soluo. Passava da uma quando ouviu a porta se abrir. Eugnio entrou. Elisa atirou-se
em seus braos, abraando-o com fora e chorando copiosamente.
-- Geninho, voc no foi embora! Voc est aqui. Meu bem, me ajude. O que posso
fazer para acordar desse pesadelo terrvel?
Eugnio olhou com tristeza para a sala em penumbra e lembrou-se de Elisa. Aquilo sim
que era mulher! Como era amorosa, cuidadosa, ordeira. Em casa tudo estava sempre to
arrumado e em ordem!
Angustiado, pareceu-lhe v-la circulando por entre os mveis em seus afazeres
cotidianos. Dirigiu-se  cozinha, encheu um copo de gua e tomou procurando acalmar-
se.
Elisa, abraada a ele, dizia em lgrimas:
-- Por favor! Me diga o que aconteceu. Que tragdia  essa que se passou comigo que
me separou de vocs! Eu no quero isso! Eu preciso voltar, cuidar da minha famlia! Por
favor, Eugnio, faa alguma coisa. Me ajude!
Eugnio no conteve as lgrimas.
-- Por que acontecera aquele acidente? Por qu? Por que Elisa tinha morrido to jovem,
to cheia de vida, to boa?
Elisa, sentindo o pensamento dele, murmurou desesperada:
-- Ento  mesmo verdade. Eu morri naquele acidente! Meu Deus! Que horror! O que
ser de mim agora? O que ser dos meus filhos, do meu lar?
Eugnio tentou dominar-se e dirigiu-se ao seu quarto. Vendo que o sono no vinha,
apanhou um comprimido, tomou e conseguiu finalmente adormecer. Elisa, no entanto,
estirada sobre ele na cama do casal, chorava inconformada e por mais que procurasse
dominar a emoo, no fazia outra coisa seno pensar, pensar, pensar.

Captulo 6

No dia seguinte, pela manh, Elisa viu quando Eugnio se levantou e saiu para o
trabalho. Ela no o acompanhou. Preferia ficar em casa para saber como estavam as
coisas.
Olvia acordara antes das sete, para receber a nova empregada. Assim que a viu, gostou
dela. Pouco mais de vinte anos, rosto redondo e agradvel, sorriso franco e acolhedor.
Ao abraar as crianas, seus olhos umedeceram, e Olvia sentiu que ela tinha bom
corao e certamente se afeioaria a elas. Era um bom comeo.
Eugnio sara cedo e ela, sentada na mesa do caf, sentia-SE indecisa e triste. Queria ir
embora, cuidar de sua vida, pensava que Eugnio deveria assumir definitivamente sua
posio de pai e, se ela continuasse ali, ele certamente no o faria. Mas, por outro lado,
deixar as crianas com uma pessoa desconhecida, ainda que boa, mas estranha, era-lhe
sumamente difcil.
Elisa aproximara-se dela e podia perceber-lhe os pensamentos com nitidez. Sentiu-se
angustiada. Olvia pensava em ir embora. O que seria de sua famlia? Abraou-a com
carinho e disse-lhe ao ouvido:
-- Por favor! No os abandone. Fique mais um pouco. Eles vo sentir sua falta! Ah! Se
eu pudesse estar a... Lgrimas corriam pelo seu rosto em desespero.
Embora Olvia no lhe registrasse a presena, sentiu-se muito aflita e triste. Lgrimas
desciam-lhe pelas faces enquanto ela pensava:
-- Isso no podia ter acontecido. Por que Elisa se foi? Por que no fui eu em vez dela?
Marina apareceu na copa e Olvia tentou disfarar. Mas a menina percebeu.
-- Tia, voc tambm est com saudades da mame! Olvia abraou-a procurando
engolir o pranto e respondeu
tentando controlar a voz:
-- Estou, meu bem. Mas vai passar. A Elvira vai morar aqui, cuidar de vocs.  uma
moa boa e vocs vo gostar muito dela.
-- Ela nunca vai ficar no lugar da mame.
-- Certamente, meu bem. Elisa estar para sempre em nosso corao. Contudo, ela no
est mais aqui e ns precisamos ser prticos. Vocs precisam de companhia. Eu preciso
trabalhar.
Marina pegou as mos da tia, dizendo angustiada:
-- Voc no vai embora, vai? Voc no vai nos deixar agora, vai?
Olvia abraou-a com fora. Fez grande esforo para conter a emoo. O que estava
acontecendo com ela? Nem nos primeiros dias se sentira to triste e angustiada. Estava
ali para acalmar as crianas e no para perturb-las ainda mais. Por isso, disse com voz
que procurou tornar firme:
-- No. Eu no vou embora agora. Ficarei mais algum tempo.
-- Voc disse ao papai que iria embora segunda-feira.
-- Eu disse, mas mudei de idia.
Marina beijou o rosto da tia repetidas vezes:
-- Que bom! Que bom! Eu estava com tanto medo!
-- Que bobagem. Eu nunca abandonarei vocs. S irei embora quando tudo aqui estiver
resolvido.
-- Tia, eu ouvi papai dizer que queria trazer aquela mulher para morar aqui.
Olvia indignou-se:
-- Ele nunca far isso. Jamais permitirei!
Elisa assustou-se. Ento era mesmo verdade! Geninho tinha outra mulher! Pretendia
coloc-la em seu lugar.
Indignou-se! Eugnio no s a trara, como agora pretendia trazer a outra dentro de sua
casa! Isso, ela no permitiria. Ainda bem que Olvia era da mesma opinio. Aproximou-
se dela dizendo-lhe com raiva:
-- Olvia, no permita que ele faa isso. Eu no quero! Voc no pode permitir. Reaja.
No o deixe fazer isso!
-- Se voc for embora, ele pode traz-la para c.
-- Eu vou trabalhar porque preciso, mas estarei sempre aqui. Ele nunca far isso.
Elisa decidiu ir procurar Eugnio. Foi para a rua e sentiu-se um pouco tonta. Precisava
ter foras. Sua famlia estava em perigo e ela deveria defend-la. Passou por uma praa
e sentou-se um pouco em um banco, respirando fundo na tentativa de recompor suas
energias. Aos poucos, foi se sentindo melhor. Decidida a procurar o marido,
 tomou um nibus e dirigiu-se ao escritrio dele.
Foi encontr-lo indisposto e nervoso. Ela no estava interessada nos problemas
profissionais dele, mas sim em descobrir o que ele pretendia fazer com a famlia.
Aproximou-se dele chamando-o vrias vezes. Tudo intil. Por mais que tentasse, ele
no deu sinal em registrar sua presena. Desanimada, ela deu livre curso a sua dor
dizendo-lhe com amargura:
-- Voc no podia fazer isso comigo! Eu sempre o amei e fui fiel. Dei-lhe os melhores
anos de minha juventude, o melhor de mim, dediquei-me de corpo e alma a nossa
famlia, e voc me trocou por outra pessoa, eu, a me de seus filhos. Que ingratido!
Eugnio lembrou-se de Elisa e sentiu uma ponta de arrependimento. Talvez ele
houvesse sido precipitado. Se tivesse esperado um pouco mais, talvez a tragdia no
houvesse acontecido.
Vendo que de alguma forma ele pensava nela, Elisa exultou. Eugnio no registrava
suas palavras, mas podia perceber seus sentimentos. Abraou-o chorosa, dizendo:
-- Voc est arrependido! Ainda se lembra de mim com saudade. Cuide dos nossos
filhos. Essa mulher no merece seu amor. Ela  uma estranha. Jamais os amar como
ns os amamos. Se voc est mesmo arrependido do que fez, acabe com esta histria de
uma vez. Eu no vou permitir que a leve para nossa casa junto com nossos filhos. Isso
nunca!
Eugnio sentia a cabea tumultuada e muita incerteza quanto ao futuro. No sabia que
atitude tomar. Se Olvia fosse embora, o que faria? A empregada no ficaria durante a
noite e ele teria que ir embora cedo, ficar com as crianas. Eunice no concordaria. Mil
pensamentos ocorriam-lhe sem que encontrasse uma soluo satisfatria.
Ficou assim o dia inteiro e, ao sair do escritrio, no teve vontade de ir ver Eunice nem
de enfrentar Olvia. Foi quando encontrou Amaro e resolveu desabafar.
Elisa no arredara p. Sempre fora muito ingnua e tivera uma f cega no marido.
Nunca desconfiara que ele tivesse uma amante. Agora, livre, sem ser vista por ele,
queria satisfazer a curiosidade. Precisava saber o que ele fazia quando no estava em
casa.
Percebera que quando se aproximava dele e colocava sua ateno, conseguia ouvir seus
pensamentos com nitidez. Enquanto eles conversavam no bar, ela, sentada na mesa,
ouvia-os com curiosidade. De repente, um homem de meia-idade aproximou-se dela
dizendo com amabilidade:
-- Como vai, Elisa?
Assustada, ela fitou-o e no respondeu. Ele podia v-la! Ele continuou:
-- Sou amigo do Amaro. Me chamo Amlcar. No se assuste. Sou igual a voc. J vivi
encarnado na Terra, mas meu corpo morreu.
-- Ah! -- fez Elisa admirada. -- Eu ainda custo a acreditar. Eu morri mesmo?
-- Seu corpo morreu. Mas voc est mais viva do que nunca.
-- Seria melhor eu ter desaparecido mesmo. Talvez sofresse menos -- disse ela com
amargura.
-- Voc sofre, porque no quer aceitar as coisas como so.
-- No posso. Fui trada, arrancada de minha casa, dos meus filhos que so pequenos e
precisam de mim. Pode haver desgraa maior?
Ele olhou-a firme nos olhos enquanto dizia:
-- Deus cuida de tudo com amor e no cai uma folha da rvore sem sua vontade.
-- No penso assim. Eu nunca fiz mal a ningum, sempre fui boa filha, boa esposa, boa
me. Porque aconteceu essa desgraa comigo?
-- Nada acontece sem motivo justo. Um dia, voc vai descobrir a razo do que lhe
aconteceu. Eu tenho estudado esses assuntos e posso garantir que a vida  bondosa e
justa. Ns  que no enxergamos as coisas como so.
-- No posso concordar.
-- Por que no vem comigo? Gostaria que conhecesse o lugar onde eu vivo. Temos
muitos amigos e o ambiente  acolhedor. L, tenho a certeza de que voc ficaria muito
bem e poderia mais tarde ajudar sua famlia.
-- No posso. Agora estou muito preocupada com o destino de meus filhos. Meu
marido tem outra mulher e pretende lev-la tomar conta deles.
-- J que voc no pode, talvez ela possa ajud-la nisso.
-- Deus me livre! A amante do meu marido! Enquanto eu me dedicava ao trabalho do
lar, me desvelando em cuidados com a famlia, ela me apunhalava pelas costas,
roubando o marido. Voc no sabe, mas eu estou aqui porque ele me abandonou, para ir
ao encontro dela. Foi isso que me deixou sair  rua como louca e morrer sob as rodas de
um carro. A traio di, principalmente se injusta.
Ele olhou-a fixamente enquanto dizia:
-- Se voc vier comigo, se poupar de muito sofrimento.
-- No posso. Obrigada pelo convite. Sinto que tem boa inteno, mas agora no d
para sair daqui.
Vendo que Eugnio e Amaro se despediam e saam do bar, finalizou:
-- Vou ficar com ele. Quero ver o que ele vai decidir.
Adeus.
Eugnio chegou em casa e percebeu que tudo estava mais limpo e arrumado. Lembrou-
se da empregada nova. Sentiu saudades de Elisa. No quarto, quando Eunice telefonou
aconselhando-o a internar as crianas, Elisa, que ouviu tudo, vibrou de indignao.
Aquela mulher era perigosa e perversa.
Quando Eugnio desligou o telefone, Elisa abraou-o dizendo-lhe ao ouvido.
-- No faa isso. Eu no vou permitir. Estarei vigilante. Essa mulher no vai mais
destruir minha famlia.
Ele pensou:
-- No posso fazer isso. Marina me odiaria ainda mais. No. Vou arranjar outra
soluo.
Eugnio sentia-se triste e desanimado. Por que acontecera tudo aquilo, por qu? Seus
olhos encheram-se de lgrimas. E ele pensou:
-- Estou ficando fraco, chorando  toa.
No leito, o sono no vinha e ele, por fim, amargurado e pensando no horrio do dia
seguinte, tomou um calmante e finalmente conseguiu adormecer.
Elisa ficou ali, sem saber o que fazer. Deitou-se ao lado dele como fazia antes e
procurou descansar. Sentia-se abalada, triste, revoltada. Ela no merecia esse
sofrimento. Mas a quem recorrer? Sabia que quem morre no pode voltar  vida.
Precisava aceitar isso, mas no conseguia.
Talvez Nelson pudesse ajud-la, mas ele com certeza no a deixaria ficar ali. Quisera
impedi-la de ver a famlia. Nisso, ela no transigia. Tinha que defender seus filhos.
Aquela mulher certamente iria aproveitar-se da situao. Ainda bem que Olvia estava
l, em seu lugar, para impedi-la de fazer isso.
Lembrou-se de Olvia. Ela tentara muitas vezes abrir-lhe os olhos. Saberia de alguma
coisa sobre o Geninho? Talvez ele j houvesse tido muitas aventuras amorosas e ela,
ingnua e confiante, nunca soubera de nada. Como fora boba! Bem que Olvia tentara
mudar-lhe a maneira de ser.
Ela se dedicara totalmente ao lar e ao marido. Nunca imaginara que ele pudesse
procurar outra mulher. Ela fazia tudo quanto
ele queria. S vivia para ele, suas roupas eram impecveis, a comida, caprichada,
quando ele solicitava, ela estava sempre pronta para fazer-lhe carinhos. Nunca se negara
ao dever sexual. No entendia por que ele tivera outras mulheres.
Agora, no tinha mais dvidas. Ele sempre tivera outras mulheres. Claro! Saa sempre
perfumado, voltava tarde da noite, ningum trabalhava at to tarde. Ela fora muito
estpida. Enquanto ela se acabara nos trabalhos domsticos e cuidando dos filhos,
poupando dinheiro para poderem melhorar de vida, ele continuava elegante, bem-
disposto, vestindo-se melhor a cada dia, comprando carro de luxo. Certamente, isso
contribua para que as mulheres interesseiras o disputassem.
Lembrou-se do dia em que ele lhe dissera que gostava de outra. Ela se olhara no espelho
e verificara o quanto estava diferente da Elisa com a qual ele havia se casado. Como
fora burra e imprevidente.
Sentou-se no leito e, olhando Eugnio que dormia, pensou:
-- Ele est muito mais moo do que eu.
Apesar da tristeza, Elisa de repente sentiu certa satisfao. Ele estava sentindo sua falta.
Claro. Nenhuma outra seria to tola quanto ela. Agora, ele ia aprender a valoriz-la. Era
um consolo, apesar de tudo.
Um pouco mais calma, deitou-se novamente procurando descansar. No dia seguinte iria
com ele, no podia descuidar. Precisava saber o que ele pretendia fazer.
Na manh seguinte, quando Eugnio se levantou, encontrou a mesa posta para o caf e
Elvira, vendo-o preparar-se para sair, aproximou-se timidamente.
-- Seu Eugnio, D. Olvia mandou preparar o caf para o senhor. Eu fiz tudo como ela
mandou. Pode me dizer como o senhor prefere que eu faa.
Ele passou os olhos pela mesa posta e respondeu:
-- Est bem.
Ele sentou-se e tomou caf preto, comeu um po com manteiga. Sentia-se mais
confortado. Afinal, algum se interessara em cuidar do seu bem-estar. Ainda que fosse
uma empregada, era confortante depois de tantos dias comendo fora. Claro que no era
como Elisa. Isso ningum faria igual. Ela colocava flores no pequeno vaso de cristal,
tirava a casca do queijo como ele gostava, esquentava o po. Fazia bolo de chocolate.
Suspirou conformado. Afinal, precisava continuar vivendo. E j que estava pagando
uma fortuna para a moa, tinha todo o direito
?
de usufruir de conforto dentro de casa.
-- D. Olvia disse que o senhor no almoa em casa. Antes de ir embora, deixarei o
jantar pronto. Se o senhor vier antes das oito, eu poderei servi-lo. Seno, deixarei a
mesa posta e tudo pronto. As crianas estaro bem cuidadas, pode ficar descansado.
-- Obrigado. Como  mesmo seu nome?
-- Elvira.
-- Est bem, Elvira. Diga-me. Sou um homem muito ocupado e no posso vir para casa
antes das oito. No seria possvel voc dormir aqui e ir para casa nos fins de semana?
Ela baixou a cabea envergonhada.
-- Minha me no deixa, seu Eugnio. Meu pai nem queria que eu viesse trabalhar aqui,
porque o senhor  vivo. Ele deixou, porque a Alzira  muito amiga de nossa famlia e
garantiu que eu podia vir, que o senhor  pessoa de bem. Mas sabe como , dormir 
noite, ele no vai deixar, no. Se eu falar nisso, ele no me deixa mais vir.
Eugnio suspirou irritado:
-- Isso  bobagem. Eu deveria me ofender.  muita ignorncia da parte dele. Mas por
agora no posso dizer nada. Quem sabe se daqui algum tempo, me conhecendo melhor,
ele mude de idia.
Ela abanou a cabea dizendo:
-- Vai ser difcil.
Eugnio saiu pensando o quanto aquele homem era ignorante. Tudo que se faz  noite
poderia ser feito de dia. Mas decidiu no tentar convenc-lo. Se lhe dissesse isso, ele at
poderia no deixar Elvira ficar nem de dia. Apesar de tudo, era um bom comeo. Pelo
menos poderia comer em casa e as crianas estariam bem cuidadas. Depois, veria o que
fazer. Estava disposto a procurar algum que pudesse dormir no emprego. Talvez uma
senhora de idade que no se preocupasse com problemas morais.
Chegou ao escritrio um pouco indisposto. Apesar das coisas estarem caminhando
melhor, ele se sentia inquieto e inseguro. O corpo pesado e a cabea confusa.
-- Preciso me cuidar -- pensou. -- Estou deprimido e preocupado. Se no melhorar,
irei ao mdico. Afinal, apesar de tudo, preciso tocar a vida pra frente. As crianas
precisam de mim. Vou reagir. No posso me entregar ao desnimo. At meu trabalho
tem sido prejudicado. Isso no pode continuar.
Decidido, Eugnio mergulhou no trabalho procurando resolver os problemas e arranjar
novos negcios. Essa atitude fez-lhe bem
e no fim do dia sentia-se melhor. Quando Eunice ligou, ele estava bem-disposto.
-- Fiz um jantar caprichado para ns. Aquele doce que voc gosta. Estou morrendo de
saudades!
-- Eu tambm -- disse ele. -- Irei logo que puder.
Elisa, sentada em uma poltrona, ouvindo-o dizer isso, interessou-se. Durante todo o dia,
ele se ocupara de tal forma que ela no pudera envolv-lo. Tambm no estava
interessada no trabalho dele. No gostava do que ele fazia. Havia coisas mais
importantes para ela pensar. Por isso, sentara-se l, aguardando o momento em que ele
terminasse os afazeres do dia.
Quando Eugnio guardou tudo, preparando-se para encerrar o expediente, Elisa
imediatamente postou-se a seu lado. Vendo-o ir ao banheiro lavar-se e arrumar-se com
capricho, perfumar-se, sentiu aumentar sua raiva.
Enquanto ela ficava em casa trabalhando, cuidando das coisas para ele, o ingrato a
enganava. Tinha tudo organizado naquele banheiro. At algumas camisas para trocar.
Como  que ela nunca percebera isso? Como fora cega! Agora, iria at o fim. Embora
doesse, era preciso conhecer a verdade. Ficaria de lado, sem intervir. S para observar.
Quando chegaram ao apartamento de Eunice, e Eugnio tirou a chave do bolso e abriu a
porta, ela fez fora para se dominar. O malandro tinha at chave! Curiosa, olhou para
Eunice que, insegura com a situao, caprichara na arrumao. Ficou cega de cime.
Ela era jovem e bonita. Estava maquiada, bem penteada, cheirosa e bem vestida.
Elisa sentiu-se arrasada. Ela estava acabada, plida, mal-arrumada, com as mos
maltratadas pelos servios domsticos. Claro que Eugnio preferia a outra. No fundo, no
fundo, ela era a culpada de tudo. Fora ingnua demais. Nenhuma mulher teria feito o
que ela fizera. Bem que Olvia tentara preveni-la!
Eugnio abraara e beijara Eunice que, disposta a reconquist-lo, o envolvia com
carinho e amor. Foram para a sala abraados e sentaram-se no sof. Depois de alguns
beijos, Eunice disse com doura:
-- Estava morrendo de saudades! Voc ficou dois dias sem me ver! Desde que nos
conhecemos, foi a primeira vez.
-- No foi por gosto, pode crer. Eu tambm senti saudades. Mas a situao agora 
outra. Eu preciso de um tempo para resolver os problemas dos meus filhos.
-- Tenho a certeza de que voc vai resolver tudo da melhor
forma. Voc sempre faz tudo to bem!
Ele sorriu envaidecido. Naqueles dias em que se sentia culpado com o que acontecera,
ser elogiado era um presente do cu.
-- Obrigado, meu bem. De fato, as coisas l em casa agora esto melhores. Mas ainda
no esto completamente resolvidas.
-- A questo da empregada...
-- . Por enquanto Olvia ainda est l, o que de certa forma  um sossego. Mas ela
disse que vai embora na segunda-feira. A, se eu no arranjar outra empregada que
durma no emprego, terei que Ir para casa antes das oito, todas as noites.
Eunice franziu o cenho:
-- E quando iremos nos ver? No pensou nisso?
-- Pensei.  s no que tenho pensado. Tambm no me agrada ficar preso em casa.
Nunca fui tolhido em minha liberdade.
-- Nem pode. Tomar conta de criana  servio de mulher.
-- Tambm acho. Mas, por enquanto, vou tentar segurar olvia o mais que puder. As
crianas gostam dela e ficam calmas quando ela est por perto.
-- A melhor soluo seria elas irem morar com a tia de uma vez.
-- J propus isso a Olvia. Que ela viesse morar em minha casa e eu sustentaria as
despesas. Ela poderia alugar o apartamento, teria mais renda e nenhuma despesa. Eu me
mudaria de l.
-- E ela?
-- Recusou. Disse que os filhos so meus e eu  que tenho a responsabilidade de cuidar
deles.
-- Que falta de caridade! E ela ainda diz que gosta das crianas!
-- Ela gosta das crianas, ela no gosta  de mim. Faz tudo para complicar a minha
vida. Ela me odeia. Faz tudo para nos impedir de ficarmos juntos. Eu no tive culpa de
nada, mas ela pensa o contrrio. Diz que sou culpado pela morte de Elisa. Mas voc
sabe que eu nunca pensei que pudesse acontecer essa tragdia. Eu amo voc, mas no
desejava mal a Elisa. Ela sempre foi muito bondosa, uma mulher igual a ela  difcil.
-- Mas voc no a amava mais.  de mim que voc gosta. Tinha que tomar uma atitude.
Isso, ela no entende!
-- Tanta gente se separa e no acontece nada. Eu me pergunto, por que aconteceu isso
comigo?
Plida, amargurada, nervosa e irritada, Elisa ouvia tudo, tentando controlar-se para no
avanar para eles dando vazo  raiva que sentia. Ele no a amava, e ela se apagara para
que ele
brilhasse. Que horror! Eugnio era egosta e traidor. No merecia todo amor que ela lhe
dera, nem a dedicao, nem a famlia que construra.
-- Essa pergunta ningum pode responder -- disse Eunice pensativa. -- J pensou no
que eu lhe disse? Um bom colgio seria ideal! Essas crianas precisam de boa educao
e dos carinhos de uma mulher. Voc precisa trabalhar e deix-las com pessoas no
capacitadas pode prejudic-las muito. Um bom colgio, boa alimentao, bons estudos,
e quando estiverem crescidos, enfrentaro melhor a vida.
Eugnio meneou a cabea dizendo indeciso:
-- No sei, no. Marina est muito revoltada e isso iria afast-la mais de mim. Eu amo
meus filhos, voc sabe disso. Aos poucos, com o tempo, guardo a esperana de que
possamos vir a formar uma boa famlia. Se a conhecessem melhor, eles aprenderiam a
gostar de voc, tenho certeza.
Eunice tentou desconversar. Ela no gostava de crianas e no pretendia assumir esse
compromisso.
-- Eles nunca me aceitaro. Olvia no deixaria.
-- Isso  verdade. Mas com o tempo, Olvia tambm se esquecer. Podemos nos mudar
para o Rio de Janeiro. Tenho pensado nisso. H boas possibilidades de negcios para
mim no Rio. Ofereceram-me excelente oportunidade. Eu iria para l, arranjaria casa,
empregada, levaria as crianas e depois voc iria tambm. Olvia no precisaria saber.
Elisa levantou-se de um salto. Ele urdira esse plano e ela no ia permitir. Moveria cus e
terra para impedi-lo. Agora, ela no era mais ingnua, nem o amava como antes. As
cenas que presenciara revelaram o verdadeiro Eugnio. Ele estava longe de ser aquele
moo bom, apaixonado e honesto que imaginara. Era falso, interesseiro. Mas ele no ia
envolver seus filhos naquela farsa. Ela estava ali para fazer justia. No abandonaria
seus filhos nas mos dele. Ela havia mudado e o faria pagar caro por tudo quanto estava
sofrendo.
-- No se precipite, meu bem -- aconselhou Eunice que no tinha nenhuma inteno
de se mudar para o Rio de Janeiro naquelas condies. -- Se perder dinheiro, sua
situao pode piorar ainda mais.
-- Isso . Mas tenho certeza de que o negcio  bom.
--Vamos esquecer as preocupaes e relaxar. Vou preparar aquele aperitivo que voc
gosta.
Elisa no perdia nenhum movimento deles. Enquanto Eugnio sorvia o aperitivo
colocando-se  vontade, Eunice esquentava
O Jantar. Elisa aproximou-se dela na cozinha, tentando perceber-lhe os pensamentos.
 -- Ele  que pensa que eu vou cuidar daquelas crianas! Nunca! Eu no tenho essa
obrigao. Se ele pensa que eu sou trouxa como a mulher dele, est muito enganado.
Comigo no  assim, no. Era s o que me faltava! Logo eu que detesto crianas! Ele
que suma com elas, ponha no colgio, faa o que quiser, desde que nno venha pro meu
lado. Acho que ele  po-duro. Sempre fala em dinheiro. No quer pagar as despesas
das duas casas.
-- Ele quer usar voc, como fez comigo! Se voc deixar, vai ser enganada como eu fui!
No seja burra! -- sussurrou Elisa em seu ouvido.
Eunice pensou:
--Vou dar mais um tempo. Se ele insistir nisso, abro o jogo. Se me quiser, tem que ser
assim. Ele quer  me usar, mas isso no vai conseguir. Burra, eu no sou.
Elisa sorriu satisfeita. Ela pegara suas idias com mais facilidade do que Eugnio.
Continuou:
-- Isso mesmo. Reaja. No aceite esse encargo. No serve para voc. Em pouco tempo
estar acabada como eu, e ele a trocar por outra.
Eunice pensou:
-- Eu no sirvo para me de famlia. Em pouco tempo estaria destruda. A, ele me
trocaria por outra. Comigo no! Quero ser sempre a primeira, namorar, sair, passear,
sem os encargos de famlia.
Durante o jantar servido a luz de velas, os dois continuaram se tratando com carinho,
mas Elisa percebeu que nenhum deles estava sendo sincero. Enquanto Eugnio tentava
envolver Eunice em seus planos, pensando em diminuir as despesas e arranjar uma
substituta para Elisa, Eunice fazia exatamente o contrrio.
Elisa sentia-se calma, achando que o fato de poder estar ali sem que percebessem e
captar o que eles estavam pensando, dava-lhe vantagens que haveria de utilizar para
realizar seus propsitos. Estava firme e encorajada, mas, quando os viu aos beijos
dirigirem-se para a cama, no suportou. Aquela cena ainda era muito forte para ela.
Sabia que eles eram amantes, mas v-los praticar os jogos amorosos era demais. Sem
poder conter-se, atirou-se sobre Eugnio com violncia gritando enraivecida:
-- Bandido, traidor! Covarde. Voc no vai mais fazer isso. Eu no vou deixar. Voc
vai pagar caro o que me fez.
De repente, Eugnio empalideceu e sentiu falta de ar. Sentou-se
na cama assustado.
-- O que foi? -- indagou Eunice.
-- No sei. De repente, faltou-me o ar. Sufoquei. Parece que vou morrer! Apanhe um
copo de gua, por favor.
Meia despida, Eunice correu e trouxe gua. Eugnio bebeu alguns goles. Respirando
fundo, ele disse:
-- Estou com frio, sinto arrepios, parece que estou com febre. Voc tem termmetro em
casa?
-- No. Eu nunca precisei. Ele respirou com fora:
-- Me arranje um cobertor. Estou tremendo. Ela obedeceu. Ele tremia, estava plido.
--Sinto nuseas. O jantar estava bom, mas ser que no havia nada estragado? Ela
irritou-se:
-- Claro que no! Onde j se viu? Voc sabe como sou escrupulosa com as coisas. A
comida, eu garanto que no foi. S se voc comeu alguma coisa antes de vir para c, em
algum bar.
-- No comi nada. Voc tem sal de frutas? Parece que meu estmago parou de
funcionar.
-- Vou buscar.
Braos cruzados, colada a ele, Elisa observava. Se dependesse dela, ele nunca mais teria
relaes com aquela perversa. Eles a haviam subestimado. Ela no era mais a ingnua
de outros tempos. Tinha todo o direito de reagir. A culpa era deles. No fora ela quem
comeara aquela briga.
Elisa abraou-o, enquanto dizia-lhe ao ouvido:
-- Voc est fraco. Agora sou eu quem manda. Vai me obedecer, fazer tudo quanto eu
quiser. Nunca mais vai pensar em levar essa mulher para nossa casa. Ela no serve para
voc. No gosta de crianas,  malvada e ftil.
Eugnio tomou o sal de frutas em silncio. Depois de alguns instantes, Eunice
aproximou-se solcita perguntando:
-- Ento, sente-se melhor?
-- Me deixe um pouco quieto. No pode calar a boca? Eunice olhou-o assustada. Ele
nunca lhe falara daquela forma. Saiu dali e vestiu um robe, dirigindo-se  cozinha.
Apanhou uma xcara de caf, acendeu um cigarro e sentou-se pensativa. Eugnio estava
mudado. No era mais o mesmo. A cada dia se tornava mais desagradvel. Ela era
jovem, bonita, cheia de vontade de viver. Pensara haver encontrado um companheiro
para desfrutar a vida, e acabara por descobrir um homem cheio de compromissos e
problemas,
 po-duro, interessado em escraviz-la a uma vida enfadonha e
desagradvel.
--      Ela precisava pensar melhor. Talvez ele no fosse o homem de sua vida. Talvez
estivesse perdendo muito tempo com ele.
Desperdiando sua mocidade a troco de nada. Quando se decidisse, poderia ser muito
tarde. Estaria acabada e s.
Talvez fosse melhor mesmo ele ter que ficar em casa com as crianas  noite. Isso lhe
daria liberdade para tentar arranjar outra pessoa. Fazia tempo que no ia mais quele
baile onde sempre fazia tanto sucesso. Ela estava mesmo precisando era vestir-se muito
bem, arrumar-se e ir se distrair. O Eugnio que ficasse com seus problemas, pois ela no
tinha nada com isso. Sabia perfeitamente o que queria da vida e no era nada do que ele
estava lhe oferecendo.
No dia seguinte, procuraria o dono do apartamento que haviam alugado e explicaria a
situao. Eugnio havia pago trs meses adiantado, e ele com certeza no devolveria o
dinheiro. Metade do prazo j havia sido vencido. Pacincia. O dinheiro era dele. Teria
que conformar-se. Ele no queria mesmo mais o apartamento.
Ela ia sacudir a poeira. No ia ficar mais naquele sufoco. Poria as cartas na mesa. No.
Isso, no. O melhor mesmo era contemporizar. Enquanto isso, tentaria arranjar outra
pessoa. Quando se sentisse segura, daria o ultimato. Colocaria suas condies. Se ele
no aceitasse, ela no se importaria. J teria outros planos em andamento. Terminou o
cigarro, mas ficou ali pensando, pensando.
No quarto, olhos fechados, sentindo-se indisposto, Eugnio tentava reagir. Ele precisava
ir ao mdico. No dia seguinte iria. Nunca se sentira assim. Deveria estar doente. Sentia-
se nervoso, irritado, Inquieto. Fora grosseiro com Eunice, mas ela era muito insistente.
Tinha o hbito de ficar em volta e isso o irritava. Ela estava ficando chata. Antes no era
assim. De repente, sentiu que ela o estava cansando. Desejou ir embora. Assim que se
sentisse melhor, iria para casa.
Elisa afastou-se um pouco e ele foi melhorando. Meia hora depois levantou-se, vestiu-se
e foi procurar Eunice. Vendo-a na cozinha, disse em tom conciliador:
-- Sinto muito. Eu estava nervoso, tenho estado mal. Amanh vou procurar um mdico.
No tenho passado bem. S durmo com calmantes, isso no  natural.
Vendo-a silenciosa, aproximou-se abraando-a com carinho:
-- No quis ofend-la. Desculpe. Vou embora, amanh telefono.
-- Est bem. At amanh.
-- No fique zangada comigo. Vamos, sorria. Diga que me perdoa.
Ela levantou-se procurando sorrir:
-- Tudo bem. Procure mesmo um mdico. Voc est precisando.
Foram at a porta abraados. Despediram-se e embora procurassem dissimular, fingindo
que tudo estava bem, Elisa observou com satisfao que eles estavam querendo
distanciar-se um do outro e que pensavam em arranjar desculpas para to cedo no
voltarem a se encontrar.


Captulo 7
Eugnio fechou tudo e se preparou para sair
do escritrio. Aonde iria? No sentia vontade de ir ver Eunice. Fazia quinze dias que
no ia v-la. Telefonara algumas vezes, dizendo-lhe que Olvia tinha ido embora, e ele
precisava ir para casa cedo. Era mentira. Olvia, apesar de estar trabalhando, ainda no
tivera coragem para deixar as crianas. Planejava ir, mas ia ficando.
Enquanto isso, Eugnio aproveitava para sair um pouco. Se no desejava ver Eunice,
tambm ir para casa era traumatizante. A falta de Elisa, a presena de Olvia que,
embora mal conversasse com ele, mantinha sempre uma atitude de censura, de
reprovao e a atitude de Marina, fugindo ao seu aconchego, o feria fundo.
Ele era de carne e osso. Precisava respirar! Costumava ir ao cinema, andar pelos bares a
procura de um amigo para conversar e at arranjar alguma companhia feminina. Por que
no? Mas essas andanas no lhe davam o prazer de antigamente. Sentia peso no corpo,
tristeza, e um fato que o alarmou muito: no conseguia mais se relacionar com mulher
alguma. O que estaria acontecendo com ele? Sempre fora um homem viril.
A princpio pensou que estivesse cansado de Eunice, desmotivado pelas atitudes dela.
Saiu com outras mulheres na tentativa de resolver o problema, mas na hora de fazer
amor, algo acontecia, o desejo esfriava e ele no conseguia chegar ao final.
Assustado, procurou um especialista que o examinou e no encontrou nada.
-- Voc no tem nada -- disse o mdico com um sorriso. -- Est tudo em ordem.
-- Mas na hora, doutor, eu falho. No consigo acabar.
-- Voc passou por um drama recente. Alguma coisa o est bloqueando. Por que no
procura um psiquiatra?
-- Psiquiatra? Mas eu estou bem. No tenho problemas nervosos.
-- Tem dormido bem? Tem estado tranqilo ?
-- No. De fato, no tenho dormido muito bem ultimamente. Tenho tido muitos
problemas familiares. As preocupaes aumentaram depois que minha mulher morreu.
-- Faa isso. Com certeza est deprimido e estressado. Um psiquiatra lhe dar alguns
medicamentos e tudo voltar ao normal.
Eugnio saiu dali, mas no se animou a seguir esse conselho. Ele sempre fora forte e
nunca precisara da ajuda de ningum para resolver seus problemas.
Saiu do escritrio sem rumo nem prazer. Elisa, que o acompanhava, preocupou-se. Por
que ele no ia para casa cuidar da famlia? Preferia ficar perambulando pelas ruas, se
relacionando com pessoas desocupadas e sem moral. Ela no gostava que ele agisse
assim.
Tambm no queria que ele procurasse um psiquiatra. Para qu? Ela no ia deixar que
ele ficasse tendo relaes com outras mulheres. Havia de proteg-lo e cuidar para que se
tornasse um chefe de famlia exemplar. Por causa dele, ela fora impedida de cuidar dos
filhos, agora, era a vez dele. Era justo que ele ficasse em casa e assumisse esse papel.
Mas Eugnio no parecia disposto a fazer isso. No queria perder a liberdade, embora
no soubesse o que fazer com ela. Vendo-o triste e inseguro, bebericando em um bar,
Elisa tomou uma deciso: convenceria Olvia a voltar para casa. Vigiara a empregada e
percebera que Elvira era uma moa boa e carinhosa. As crianas gostavam dela. Se
Olvia fosse para casa, Eugnio seria forado a ir cuidar das crianas.
Quando Eugnio chegou em casa, as crianas dormiam, e Olvia, deitada em seu quarto,
lia. Elisa aproximou-se dela abra-ando-a com carinho. Olvia fechou o livro e sentou-se
na cama. A saudade de Elisa apareceu forte, e ela fez muito esforo para dominar-se.
Abraada a ela, Elisa disse-lhe ao ouvido:
-- Voc precisa ir para sua casa! Eugnio precisa assumir as crianas. Enquanto ficar
aqui, ele no vir para casa cedo. Volte para casa e venha visit-los, mas no durma
mais aqui. Voc precisa me ajudar. Ele sai com outras mulheres, fica bebendo nos bares.
Est infeliz e sem rumo. V para casa.
Olvia pensou:
-- No posso continuar aqui. Aquele sem-vergonha continua indo ver aquela mulher!
Ao invs de cuidar das crianas, ele nem aparece para saber como esto! Chega sempre
muito tarde.
-- Isso mesmo. V para casa. Assim ele ser forado a
dormir aqui.  isso que eu quero -- continuou Elisa.
-- Tenho que tomar uma resoluo! Isso no pode continuar assim. Logo ele estar
trazendo para c aquela sirigaita. Tenho que defender o lar de Elisa! No posso
consentir que ele faa o que pretende. Tenho que ir embora amanh de qualquer jeito.
No vou dizer nada para as crianas.  tarde, eu telefono e dou a notcia que preciso
passar a noite em casa. Aos poucos, elas se acostumaro.
Tendo tomado essa resoluo, Olvia deitou-se para dormir, Elisa abraou-a com
satisfao. Ainda bem que tinha a quem recorrer.
Na tarde seguinte, Eugnio recebeu um telefonema de Olvia.
-- Hoje no poderei dormir com as crianas. Tenho um problema em casa e vou passar
a noite l.
Ele assustou-se:
-- Olvia, voc no pode fazer isso. Eu ainda no encontrei uma pessoa que possa
dormir no emprego. Como vai ser?
-- V para a casa cedo. Pelo menos faa isso j que no cuida nem um pouco de seus
filhos.  o mnimo que pode fazer. Minha casa est abandonada e no posso mais ficar
dormindo fora. Trate de fazer sua obrigao. V se no atrasa, porque se no chegar, a
Elvira vai embora do mesmo jeito. As crianas ficaro sozinhas.
-- Ser que ela no pode nem esperar se eu me atrasar um pouco? Eu sou um homem
ocupado, tenho obrigaes aqui na empresa que no posso deixar.
-- Conheo bem suas "obrigaes". V se toma vergonha, isso sim. Bem, j disse o que
tinha a dizer. Agora o problema  seu. Arrume-se.
Olvia desligou, e ele resmungou um palavro. Ainda por cima, ela batia o telefone na
sua cara! Como ela podia ser to diferente da irm? Ficou arrasado. Ele no tinha nada
mesmo para fazer, mas o que o irritava era no ter alternativa. Era a obrigao.
-- Maldita hora que eu resolvi deixar Elisa! -- resmungou irritado.
Elisa olhou-o com satisfao. Agora, certamente ele iria perceber o quanto ela valia!
Saiu do escritrio s seis e meia, encontrou-se com Amaro, e foram tomar uma cerveja.
Sentados na mesa do bar, ele no se conteve:
-- O que foi, Eugnio? Voc est com uma cara de velrio!
-- Sabe que agora eu preciso ir para casa antes das oito?
J pensou, eu, um homem livre, agora estou amarrado na obrigao.
-- No conseguiu arranjar uma empregada que durma no emprego?
-- No. Elas so maldosas. Acham que correm perigo dormindo em casa de um vivo.
Como se eu fosse um manaco sexual.
Amaro riu gostosamente:
-- Fama, voc tem. Eu, se fosse elas, tambm no confiaria. Nunca se sabe. Uma noite
de lua cheia, tudo pode acontecer.
-- No ria da minha desgraa. Eu ando to por baixo que at isso virou problema.
-- ?
-- . No sei o que se passa comigo. Nunca fui assim. A mulher me atrai e quando
chega a hora, eu esfrio.  como se de repente me jogassem um balde de gua fria.
-- Hiii... Logo voc com um problema desses! A tem coisa. Eu j lhe disse no outro
dia, v a um Centro Esprita. Vai ver que o esprito de sua mulher anda acabando com a
sua alegria.
-- Voc est  maluco. Eu no acredito nessas coisas. Quem morre no volta. Depois,
mesmo que isso fosse possvel, Elisa era uma mulher ingnua e boa. Nunca faria uma
coisa dessas.
-- Eu no diria isso. Toda mulher ciumenta faz qualquer coisa. Depois, no custa nada.
Voc no tem nada a perder. Eu costumo ir l todas as semanas, vamos. Hoje  dia, eu o
acompanharei. Comea s oito.
-- V? Nem isso eu posso fazer. s oito, preciso estar em casa, seno aquela menina
vai deixar as crianas sozinhas.
-- A Olvia no poderia ficar? Seria s hoje.
Ele meneou a cabea negativamente. No queria ir mesmo que pudesse. A desculpa at
que valia.
-- Acabei de receber um telefonema dela. Hoje precisa dormir em casa. Tem que
resolver um problema no seu apartamento.
-- Nesse caso, fica para outro dia. Esteja atento. Se Elisa estiver a seu lado, a situao
pode agravar-se.
-- No creio. Se ela estivesse a meu lado, seria para me ajudar, nunca para me fazer
sofrer.
-- Sei que ela ia ajudar voc ter outras mulheres! J pensou nisso? Um esprito
desencarnado pode estar ao nosso lado, ler nossos pensamentos, sentir nossas emoes,
sem que possamos v-los. Ela pode saber tudo que voc faz at o que nunca gostaria
que ela soubesse.
Eugnio assustou-se. Nunca havia pensado nisso. No. Ele
no acreditava. Lembrou-se de Elisa no caixo. Ela estava bem morta e nunca voltaria.
 -- Voc anda fantasiando demais. Sabe que isso pode fazer mal? Sempre ouvi dizer
que essas coisas de espiritismo deixam as pessoas desequilibradas.
-- Desequilibrados so aqueles que sofrem todo tipo de assdio, passam mal e nunca
percebem o que lhes est acontecendo. Minha vida, graas a Deus, vai muito bem. No
tenho nada que me Incomode. J no posso dizer o mesmo de voc...
-- Sei que pretende me ajudar. Mas eu estou passando por muitos problemas
emocionais. Essa  a causa fundamental do que est acontecendo comigo. Infelizmente,
tenho que ir. Vamos pagar e Ir embora. Tenho tempo exato para chegar em casa.
Foi com satisfao que Elisa acompanhou o marido de volta a casa. Ele se sentia
inquieto e preocupado. No tinha muito jeito para lidar com as crianas. Elisa nunca lhe
permitira fazer nada! Tambm, ela era to eficiente! Ele nunca teria o mesmo jeito que
ela.
Suspirou resignado. Teria que aprender. Entrou em casa e j encontrou Elvira pronta
para ir embora.
-- O senhor quer que eu sirva o jantar? Ainda d tempo. Ele concordou e quando se
acomodou  mesa, perguntou:
-- Onde esto as crianas? J jantaram?
-- J. Esto no quarto brincando. Marina e Juninho j fizeram a lio e tudo est em
ordem.
Eugnio comeu em silncio. Quem diria que sua vida mudaria tanto? A comida estava
gostosa. Depois de comer tantos dias em restaurantes, era agradvel saborear a comida
caseira.
-- Agora preciso ir. Amanh eu lavo a loua. At amanh, seu Eugnio.
-- At amanh.
Ela saiu e ele ficou indeciso. O que faria? No gostava de dormir cedo. Subiu para ver
as crianas. Elas brincavam alegres. Vendo-o aparecer na porta, se calaram.
Aproximando-se, Eugnio beijou-os na face dizendo:
-- Est tudo bem?
-- Pai, a tia Olvia no vem dormir hoje? Eu quero ficar com ela -- choramingou
Nelinha.
-- Sua tia no pode ficar mais aqui. Agora, eu vou ficar com vocs.
Marina sentou-se na cama, apanhou uma boneca e ficou em silncio.
-- Voc no sabe contar histrias como ela! -- reclamou
Juninho.
-- Podemos conversar -- retrucou ele.
-- Sobre o qu?
-- Sobre o que voc quiser.
-- Eu gosto de falar de carro -- tornou o menino.
-- Disso, eu entendo.
-- Mas eu no gosto de falar de carro. Eu gosto de falar das fadas! Voc sabe falar das
fadas? -- disse Nelinha.
Eugnio fez o que pde. Conversou com os dois menores, tentando conhec-los melhor.
Marina continuava calada, parecendo alheia, brincando com a boneca.
-- E voc, Marina, do que gosta de falar?
-- Da mame -- disse ela em tom de desafio.
-- Falar dela  bom. Sua me era uma grande mulher.
-- No  isso que voc pensa! -- retrucou ela com raiva.
-- Estou sendo sincero, minha filha. Deus sabe que eu gostava muito de sua me. Um
dia voc ainda vai entender o que aconteceu.
-- No vou, no. Se voc no tivesse sido to malvado com ela, nada teria acontecido.
Ela estaria aqui, junto com a gente -- disse ela com lgrimas nos olhos.
Eugnio aproximou-se dela dizendo com voz triste:
-- Estou arrependido, minha filha. Hoje, eu daria graas a Deus se ela estivesse aqui.
Eu nunca pensei que fosse acontecer o que aconteceu.
-- No  verdade! -- gritou ela.
Eugnio tentou abra-la, mas ela esquivou-se. Foi para sua cama e deitou-se cobrindo a
cabea com o lenol.
Eugnio suspirou triste. Era melhor no insistir. Um dia ela compreenderia e acabaria
por esquecer. Tentou acomodar os outros dois. Estavam deitados j, quando Juninho
lembrou:
-- Mame nunca deixava a gente dormir sem escovar os dentes. Ns ainda no
escovamos!
-- Eu no quero. Estou com preguia -- retrucou Nelinha. Eugnio bateu palmas
dizendo:
-- Isso no. Vamos j escovar muito bem esses dentes. Como  que fazem isso? Vamos
ver se j aprenderam a fazer da maneira certa.
-- Eu sei melhor do que ela -- disse Juninho correndo para o banheiro.
--  nada. Eu  que sei -- retrucou Nelinha, correndo atrs dele.
Eugnio os acompanhou, verificando como faziam a escovao. Acomodou-os
novamente, mas a Nelinha quis beber gua. Eugnio ficou com eles conversando, at
que finalmente os viu adormecer. Saiu sem fazer rudo respirando aliviado. Olhou o
relgio E admirou-se. Eram mais de onze horas! O tempo passara rapidamente. Vestiu o
pijama, apanhou o jornal para ler. Dez minutos depois, estava com tanto sono que
resolveu dormir. Naquela noite, no tomou nenhum comprimido. Adormeceu logo.
Elisa, olhando-o com satisfao, pensou:
-- Finalmente. Agora, ele est onde deve ficar. Daqui no sair to cedo. Far tudo do
meu jeito. Nenhuma mulher assumir o IIIIIII lugar, porque a casa  minha, a famlia 
minha e eu estou aqui!
No dia seguinte, Eugnio acordou mais animado. Afinal, no fora to difcil assim.
Quando desceu para o caf, as crianas ainda dormiam, mas Elvira j havia chegado e
preparado tudo. Ele sentiu-se confortado. Era bom sentir o cheiro do caf logo cedo e
ter algum que se interessasse em atend-lo, ainda que fosse uma simples servial.
Conversou com ela perguntando sobre os deveres escolares da Marina e do Juninho,
interessando-se em saber o que eles levavam de lanche na escola.
-- D. Olvia me ensinou conforme a finada D. Elisa gostava. Eu tenho feito tudo
direitinho. Eles gostam muito do lanche que eu fao.
-- Est bem. Agora que Olvia se foi, voc  quem vai fazer as compras?
-- Eu vou comprar s as faltas. D. Olvia disse que vai vir no sbado para comprar tudo
pra semana.
-- Est bem. Se precisar de alguma coisa, fale comigo. Vou deixar o telefone do
escritrio. Se precisar, isto , se acontecer alguma coisa com as crianas, me telefone.
-- Eu j tenho. D. Olvia me falou isso mesmo. E pediu pra ligar tambm pra ela.
Eugnio concordou. Ainda bem que Olvia, apesar de haver Ido embora, continuava
cooperando com ele. Pelo menos isso. Ele no sabia nada sobre alimentao de crianas.
Sua me costumava dizer que quando as crianas esto na escola, precisam se alimentar
bem. Quando sasse do escritrio, passaria numa livraria para comprar alguns livros
sobre esse assunto. Precisava informar-se. Olvia nunca tivera filhos. Estaria dando a
orientao certa? Se ele descobrisse que ela estava fazendo alguma coisa errada, ela iria
ouvir.
A partir desse dia, Eugnio mergulhou na nova tarefa com
vontade. Comprou livros no s sobre alimentao, mas sobre comportamento. Estava
interessado em resolver sua situao com Marina, que continuava arredia e triste. Alm
de tudo, estava indo mal na escola e ele tivera que ir at l a pedido da professora.
No domingo, ele acordou com Nelinha em seu quarto:
-- Pai, estou com fome! Quero um suco.
-- Elvira no veio ainda?
-- Ela no vem de domingo!
-- Nem tia Olvia?
-- At agora ela no veio. Estou com fome. O Juninho fez um sanduche pra ele, mas eu
no gosto de queijo branco e o amarelo acabou.
Eugnio levantou-se apressado. Ele no pensara no domingo! O que faria se Olvia no
viesse? Telefonaria para ela.
-- Vamos ver o que temos na cozinha -- disse ele.
-- Eu quero meu suco de laranja.
-- Est bem. Vamos dar um jeito nisso. J lavou o rosto e escovou os dentes?
-- Estou com fome. Quero comer, depois eu lavo.
-- V se lavar enquanto eu preparo o seu suco.
Foi  cozinha e encontrou o Juninho  mesa comendo tranqilamente seu sanduche e
tomando um copo de leite.
-- Est tomando leite gelado? -- disse ele.
-- Estou. Eu gosto. No tinha caf. Leite sem caf, eu gosto gelado.
-- Por que no me acordou? Eu poderia arranjar o caf.
-- Voc sabe fazer caf?
-- Nunca fiz, mas posso aprender.  muito fcil. Nelinha apareceu na cozinha:
-- Pai, e o meu suco?
-- J vai. Vou preparar.
Eugnio no sabia onde estavam as coisas e ficou abrindo e fechando os armrios. Foi
Nelinha quem pegou o espremedor de laranjas.
--  com isso, pai. A Elvira faz com isso. Sabe como ? Depois de conseguir alimentar
Nelinha e saber que Marina
j havia comido, foi ao telefone. Ligou para Olvia.
-- Olvia, a Elvira no veio e estou sozinho com as crianas. No sei o que fazer. Voc
vai demorar?
-- No sei se poderei ir at a hoje. Alguns amigos meus vm me visitar.
-- Voc vai me deixar aqui, sozinho com eles?
-- O que  que tem?
-- O que farei o dia inteiro?
-- No sei. O que fazia aos domingos antigamente?
  -- Ia ao clube pela manh, fazer exerccio. Depois almoava em casa e descansava o
resto do dia.
-- Faa isso. As crianas vo adorar conhecer o clube.
-- Voc est brincando comigo!
-- No estou, no.
-- Meu clube  masculino e no vo crianas.
-- Pois ento mude. Arranje um onde as crianas possam ir. Sabia que h muitos deles
pela cidade? Vo famlias inteiras passar o domingo.
-- Voc vai vir?
-- No. No posso. Diga s crianas que irei amanh cedo. Tenho uma folga no
escritrio.
Eugnio desligou contrariado. Ela fazia de propsito. Pretendia irrit-lo. Mas se pensava
que ele iria implorar, estava enganada. Ele se arranjaria. Apanhou o jornal e procurou
descobrir um lugar para levar as crianas. Resolveu ir ao Zoolgico. Havia lido que as
crianas precisam conviver com a natureza. Chamou-os dizendo:
-- Aprontem-se. Vamos passear.
Eles o olharam admirados. Nunca se lembravam de haver sado com o pai. Mesmo
quando iam a qualquer lugar, Elisa tomava um txi. Eugnio nunca tinha tempo para
lev-los.
-- Quero todos bem bonitos. Vamos nos divertir muito.
Ele se lembrava que, quando criana, sua tia o levara a um parque onde havia muitos
animais, e ele nunca mais esquecera esse passeio.
Quando todos estavam prontos e iam saindo, o Juninho lembrou:
-- No vai ver se a porta dos fundos est fechada? A mame nunca saa sem ir l ver.
-- Tem razo -- respondeu ele, dirigindo-se aos fundos e fechando a porta que estava
s com o trinco. -- Sua me sempre pensava em tudo.
Ele nunca tivera que se preocupar com esses detalhes. Agora, at isso lhe cabia.O que
fazer? Precisava conformar-se.
-- Vamos -- disse ele.
-- Eu no vou -- tornou Marina.
-- Vai, sim. Vamos passear e nos divertir.
-- No quero ir. Podem ir, eu fico em casa.
-- No pode ficar sozinha. Vamos passear e almoar em
um restaurante.
-- Posso ficar em casa da D. Glria. Ela me convida sempre para ir l.
-- De forma alguma. Hoje  domingo e vamos sair todos juntos. Vamos, entre no carro.
Marina obedeceu de m vontade.
-- Eu quero ir na frente -- disse Nelinha.
-- Eu vou na frente -- contraps Juninho. Eugnio olhou e decidiu:
-- Nelinha vai na frente agora e na volta vem o Juninho.
-- Est bem! -- resmungou o menino, enquanto Nelinha satisfeita acomodava-se no
banco da frente.
Estava um dia bonito e ensolarado. O Zoolgico estava movimentado. Eugnio
preocupou-se tomando cuidado para que as crianas no se afastassem dele.
-- Marina, segure a mo do Juninho e no saia de perto de mim -- recomendou
enquanto segurava a mo de Nelinha.
Comearam o passeio, em meio  animao das crianas que brincavam ruidosamente
ao redor, os pais que procuravam control-las, o trinado dos pssaros que enfeitavam as
rvores, e a beleza dos animais cuidadosamente tratados e devidamente instalados, que
faziam a delcia da garotada.
Andaram por toda parte, viram as onas, os macacos, os lees, o bicho preguia, as
araras e os papagaios, as girafas e as zebras. O tempo passou rpido. Eugnio,
acalorado, procurava responder as perguntas dos dois menores, uma vez que Marina
obstinava-se em manter silncio. Levou-os ao banheiro, arranjou gua, lavou as mos de
Nelinha. Conversou com outros pais que tambm acompanhavam seus filhos, trocaram
idias sobre os animais, comprou pipocas e, por fim, descobriu que passava das trs.
-- Vocs precisam comer. J  tarde. Vamos almoar. J vimos tudo.
-- Amanh podemos voltar aqui? -- indagou Nelinha entusiasmada. -- Quero ver a
girafa de novo.
-- Amanh no pode ser. Voltaremos um outro domingo. Agora vamos.
Conversando ruidosamente, foram at o carro.
-- Agora sou eu quem vai na frente -- disse Juninho. --  minha vez.
-- O pai disse na volta. Ns ainda no estamos voltando pra casa. Eu vou na frente.
-- Isso no.  minha vez -- disse o menino empurrando a
irm, tentando entrar na frente.
-- Ela tem razo, Juninho. Ns ainda no estamos voltando para casa. O passeio ainda
no acabou. Nelinha continua na frente.
-- Voc a est protegendo, s porque  menina e mais nova.E eu?
-- No estou protegendo ningum. Sua vez vai chegar. Vamos, no crie confuso.
-- Sempre ela, a protegida. Mame fazia sempre isso! -- reclamou ele subindo no
carro e sentando-se no banco traseiro.
Foram ao restaurante, Eugnio fez o que pde para agrad-los. Olhando a satisfao de
Nelinha diante de uma taa de sorvete de chocolate com creme, e o bigode marrom que
dava ao seu rosto um ar engraado, ele se comoveu. Qualquer coisa tocou dentro de seu
peito e ele, pela primeira vez, pensou que aquela criaturinha agora dependia
exclusivamente dele. Seus olhos encheram-se de lgrimas, que ele procurou disfarar,
envergonhado.
Juninho tambm estava contente. S Marina continuava calada e distante. Em alguns
momentos, surpreendera um brilho de alegria em seus olhos, logo disfarado. E isso
dava-lhe esperanas de poder faz-la esquecer a tragdia que os vitimara.
Elisa estava com eles e sentia-se feliz vendo-o cuidar das crianas como sempre
sonhara. No que ela o julgasse indiferente. Isso, no. Ele nunca deixara faltar nada para
os filhos. Mas, ela gostaria que ele tivesse se dedicado, convivido mais com as crianas.
Sbita tristeza a acometeu. Como ela gostaria de poder estar ali junto com eles,
usufruindo daqueles momentos! Nunca mais poder abra-los, beij-los, conversar
com eles. Lgrimas escorriam pelo rosto de Elisa, e ela arrependeu-se amargamente de
haver sado naquela noite!
Subitamente Marina comeou a chorar.
-- Quero ir para casa! -- disse.
- O que aconteceu? - perguntou Eugnio. - No est
gostando do passeio?
Eu quero mame. Estou triste, porque ela no est aqui. Voc tem culpa de tudo. Eu
quero ir para casa!
-- No chore, Marina -- disse ele tentando controlar a prpria emoo. -- Eu tambm
gostaria que sua me estivesse aqui. Infelizmente no pode ser. O que podemos fazer?
-- No  verdade. Quando ela estava aqui, voc nunca saiu junto com a gente. S est
aqui, porque no tem outro remdio, por obrigao. Se pudesse, estava em outro lugar.
Eu quero ir para casa. No preciso de voc. Quando eu crescer, vou embora e voc
nunca
mais me ver.
-- Vou pagar a conta e vamos embora. No precisa chorar. Ns vamos para casa.
O prazer do passeio havia se acabado. Elisa, triste, aproximou-se de Marina tentando
conversar com ela:
-- Filha, no se atormente! Acalme-se. No faa assim com seu pai. Ele errou, mas
agora est mudado. Ele vai cuidar de voc. No chore. Eu estou aqui,
Marina se calou. Eugnio pagou a conta e saram. Juninho subiu na frente e Nelinha
perguntou:
-- Pai, amanh ns vamos passear de novo?
-- Amanh, no. Tenho que trabalhar. Outro dia.
-- Eu quero ir l de novo ver a girafa -- tornou ela com entusiasmo.
-- Eu gostei mais do macaco -- considerou Juninho.
Os dois no pararam de falar comentando o passeio e ao chegar em casa, Eugnio estava
mais calmo.
Ligou a televiso para as crianas e estendeu-se em uma poltrona para ler o jornal.
Quando comeou a escurecer, lembrou-se que eles no haviam tomado banho. Mandou-
os para o banheiro. Deu ordem a Marina para ajudar Nelinha, e ele mesmo foi ver se
Juninho se lavava direito e deixava o banheiro em ordem. Depois, foi  cozinha.
Precisava dar um lanche para as crianas. Juninho o acompanhou. Ele sabia onde
estavam as coisas e o que cada um gostava. Marina continuava de m vontade. Nelinha
cooperou arrumando a mesa e Marina acabou por ajud-la.
Tomaram o lanche, guardaram tudo e colocaram a loua na pia. Elvira viria no dia
seguinte. Na hora de dormir, Nelinha queria que ele contasse histria e Juninho tambm.
-- Primeiro, Nelinha -- disse Eugnio vendo que ela estava sonolenta. -- Depois vou
ao seu quarto e fico com voc.
-- Sempre ela primeiro. Voc  igual a mame -- reclamou ele, indo se deitar.
Marina acomodara-se sem dizer nada.
-- Pai, conta uma histria bem bonita -- pediu Nelinha.
-- Era uma vez, uma menina muito bonita, mas muito levada chamada Nelinha.
-- Ah! Pai, assim no vale. Eu quero uma histria de verdade, de princesa e tudo mais.
Eugnio tentou inventar uma, mas no tinha muito jeito e a menina riu dele, dizendo:
-- Voc no sabe contar histria. Vou pedir a tia Olvia que
ensine voc. Assim quando ela no puder vir, voc conta.
-- Est bem. Agora trate de dormir que  tarde.
  -- Vou sonhar com a girafa. Foi o dia mais lindo que eu passei!
-- O que voc gostou mais? -- perguntou ele, satisfeito.
-- Bom, primeiro da girafa, depois da arara.
-- E do sorvete de chocolate?
-- Gostei mais de andar no seu carro, no banco da frente. Voc me leva de novo?
-- Levo, sim -- prometeu ele beijando-a na testa. -- Agora durma. At amanh.
-- At amanh.
Ele se dirigiu  cama de Marina, aproximou-se beijando-a na testa.
-- Boa-noite, Marina. Durma bem. -- Ela no respondeu, ele continuou:-- acho
melhor voc se acostumar. De agora em diante, eu  que vou tomar conta de voc.
Brigar comigo e ficar de cara amarrada no vai servir de nada. No acha melhor fazer as
pazes?
Vendo que ela continuava calada, ele finalizou:
-- Pense nisso.
Passava das 22 horas, quando ele finalmente foi para seu quarto. Estendeu-se no leito.
Estava cansado, porm aliviado. Tomar conta das crianas no era to difcil assim.
Lembrando-se das atividades do dia, da alegria e do entusiasmo deles, sorriu. Um
sentimento de orgulho o acometeu. Seus filhos eram lindos e inteligentes. Ficava
admirado com a argcia de Juninho e a lgica de Nelinha. Quanto  Marina, era-lhe
difcil ainda sentir sua personalidade.
Como ele fora cego! Quanto tempo perdera em futilidades e sem usufruir da companhia
dos filhos! Eles eram to confiantes e to pequenos! Ainda bem que ele estava ali para
tomar conta deles. Naquele momento, um sentimento misto de ternura e de proteo o
acometeu, e ele prometeu que tudo faria para torn-los fortes e felizes. Embalado por
doce sensao de paz, adormeceu.

Captulo 8

Passava das 17 horas quando Olvia chegou na casa de Eugnio na segunda-feira,
carregando algumas guloseimas para o lanche. Quando a viu, Nelinha correu abra-la
com satisfao. Olvia livrou-se dos pacotes, colocando-os sobre a mesa, e pegou a
menina no colo beijando-a com carinho.
-- Que bom ver voc! Como est cheirosa! Tomou banho agora?
-- Tomei. Fiquei bonita para esperar voc!
-- Hum! Que bom! As crianas j chegaram da escola? Foi Elvira quem respondeu:
-- J. Esto tomando banho.
-- Vamos preparar um lanche bem gostoso. Estou morrendo de fome!
-- Eu tambm. O que voc trouxe naquele pacote? -- quis saber Nelinha.
-- Aqueles sonhos que voc gosta!
-- Oba! E naquele outro?
-- Vamos arrumar tudo e voc vai ver -- disse Olvia sorrindo.
-- Pode deixar, D. Olvia. Eu arrumo tudo do jeito que a senhora gosta.
-- Est bem. Tenho sentido falta de vocs.
-- Voc foi embora e no veio me contar histria -- queixou-se ela. -- Voc vai dormir
aqui hoje?
-- No posso. Mas vou ficar bastante com vocs.
Os outros dois desceram correndo e abraaram a tia com alegria. O lanche foi servido, e
eles comeram com apetite.
-- A tia no vai dormir aqui hoje -- foi dizendo Nelinha. -- Eu queria que ela contasse
histria de fadas. O papai no sabe nenhuma bonita.
-- Ele sabe muitas coisas de carro. Ningum entende de
carro como ele! -- tornou Juninho com orgulho.
-- Eu no gosto de falar de carro! Eu gosto de princesa, de fadas.
-- Isso  coisa de meninas. Eu gosto das histrias dele -- respondeu Juninho. -- Ele
conhece tudo sobre os bichos do Zoolgico. Lembra da histria do macaco?
Olvia olhou admirada. Nunca vira Juninho defendendo o pai.
Nelinha riu:
--  mesmo. De fadas, ele no entende, mas de girafa, sim. Tia, eu vi uma girafa de
verdade! Ela comia to engraado. Ns vamos l de novo! Ele disse que vai me levar.
Olvia olhou para Marina que se conservava calada e perguntou:
-- E voc, no diz nada?
-- No. S fui junto porque ele me obrigou. No gostei de nada.
-- Ah! Vocs foram ao Zoolgico e onde mais? -- perguntou Olvia curiosa.
-- No restaurante -- disse Juninho. -- Eu podia comer tudo que eu quisesse! Tomei um
sorvete deste tamanho, cheio de morango e creme em cima.
-- O meu foi de chocolate, -- contou Nelinha.
-- Eu queria que voc visse o bigode dela! Se lambuzou toda! -- tornou Juninho.
--  nada, tia. Foi ele que ficou com bigode! Marina sorriu:
-- Voc precisava ver, tia, os dois ficaram com bigode. At parece que nunca viram
sorvete.
Olvia queria saber mais:
-- Ento vocs passaram um timo dia.
-- Eu no gostei. Preferia ter ficado em casa -- disse Marina.
-- Ela  enjoada. Deu pra ficar boba -- retrucou Juninho. -- Eu me diverti muito. S
teve uma coisa: o dia passou muito depressa!
-- Quer dizer que foi bom ter sado com seu pai!
-- Claro que foi -- tornou Juninho com entusiasmo. -- Ele disse que agora vai sair
sempre com a gente. Ns vamos passear muito.
-- Eu quero ver a girafa de novo e dar comida pra ela!
-- Voc  boba. Tem outros lugares mais bonitos para ver. Eu quero ver outro lugar!
-- . Pelo jeito vocs nem sentiram falta da tia. Eles protestaram e Nelinha concluiu:
     -- Vamos levar voc junto.
-- Nada disso -- respondeu Olvia. -- Vocs saem com seu pai e quando eu puder,
virei busc-los e iro comigo. No precisamos sair todos juntos.
-- Voc no gosta dele, no , tia? -- indagou Marina. Olvia ficou embaraada.
Embora fosse verdade, no queria indispor Eugnio com os filhos. No seria bom para
eles. Por isso, respondeu:
-- Digamos que ns somos muito diferentes. No combinamos. Eu penso de um jeito, e
ele, de outro. Por isso, no gostamos de ficar juntos.
-- Voc sabe que ele  culpado da morte de mame -- disse Marina com voz sentida.
Olvia fez um gesto para que ela se calasse.
--  verdade, tia? -- disse Juninho. -- Ele teve culpa da morte de mame?
-- A morte de sua me foi um acidente. Ningum teve culpa --- disse Olvia. -- Ela
saiu, foi atravessar a rua e no percebeu o carro, porque estava escuro. Foi isso que
aconteceu.
Marina ia retrucar, mas mudou de idia.
-- Eu tenho saudade da mame! -- disse Nelinha chorosa. -- Ela no vai voltar nunca
mais?
-- Eu tambm sinto saudade dela. Mas Deus precisava dela l no cu e como ela era
muito boa, ele a levou. De l, agora, ela no pode sair, mas continua gostando de ns.
Se ela pudesse, estaria aqui com certeza.
Percebendo que eles haviam ficado tristes, ela reagiu:
-- Eu no fui ao Zoolgico. O que mais havia l?
Os olhos de Nelinha brilharam, e ela descreveu alguns animais dos quais gostara,
interrompida muitas vezes pelo Juninho que tambm queria contar o que vira. S
Marina continuava calada sem participar do entusiasmo deles. Para ela, gostar de algo
que viesse do pai, era trair sua me. Ele a fizera chorar, sofrer, fora embora de casa e os
trocara por outra mulher. Se Elisa estivesse viva, haveria de ajud-la a esquecer-se dele
para sempre. Mas ela no resistira, estava morta. Nunca mais voltaria. S lhe restava
mostrar que, apesar de tudo, estava do lado dela. No seria com passeios, divertimentos
e sorvetes que o pai compraria seu perdo. Haveria de faz-lo sentir sua culpa pelo resto
da vida.
Vendo que Marina continuava triste e pensativa, Olvia deu
alguns brinquedos que trouxera aos dois menores, dizendo:
-- Vo brincar um pouco. Eu e Marina temos um assunto para tratar.
Enquanto os dois se entretinham alegremente, Olvia pegou Marina pela mo dizendo:
-- Venha aqui. Sente-se ao meu lado no sof. No gosto de v-la triste.
-- Sinto muito, tia. No posso me conformar com o que nos aconteceu. Mame est
fazendo muita falta.
--  verdade. Elisa era toda minha famlia, alm de vocs. Nossos pais morreram em
um acidente quando ramos crianas.
-- Assim como ns? Mame nunca me contou.
-- Para que falar de coisas tristes e sem remdio? Nesses casos, o melhor mesmo 
esquecer.
-- Quantos anos voc tinha quando seus pais morreram?
-- Eu quinze e Elisa dezessete.
-- Foi acidente de carro?
-- No. Desastre de trem. Mas para que falar nisso agora?
-- Deve ter sido difcil para vocs.
-- Foi. Ficamos desorientadas. Apesar de mais nova, eu j trabalhava em um escritrio.
O trabalho, nesses casos, ajuda bastante. No d tempo de pensar nas tristezas. Elisa s
estudava. Eu queria que ela se formasse, fizesse uma faculdade. No deu certo.
-- Ela no gostava de estudar?
-- Gostava. Mas conheceu seu pai, comearam a namorar e ela desistiu de estudar.
Casou com dezoito anos!
-- Voc no queria. No gostava dele.
-- No  isso. Eu achava que ela era muito criana para casar. Preferia que ela
estudasse, s formasse e deixasse o casamento para depois.
-- Pelo jeito, papai s serviu para atrapalhar a vida dela.
-- No diga isso. Foi bom Elisa haver se casado. Agora tenho vocs e isso me d muita
alegria.
Marina abraou a tia beijando-a com carinho.
-- Sei que no sou como a mame, mas estou aqui e gostaria de ir morar com voc.
-- Deixaria seus irmos sozinhos? Marina deu de ombros.
-- Eles no esto ficando do lado de papai?
-- Vocs so crianas e precisam muito de um pai. Ele est se esforando. No  justo
que diga isso.
-- At voc, tia? Ser que j esqueceu o que ele fez?
-- Ele no esperava que acontecesse o que aconteceu. Est arrependido. Por que no
procura esquecer?
  Marina trincou os dentes com fora, depois disse:
-- Nunca esquecerei. O que ele fez, vai pagar.
Olvia impressionou-se com o tom dela. Apesar de pensar da mesma forma, gostaria que
Marina no sofresse. J que precisava viver com o pai, que pelo menos pudessem
conviver sem problemas.
-- No  bom para voc pensar assim -- disse olhando-a fixamente nos olhos. -- A
vingana  um sentimento muito ruim. Ele  seu pai, lhe quer bem e est tentando dar a
vocs o que nunca deu.
-- Faz isso por obrigao. Porque no tem outro remdio. Sua vontade era ver-se livre
de ns e ir morar com aquela mulher.
-- Isso j passou. Acho at que nem vai mais  casa dela.
-- Porque no pode. Tem que vir para casa, porque a Elvira vai embora s oito. Se no
fosse por isso, no viria.
Olvia admirou-se da perspiccia de Marina.
-- Seja como for, ele vem de boa vontade, conta histrias, procura fazer o melhor.
-- Quer  nos comprar. Comigo, no. Olvia tentou mudar de assunto:
-- Seja como for, a vida continua. Voc precisa pensar em voc.
-- Assim que eu crescer, se voc no me quiser, fujo de casa.
-- No sabe o que est falando. Uma menina sozinha na rua, sem dinheiro, sem ter onde
morar. J pensou que perigo? Nem pense em uma coisa dessas. Depois, quem disse que
no quero voc? Gostaria muito que fosse morar comigo.
-- Posso ir desde agora?
-- Precisa crescer um pouco mais. Seus irmos sentiriam muito sua falta. Voc  a
mais velha. Deve tomar conta deles, uma vez que sua me no est. Se voc for embora,
quem vai me contar tudo que acontece aqui? Preciso de voc ao lado de seus irmos.
-- Quando seus pais morreram, voc tomava conta da mame?
-- Tomava mesmo sendo mais nova. Era como se eu fosse uma segunda me.
-- Por isso, ela gostava tanto de voc.  assim que eu devo ser?
-- S enquanto seus irmos so pequenos e precisam de apoio. Quando crescerem, voc
poder ir morar comigo, se ainda
quiser.
Marina pendurou-se ao pescoo da tia, beijando-a repetidas vezes.
-- Obrigada, tia. Voc  a pessoa que eu mais gosto no mundo!
Olvia sorriu:
-- Mas enquanto isso, no quero ver voc triste. A saudade  forte, mas no tem
remdio. Por isso, o melhor que tem a fazer  tentar esquecer. Com o tempo, havemos
de conseguir.
Olvia saiu de l preocupada com Marina. Ela estava realmente magoada com o pai. At
que ponto esse sentimento poderia prejudicar sua vida? Arrependia-se de haver falado
algumas coisas diante dela. Certas impresses na infncia podem afetar o
comportamento durante toda a vida. Ela no gostaria que Marina se infelicitasse pelo
que aconteceu. Bastava a tragdia de Elisa.
Elisa! Seus olhos encheram-se de lgrimas. Por que tinha acontecido aquilo? Por qu?
Ela tambm precisava esquecer. Lembrou-se de Eugnio com raiva. Ele era culpado de
tudo. Se no houvesse tomado aquela atitude, Elisa ainda estaria viva.
Triste destino o de sua famlia. Nunca pensou que Elisa morresse em um acidente, como
os pais. A vida era cruel e sem finalidade. Por que feria sem piedade pessoas bondosas,
mes com filhos pequenos que ainda precisavam de cuidados, deixando outras que alm
de maldosas no fariam falta nenhuma? No podia compreender.
Em sua revolta, chegava a questionar Deus. Se ele existisse mesmo e fosse bondoso
como dizem, no teria permitido isso. O mundo era cruel, a sociedade, dos espertos e
mais fortes em detrimento dos honestos e bondosos.
Elisa era esposa e me exemplar, mulher bondosa, honesta, sempre ajudando os outros.
No podia ver ningum sofrendo que procurava fazer alguma coisa.
Olvia enxugou as lgrimas que teimavam em cair. No. Ela no entendia a tragdia que
lhes acontecera. A vida no valia a pena. Era cheia de injustias e tristezas. No entanto,
era preciso continuar. Estava desanimada, triste. Ela ficara no mundo e tudo faria para
ajudar os sobrinhos a viver melhor.
Abraada a ela, Elisa chorava sentidamente. Ela tambm no entendia o que lhe
acontecera. Por que tivera que deixar a famlia daquela forma? A religio dizia que
todos tm um anjo da guarda. Se fosse verdade, teria sido protegida e o acidente,
evitado. Ela no acreditava mais em nada. Os anjos, os santos, se existiam, no
protegiam
ningum. Ela precisava tomar conta dos seus familiares para que nada de mal lhes
acontecesse. Amava-os e haveria de defend-los custasse o que custasse.
Marina no a esquecia. Era-lhe fiel. Sentia-se orgulhosa da atitude da filha. Eugnio
precisava de algum que o fizesse recordar-se dela. As coisas estavam correndo muito
bem. Ela estava ali e no deixaria que ele arranjasse outra mulher que lhe tomasse o
lugar. No queria que seus filhos tivessem uma madrasta. Depois, ela o amava. No
gostaria de v-lo aos beijos e carinhos com outra.
Ao recordar-se de Eunice, sentiu o peito oprimido e um sentimento de rancor a
acometeu. Com ela, ele no ficaria! Sorriu ao lembrar-se de que ele nunca mais fora v-
la. No comeo, ele ainda tentaria encontrar outra mulher, mas com o tempo, deixaria
isso de lado, dedicando-se s  famlia. No fora s ela quem pusera os filhos no
mundo. Ele era o pai. Devia fazer o que lhe cabia. Isso era um dever e ela no abriria
mo.
Pensando nisso, foi ter com ele no escritrio. Eugnio parecia alegre e bem-disposto.
Ela acomodou-se em uma poltrona. Vendo a disposio do marido, ela pensava:
-- Que ingrato! Nem se lembra do que me fez. To pouco tempo e ele j esqueceu. Se
fosse comigo, se ele tivesse morrido, eu estaria chorando sem parar at agora. Nunca me
casaria de novo. Os homens so uns ingratos. No sabem amar. Ele dizia que me amava.
Era mentira. Se me amasse, no teria se envolvido com aquela mulher.
Um sentimento de raiva a foi dominando. Enquanto ele estava alegre, ela sofria. No era
justo. Fora por causa dele que ela deixara a vida. Aproximou-se dizendo-lhe ao ouvido:
-- Voc nunca me amou!  um homem sem sentimentos. Como pode estar contente
depois do que nos aconteceu? Ser que ficou feliz por eu ter morrido e deixado livre o
caminho para suas aventuras? Era s isso o que queria? Tantos anos de amor e de
dedicao no valeram de nada?
Eugnio, de repente, sentiu-se mal. Faltou-lhe o ar e pensou que fosse desmaiar. A tarde
estava quente e ele pensou:
-- Acho que minha presso caiu.  o calor.
Foi ao banheiro, molhou os pulsos e a nuca, respirou fundo. Olhou-se no espelho.
Estava plido. Seu corpo cobriu-se de suor.
-- Acho que estou tendo alguma coisa! -- pensou assustado. -- Preciso de um mdico.
Chamou a secretria.
-- O que foi, dr. Eugnio? Est se sentindo mal?
-- Estou. Parece que me falta o ar. Preciso de um mdico.
-- Tem o dr. Eduardo no sexto andar. Est no consultrio agora.
-- Veja se ele pode me atender.
-- O senhor vai l?
-- Vou.
Ela saiu e voltou em seguida.
-- Ele perguntou se d para subir at l.
-- D. Aliviou um pouco. Eu vou.
-- Quer que o acompanhe?
-- No  preciso. Melhorei um pouco.
Elisa, a um canto da sala, observava pensando:
-- Preciso me conter. No posso deix-lo adoecer. As crianas precisam dele. Afinal,
elas agora s tm o pai.
Eugnio sentiu-se melhor, mas sentia-se fraco e desanimado. Sua vida de repente se
tornara sem graa e sem alegria. Subiu ao consultrio mdico e foi logo atendido.
Contou o mal-estar que tivera, e o dr. Eduardo examinou-o cuidadosamente. Depois
disse:
-- Sua presso est normal e no h nada que possa indicar algum problema.
-- Senti-me muito mal. Pensei que fosse desmaiar.
-- Talvez tenha trabalhado demais. Est preocupado com alguma coisa?
-- No. Eu estava muito bem. Foi de repente.
-- Por que no tira umas frias? Depois de tudo quanto passou, talvez seja bom sair por
alguns dias.
Eugnio balanou a cabea negativamente.
-- Tenho mais  que trabalhar. O trabalho faz-me bem.
-- Vou receitar um relaxante. Procure descansar o mais que puder. Distrair-se. No
cultive as lembranas desagradveis. O que passou, acabou.
-- Est bem, doutor. Farei o possvel.
Eugnio saiu do consultrio aliviado. Fora apenas uma indisposio. Ainda bem. Se
algo lhe acontecesse, o que seria de seus filhos?
Elisa o observava e sorriu satisfeita. Ele se preocupava com a famlia. Era exatamente o
que ela queria.
De volta ao escritrio, Eugnio resolveu reagir. O que o mdico dissera era verdade.
Nos ltimos tempos, ele se entregara s obrigaes e perdera o gosto de divertir-se. Era
verdade que a morte de Elisa o ferira fundo, e sua vida se transformara
vertiginosamente. Mas ele era moo, tinha o direito de viver. No estaria entregando-se
Muito mais  depresso? Por mais triste que estivesse, por mais que lamentasse o que
acontecera, nada do que fizesse poderia trazer Elisa de volta. Dr. Eduardo tinha razo. O
passado havia acabado.
Ele cuidaria dos filhos, mas para isso no precisaria deixar DE fazer o que lhe dava
prazer. Era verdade que teria de ir para casa s oito, mas antes disso poderia aproveitar o
tempo.
Abriu a gaveta da escrivaninha e procurou uma agenda, abriu e, decidido, discou o
telefone.
-- Al, Lourdes, como vai?
Elisa, de um salto, pulou para o seu lado, observando. Eugnio continuou:
-- Eu no estou muito bem. Depois do que me aconteceu, tenho me sentido arrasado. 
noite, quando chego do trabalho, no tenho com quem conversar. Sinto-me to sozinho!
Hoje, estou muito triste e lembrei-me de voc, sempre to alegre, to agradvel.
-- Eu tambm tenho pensado muito em voc. Desde que soube do que lhe aconteceu.
Faz tanto tempo que voc no telefona...
-- No queria incomodar. Depois, tinha medo de no resistir  tentao. Eu era um
homem casado e no podia lhe oferecer nada. No tinha o direito de prejudicar sua vida.
Eu renunciei, mas no consegui esquecer. Gostaria de conversar com voc. Posso passar
a?
-- Hoje?
-- Agora, dentro de meia hora.
Depois de ligeira hesitao, ela respondeu:
-- Est bem. Eu tinha outro compromisso, mas darei um jeito. Tambm no consegui
esquecer o que houve entre ns.
Eugnio desligou o telefone com euforia. A Lourdes era o que ele precisava naquele
momento. Delicada, culta, bonita e apaixonada por ele. Foi ao banheiro, preparando-se
para o encontro.
Elisa olhava tentando dominar o rancor. Ele era falso, fingido. Ele no a procurara,
porque preferia ficar com Eunice. Fizera o papel de vtima. Usara a tragdia de sua
morte para fazer-se de fraco o conquistar aquela mulher. Com certeza, essa Lourdes
teria sido mais uma com a qual ele a trara. Se ele pensava que ela iria tolerar essa
leviandade, estava enganado. Ela no iria permitir que ele continuasse naquela vida
depravada que sempre vivera. Observando a disposio dele, perfumando-se para o
encontro, sentiu aumentar seu rancor. Porm, decidiu esperar. Primeiro, iria conhecer
essa mulher e decidir qual a melhor forma de afast-la do seu caminho.
Eugnio saiu bem-disposto e encontrou com o dr. Eduardo
no corredor:
-- Melhorou? -- indagou o mdico.
-- Muito. Vou sair mais cedo e espairecer. Acho que tinha razo. Eu estava precisando
mesmo era me divertir.
O mdico bateu-lhe levemente no ombro sorrindo e dizendo:
-- Isso mesmo.  o melhor que tem a fazer.
Eugnio saiu e ao entrar no carro, olhou-se de relance no espelho do retrovisor pensando
satisfeito:
-- Apesar de tudo, ainda estou em forma!
Elisa, sentada a seu lado, olhava com ar de desdm. Chegando em um edifcio elegante, ele
parou. Ligou o rdio do carro e esperou. Dez minutos depois, Eugnio desceu e dirigiu-se a uma
moa que saa do prdio. Elisa aproximou-se. Lourdes era moa elegante, bonita, e parecia
muito fina. Vestia-se muito bem. Morena, cabelos ondulados, olhos castanhos, corpo bem feito.
Eugnio apertou a mo dela com prazer.
-- Que bom rev-la!
-- Como vai?
-- Vivendo. Voc est bonita, sempre elegante!
Foram conversando e acomodaram-se no carro. Elisa, contrafeita, tomou assento no banco de
trs. Aquela mulher era muito diferente de Eunice Mais discreta, no teria mais do que uns vinte
e cinco anos.
Os dois conversavam animadamente. Eugnio dizia:
-- Vim esper-la to cedo, porque no posso me demorar. A empregada s fica em casa at s
oito. Se eu no estiver l essa hora, ela vai embora e deixa as crianas sozinhas.
-- Compreendo.
-- Isso ser por pouco tempo. Pretendo arranjar uma empregada que durma no emprego. No
parece fcil. Elas so preconceituosas. No querem dormir em casa de um vivo. Mas o que eu
queria mesmo era ver voc. Vamos jantar em algum lugar?
--  um pouco cedo para jantar. Talvez um sorvete, ou refresco.
-- Como queira. Hoje eu me sinto particularmente triste. Passei mal no escritrio e o mdico
aconselhou-me sair um pouco, espairecer. Lembrei-me de voc, to alegre e calma! Conversar
com voc sempre me fez muito bem. Tenho sentido sua falta.
Lourdes olhou-o e sorriu. Tinha um sorriso lindo e covinhas nas faces.
-- Quando soube do que lhe aconteceu, tambm fiquei
triste. Pelo que sei, sua esposa era muito dedicada.
--  verdade. As crianas esto inconsolveis.
--- Do que foi que ela morreu?
-- Foi atropelada. Saiu  noite, talvez para fazer alguma compra, e ao dobrar uma
esquina no viu o carro. Havia deixado as crianas fechadas em casa, o que prova que
ela pretendia voltar logo.
-- Que tristeza!
Elisa observava tudo atentamente. Por que ele no conta o que fez? -- pensou . -- Os
homens so falsos e fingidos.
Eugnio falou de seus problemas, tendo que cuidar das crianas, sem nunca haver feito
isso antes.
-- Minha cunhada at gostaria de ficar com as crianas, mas ela precisa trabalhar. A
responsabilidade  minha. Eu sou o pai. No posso jogar isso na mo dos outros.
-- Est muito certo agindo assim. Elas j perderam a me, precisam muito do pai.
-- Estou fazendo o possvel. Mas hoje sinto-me triste. Desculpe haver envolvido voc
em meus problemas. Afinal, no pretendo entristec-la. Mudemos de assunto.
Elisa continuava atenta. Enquanto estivessem apenas conversando, ela no faria nada.
Porm, se eles comeassem aos beijos, tomaria providncias.
-- Aonde vamos? Na verdade, o que eu queria mesmo era estar em um lugar sossegado
para conversar -- disse Eugnio.
-- Vamos dar uma volta e parar em uma rua calma.
-- Espero no estar aborrecendo voc.
-- Absolutamente. Gosto de conversar.
Eugnio escolheu uma rua arborizada em um bairro residencial no muito distante e
parou o carro. Tomou a mo dela, bei-jando-a com carinho.
--  bom estar com voc! No sei como pude ficar tanto tempo sem v-la.
-- Naquele tempo, nossos caminhos eram opostos. Voc era comprometido. Tenho
meus princpios, voc sabe.
-- Custei a entender. Samos tantas vezes e voc nunca cedeu. Contando, ningum
acreditaria que nosso amor tenha sido to ingnuo. Seus beijos ainda esto me
queimando os lbios.
Eugnio tomou-a nos braos beijando-a com paixo. Ela entregava-se  emoo e ele,
sentindo voltar o antigo desejo, apertava-a mais, dando vazo ao que sentia.
Elisa indignou-se. Atirou-se sobre ele dizendo enfurecida:
-- Traidor, descarado! Fingido, mentiroso! No vou permitir essa falta de vergonha!
Voc vai pagar o que me fez!
De repente, Eugnio sentiu a cabea rodar e empalideceu.
-- O que foi? -- indagou Lourdes. -- Sente-se mal? Ele levou a mo ao peito e respirou
fundo:
-- No sei o que , de repente, fiquei sem ar. Tive a impresso que ia desmaiar.
-- E agora, o que est sentindo?
-- Um peso na cabea e enjo. No comi nada! Lourdes fitou-o sria:
-- Voc tem sentido sempre isso?
-- Algumas vezes.
-- Sempre de repente?
-- . No  possvel que no seja nada. O mdico disse que est tudo bem. Eu nunca
havia sentido nada. Sempre tive muita sade. Estou preocupado. O que ser das crianas
se me acontecer alguma coisa?
-- Se o mdico disse que est tudo bem, deve acreditar.
-- Mas ento por qu? Qual a causa desse mal-estar?
-- Nem todos os sintomas que sentimos, so doenas.
-- Como assim?
-- Podemos sentir energias que esto ao redor, registrar emoes de outras pessoas e
acreditar que sejam nossas. Nunca ouviu falar nisso?
-- No. Do que est falando?
-- Acredito que ns sejamos mais do que o que podemos ver com nossos olhos. J
pensou quantas coisas existem que para vermos precisaremos de um microscpio?
-- Isso eu sei. Mas o que tem isso a ver com meu mal-estar?
-- Voc pode estar captando energias de outras pessoas.
-- No acredito nisso! Onde aprendeu essas idias?
-- H pesquisas modernas sobre o assunto. Se voc sente-se mal de repente e no est
doente, ento  porque captou energias doentias de algum.
-- No conheo ningum doente e no estive visitando nenhum hospital.
-- No importa. Para o pensamento no existe distncia. Quando algum se aproxima
de voc, h uma troca de energias. Esse algum sente as suas e vice-versa.  isso que
faz simpatizar ou antipatizar com as pessoas  primeira vista.
-- Mas no estive com ningum. Estamos ss aqui, e voc,
pelo que sei, est muito saudvel.
-- No h ningum que possamos ver. Quem garante que no haja aqui outros seres, de
outras dimenses da vida?
Eugnio meneou a cabea negativamente:
-- Espere a. Quer que eu acredite que h pessoas invisveis? Sempre pensei que voc
fosse equilibrada. Que idia absurda!
-- Por qu? Se na natureza nada se perde, tudo se transforma, para onde vo as pessoas
que morrem no mundo?
-- Sei l!
-- Vo para outros mundos. Voc imagina que neste imenso universo s existe o nosso
pequeno planeta?
-- Isso so crendices, explorao da ignorncia popular. Uma pessoa culta no deveria
acreditar nisso.
-- Ao contrrio. H cientistas importantes que estudaram esse assunto e comprovaram
a existncia de outras dimenses, de lugares para onde vo as pessoas que morrem.
-- No creio. Quem morre no volta nunca mais.
-- Engano seu. A morte no  o fim. O esprito  eterno.
-- No posso crer que uma moa instruda e de classe como voc acredite nisso.
-- No seu caso, faria bem em comear a acreditar.
-- Por qu?
-- Porque eu sinto que voc est sendo envolvido por um esprito desencarnado.
Eugnio arrepiou-se:
-- Que horror! No diga uma coisa dessas!
--  mais comum do que pensa. Estamos rodeados por espritos que inconformados
com a morte, muito apegados  vida na Terra ou  famlia, teimam em circular por aqui,
ao invs de seguirem para seu novo destino.
-- No  possvel! Se isso fosse verdade, o universo seria um caos. Se existe Deus e se
ele governa tudo, nunca iria permitir isso. Seria injusto para com os que esto aqui.
-- Por qu?
-- Porque no estamos em condies de nos defender. Como fazer se no os podemos
ver? Eles teriam sobre ns uma vantagem desleal.
-- Apesar de estarem aqui, eles vibram em uma freqncia diferente da nossa. Para que
consigam se ligar com algum do nosso mundo ou vice-versa,  preciso haver sintonia.
 o mesmo princpio das ondas hertzianas, as estaes de rdio esto no ar, porm voc
s as ouvir se sintoniz-las.
-- Que loucura! Quem querer sintonizar com uma pessoa que j morreu?
-- Muitas pessoas saudosas gostariam de poder fazer isso. Mas no  a vontade que
determina e sim como a pessoa pensa ou age. Por exemplo: uma pessoa deprimida e
negativa emite sinais energticos equivalentes e pode sintonizar com pessoas,
encarnadas ou no, que pensem da mesma forma.
-- Pessoas vivas?
-- Pessoas como ns, porque vivos, os espritos desencarnados tambm so.
Eugnio meneou a cabea admirado:
-- Voc diz coisas difceis de acreditar.
--  porque voc nunca pensou no assunto. Quando o fizer, se surpreender ao
descobrir o nmero de pessoas que j sabem disso. Como est se sentindo agora?
-- Melhor. Sinto-me aliviado.
Elisa, assustada com o que ouvira, temerosa de ser descoberta, afastara-se observando-
os a distncia.
-- Voc ia se dar bem com um amigo meu. Ele tambm acredita em alma do outro
mundo. Aconselhou-me a procurar um Centro Esprita.
-- Pelo jeito, voc no foi.
-- Claro que no. Voc acha que eu deveria ter ido?
-- Talvez. No sei. Esse  um assunto muito pessoal. S voc pode saber.
-- Mas voc acredita nessas coisas?
-- Acredito. Mas essa  minha maneira de ver.
-- Sou um descrente. No vai argumentar, tentar me convencer?
-- No tenho essa pretenso. A vida tem me ensinado algumas coisas. Quando voc
estiver pronto, ela mostrar para voc.
Eugnio sorriu malicioso:
-- E se eu estiver justamente procurando algum que me prove que isso  verdade?
Ela sorriu por sua vez:
-- s vezes penso que a descrena seja apenas um desafio para que as provas apaream.
Se estiver sendo sincero, elas iro ao seu encontro espontaneamente.
Elisa os observava triste. No gostava desses assuntos. Essa mulher parecia-lhe mais
inteligente e perigosa do que as outras. O Geninho estava sendo envolvido. Precisava
fazer alguma coisa para afast-la. Ela no podia perceber sua presena. Tomaria cuidado
dali por diante. Vendo-os abraados, conteve-se. Quando voltavam para casa, ela,
sentada no banco traseiro do carro, esforou-se para controlar-se, vendo-os trocando
beijos de quando em quando.
-- Se ele for dormir com ela, no vou me conter! -- pensou ela vendo-o acompanh-la
at a porta de casa. Mas, para seu alvio, Eugnio despediu-se, beijando-a
demoradamente nos lbios.
Eugnio entrou no carro, acenou um breve adeus quando ela entrou em casa, e deu
partida no carro. Tinha que apressar-se porquanto faltavam apenas alguns minutos para
s oito. Sentia-se feliz e aliviado. A Lourdes era encantadora. Sua presena tivera o dom
de acalm-lo. Alm de tudo, era bonita e o atraa muito. Antes ele era comprometido e
no quisera forar nada, agora, porm, se fosse jeitoso, ela haveria de ceder. Imaginava
como seria seu relacionamento com ela, visualizando cenas de intimidade, criando
fantasias.
Elisa, percebendo-lhe os pensamentos, encolhia-se colrica. Nunca pudera supor que ele
fosse to venal! Como ela fora ingnua! Tanto pudor, tanto recato, tanto medo de fazer
algo errado, de parecer leviana! Como estava enganada! Eugnio gostava de mulher
ardente, e ela, tolhida, achava que era feio demonstrar seu temperamento apaixonado.
Por que se limitara tanto, por qu? Infelizmente, agora era muito tarde para se
arrepender. S lhe restava o remorso, a tristeza e a infelicidade.

Captulo 9

Daquele dia em diante, comeou para Eugnio uma rotina diferente. Saa do escritrio
s seis e ia buscar Lourdes na sada do trabalho. Ficavam juntos at pouco antes das
oito, quando Eugnio a levava para casa e se despedia. Eram momentos de convivncia
agradvel e leve. Junto com ela, ele descontraa-se, esquecia um pouco os prprios
problemas. As coisas no iam bem no trabalho. Andava sem sorte ultimamente.
Contudo, ao lado da Lourdes, conseguia reaver o bom humor e a tranqilidade.
Ele nunca tivera tantos problemas na vida. Era uma fase, pensava, haveria de passar e
sua sorte mudar de novo. Gostaria de poder sair com Lourdes  noite, ou mesmo em um
fim de semana, mas no tinha como. No queria convid-la para sair com as crianas.
Marina se revoltaria ainda mais. E depois, no queria um envolvimento srio.
Pensou em convidar Olvia para ficar um fim de semana com as crianas. Ele poderia
pretextar uma viagem e ir com a Lourdes. A cada dia ficava mais interessado em um
relacionamento ntimo, mas ela era arredia. Se ele dispusesse de tempo e pudessem
passar uma noite juntos, certamente derrubaria toda sua resistncia.
Telefonou para Olvia.
-- Como vai, Olvia?
-- Bem. O que quer?
-- Estou precisando fazer uma viagem no prximo fim de semana. Voc poderia ficar
em minha casa com as crianas?
-- Aonde voc vai?
-- Trata-se de negcios. O dono de uma empresa de Ribeiro Preto quer que eu v
conhecer seu depsito.
-- Por que no vai durante a semana?
-- Porque tenho que voltar para casa  noite, esqueceu? E tambm porque ele s estar
l no fim de semana.
Silncio. Depois ela disse
-- Vou pensar.
-- Como vai pensar? No pode dar uma resposta agora? Tenho que providenciar
documentos para levar e tudo o mais. Hoje j  tera-feira.
-- Preciso ver meus compromissos.
-- Fim de semana? Por que me nega este favor? Afinal, tenho feito o que posso e nunca
lhe pedi nada. Se eu no for, posso perder excelente negcio e estou precisando de
dinheiro. As despesas aumentaram muito e, infelizmente, no tenho conseguido bons
negcios ultimamente.
-- Est bem -- disse ela por fim. -- Irei. A que horas pretende sair?
-- Pretendo ir no sbado bem cedo.
-- Est bem. Estarei em sua casa sbado pela manh.
-- Obrigado, Olvia. Sabia que podia contar com voc.
Ele desligou o telefone exultante. Finalmente conseguira. Imediatamente procurou em
seus arquivos alguns folhetos de viagem. Precisava traar um plano para convencer
Lourdes a acompanh-lo.
No pretendia ir muito distante. O importante era escolher um lindo lugar, um hotel
aprazvel, romntico. Em sua cabea, imaginava as cenas de amor que viveria com
Lourdes. Estava empolgado. Finalmente, encontrara de novo o prazer de viver. Aquele
seria o fim de semana mais maravilhoso de toda sua vida.
Elisa o observava. Que desavergonhado! Mentira sem nenhum pudor! Como se
enganara com Eugnio! Ele era sem carter. Conseguira enganar Olvia com facilidade.
Ela precisava fazer alguma coisa. Mas o qu? No podia permitir que ele fizesse o que
pretendia. Enquanto ela sofria e lutava para ajud-lo a cuidar do bem-estar da famlia,
ele se divertia com outra. Nem se lembrava mais dela! Quanta injustia! Ela que sempre
lhe fora fiel, que sempre se dedicara ao seu bem-estar, que cuidara pessoalmente de suas
roupas, de sua comida. Ele no sentia nenhuma saudade. Que ingratido! Mas, agora,
tudo seria diferente. A moa ingnua que ela fora no existia mais. Em seu lugar, estava
a mulher enganada, ferida em seus sentimentos. O homem que ela amara nunca existira.
O verdadeiro Eugnio no era capaz de inspirar-lhe os mesmos sentimentos. Se no fora
pelas crianas, no o teria poupado. No entanto, ela precisava dele para cuidar delas.
Olvia tambm poderia fazer isso. Talvez melhor do que ele. Era bondosa, sincera,
amava as crianas. Pela primeira vez, Elisa pensou que a presena de Eugnio no era
to necessria assim. A
princpio, seu orgulho desejava v-lo assumir a famlia. Agora que ele assumira, ela
comeava a achar que isso j no tinha tanta importncia.
Ele era um homem sem moral. Que educao poderia dar a seus filhos? Marina no
gostava dele, os outros dois eram muito pequenos, mas quando crescessem, logo
descobririam que espcie de pai era o deles. Ou ento, o que seria ainda pior, acabariam
por tornarem-se iguais a ele. No seria muito perigosa para as crianas a influncia de
Eugnio?
Ele que tomasse muito cuidado dali para frente. Ela no teria mais contemplao. Se
continuasse a se portar mal, ela se vingaria. Afinal, ele era o culpado por tudo quanto
lhe acontecera. A defesa de seus filhos vinha em primeiro lugar. Se a presena dele os
prejudicasse, ela o afastaria. Olvia cuidaria deles muito bem. O que faria para isso?
Depois resolveria. O importante era impedir essa viagem idiota.
Eugnio planejou tudo, reservou as passagens. Tendo tudo pronto, ficaria mais fcil
convencer Lourdes. No fim da tarde, foi esper-la, como sempre. Elisa o seguiu. Vendo-
os entrar em uma confeitaria para um lanche, sentou-se ao lado deles atenta.
-- Ser meu primeiro fim de semana livre! Olvia se ofereceu para ficar em casa com as
crianas. Ela sabe que tenho trabalhado demais e preciso me refazer. Afinal, o que tenho
passado no  brincadeira -- disse Eugnio.
-- Voc deve ir mesmo. Precisa aproveitar. Ele hesitou um pouco, depois respondeu:
-- Sozinho, eu no vou. Quero que v comigo. H um lugar maravilhoso e ns teramos
um belssimo fim de semana.
Ela ficou um pouco tensa. Sabia o que Eugnio pretendia. Estava apaixonada por ele,
mas no tinha certeza ainda se desejava envolver-se a esse ponto. Sua formao era pelo
casamento. Nunca se relacionara com ningum. Ele ainda no falara sobre suas
intenes. Sorriu, tentando dissimular o que sentia.
-- Gostaria de ir, mas no posso. No ficaria bem eu ir para um hotel com voc.
Eugnio emocionou-se:
-- O que  que tem? Ns nos amamos! O amor  o mais importante. Voc tem sido para
mim como um blsamo. Depois que perdi Elisa, nunca mais me relacionei com
ningum. Pode acreditar. No tive vontade. Mas voc fez-me renascer, criar novo
nimo. Pensei que pudesse recomear minha vida a seu lado, encontrar novo encanto de
viver.
Elisa teve vontade de saltar sobre ele, mas conteve-se. O cinismo de Eugnio, mentindo,
a indignava. Se ele no se relacionara com ningum, foi porque ela o impedira. E se ele
tentasse de novo, no conseguiria nada. Ele nunca mais conseguiria relacionar-se com
uma mulher! Estava acabado.
Eugnio continuava argumentando para convencer Lourdes a acompanh-lo. Elisa
olhava-os com ar de rancor e desafio.
-- Voc os odeia, no  mesmo?
Assustada, ela olhou para o homem que se aproximara. Era magro, meia-idade, plido e
de seus olhos saa um brilho forte que parecia penetrar no mais fundo de seus
pensamentos.
-- Quem  voc? O que quer? -- indagou assustada.
-- Um amigo. No quero nada. Estava s observando. Sei que voc os odeia. Gostaria
de separ-los, no  mesmo?
-- Como sabe?
-- Eu sei de muitas coisas. Muito mais do que voc poderia entender. -- Ele continuava
a olh-la firme nos olhos. -- Voc sofreu muito. Foi enganada. Tem toda razo. A
vingana  a dignidade dos oprimidos. Voc  uma mulher digna. Sempre foi.
Elisa levantou a cabea com altivez. Finalmente algum que a compreendia. Respondeu
confortada:
--  verdade. Mas no fui valorizada por isso. Ao contrrio. Fui usada e jogada fora,
como coisa que no serve mais.
-- Que horror! Foi ele quem fez isso?
-- Foi.  meu marido. Fiz tudo por ele, o ingrato. Eu estava errada. Ele no merecia.
--  preciso dar-lhe uma lio. No pode deix-lo zombar assim dos seus sentimentos.
--  o que tenho feito. J o separei da amante e no o deixo relacionar-se com
ningum.
--  pouco, mas se voc se contenta s com isso...
-- Eu queria mais, mas no sei como fazer. Nem tudo que desejo, consigo realizar.
-- Se quiser, posso ajud-la. Sei como fazer certas coisas.
-- Verdade? Ele quer lev-la para uma viagem, mas ela tem medo de entregar-se a essa
aventura. Teria um jeito de impedi-lo de ir?
-- Meu nome  Sabino. Nunca ouviu falar?
Elisa meneou a cabea negativamente. Ele continuou:
-- Voc deve ser nova por estas paragens. Eu sou o justiceiro mais famoso destas
redondezas. No posso ver ningum sofrer.  preciso acabar com as injustias e punir os
maus. Formamos
um grupo forte e muito unido. Eu sou o chefe. Elisa olhou-o com respeito:
-- Voc  juiz?
--  como se fosse. Tenho o meu pessoal e juntos lutamos para melhorar o mundo e
educar as pessoas desonestas. Voc foi muito magoada. Se quiser, pode juntar-se a ns.
-- Para qu?
-- Nos ajudaria a cuidar de outros casos como o seu e, em contrapartida, ns a
ajudaramos a conseguir o que deseja.
  --Seria uma troca?
-- Claro.
-- No sei... No o conheo.
-- Fiquei penalizado com seu caso. Mas se no quiser, vou-me embora.
-- D-me um tempo para pensar.
-- Est bem. Pense o tempo que quiser. Quando resolver, basta me chamar.
-- Como vou saber onde est?
-- No precisa. Pense em mim, e virei at voc. Adeus.
Ele desapareceu e Elisa ficou pensativa. Talvez precisasse mesmo de ajuda. Sentia-se
sozinha e tinha muitas dvidas. Com o apoio deles, conheceria outras pessoas como ela
e poderia trocar idias, conversar. Era-lhe penoso no poder falar com ningum.
-- E ento? O que decide? Se voc no for, no irei. Sozinho, no. Sonhei tanto com
esse dia e estou comeando a perceber que voc no sente o mesmo que eu. De certa
forma, estou um pouco decepcionado. No estou preparado para uma nova desiluso.
Talvez seja mesmo melhor no me prender muito a voc. Seu amor por mim no  to
profundo como eu imaginava -- dizia Eugnio com voz triste.
Lourdes, envolvida pela emoo, protestou:
-- No diga isso. Voc sabe que eu o amo. No tem o direito de duvidar. Sempre o
amei, ainda quando renunciei ao seu amor, para que voc ficasse ao lado da sua famlia.
-- Ento prove o que diz. Aceite viajar comigo.
-- Est bem -- concordou ela por fim. -- Seja o que Deus quiser. Eu tambm no
suporto mais essa situao.
Ali mesmo na confeitaria, Eugnio beijou-a amorosamente nos lbios.
-- Vamos sair daqui. Quero apert-la nos braos e beij-la muito!
Pagaram a conta e saram. Elisa, arrasada, continuava seguindo-os.
Viu os beijos, os planos de viagem e no conseguia ocultar o rancor. S no o agrediu,
porque queria saber todos os detalhes. Vendo-o chegar em casa feliz, visualizando os
detalhes da noite que desfrutaria com Lourdes, Elisa no resistiu. Chamou pelo Sabino.
Ele apareceu imediatamente.
-- Resolveu? -- indagou.
-- Sim. Preciso de sua ajuda. Ele no pode fazer essa viagem!
-- Muito bem. Venha comigo.
Elisa acompanhou-o. Ele segurou-a pelo brao e logo foram transportados para outro
local. Era um antigo palcio, cheio de smbolos e guardas, com vistosos uniformes.
Vendo-os, todos se curvaram dando-lhes passagem.
-- Onde estamos? -- indagou Elisa admirada.
-- Em minha casa. Sede do nosso grupo.
-- Parece um quartel militar.
-- E . Eu sou o chefe da organizao. Tenho um exrcito  disposio.
Entraram em uma sala cheia de armaduras e decorao antiga. Ele sentou-se atrs da
escrivaninha lavrada e disse:
-- Sente-se. Vamos redigir nosso contrato.
-- Contrato?
-- Claro. Voc vai dizer o que quer, e ns vamos fazer o servio. Em troca, voc se
compromete a nos ajudar nos outros casos.
-- O que terei que fazer?
-- Nada que no possa.
Elisa no se sentia muito  vontade. Havia algo ali que a amedrontava. Comeava a se
arrepender do que fizera. Ele no lhe deu tempo para refletir. Disse logo:
-- O que deseja que seja feito?
-- No quero que ele viaje com ela. Gostaria de separ-los.
-- Quando ele marcou a viagem?
-- Sbado cedo.
--  fcil. Mandarei um emissrio com voc. Ele far o que  preciso. Agora voc tem
de fazer a iniciao.
-- Iniciao? O que  isso?
-- O juramento e o batismo para se tornar um dos nossos.
-- Sou catlica. Preciso fazer isso?
-- Claro. No tem nada a ver com religio. Se se recusar, nada feito. Como vamos
participar do seu projeto se no  filiada a ns?
-- Est bem.
-- Vou mandar preparar tudo. Enquanto isso, voc ficar no alojamento, com outras
mulheres.
Elisa foi levada a uma ala do palcio onde havia muitas mulheres. Logo a cercaram e
comearam a fazer perguntas. Eram falantes e solidrias. Elisa sentiu-se melhor. Afinal,
podia desabafar, contar o que lhe acontecera. Elas, com certeza, iriam compreender.
No sbado, Eugnio acordou muito cedo. A excitao no o deixava ficar na cama. J
havia arrumado a mala na noite anterior. Comprara um lindo pijama de seda e vrias
peas de roupa. Aquele seria o melhor fim de semana de sua vida! Nem por ocasio do
seu casamento ficara to nervoso.
Chegou  concluso que Lourdes era mais importante para ele do que supunha. Nunca
sentira tanto desejo de estar com uma mulher. Finalmente, ela cairia em seus braos!
Claro que ela sabia o que ele desejava e o fato de haver concordado, o enchia de
contentamento. Ela o amava! Sabia como ela pensava quanto ao casamento e resolvera
abrir mo de seus sonhos de mulher, para estar com ele! Poderia haver prova maior de
amor?
Envaidecido, Eugnio imaginava minuciosamente, em todos os detalhes, como tudo
aconteceria. As horas custavam a passar. Ele havia combinado passar pela casa dela s
oito e eram sete horas ainda. E Olvia que no chegava? Prometera estar ali antes das
oito.
Olvia chegou quinze para as oito, e finalmente Eugnio, dando um beijo nas crianas,
pde sair. Lourdes desceu logo, e ele saltou do carro, apanhando a mala dela e
colocando-a no porta-malas.
Entraram no carro, partiram e logo ganharam a estrada rumo a Serra Negra. Tudo estava
em paz e eles, abraados, conversavam despreocupados. No viram que em uma curva
do caminho dois vultos entraram no carro. Era Elisa e, dessa vez, estava acompanhada
de um homem. Ele fora encarregado de impedir que a viagem se concretizasse.
-- O que vai fazer? -- indagou Elisa ansiosa.
-- Estou aqui para fazer o que voc quiser. Um desastre seria bom.
-- No. Isso no.
-- Deseja proteg-lo?
-- No  isso. No gosto de violncia. Pode ferir outras pessoas que no tm nada com
isso.
-- Bem se v que voc  novata. Quem no tem nada com isso, nunca cairia nessa.
-- S quero que os separe. Que eles no durmam juntos.
-- Posso retardar a chegada.
-- De que forma?
-- Veja.
De repente, o carro comeou a falhar. Eugnio admirou-se:
-- Engraado. Parece que tem alguma sujeira no carburador. O carro est engasgando.
Realmente, ele pisava no acelerador, e o carro no deslanchava.
-- Tem alguma coisa. Vamos ver ali naquele posto.
Pararam no posto de gasolina e verificaram todos os detalhes. No encontraram nada.
Voltaram  estrada e o carro continuava com problemas.
-- No posso compreender. Meu carro  novo, no era para ter esse tipo de problema!
Preocupado, parava de posto em posto, mas no encontrava nada. S a custo chegaram
ao destino, trs horas depois.
-- E agora? -- indagou Elisa. -- Apesar de tudo, eles conseguiram chegar.
-- Um desastre teria sido melhor. Mas voc no quis.
-- Precisamos fazer alguma coisa, Jairo. Mas o qu? O outro sorriu com superioridade.
-- Por que se agita? Eu vim e sei o que estou fazendo. Veja s minha classe...
Eugnio apanhara a mala no carro e encaminhava-se para a portaria do hotel. Jairo
aproximou-se dele, colocando as mos com fora sobre seus ombros e dando-lhe uma
tremenda rasteira. Eugnio nem percebeu como foi, no mesmo instante, estava no cho.
Sentiu uma dor forte na perna, tentou levantar-se, mas no conseguiu.
Lourdes, que o seguia, acudiu assustada, e os empregados do hotel tambm.
-- O que foi ?
-- Escorreguei, no sei como. Minha perna machucou, est doendo terrivelmente.
-- Cuidado, senhor -- disse o gerente do hotel que acudira pressuroso. -- Pode ter
fratura.
Abaixou-se apalpando a perna de Eugnio com cuidado.
-- Ai! -- gemeu ele. -- Est doendo muito!
-- No se esforce. Vamos carreg-lo para dentro e chamar um mdico.
Deitado no sof, no living do hotel, Eugnio no se conformava.
Era muita falta de sorte! Escorregar logo na chegada! Ele nunca se lembrava de haver se
machucado na vida, nem quando jogava futebol. Tentou levantar-se:
-- Vai ver que s luxou. Vamos ver.
A dor o fez deitar-se novamente. Ele no podia. O jeito era esperar pelo mdico. Aps o
exame, o mdico pediu uma radiografia. Suspeitava de fratura mesmo. Foi levado de
ambulncia ao hospital e l constatou-se a fratura um pouco acima do tornozelo. Foi
medicado, engessado. Eugnio recusou-se a ficar no hospital. Preferia o hotel. O mdico
concordou, e Lourdes comprometeu-se a dar o remdio direitinho.
Aquela noite foi muito diferente do que Eugnio havia imaginado. As dores o
incomodavam apesar dos medicamentos, e ele no se conformava. Todos seus projetos
ruram por terra.
Lourdes tentava confort-lo:
-- Isso no  nada. Logo estar bom.
-- Nossa viagem! Sonhei tanto com esta noite! Meu primeiro fim de semana livre. No
posso compreender. Isso nunca me aconteceu.
-- Nossa viagem no comeou bem. Seu carro deu problemas, era sinal que no
deveramos ter continuado.
-- Isso  superstio.
-- Quer voc queira admitir ou no, o que est acontecendo com voc  produto de
energias negativas. Se voc no procurar socorro com quem entende, pode acontecer
coisa pior.
-- No acredito nessas coisas. Lourdes suspirou:
-- Voc ainda vai mudar de idia. Tenho certeza.
-- Sou racional. No posso crer no que diz. Isso  iluso. Lourdes calou-se. Mas Elisa,
sentada confortavelmente em uma poltrona a um canto, observava com satisfao.
Afinal, conseguira o que queria. Dali em diante, no precisava mais se preocupar. Seus
amigos eram muito competentes e tinham poder para fazer tudo quanto ela precisasse.

Captulo 10

Como Lourdes no sabia dirigir, foi forado a contratar um motorista que os levasse.
Sentado no banco traseiro, com a perna esticada, porque quando a abaixava doa
terrivelmente, teve que conformar-se de ver Lourdes sentar-se na frente. Durante o
trajeto, pensava no que lhe acontecera.
Realmente, sua vida se complicara depois da morte de Elisa. Arrependia-se de um dia
haver pensado em abandonar a famlia. Como pudera fazer isso? Essa loucura estava lhe
custando muito caro. Seria um castigo de Deus pelo que havia feito? Nunca fora
religioso, mas como explicar tanta infelicidade?
Sentia-se amargurado e infeliz. Seus negcios no iam bem. Suas comisses haviam
minguado e, agora, impossibilitado de trabalhar durante um ms ou mais, seria pior.
Ainda bem que tinha algumas economias que deveriam garantir o sustento de sua
famlia durante aquele perodo. O mdico lhe dissera que depois de uma semana, se
tudo corresse bem, ele poderia ir ao escritrio por algumas horas, desde que conservasse
a perna levantada e esticada para facilitar a circulao.
Levou Lourdes at em casa, despedindo-se dela com tristeza.
-- No fique triste. Voc vai ficar bom -- disse ela tentando encoraj-lo.
-- Sinto o gosto do fracasso. Estraguei nosso fim de semana. Havia feito tantos planos!
-- No se lamente, que pode piorar. O que passou, passou. Trate de cuidar-se bem
Quando ficar bom, faremos nossa viagem.-- No vejo a hora. Entre no carro. Ela
entrou, e ele beijou-a com carinho.-- Adeus -- disse ela alisando-lhe o rosto com
delicadeza. Tem certeza de que no quer que eu o ajude at em casa?Ele meneou a
cabea negativamente:
-- Por causa das crianas. No iriam entender. Elas ainda sofrem muito com a morte da
me. Precisamos dar um tempo para que elas a conheam e aprendam a gostar de voc.
-- Tem razo. Em todo caso, se precisar de mim, irei de boa vontade. Preocupa-me
saber que em sua casa no ter ningum para ajud-lo.
-- Tem as crianas. E minha cunhada ainda est l. Posso pedir-lhe para dormir esta
noite, no por minha causa, eu estou bem e posso cuidar de mim, mas pelas crianas que
podem necessitar de alguma coisa.
-- Est bem. Adeus e obrigada por tudo. Apesar do que aconteceu, foi muito bom estar
junto com voc.
Beijou-o novamente e desceu. Eugnio acenou em despedida e foram para casa.
O motorista o ajudou a entrar e depois de pag-lo, Eugnio explicou o que havia
acontecido. Estirado no sof da sala, sentia-se arrasado.
Juninho e Nelinha queriam saber tudo, se doia, se o gesso era pesado, se ele havia
escorregado em uma casca de banana.
-- Mame sempre dizia que no era para jogar casca de banana na calada. Algum
podia cair e quebrar a perna -- disse Juninho.
-- Ela estava certa. S que onde eu ca no havia nada.
-- No? Ento por que voc caiu? -- disse Nelinha admirada. -- Estava correndo
muito?
-- No. Estava devagar.
-- Ento no entendo -- disse a menina.
-- . No d mesmo para entender. At agora eu ainda no entendi.
Olvia que os observava calada, perguntou:
-- Quantos dias vai ficar com o gesso?
-- Trinta dias, ou mais. Depende da recuperao. Juninho, pega um copo de gua.
Preciso tomar o remdio. Est doendo muito.
O menino obedeceu prontamente, e Eugnio tomou o comprimido e suspirou
angustiado.
-- Ainda est doendo muito? -- perguntou Nelinha condoda.
-- J doeu mais. Mas ainda di bastante. -- Olhou para Olvia um tanto indeciso,
depois disse: -- poderia me fazer mais um favor?
-- O que ?
-- Dormir aqui esta noite. Se as crianas precisarem de alguma coisa, no poderei fazer
nada. Os primeiros dias so piores. Quando a dor passar, ser mais fcil. Poderei andar.
-- Est bem. Ficarei. Talvez seja bom voc arranjar um par de muletas.
Eugnio enrubesceu de contrariedade:
-- Muletas?
-- Sim. Como pretende caminhar com a perna quebrada? Voc no vai poder for-la.
O mdico no lhe disse isso?
-- Disse. Mas amanh vou chamar o meu mdico. Quero fazer um bom exame e
verificar se est tudo bem. No conheo o mdico que me atendeu. No sei se ele fez
tudo direito.
Olvia deu de ombros.
-- S posso ficar aqui hoje. Amanh terei que trabalhar.
-- Talvez possa vir dormir aqui algumas noites. Pelo menos nos primeiros dias.
-- Oba! -- fez Nelinha. -- Isso mesmo, tia. Que bom!
-- Voc vem? -- indagou Juninho com alegria.
-- No sei. Talvez. Vamos ver como seu pai passa. Se ele no puder cuidar de vocs, eu
virei.
As crianas pularam de alegria, e Eugnio olhou-os amargurado. Mas tinha que
conformar-se, ter pacincia, esperar o tempo passar. No ia ser fcil ter que ficar em
casa sem fazer nada durante alguns dias, com tanto servio no escritrio e precisando
ganhar mais dinheiro. Mas reconhecia que, apesar de seu rancor, Olvia o apoiava no
que se referia s crianas. Pelo menos, ele podia descansar tranqilo quanto ao bem-
estar delas.
Estava em uma mar de m sorte, mas isso havia de passar. Tudo em sua vida havia
sempre corrido muito bem. Nunca tivera problemas. O que desejava, conseguia. No
podia deixar-se abater. Tinha que reagir. Afinal, na vida das pessoas nem tudo pode ser
sempre cor-de-rosa. Tivera algumas contrariedades, era verdade, mas dali para frente,
tudo haveria de mudar. Sua boa estrela voltaria a brilhar.
Estava na hora do jantar, e Olvia aproximou-se:
-- Preparei um lanche para ns. Voc pode ir at a copa para comer ou quer que eu
traga aqui?
-- Estou sem fome. Seria muito trabalho para voc! Olvia olhou-o irnica:
-- No faa essa cara de vtima. Diga logo se quer ou no. Posso ajud-lo a caminhar
at l, ou trazer a comida aqui.
Ele olhou-a indeciso. Por que ela era to diferente de Elisa?
Tentou levantar-se, mas quando abaixava a perna, doa bastante.
-- No vai dar. Sinto muito.
-- Vou trazer algo para voc. No pode ficar sem comer. Foi para a copa e voltou em
seguida com um sanduche de presunto e queijo e um copo de refrigerante. Colocou a
bandeja em uma mesinha em frente ao sof.
-- Se quiser algo mais,  s dizer.
Ele sentia-se acanhado. Era a primeira vez que Olvia o servia.
-- Est bem -- disse. -- Obrigado.
Quando ela se foi, apanhou o sanduche um pouco sem vontade, mas estava gostoso, e
ele comeu tudo. Lembrou-se de que quase no havia almoado.
-- Quer mais um? -- perguntou Juninho. -- A tia mandou perguntar.
-- Est bom. Acho que comerei outro.
Depois de comer, Eugnio sentiu-se melhor. Olvia lhe trouxera um travesseiro, e ele
recostou tentando descansar. Olhos fechados, podia ouvir a conversa animada das
crianas com a tia na copa. Apesar de tudo, precisava reconhecer que sem Olvia teria
sido muito pior. Se fosse ela quem houvesse morrido e deixado filhos pequenos,
certamente Elisa os teria assumido completamente. Por que ela era to diferente? Nem
pareciam irms!
Suspirou conformado. Nada podia fazer quanto a isso. E a Lourdes, como se
comportaria em uma situao dessas? Precisava conhec-la melhor. Sabia que ela era
uma mulher honesta e que, com ela, a situao poderia tomar-se sria. Gostava dela.
Quanto mais a conhecia, mais a apreciava.
Recordou-se dos beijos e dos carinhos que haviam trocado e reconheceu que se um dia
pensasse em se casar novamente, ela seria uma forte candidata. Alm disso, era meiga,
amorosa, doce. Poderia tornar-se uma excelente me para seus filhos. E ento tudo em
sua vida voltaria a ser como antes e, dessa vez, ele no a trocaria por ningum.
Embalado em seus sonhos futuros, Eugnio adormeceu. De repente, viu-se com a mala
na mo, andando rumo ao hotel, recordando o que lhe acontecera. Ele sabia que ia cair e
tentou evitar. Angustiado, no conseguiu. Deitado no cho, sentindo novamente as
dores, viu o rosto de um homem magro e plido que ria e se divertia com seu infortnio.
Agitado, Eugnio pensou:  um pesadelo! Preciso acordar!
Em seguida, viu-se entrando em sua casa, aflito, e uma vez
na sala, viu Elisa, plida, olhando-o rancorosa. Apavorado, ele gritou:
-- Elisa! Voc morreu!
Ela aproximou-se dele brandindo o punho fechado e dizendo:
-- Voc no vai se casar com ela. Eu juro! Nenhuma mulher tomar conta dos meus
filhos! No permitirei! Lembre-se disso.
Eugnio sentiu-se sufocado e quis gritar, mas no conseguiu.
-- Pai! Pai! Acorde. Voc est sonhando um sonho ruim? Eugnio abriu os olhos e viu
Nelinha debruada sobre ele,
alisando-lhe o rosto.
-- Voc est suando!
Custou um pouco para perceber onde estava, depois suspirou aliviado dizendo:
-- Ainda bem que me acordou. Foi um pesadelo horroroso! Quer apanhar um copo de
gua para mim, por favor?
-- Sim, papai.
Ela saiu correndo e voltou em seguida, acompanhada pelo resto da famlia. Olvia deu-
lhe a gua, enquanto Juninho perguntava:
-- Voc sonhou com ladro? Ficou com medo?
-- J passou. Foi s um sonho.
-- Quando eu sonho coisa ruim, fico com medo. Parece verdade!
-- Tem razo. Parece verdade. Mesmo que seja a coisa mais absurda do mundo. Fiquei
muito contrariado com o que aconteceu. Tomei muito remdio e acho que no me fez
bem. Foi s um pesadelo.
Respirou aliviado, mas teve medo de adormecer novamente. Pediu os jornais. Tentaria
ocupar-se um pouco e esquecer os ltimos acontecimentos.
Depois de acomodar as crianas para dormir, Olvia aproximou-se de Eugnio, dizendo:
-- No seria melhor ir para o quarto? Ficaria mais  vontade na cama. Este sof 
pouco confortvel.
-- Eu gostaria, mas no sei como subir as escadas.
-- Posso ajud-lo, se quiser.
-- No posso pisar no cho e quando abaixo a perna, di muito. Acho que passarei esta
noite aqui. Amanh, chamarei o doutor Melo e decidirei o que fazer.
Ele desejava lhe pedir para ficar ali mais um pouco. Pela primeira vez em sua vida,
Eugnio sentia medo. No teve coragem.
-- Deseja mais alguma coisa? Tem algum remdio que vai
precisar tomar? Vou buscar uma garrafa de gua e deixar aqui. Tambm algumas
bolachas e frutas, pode sentir fome. Como vai fazer para ir ao banheiro?
Eugnio corou. A pergunta era natural, mas ele sentia-se muito inibido diante de Olvia.
Estava se sentindo fraco e solitrio, mas no queria demonstrar, por isso, respondeu:
-- Eu me arranjo.
Era muito humilhante para ele essa situao.
-- Pode me explicar como pretende levantar-se se no pode abaixar a perna nem pisar?
-- Voc se esquece que tenho uma perna boa e com ela posso tentar ir ao banheiro.
Olvia meneou a cabea:
-- Voc  mesmo cabeudo! Se quer ficar bom logo, no deve forar a perna quebrada
de forma alguma.
Olvia saiu e voltou trazendo uma bandeja com algumas guloseimas, uma garrafa de
gua e um copo, e a colocou sobre a mesinha ao lado do sof. Foi  cozinha e depois de
alguns minutos voltou com um rodo onde enrolara e amarrara uma toalha, dizendo:
-- Improvisei uma muleta. No  to confortvel quanto poderia, mas pelo menos o
ajudar por hoje.
Eugnio lanou-lhe um olhar nervoso.
-- Obrigado pela inteno, mas no era preciso tanto.
-- No seja to orgulhoso, nem faa tanta pose. Voc vai precisar dela antes do que
supe.
-- Pelo seu ar, acho at que est se divertindo com minha dor. Me odeia tanto assim?
Ela deu de ombros.
-- Eu nunca me divertiria com a dor alheia. Voc me  completamente indiferente.
Saiba que no lhe desejo nenhum mal, porque as crianas precisam de voc. E  por isso
que estou querendo ajud-lo, para que possa sarar depressa e voltar a asssumir suas
responsabilidades.
-- Voc no me perdoa, no  mesmo?
-- Deixemos isso de lado. Tudo que possamos dizer no trar Elisa de volta. No
desejo que as crianas saibam como tudo aconteceu. Se dependesse de mim, nem
Marina teria sabido. Infelizmente, voc no teve esse cuidado quando despedaou o
corao de Elisa.
-- Se Elisa estivesse viva, ela teria me perdoado -- disse Eugnio mais para si mesmo
do que para Olvia. Mas, ela respondeu:
-- Com toda certeza. Elisa era a bondade em pessoa.
Nunca seria capaz de guardar rancor de quem quer que seja. Ainda mais de voc, a
quem ela amava tanto!
-- . Tem razo.  absurdo pensar que Elisa pudesse me odiar.
-- Por que est dizendo isso?
Eugnio passou a mo pelos cabelos como tentando apagar a lembrana do sonho
terrvel de momentos antes:
-- Sonhei com Elisa. Desde que ela morreu, foi a primeira vez. Mas ela estava
ameaadora, me olhando com dio! Nunca a vi daquele jeito!
-- Sua conscincia est comeando a pesar! Imagine Elisa com dio de algum! Isso
nunca aconteceria. Ela era a doura em pessoa,  voc quem est comeando a
arrepender-se do que lhe fez. O remorso ainda vai atorment-lo. Quer castigo pior?
-- Voc no sabe o que diz. Eu errei, sim, mas nunca imaginei o que iria acontecer com
Elisa. Voc pode duvidar, mas eu a queria muito bem. No me olhe com esse ar irnico.
Voc nunca compreenderia. Elisa mudou depois do nosso casamento. No era mais a
mulher apaixonada com a qual eu me casara e que sabia despertar meu interesse. S
falava nas crianas, vivia cheirando a leite, a comida. Acabou o romantismo dos
primeiros tempos. Quando eu estava em casa, no tinha mais assunto. Era s os
problemas das crianas, das contas, do que precisava consertar. Que diabo, eu sou um
homem cheio de paixo, preciso de um clima romntico para viver. Elisa no conseguia
mais alimentar essa minha necessidade.
Olvia meneou a cabea negativamente:
-- Ela fez isso por amor! Dedicou-se totalmente a voc e a seus filhos. Pode haver
ingratido maior do que a sua?
-- Nem sei por que estou lhe dizendo tudo isso. No esperava que me compreendesse.
Como poderia? Voc nunca amou. Sempre foi uma mulher dura, fria, calculista. Eu
nunca pedi a Elisa que fizesse tudo isso. Foi ela que quis. Eu teria preferido que ela
continuasse sendo aquela moa apaixonada e romntica que eu conhecera. Que no
fosse apenas uma me e esposa, mas amante.
-- Desse jeito, voc vai acabar dizendo que a culpa de tudo foi dela.
-- No. Eu no diria isso. Estou apenas tentando dizer-lhe que minha conscincia no
est to pesada como pensa. No sou culpado pela morte de Elisa. O que fazer da vida
quando o interesse acaba? Meu mal foi ser sincero demais. Eu poderia tranqilamente
continuar mantendo as duas mulheres, e Elisa nunca descobriria nada. Quantos homens
tm uma vida dupla? Eu errei apenas, porque
quis esclarecer uma situao dbia e desagradvel.  s do que eu me culpo. O resto
correu por conta do destino, ou sei l o qu!
Olvia suspirou triste. Aquela conversa a aborrecera. Reconhecia que Elisa se tornara
muito dependente e apagada depois do casamento. Quantas vezes lhe pedira que
mudasse sua maneira de ser? Sabia que ela estava errada. Mas nunca fora ouvida. Doa-
lhe perceber que, de certa forma, Eugnio tinha algumas queixas tambm.
No queria pensar nisso. Seria injuriar sua memria. Ela no estava mais ali para se
defender. Por isso, disse:
-- No gosto de falar sobre isso. No tem remdio mesmo. Vou dormir. -- Ia saindo e
voltou para dizer -- apesar de tudo, tenho interesse em que se recupere o quanto antes,
por causa das crianas. Por isso, se precisar de alguma coisa durante a noite, pode
chamar. Deixarei a porta do quarto aberta.
Ele a olhou e no respondeu. Sentia-se deprimido, triste. Apagou a luz do abajur e
pensou em dormir. Sentiu uma sensao de medo. Parecia sentir vultos pela sala.
-- Que bobagem ! -- pensou. -- Nunca tive medo de nada. Estou ficando fraco. Onde
j se viu?
Mas acendeu a luz novamente. Apanhou o jornal e suspirou resignado. Tentaria ler mais
um pouco. De repente, sentiu vontade de urinar. Comeou a medir a distncia de onde
se encontrava at o lavabo. No media mais de cinco ou seis metros, mas naquele
momento pareceu-lhe impossvel venc-la. Mas ele precisava ir. Criou coragem e tentou
levantar-se. Apesar da dor, conseguiu equilibrar-se em uma perna s. Poderia ir
pulando, mas e se escorregasse? Resolveu experimentar a muleta improvisada. Com ela,
conseguiu chegar onde pretendia. Uma vez aliviado, olhou-se no espelho e viu o quanto
se abatera.
Precisava reagir. Afinal, a vida no ia se acabar s porque ele quebrara a perna. Muitas
pessoas quebravam a perna e se recuperavam perfeitamente. Era preciso ter pacincia. A
dor ia passar e logo ele estaria melhor.
Voltou ao sof e teve que reconhecer que a idia de Olvia fora providencial. Sem
aquela muleta, talvez no tivesse conseguido ir e o vexame teria sido maior.
Olvia era uma mulher prtica. Isso facilitava muito a vida. Pela primeira vez, comeou
a pensar na maneira desenvolta como ela resolvera os problemas, desde a morte de
Elisa. Apesar das divergncias, ela o ajudara muito. Claro que a seu modo. Era muito
diferente de Elisa, que nunca tomava iniciativa. Consultava-o sobre
as mnimas coisas e s fazia o que ele dizia. Ela era muito boa, mas s vezes essa
passividade o irritava um pouco.
Lembrava-se dela com saudade. A seu lado, sua vida correra sempre maravilhosamente
bem. Ah! Se pudesse voltar no tempo! Nunca a teria deixado. Percebia que Eunice fora
uma paixo sem profundidade. Como pudera pensar em abandonar a famlia por causa
dela? Agora que estava livre, essa febre passara. Esquecera completamente. E Lourdes,
viria a representar algo verdadeiro em sua vida? No sabia. Sentia-se atrado por ela,
mas no a amava.
Ela era inteligente, educada, bondosa e muito diferente de Elisa. Se um dia eles viessem
a se casar, ela tambm mudaria, como Elisa mudara? Por que ser que as mulheres se
transformam tanto com o casamento?
O esprito de Elisa olhava-o triste. Ela percebia cada pensamento de Eugnio. Como
fora ingnua! Como se anulara! Lembrou-se da me quando lhe dizia:
-- A mulher s se realiza no papel de me e de esposa. Nada  mais importante do que
isso.
Tudo quanto ela sonhara na vida fora ser uma excelente me e esposa. De que lhe
valera? Gostaria de encontrar a me frente a frente para dizer o quanto ela estava
enganada. Por sua causa, por acreditar no que ela lhe dizia, fizera de sua vida uma
iluso. Nada disso era verdade!
-- Elisa!
Elisa levantou-se assustada. Uma mulher jovem e bonita estava diante dela.
-- Quem  voc? -- indagou ela.
-- No se lembra de mim? Sou Virgnia. Tenho procurado lhe falar, mas voc nunca me
ouviu.
Elisa sentia-se atordoada:
-- Minha vizinha que morreu de desastre? Est viva, como pode ser isso?
-- Voc tambm morreu atropelada. Que diferena faz? Continuamos vivas e isso  o
que conta.
Elisa olhava-a temerosa. Nunca havia pensado que poderia encontrar-se com seus
amigos mortos. Estava embaraada. Virgnia aproximou-se dizendo:
-- Olhe para mim, Elisa. Pense em nossa amizade. Sempre gostei de voc.
Elisa olhou e havia tanto amor naquele olhar que ela no resistiu e gritou desesperada:
-- Virgnia, minha dor  imensa!
Virgnia apertou-a nos braos dizendo emocionada:
-- Chore, minha pequena. Estamos juntas como antigamente. Desabafe o que vai pelo
seu corao. Finalmente, podemos conversar!
O esprito de Jairo, com a chegada de Virgnia, encolhera-se em um canto da sala,
observando preocupado. No gostava dessas interferncias. Percebia que aquela mulher
poderia influenciar Elisa. Ficaria atento, para comunicar ao chefe. Ela parecia no haver
notado sua presena.
Elisa, acariciada e sentindo-se compreendida, desabafava contando o que lhe
acontecera. Virgnia, embora soubesse de tudo, ouvia-a atentamente, porque sabia que
ela precisava desabafar.
-- Sempre fui boa esposa, fiz tudo para que Geninho fosse feliz. Renunciei a mim
mesma em favor dele e dos nossos filhos. Para qu? -- enfatizou ela com amargura. --
O que foi que ganhei? Apenas desprezo e ingratido. Olvia estava certa. O casamento 
uma armadilha. Os homens so todos volveis, e nada importa a eles, seno sexo.
Eugnio me traa o tempo todo. Por fim, me abandonou com as crianas, trocando-nos
pelo amor de outra mulher.
Virgnia alisava-lhe a cabea reclinada em seu peito. Quando ela se calou, disse calma:
-- Voc est cansada. Precisa refazer-se. No se martirize tanto com algo que j passou.
Precisa cuidar-se. Reencontrar o prazer de viver.
-- De que forma? Como esquecer se a ferida ainda sangra e meus filhos esto sozinhos?
-- Ningum est s. Seus filhos esto protegidos e bem cuidados. Neste momento,
pouco pode fazer por eles. Voc est doente e precisa de tratamento. Venha comigo.
Vou lev-la a um lugar de paz onde ser muito bem atendida. Logo estar bem e em
condies de ajudar a todos os que ama.
Elisa afastou-se um pouco fitando-a com tristeza:
-- No posso. Meu dever  ao lado dos meus filhos. Sou uma boa me. Meu primeiro
dever  com a famlia. Lembra quando voc me dizia que ser boa esposa e me  nossa
maior misso?
Virgnia sustentou o olhar e respondeu:
-- Isso no deixa de ser verdade. Essa  realmente uma grande misso. No entanto, a
maneira pela qual pretendemos cumpri-la  que faz a diferena. No  preciso anular-se
para ser uma boa companheira.  participando, assumindo seu lugar, dividindo as
alegrias e aspiraes, as obrigaes e os problemas.
-- Mas eu cooperei! Economizei para ele, fiz tudo para que
ele pudesse brilhar, tivesse o melhor carro, as melhores roupas. Isso no foi
contribuio?
-- Foi, minha querida. Voc fez o que achou melhor. Deu de si, dentro do que sabia.
-- Ele no pensa assim. Sabe o que disse  Olvia? Que ele no pediu para que eu
fizesse isso. Que preferia que eu tivesse continuado a ser como antes do casamento. Ele
no reconheceu o que fiz, o ingrato. D mais valor quela ftil da Eunice que vive
pensando em dinheiro e posio e detesta crianas.
Virgnia alisou a cabea de Elisa com carinho.
-- No se atormente mais com isso. As pessoas so diferentes umas das outras. No
pode querer que Eugnio pense como voc.
-- Ele vai ter que assumir a famlia. Tem obrigaes a cumprir com os filhos, j que eu
estou aqui de mos atadas, por culpa dele.
-- Elisa, venha comigo. Desejo mostrar-lhe um lugar maravilhoso de refazimento e
paz.
-- Gostaria muito. Tenho estado arrasada. Mas agora  impossvel. Ainda no acabei o
que preciso fazer. Quem sabe um dia, quando as crianas crescerem e no precisarem
mais de mim, eu irei com voc.
-- Elas esto bem. Precisa reconhecer que Eugnio tem se esforado para que nada lhes
falte. Depois, Olvia est vigilante. Pode confiar.
-- Ele pensa em voltar a casar. Procura algum que possa substituir-me. No quero que
meus filhos sejam entregues a uma madrasta.
-- Por que no? De repente, pode ser uma moa boa, que cuide bem deles. J que no
pode voltar l, essa at que seria uma boa soluo.
-- Deus me livre! Nunca permitirei. Ele  quem tem que cuidar deles at que cresam.
No quero que outra tome meu lugar! -- Os olhos de Elisa brilhavam de clera.
Virgnia desviou o assunto:
-- Est bem. Voc  quem sabe. Mas eu gostaria que viesse comigo. Eu a levaria a um
salo de beleza. J reparou como est abatida? Precisa reagir. Vem comigo! Poder ver
as crianas quando quiser. Conseguirei licena para voc.
Elisa abanou a cabea negativamente.
-- No quero. Sei do que est falando. J quiseram me levar a um lugar desses, de onde
no se pode sair sem permisso.
No suportaria. Sou livre. J fui escrava do lar durante muito tempo. Agora acabou.
Ningum conseguir prender-me de novo.
-- Elisa, voc precisa de tratamento. Seu estado pode piorar. Voc sempre foi calma e
cordata. Venha comigo.
-- Fui e me dei mal. Agora no sou mais. S farei o que quiser. Nunca mais serei
escrava de ningum.
-- Lamento que pense assim. Voc sofreu com a desiluso, porm a revolta pode faz-
la sofrer muito mais. Pense nisso. A vida  o que fazemos dela. Aceite o que lhe
aconteceu. Um dia compreender como atraiu isso. No crie um sofrimento maior. No
aprofunde a ferida. S o perdo pode aliviar o corao e fazer esquecer.
-- No acredito nisso. No vou perdoar. Ao contrrio. Vou me vingar o quanto puder e
vigiar. De agora em diante, Geninho s vai fazer o que eu quiser.
Virgnia abraou-a com carinho dizendo:
-- Preciso ir. Lembre-se que eu a quero muito e desejo o seu bem. Se precisar de
alguma coisa, pense em mim e virei imediatamente. Se mudar de idia, estarei
esperando.
Beijou-a delicadamente na face e se foi. Elisa permaneceu pensativa e triste. Por que lhe
acontecera tudo isso? pensava desanimada.
Jairo aproximou-se imediatamente dizendo:
-- Ainda bem que no cedeu.  isso mesmo. Tem muita razo. Voc sempre foi passada
para trs. No seja boba de cair nessa outra vez.
Elisa abanou a cabea:
-- Sei o que quero. Agora, ningum vai me enganar de novo.
-- Isso mesmo. Com a nossa ajuda, conseguir tudo quanto deseja.  s no
desobedecer o chefe. Ele vai se zangar se souber que deu ouvidos a outras pessoas. Se
quer a proteo dele, tem que fazer tudo como ele quer.
-- Ela  minha amiga e no pude evitar. Mas voc viu que eu no atendi ao que me
pediu. Sou grata pela ajuda de vocs.
--  bom que pense assim. No poderia se afastar agora, voc j nos deve alguns
favores e tem que pag-los. Esse foi o trato, no  verdade?
-- . Estou pronta a fazer o que me pedirem.
-- Estou s esclarecendo, porque voc  novata e pode resolver entrar na dela.
-- Isso no vai acontecer. Estou decidida. Sei o que quero! Jairo sorriu satisfeito:
-- Assim  melhor. Agora vamos embora. Por enquanto, nada mais temos a fazer aqui.
-- Gostaria de ficar mais um pouco.
-- Para qu? Tudo est bem. Voltaremos amanh. No pode ficar s aqui. Precisa
aprender vrias coisas e temos trabalho a fazer.
Elisa no tinha vontade de ir, mas concordou. Tinha receio de contrari-lo. No queria
desagrad-los e perder aquela ajuda to preciosa. Por isso, foi at o quarto das crianas,
beijou-as com carinho. Com um suspiro triste, saiu acompanhando Jairo e, dentro de
alguns instantes, seus vultos desapareceram nas sombras da noite.


Captulo 11
Eugnio levantou-se inquieto, apoiando-se nas
muletas e andando de um lado a outro do quarto. Precisava fazer alguma coisa. Estava
cansado da inrcia. Tanto trabalho no escritrio e ele ali sem poder fazer nada! Sua
secretria trazia-lhe papis para despachar, e ele tentava fazer alguma coisa para
entreter-se. Fazia um ms que se acidentara. A dor passara, mas o gesso incomodava, a
perna cocava. Teria de agentar mais quinze dias. O tempo no passava!
Amaro o fora visitar, e Eugnio contou-lhe como tudo acontecera. E finalizou:
-- Foi acontecer logo com a Lourdes. Eu estou louco por ela. S sonhava com o
momento de t-la nos braos.
-- At que enfim.
-- Ela fez-me esquecer aqueles probleminhas que estava tendo com as mulheres. No
via a hora de estar com ela! Mas quando no  uma coisa,  outra. Eu tinha que
escorregar justamente naquele momento em que ia conseguir?
--  verdade. Isso me faz supor algo mais...
-- L vem voc com suas idias.
-- Parece que algum deseja atrapalhar seu relacionamento com as mulheres.
-- Como assim?
-- Antes, voc perdia o embato na hora de dormir com algum. Quando conseguiu
gostar de uma, desejar, ficar no ponto, eis que quebra a perna. Seu tombo  muito
suspeito.
-- Suspeito?
-- Claro. Como foi que caiu? Havia alguma casca de banana, tropeou em alguma
coisa no caminho, afinal, como aconteceu?
-- Foi a coisa mais besta que podia acontecer. No havia nada. Simplesmente perdi o
equilbrio e ca.
--Sem mais aquela?
-- Sem mais aquela.  isso que me deixa mais danado.
-- Algum lhe deu uma rasteira, isso sim.
-- No havia ningum l.
-- Estou me referindo a algum do outro mundo. Parece um tombo arranjado.
-- No acredito nisso. Imagine! Voc e esses espritos.
-- Faz mal em no pensar nisso. J lhe disse uma vez. Voc precisa procurar um
Centro e ver o que est acontecendo. Por que sua vida deu uma guinada dessas? Voc j
no  o mesmo.
-- Concordo. Depois de tudo que me aconteceu, como queria que eu ficasse?
-- Est certo. Voc fraquejou, quis deixar a famlia, aconteceu o acidente com Elisa.
Foi triste, mas voc conseguiu atravessar essa tempestade e tomou conta da situao
com vontade. No se deixou abater, reagiu, quer retomar a vida, no perdeu o
entusiasmo. Por isso, no se justifica essa onda de problemas que vem enfrentando.
-- Tambm no entendo. Sempre tive sorte em tudo. Nunca peguei uma mar to
pesada como agora.
--  isso. No tem explicao plausvel. Por isso, deve ir ao Centro, fazer uma consulta.
Eles vo poder dizer se est sendo assediado por algum esprito desencarnado,
interessado em prejudic-lo.
-- No acredito nisso. No tenho inimigos. Nunca fiz mal a ningum.
-- Eles podem acreditar que sim e querer vingar-se. Eugnio sacudiu a cabea
negativamente:
-- No pode ser. No conheo ningum que queira vingar-se de mim. Essa idia 
muito louca.
Amaro olhou-o srio dizendo com voz firme:
-- No seja to resistente. Se, como suspeito, voc estiver sofrendo a perseguio de
algum esprito interessado em prejudic-lo, as coisas podem vir a piorar.
-- Vire essa boca pra l! Piorar ainda mais? No vejo a hora de ficar bom, retomar o
trabalho, preciso ganhar dinheiro. Minha famlia precisa de mim. As crianas esto na
escola, tenho despesas. Sabe que este ms estou s com o fixo e minhas economias
esto se dissolvendo. Se eu no trabalhar logo, corro o risco de ficar sem nada. Nunca
tive poca to ruim.
-- Mais uma razo para fazer o que estou dizendo. O que tem a perder? Levo voc l,
conversa, se esclarece, recebe ajuda
espiritual e pronto. No vai pagar nenhum centavo.  tudo grtis.
-- Como pode ser tudo grtis? Como eles fazem para sobreviver?
--  uma sociedade sem fins lucrativos, o trabalho  voluntrio. Fazem promoes
beneficentes, voc sabe como , chs, almoos, bazar. Eles ainda mantm servio de
Assistncia Social. Atendem famlias carentes. So gente boa e muito respeitada.
-- Para fazer um trabalho desses devem ser mesmo. Mas eu no consigo acreditar em
espritos. Sinto muito.
-- Est bem. No vou insistir. Quando mudar de idia, avise-me.
Amaro acostumou-se a ir, quase todas as noites, fazer companhia a Eugnio. Levava os
jornais, falavam de futebol, de poltica, do trabalho. As crianas acostumaram-se com
ele, que sempre aparecia com balas, revistinhas, chocolates, doces. Nelinha sentava-se
no colo do "tio Amaro", e os outros dois postavam-se em volta e ele contava algumas
histrias da vida de Jesus, sua infncia, seus milagres, romanceando a tal ponto que eles
se emocionavam, tocados pela beleza da narrativa.
Eugnio observava-os admirado, muitas vezes sentindo-se tambm fascinado com as
histrias de Amaro. Uma noite, depois das crianas haverem se recolhido, Eugnio
comentou admirado:
-- No sabia que voc tinha esse dom.  um narrador incrvel. At eu me emociono
com suas histrias. Onde aprendeu tudo isso?
-- Nosso contato era mais profissional. Mas eu adoro ler bons livros, principalmente
biografias de grandes homens. Sempre tive curiosidade de descobrir como eles
chegaram a ser o que eram. Tudo que eu conto, aprendi com eles. Sou s um narrador,
mas a beleza vem deles. Eles  que descobriram a cincia de viver com sabedoria.
-- As crianas adoram. Quando voc no est, querem que eu conte as mesmas
histrias, mas eu no sei. Voc tem sido muito amigo. Pode ter certeza de que nunca
esquecerei esses momentos.
-- Adoro crianas. Seus filhos so maravilhosos. Eu  que deveria agradecer por dividir
comigo esses momentos. Eles enchem minha vida.
-- Voc mora sozinho e ainda no se casou. Teve alguma desiluso amorosa?
Amaro sorriu:
-- Nada disso. Ainda no encontrei a mulher dos meus sonhos. Acho que nunca
encontrarei.
-- No creio.  ainda moo. No completou 40 anos.
-- Falta pouco.
-- De fato, voc vive muito s.
-- Quando a saudade bate, vou ver a famlia no interior. Fico l um pouco, mas volto
logo. Adoro a cidade, as luzes e a noite.
-- Voc no  bomio.
-- No. Mas gosto de ver as luzes, ouvir msica at tarde, danar de vez em quando.
-- E aquela namorada, a Clia?
-- Acabou. No ia dar certo mesmo.
-- Precisa ter algum.  triste ficar s. Sabe que a Lourdes tem me visitado algumas
vezes. Mas, quando Olvia est, ela no vem porque sabe que ela no gosta.
-- E as crianas, como a recebem?
-- Os dois menores, muito bem. Mas Marina se fecha no quarto, no aceita. --
Eugnio suspirou triste e prosseguiu: -- essa menina no me perdoa. Quando falei com
Elisa que ia embora, no sabia que ela estava escondida escutando. s vezes parece que
tem dio de mim.
-- Tenha pacincia com ela. O que passou foi muito difcil. Ela associou a morte da
me com sua atitude.
-- Ela tem razo de certa forma. Se eu no houvesse tomado aquela infeliz deciso,
nada disso teria acontecido. No tive inteno, mas contribu para provocar a situao.
Estou consciente disso.
-- No se martirize. Ela  ainda criana. Ignore sua rebeldia e continue sendo bom para
ela. Um dia, compreender melhor o que aconteceu.
-- Espero que esteja certo. Esta situao me incomoda e angustia.
Era quase meio-dia do domingo quando Olvia chegou. Tencionava levar as crianas
para almoar.
-- J encomendei o almoo para todos -- disse Eugnio.
-- As crianas precisam sair um pouco. Achei que voc no se importaria.
Eugnio deu de ombros.
-- Est bem. Pode lev-las. A comida ficar para o jantar.
A alegria foi geral. Entusiasmados, eles aprontaram-se e saram com a tia.
Eugnio, vendo-os se afastarem, sentiu-se muito s. J havia lido o jornal e no havia
nada que pudesse fazer. Quando a comida chegou, colocou-a sobre o fogo. No
gostava de comer sozinho.
 Nos ltimos tempos, habituara-se com as crianas e agora parecia-lhe que a casa estava
silenciosa demais.
-- Estou ficando piegas -- pensou irritado. Se ao menos pudesse sair, dar uma volta!
Ainda no podia dirigir. Com Olvia no podia contar. Ela nunca o convidaria para sair.
E mesmo que o fizesse, ele ficaria constrangido. Eles nunca se entenderiam. Se ao
menos Lourdes guiasse, poderiam passear um pouco.
Quando Amaro apareceu, ele no se conteve:
-- Ainda bem que algum se lembrou de mim! Amaro sorriu:
-- O que  isso? Crise de solido?
-- No caoe. No agento mais ficar preso em casa. Ainda bem que voc apareceu.
-- Pensei que as crianas estivessem em casa. Trouxe algo para eles.
-- Obrigado. Eles saram com Olvia.
-- J almoou?
-- Ainda no.
-- Que tal irmos comer em algum lugar?
-- Tenho comida na cozinha.
-- Guarde para depois. Vamos sair, voc precisa distrair-se.
Eugnio concordou satisfeito. Arrumou-se um pouco e, ajudado por Amaro, acomodou-
se no carro. Foram a um restaurante. Estava lotado, mas Eugnio sentiu-se bem vendo o
movimento. Quando se acomodaram, Amaro perguntou:
-- No est cansado?
-- Ao contrrio. Estou me sentindo muito bem. No agento mais ficar em casa.
-- Falta pouco. Mais alguns dias e tudo estar bem. Conversaram animadamente.
Depois do almoo, Eugnio quis ir at a casa da Lourdes, mas l no havia ningum.
Passava das cinco quando voltaram para casa. Mal se haviam acomodado quando Olvia
voltou com as crianas que correram abraar o Amaro.
-- Tomei sorvete de chocolate! -- disse Nelinha com entusiasmo.
-- E eu comi morangos com creme! -- ajuntou Juninho. -- A Marina comeu torta de
coco.
-- Pelo jeito, a sobremesa foi a melhor parte -- comentou Amaro sorrindo.
-- Minha cunhada Olvia -- disse Eugnio dirigindo-se ao amigo.
-- Muito prazer. Tenho ouvido falar muito de voc -- disse
ele amvel.
Olvia olhou desconfiada para Eugnio. Sabia que o cunhado certamente no a teria
elogiado.
-- Espero que no tenham falado mal -- respondeu ela.
-- Claro que no. As crianas a adoram.
-- Eu tambm gosto delas -- e dirigindo-se s crianas: -- vamos lavar as mos.
Olvia acompanhou-as ao lavabo, depois foi  cozinha e voltou logo dizendo a Eugnio:
-- A comida est sobre o fogo. Voc no almoou?
-- Fomos comer fora -- esclareceu ele com satisfao. Ela no respondeu e voltou 
cozinha.
Nelinha foi cham-la:
-- Tia, vamos l na sala. O tio Amaro vai contar histria!
-- Ele pode comear que depois eu vou.
-- Nada disso. Se voc no vier, vamos esperar. Eu quero que voc escute tambm.
-- Est bem. Vamos l.
Foram para sala e Nelinha sentou no colo da tia, enquanto o Juninho se acomodava nos
joelhos do Amaro. Enquanto ele contava uma histria e todos ouviam atentos, Eugnio
admirava-se de Olvia haver concordado em sentar-se ali com eles. Pelo menos, ela no
se mostrara mal-educada com Amaro.
Quando ele acabou, as crianas bateram palmas e pediram outra. Ele no se fez de
rogado. Olvia levantou-se, foi  cozinha, fez caf e os serviu. Eugnio estava admirado.
O que dera nela? Depois da terceira histria, Olvia decidiu:
-- J  noite. Querem comer alguma coisa?
Foi  cozinha e como ningum quisesse jantar, serviu algumas guloseimas com
refrigerantes. Depois disse:
-- Est na hora de dormir. Eu levo vocs para cama, depois vou embora.
Eles relutaram, mas acabaram concordando. Despediram-se e Olvia subiu com eles
para o quarto. Voltou, meia hora depois, despediu-se de Amaro educadamente e disse a
Eugnio:
-- Coloquei a comida na geladeira.
-- Obrigado -- respondeu ele.
Ela saiu e quando a porta se fechou, Eugnio comentou:
-- Nem me disse boa noite.  mal-educada mesmo. Estou acostumado.
-- No me pareceu. Foi discreta, mas no mal-educada. Preparou caf para ns.
-- Fiquei admirado. Ela no costuma fazer isso.
-- Talvez no seja to ruim como voc fala.
-- Vai ver que ela fez isso s para me contrariar. Quer mostrar-se gentil, para que voc
pense que eu sou implicante com ela. Viu como ela  fria?
Amaro riu gostosamente.
-- Eu no vi nada.  uma mulher muito bonita, se quer saber. Objetiva, sabe o que quer
da vida. No tem nada de ftil nem de fria.
Eugnio olhou-o admirado:
-- Voc no a conhece bem. Ela  teimosa, s faz o que quer e no me tolera.
-- Vocs podem no se entender, mas eu no me engano.  corajosa, decidida e, em vez
de teimosa, eu diria que no se deixa influenciar pelos outros. Repito, ela sabe o que
quer.
-- Est sendo muito generoso. Quando a conhecer melhor, ver que tenho razo. Ela 
intolervel.
-- Tem ajudado voc, apesar de tudo.
-- Isso . Reconheo que teria tido mais dificuldade se ela no houvesse me socorrido.
No sou ingrato. Mas ela no perde ocasio de me lembrar os erros passados. Culpa-me
pela morte de Elisa e nunca me perdoar.
-- Ela amava muito a irm.
--  verdade. Quando os pais morreram no desastre de trem, apesar de mais nova,
cuidou de Elisa como se fosse me. Mas isso ainda  pior. Nunca admite que Elisa tenha
mudado com o casamento e que isso tenha contribudo para que eu tambm mudasse.
Que diabo, se isso aconteceu, a culpa no foi toda minha. Depois, o que fazer quando a
atrao acaba? Como fingir interesse se a magia acabou?
-- Voc amava Elisa.
-- Amava. Quando nos casamos, amava muito. Mas depois tudo foi mudando e, um dia,
me dei conta que quando a tocava, era como se tocasse uma irm, uma amiga. Ela era
perfeita, to boa, to certa em tudo, eu no queria ser ingrato. Mas quanto mais eu
forava para me sentir atrado por ela, mais percebia que estava indiferente. Nos ltimos
tempos, sentia at certa rejeio quando ela se aproximava e me tocava.
-- Isso  doloroso.
-- Claro. Eu queria ser diferente. Muitas vezes pensei em todas as suas qualidades,
tentando voltar a ser como antes. Mas no consegui. Quando apareceu Eunice,
mergulhei completamente na
paixo.
-- Como toda paixo, passou tambm.
--  verdade. A paixo  avassaladora, mas passa. Hoje mal me recordo dela. E pensar
que por causa disso, destru nossa vida.
-- No foi por causa disso. Quando foi para os braos de Eunice, sua vida conjugal j
estava acabada. A chama da atrao precisa ser alimentada. O amor  uma troca onde h
um encontro sempre prazeroso de duas pessoas. Precisa da participao de ambos. Sem
isso, ele morre.
-- Como sabe? Voc nunca se casou!
-- Tenho observado. No casamento, as pessoas assumem cada um o seu papel e passam
a viver em funo dele. Querem fazer tudo certo e agem de acordo com as regras da
sociedade convencional. Deixam de avaliar sentimentos, fazer o que sentem,
transformam-se em robs, sem vontade prpria. A comea o desencontro das almas.
Elas se distanciam, vivem na iluso.
-- Deus sabe como eu gostaria que houvesse sido diferente.
-- Voc  um homem ardente, romntico, prefere uma mulher mais amante do que uma
esposa convencional. Quando Elisa entrou nesse papel, perdeu o encanto e voc
desinteressou-se.
-- Eu a amava tanto! No princpio ramos to felizes! As mulheres, quando casam,
mudam completamente. Querem ser uma esposa e uma me maravilhosa. E ns, os
maridos, acabamos em segundo plano. Quando nos apaixonamos por outra, nos acusam
de ingratido, alegando que se sacrificaram para nos fazer felizes. Quer saber o que eu
penso? Na verdade, elas no se preocupavam com nossa felicidade, mas com a vaidade
de ser uma esposa perfeita. Foi o que nos aconteceu, e eu acabei como nico culpado
dessa tragdia, odiado e criticado por minha cunhada e at por minha prpria filha.
Gostaria que elas entendessem que eu sou humano. Desejava um pouco mais de amor,
de ateno, de romance. Que diabo, ser to errado sentir isso?
Amaro meneou a cabea pensativo:
-- Um relacionamento  sempre uma lio de vida. Apesar de tudo, voc tem aprendido
muito com essa experincia. Concordo que Elisa tenha esquecido de alimentar a chama
do amor entre vocs. Estava segura. As mulheres apegam-se ao casamento. Acreditam
que ele, por si s, seja uma garantia de afeto para o resto de suas vidas. Por isso,
desdobram-se tanto ao papel de esposa e me e se esquecem de ser mulher. No entanto,
voc fez o oposto. No se
dedicou  convivncia familiar, nao participou como pai da vida de seus filhos. Ficou no
seu canto, esperando que Elisa fizesse tudo.
-- Ela era to eficiente! Nunca deixou que eu fizesse nada.
-- Confesse que foi cmodo para voc. Casou, encontrou quem cuidasse de voc, o
mimasse, evitasse qualquer preocupao domstica, e no precisou dar nada em troca.
-- Sempre cuidei da minha famlia. Nunca faltou nada a eles.
-- Voc criticou Elisa, mas tambm entrou no papel tpico de marido. Dava o dinheiro e
pronto. Tudo feito. No lhe ocorreu que eles precisavam de mais?
-- Agora voc tambm est me criticando?
-- Longe de mim essa idia! Voc comeou o assunto, e estou colocando apenas os
fatos para que os veja mais claramente.
-- Voc nunca se casou, no sabe como so as coisas.
-- Somos companheiros de trabalho h muito tempo. Quando conversvamos, nunca o
ouvi falar dos filhos com entusiasmo, contar pequenas coisas que eles faziam, como a
maioria dos pais que so meus amigos. Voc nem parecia casado! Nunca o ouvi falar de
qualquer problema domstico. Ao contrrio. Estava sempre bem-disposto, freqentava
lugares da moda.
-- Naquele tempo, no precisava me preocupar com nada.
-- Graas  Elisa.
-- . Graas  Elisa. Pensa que no reconheo isso? Acha que no me arrependi?
-- Agora, pelo menos, conhece melhor seus filhos. Eles so maravilhosos. No acha
que foi um bem?
--  verdade. Eu agora no poderia mais ficar longe deles. Nem sei como pude ser to
cego. Eles so to inocentes, to crdulos, to alegres! Preciso proteg-los. No desejo
que sofram. Estavam seguros com Elisa. Agora, s tm a mim. Eu errei,  verdade, mas
me arrependi e hoje penso diferente. Pena que Marina no queira entender. Queria
muito que ela me perdoasse.
-- Ela est ressentida com o que aconteceu. Sabe o que eu penso? Ela gosta de voc
tanto ou mais do que os outros dois.  exatamente por isso que est to magoada. J
reparou como ela no perde oportunidade para dizer que voc os trocou por outra?
-- No!... Ser? Tomou as dores da me.
-- No fundo, est reclamando da prpria dor. Ela sofre, porque acredita que voc s
est aqui com eles porque no tem opo.
--  isso que ela diz. Mas, no  verdade. No princpio,
pode ter sido, mas agora, no. Lamento haver procedido assim antes. Tenho procurado
demonstrar meu afeto de todas as formas.
--  o que pode fazer. Continue e seja paciente. Um dia, ela compreender.
-- Fao votos que esteja certo.
-- Agora preciso ir. Amanh acordo cedo.
-- Preferia acordar cedo e ir trabalhar do que ficar aqui, sem poder fazer nada.
-- No reclame. Voc precisava mesmo de umas frias. Logo estar bom e retomar
sua rotina.
-- Obrigado. Sou-lhe grato por tudo quanto tem feito por mim.
-- No agradea. Estou alimentando meus instintos pater-nais. Adoro vir aqui.
-- No sei por que no se casou. Tem tudo para ser um feliz papai!
Amaro sorriu e seus olhos guardavam indefinvel expresso quando respondeu:
-- Para isso,  preciso que duas pessoas queiram. S eu, no adianta.
Conversaram um pouco mais, e Amaro se foi.
Deitado em seu quarto, enquanto no podia conciliar o sono, Eugnio pensava em como
sua vida havia se transformado. Se Elisa ainda estivesse viva, ele com certeza estaria ao
lado de Eunice. Mas por quanto tempo? Agora, recordava os acontecimentos sob uma
nova viso.
Para ele, o casamento, depois de certo tempo, representara apenas um amontoado de
contas que precisava pagar todos os meses. Nunca entrara de fato na relao familiar.
Desde o incio, Elisa parecia-lhe ingnua e imatura. Nunca tomava iniciativa. Era
sempre ele quem tinha que decidir. Nunca argumentava nem colocava suas idias.
Acatava suas determinaes sem discutir. Ele a considerava de pouca inteligncia, com
capacidade apenas para as rudes tarefas domsticas. Teria sido por isso que deixara de
am-la?
Talvez a ignorncia de Elisa fosse fruto da educao que as meninas de famlia
recebiam. Embora ela houvesse perdido os pais muito cedo, conservara a ingenuidade.
Quando se casaram, fora ele que precisara ensinar-lhe os detalhes da higiene e das
relaes sexuais. Na ocasio, ele ficara vaidoso de possuir uma mulher to inocente.
Mas agora questionava isso. Ele sempre preferira as mulheres ousadas. No teria sido
um erro casar-se com Elisa, to diferente dele? Procurar encontrar a amante ideal em
uma menina sem
iniciativa?
Elisa, deitada a seu lado, o observava. Ouvindo-lhe os pensamentos, pensava: era assim
que ele a via? Ela que se anulara, que nunca fizera o que gostaria, que acatara suas
determinaes como uma lei, era vista como ignorante e burra? No lhe haviam
ensinado que o marido era o chefe da casa? Por que aceitara isso sem nunca questionar?
Cerrou os punhos com raiva. Se fosse agora, faria tudo diferente. Nunca mais seria
aquela mulher cordata e passiva. As coisas haviam mudado. Era ele quem estava sendo
obrigado a fazer o que ela queria. Um dia haveria de descobrir que subestimara sua
inteligncia. Ela era muito capaz e se omitira por amor! Que loucura! Como no
percebera em tempo o abismo que estava cavando com essa atitude?
Embalado pelas lembranas, Eugnio continuava tentando entender as causas dos seus
problemas. Lembrou-se da paixo que sentira por Jacira, antes de conhecer Elisa. Era
uma mulher ardente e bonita que o encantava com seu temperamento alegre e vivo.
Pensara seriamente em casar-se com ela. Mas ela tivera outras experincias, no era
virgem. O que diriam sua famlia e os amigos? No, ele no podia casar-se com ela.
Manteve o relacionamento mesmo aps o noivado com Elisa e pretendia continuar
depois do casamento, o que no aconteceu, porque ela o deixou. Desapareceu e ele
nunca mais a encontrou. Ficou desesperado, mas teve que conformar-se.
Claro que amava Elisa, mas aquele fogo, aquela sensao inebriante, era com Jacira.
Para ele, essa situao era natural. A maioria dos seus amigos tinha uma mulher para se
relacionar e a namorada, com quem s poderiam ter relaes aps o casamento. Onde
estaria Jacira? Se houvesse casado com ela, teria dado certo? Se a encontrasse agora,
ainda sentiria a mesma atrao? Se a sentisse novamente, teria coragem para assumir e
casar-se com ela?
Elisa, plida, sentia seu dio crescer. Era cruel a forma como Eugnio pensava. Destrua
uma a uma suas mais caras lembranas e iluses. Ele sempre a trara! Casara-se apenas
por convenincia social. E ela se prestara a esse papel e por causa dele perdera tudo
quanto mais amava! Deixara seus filhos entregues  orfandade! Que injustia! Como
fora burra! Se naquela manh soubesse tudo quanto sabia agora, teria dado graas a
Deus por Eugnio ter sado de casa! Mas era tarde. S lhe restava a vingana! E esse
prazer ningum lhe poderia tirar.
Resistiu  vontade de atirar-se sobre ele e exigir-lhe contas
de seus atos. Sabia que se o fizesse, ele poderia sentir-se mal e adoecer. Embora o
odiasse, no podia fazer isso. As crianas precisavam dele. Mas faria tudo para que sua
vida se transformasse em um inferno e no tivesse paz. Ele s se sentiria bem, quando
em casa, ao lado das crianas. Era tambm uma forma de fazer com que ele ficasse l,
tomando conta deles, para saber como fora trabalhoso o esforo dela durante todos
aqueles anos.
Apesar do controle de Elisa, Eugnio no pde se furtar a um sentimento desagradvel,
uma vaga sensao de tristeza e medo. Reagiu. Ele nunca tivera medo de nada. Tentou
dormir, mas o sono no vinha. Continuou pensando, pensando, angustiado e insone, e s
conseguiu conciliar o sono quando os primeiros raios solares comearam a aparecer.


Captulo 12
Sentado em sua mesa no escritrio, Eugnio examinava atentamente alguns papis
meneando a cabea preocupado. Fazia uma semana que voltara ao escritrio e
mergulhara fundo no trabalho. Havia muito por fazer, e ele comeava cedo, s saindo
alguns minutos para um almoo rpido ao lado do prdio, e saa pouco antes das oito, a
fim de no deixar as crianas sozinhas.
Estava um pouco mais magro e contratara um massagista para ir  sua casa  noite, trs
vezes por semana, para cuidar de sua perna, mas estava com sade. Seu problema era
que, impossibilitado de trabalhar, perdera inmeros clientes e agora precisaria trabalhar
duro para recuperar o tempo perdido. Ele era comissionado e se no fechava negcios,
ficava apenas com o salrio fixo que no dava para suas despesas. Vendo suas reservas
irem sendo consumidas, Eugnio pensava como fazer para recuperar o que havia
perdido.
Fizera vrios planos e tentara coloc-los em prtica, porm, no conseguira fechar
nenhum negcio. No compreendia o que estava acontecendo. Parecia-lhe que de
repente sua sorte o abandonara. Isso no podia continuar. Tinha que reagir. Estava
reexaminando seus arquivos e tentando estabelecer novos objetivos e metas. Contudo,
sua cabea estava pesada, e ele no conseguia a lucidez que sempre tivera. Sentia-se
confuso. A tragdia de sua vida o teria abalado a tal ponto? Precisava recuperar-se. Se
continuasse assim, poderia at perder o emprego. Seu chefe j o chamara para dizer o
que esperava dele dali para frente, significando que estava no limite da sua tolerncia.
Ele queria resultados e, infelizmente, Eugnio no estava mais conseguindo.
Passou a mo pela testa como que querendo afastar os pensamentos desagradveis e
disposto a reagir, respirou fundo e comeou tudo de novo.
Elisa, a um lado, observava atenta. Achava bom que ele no tivesse dinheiro como
antes. Lembrava-se que, quando ele
ganhava pouco, era mais atencioso com a famlia. Assim no teria como gastar fora de
casa. De vez em quando, aproximava-se dele e dizia-lhe:
-- Agora vai ser assim! Voc no precisa de muito dinheiro. Vai fazer pequenos
negcios. O suficiente para as despesas da casa. As grandes somas no so para voc. 
melhor no insistir.
Eugnio no registrava suas palavras, porm sentia um torpor, uma sonolncia que o
impedia de raciocinar livremente. Seus olhos pesavam, chegavam a lacrimejar, tal o
esforo que ele fazia para concentrar a ateno sobre o que estava fazendo.
Vendo-o confuso e perturbado, Elisa, satisfeita, tornava a sentar-se tranqilamente.
-- Elisa, voc precisa vir comigo. Jairo dera entrada na sala.
-- No posso. Preciso tomar conta do Geninho.
-- Sabino quer ver voc. Precisa ir. Voltar quando for liberada.
Elisa fez um gesto de aborrecimento.
-- O que ele quer?
-- No sei. Voc no tem comparecido s nossas reunies. Saiba que est
comprometida. Precisa obedecer as regras. Deseja ser punida?
-- Punida?
-- Claro. Quando foi nos procurar, no concordou com nosso regulamento?
-- Concordei.
--  preciso cumprir. Vamos embora.
-- Vou cumprir.  que tenho tido trabalho aqui. Se eu largar, o Eugnio vai fazer
besteira. Preciso tomar conta dele.
-- Pode fazer isso mesmo a distncia. Vamos indo.
-- Est bem.
Eles saram. Eugnio respirou fundo. Precisava sair desse torpor. Havia ficado um ms
sem fazer nada e se habituado a dormir demais. Levantou-se e movimentou os braos,
de um lado a outro. Depois foi ao banheiro e lavou o rosto, molhou os pulsos com gua
fria. Sentiu-se aliviado. Voltou ao trabalho disposto a continuar e desta vez conseguiu
concentrar-se melhor.
Olvia, sentada diante da mesa, observava alguns desenhos com ateno. Tinha que
escolher um logotipo para um cliente e no gostara de nenhum dos que lhe
apresentaram. Devolveu-os ao funcionrio, explicando melhor a idia e pedindo que
fossem refeitos. Depois sentou-se novamente. Trabalhando com publicidade, Olvia
devia
a seu tino e perspiccia todo sucesso profissional que alcanara. Sempre trabalhara com
entusiasmo, porm, agora, certa insatisfao a perturbava. Nada conseguia entusiasm-
la. Um colega lhe dissera que ela estava sendo exigente demais. Seria verdade?
Olhou em volta e sentiu-se aborrecida. Decidiu sair um pouco, dar uma volta pela
cidade. Precisava arejar a cabea. Olhar algumas vitrines, distrair-se. Apanhou a bolsa e
saiu. A tarde ia se findando e as ruas estavam apinhadas. Olvia misturou-se aos demais
parando aqui e ali, frente algumas vitrines. Entrou, comprou algumas coisas. Olhou o
relgio, eram quase seis horas. No voltaria mais ao escritrio naquele dia.
Entrou em uma sorveteria. Pensou nas crianas. Sorriu. Sorvete para eles era sempre
uma festa. Sentou-se e pediu uma taa de sorvete de chocolate. Enquanto esperava,
pensou em sua vida. Elisa fazia-lhe muita falta. Talvez fosse por isso que se sentia to
s. Contava com alguns amigos, mas ultimamente no sentia vontade de estar com eles.
Talvez estivesse precisando encontrar um outro namorado. Havia um to insistente
quanto indesejado, e ela o despachara aliviada.
No tinha iluses nem esperava encontrar um homem perfeito que a faria feliz para
sempre. Gostava dos homens fortes e determinados, francos e de bem com a vida.
Contudo, quando conhecia algum e se entusiasmava, esfriava na primeira mentira.
Reconhecia que seria bom ter algum com quem dividir sua vida e sua cama, mas se era
fcil dividir a cama, ela terminava o relacionamento antes de dividir sua vida.  que
para chegar a isto, precisaria confiar e isso era o mais difcil.
A garonete trouxe a taa de sorvete, e Olvia comeou a sabore-lo lentamente. Uma
coisa era verdade: a morte de Elisa a deixara muito s. Ela era a pessoa com quem sabia
que sempre poderia contar. Era estvel, bondosa, dedicada, gentil. Nunca conhecera
ningum to suave como Elisa. Sentiu um aperto no peito e profunda saudade. Suspirou
tentando vencer a melancolia.
-- Melhor afastar a tristeza!
-- Como vai, Olvia?
Arrancada dos seus pensamentos, Olvia sobressaltou-se e levantou o olhar:
-- Amaro!
-- Desculpe se a assustei.
-- Como vai?
-- Bem. Espera algum? Posso me sentar?
-- No. Sente-se, por favor.
-- Como tem passado?
-- Bem. Sa mais cedo do escritrio para sacudir a rotina. De vez em quando  preciso
espairecer. Ver vitrines, fazer compras, distrair.
-- Parece que no conseguiu. H muita tristeza em seus olhos.
Olvia sorriu.
-- Pensava em Elisa. Sinto muito sua falta. Mas j passou.
-- Vocs se queriam muito.
-- Mais do que voc pode pensar. Quando me recordo o que ela fez de sua vida e como
morreu... Desculpe. Sei que  amigo do Eugnio, mudemos de assunto.
-- No se preocupe. Posso entender. Contudo, a morte  irreversvel.  preciso aceitar.
No adianta sofrer por algo que no se pode mudar.
--  verdade! Bem que eu gostaria de esquecer, mas ainda no d. O golpe foi muito
duro. Quando penso em tudo...
-- Por que se tortura dessa forma? No confia em Deus? Havia muita amargura em sua
voz quando ela respondeu:
-- Confiar? Depois do que aconteceu? Se Deus existisse mesmo, no teria levado Elisa,
to boa e com trs filhos pequenos para criar. No posso aceitar essa injustia. O sem-
vergonha do Eugnio est a, enquanto que ela, sempre to correta...foi punida. Acha
justo isso?
-- Talvez as coisas no sejam como pensa. s vezes, viver neste mundo pode ser uma
punio maior, e a morte, apenas uma libertao.
Olvia olhou-o firme por alguns segundos, depois tornou:
-- Concordo que viver neste mundo nem sempre  agradvel, mas garanto que se
houvesse podido escolher, Elisa teria preferido sofrer aqui a libertar-se largando os
filhos.
-- Deus no desampara ningum. Eles tm o pai que assumiu seu papel e tm voc que
os ama muito. Ningum fica abandonado. Espero que Elisa j tenha entendido isso.
-- Elisa? Como poderia?
-- A morte no  o fim. A vida continua em outras dimenses. Elisa continua viva tanto
quanto ns.
Olvia olhou-o incrdula:
-- Voc diz isso como se fosse mesmo verdade! Quem morre no volta.
-- Voc est enganada. O universo no se resume apenas nesse pequeno planeta onde
estamos vivendo. H muitas moradas
na casa do Pai!
-- Gostaria de acreditar. Todavia, a iluso, a boa f,  pior.
-- Tenho certeza do que afirmo. Posso dar-lhe inmeras provas de pessoas que j
conseguiram comunicar-se com seus entes queridos que partiram. Sei o que estou
dizendo. Elisa est viva, em outro mundo, sentindo sua tristeza, os problemas dos filhos,
do Eugnio.  sobre isso que desejo lhe falar. Voc  inteligente, vai perceber a
verdade.
Olvia olhava-o admirada, sem saber o que dizer.
-- No posso crer que seja verdade. Preciso de provas.
-- Tenho certeza de que em breve as ter. Pense qual seria a reao de Elisa, ao acordar
em outra dimenso, sem poder comunicar-se com vocs, vendo o que est acontecendo,
sem poder fazer nada.
-- Seria muito penosa, sem dvida. Ela ficaria desesperada.
-- Isso j deve estar acontecendo. Vocs no podem v-la, porque a faixa de energias
da outra dimenso vai alm do que nossos olhos fsicos podem alcanar. No entanto,
para os pensamentos e sentimentos no h limites. Tanto ela poder sentir o que vocs
sentem, como vocs, se ela se aproximar, podero registrar os sentimentos dela.
-- O que me diz  novo para mim. Refere-se  telepatia?
-- Mais do que isso.  troca de energias entre as pessoas.
-- Como pode ser isso? No percebo nada diferente.
--  uma troca onde os sentimentos se misturam. Voc sente como se fossem seus.
Nem sempre  fcil perceber. Por exemplo: sua tristeza, a saudade que sentia de Elisa
ainda h pouco, se ela se aproximar, as duas vo somar esse sentimento e se sentirem
muito mais tristes. Entendeu?
-- Entendi. Se isso for verdade, nossa dor, nossas queixas, tudo poder infelicit-la
ainda mais.
-- Pensamentos bons podero confort-la. Quando voc cuida das crianas, por
exemplo, ela certamente se sente melhor.
Olvia suspirou permanecendo em silncio por alguns instantes:
-- Voc diz isso com tanta certeza... Contudo,  difcil acreditar.
-- Alguns cientistas famosos pesquisaram o assunto e escreveram livros. Gostaria de
emprestar-lhe alguns.
-- Lerei com prazer. Aqui tem meu carto. Telefone para conversarmos. Apreciaria
muito falar mais sobre esse assunto, se
voc tiver um tempinho.
-- Tenho todo tempo do mundo. Falaremos quando quiser. Eis meu carto tambm.
No se acanhe. Quando estiver triste, quiser conversar, telefone.
Amaro no permitiu que Olvia pagasse a conta. Despediram-se e ela saiu. Sentia-se
melhor. A conversa com Amaro fizera-lhe bem. Elisa, viva! Sentiu um calor gostoso
dentro do peito. Ah! Se isso fosse verdade! Pena no tivesse os livros em mos. Se ele
no ligasse no dia seguinte, ela o faria.
Na tarde seguinte, Olvia ligou e convidou Amaro para jantar em sua casa. No podia
esquecer suas palavras e desejava conversar. Passava um pouco das dezenove horas
quando ele tocou a campainha do apartamento. Olvia abriu a porta e depois dos
cumprimentos, ele entregou-lhe um pacote dizendo:
-- Este  um livro interessante. Voc vai gostar.
Olvia abriu e leu "Fatos Espritas", de Sir William Crookes.
-- O famoso cientista ingls? -- indagou ela, admirada.
-- Ele mesmo.
Ela agradeceu interessada. Sentados na sala, ela pediu:
-- Fale mais sobre ele.
-- Foi no comeo do sculo. Os espritos comearam a comunicar-se atravs de duas
irms, nos Estados Unidos, e provocaram muita discusso. Como cientista srio, Sir
William Crookes foi convidado a opinar para esclarecer o assunto. Embora ele no
acreditasse em comunicao de espritos, aceitou com a condio de poder fazer
pesquisas pessoalmente com as mdiuns, comprometendo-se a divulgar os resultados.
Quando terminou, publicou esse livro.
Olvia folheou-o admirada. Havia fotos de espritos! No podia acreditar.
-- Isso  uma loucura! Voc acredita mesmo que quem morre continua vivo em outro
lugar?
-- Claro. Na Terra nada se perde, e tudo se transforma. Por que s o homem teria fim?
Seu corpo de carne morre, mas h o corpo astral. Foi ele que deu forma e vida  matria.
Quando ele se desliga, o corpo se decompe.
Olvia meneou a cabea:
-- Voc diz coisas espantosas! Se isso fosse verdade, haveria de revolucionar a
sociedade. A morte  o maior desafio do ser humano. Um dia todos teremos que
enfrent-la! Se  como diz, quem morre continua vivo no outro mundo, por que
ningum fala sobre isso?
-- O preconceito  muito grande, mas para o estudioso srio, as portas esto abertas. Se
voc deseja descobrir a verdade, tenho certeza de que a encontrar. A vida lhe trar
todas as provas.
-- Voc diz isso com tanta certeza!
-- Sei que  assim.
Continuaram conversando animadamente e a cada pergunta de Olvia, Amaro respondia
com tranqilidade. Ela serviu o jantar, e a conversa prosseguiu agradvel e amena.
Amaro fez meno de despedir-se, mas Olvia pediu que ficasse um pouco mais.
-- Sua presena fez-me bem -- disse ela olhando-o firme. -- Estava me sentindo muito
s. Tenho muitos amigos, gosto deles, mas depois do que aconteceu, no tenho sentido
vontade de estar com eles. Tenho impresso que eu mudei.
-- A morte  agente da mudana. Por onde ela passa, tudo fica diferente.
-- Tem razo.  difcil dizer em que, mas sei que estou diferente. No sei se por causa
do convvio com as crianas, que agora esto mais dependentes de mim, ou pela falta
que sinto de Elisa, mas a vida em famlia passou a ser mais importante. Voc sabe como
, eu via Elisa sempre to submissa e o Eugnio to displicente... para ser sincera, torcia
para que Elisa virasse a mesa e se impusesse. Se ela resolvesse separar-se dele, eu teria
apoiado. Contudo, se fosse hoje, talvez eu agisse diferente.
-- Est conhecendo melhor o Eugnio.
-- Meu conceito sobre ele no mudou nada. Mas reconheo que a atitude dependente de
Elisa contribuiu para que as coisas ficassem piores. Antes eu pensava que a mulher
deveria impor-se e no fazer nenhuma concesso no casamento. Mas, olhando aquelas
crianas, entendi que s vezes  bom ceder em benefcio da harmonia da famlia.
-- No foi isso que Elisa sempre fez?
-- No. Ela foi alm. Esqueceu-se de si mesma. Apagou-se de tal forma que o marido a
passou para trs. Isso, no entanto, no tira a responsabilidade do Eugnio, que parecia
um estranho em sua prpria casa. Nunca se interessou pelos problemas da famlia. 
isso que no posso perdoar nele.
-- Cada um  como , e s pode dar o que tem. O Eugnio tem se esforado.
-- Agora, porque no tem outro remdio.
-- As pessoas fazem o que acham melhor. Elisa acreditou que estava fazendo tudo pela
famlia. Fez o que sabia. Eugnio tambm. Ningum pode julgar ou esperar deles o que
ainda no sabem
fazer.
Olvia sorriu.
-- Tem razo. Eu esperava que tanto um como outro fossem diferentes.
-- Uma iluso de sua parte. Agora no adianta ficar ressentida por isso. Eles fizeram o
que sabiam, no o que voc gostaria que fizessem. Aceitar isso vai ajud-la a sair da
depresso.
-- No sei, no. Vou continuar sentindo falta de Elisa.
-- A morte  como uma viagem. Um dia vocs estaro juntas de novo.
-- Quisera poder acreditar!
-- Estude o assunto, procure provas, faa experincias.
-- Voc fala com tanta certeza! Acredita mesmo nisso?
-- Eu sei que  assim. Elisa continua viva!
-- Se sso fosse verdade, ela poderia estar aqui agora?
-- Poderia.
-- Ns no a podemos ver.
-- Essa  uma limitao nossa. Contudo, h pessoas que poderiam sentir sua presena
ou v-la claramente.
-- Como assim?
-- So os mdiuns. Eles conseguem perceber alm dos cinco sentidos.
Olvia interessou-se:
-- Voc conhece algum assim?
-- Conheo. Costumo freqentar um Centro Esprita. Isso l  comum.
-- No creio nessas coisas. Costumam deixar as pessoas fanticas e desequilibradas.
-- Freqento um Centro Esprita desde a adolescncia. Pareo destrambelhado?
Olvia sorriu:
-- Desculpe, no quis ofender. So os comentrios que tenho ouvido por a.
-- Infelizmente h muito preconceito. Como podem falar sem conhecer? Para opinar,
h necessidade de estudar, experimentar.
-- Tem razo. Estou falando sem base. Nunca me detive nesse assunto.
-- Mas reconhece que  de grande importncia, uma vez que, como voc mesma disse,
morrer  o destino de todos ns.
Eles continuaram conversando e cada vez que Amaro fazia meno de retirar-se, Olvia
lhe pedia para ficar. Ele contava casos
interessantes, experincias com mdiuns, fatos que presenciara. Olvia sentia seu
interesse crescer. Amaro parecia-lhe um homem srio, culto, inteligente, sincero. E se o
que ele estava dizendo fosse verdade? E se Elisa estivesse mesmo viva em outro
mundo? Precisava saber.
Quando Amaro finalmente se despediu, Olvia pediu-lhe que voltasse para continuarem
conversando.
-- Sua visita fez-me bem. Voc conseguiu despertar meu interesse. Agora, preciso
saber a verdade.
Amaro sorriu satisfeito:
-- Eu sabia que voc ia entender. Alm de inteligente, voc tem pensamento gil, capta
as coisas com facilidade.
-- Se eu fosse com voc nesse Centro Esprita, Elisa poderia falar comigo?
-- Poderia. Teoricamente poderia. Mas h vrias coisas a considerar que impedem os
espritos de se comunicar conforme desejamos. Vai depender do estado emocional de
Elisa e da utilidade da sua comunicao. H um controle nesse relacionamento entre os
dois mundos, exercido pelos espritos superiores disciplinando o intercmbio que s
acontece sob determinadas circunstncias.
--  como uma censura?
-- Necessria para impedir os excessos emocionais de ambos os lados e que no
beneficiam a ningum. Se Elisa aparecesse aqui agora, acha que conseguiria controlar-
se? No se deixaria levar pela emoo? Conversaria de forma adequada?
-- Seria difcil. S em pensar, fico arrepiada, meu corao dispara.
-- Sem falar o que Elisa estaria sentindo. Um encontro desses s ser permitido se for
produtivo, se contribuir para beneficiar vocs.
-- Nessas circunstncias vai ser difcil.
-- No creio. Teria que ser uma conversa adulta e equilibrada. Pense nisso.
-- Estou pensando. Acha que pode acontecer?
-- Acho.
-- Quando? Voc realmente me deixa curiosa.
-- No pode ter pressa. Leia, estude, prepare-se. As coisas vo acontecer quando tudo
estiver favorvel.
-- Voc fala com tanta certeza!
-- Eu sei que ser assim.
Amaro despediu-se e apesar do adiantado da hora, Olvia apanhou o livro e comeou a
ler. Era muito tarde quando se deitou,
mas as palavras de Amaro soavam-lhe aos ouvidos sem que as pudesse esquecer. O dia
j estava clareando quando ela finalmente conseguiu adormecer.

Captulo 13

Elisa olhou aborrecida para Sabino. Ele no queria entender seu ponto de vista. Ele
dizia:
-- Voc no est fazendo sua parte em nosso trato. Estou advertindo, tentando evitar
que seja punida, mas se continuar assim, terei que agir. No posso de forma alguma
deixar passar. O que diriam os que esto se dedicando, cumprindo suas obrigaes?
-- Garanto que vou cumprir.  que ainda preciso de mais tempo. Do jeito que as coisas
esto, no posso deixar Geninho sozinho. Se eu me afastar, ele vai fazer besteira.
Depois, h as crianas, preciso ver se esto sendo bem cuidadas.
-- Quando pediu, recebeu nossa ajuda. No precisa ficar o tempo todo com eles. Deve
desapegar-se.
-- No quero que o Eugnio se case de novo. Preciso tomar conta dele.
-- Para isso no precisa ficar l. Ns temos meios de cuidar dele sem que precise perder
tanto tempo l. Est resolvido. Ou voc comea hoje mesmo seu trabalho, ou ser
confinada em uma cela de onde no poder sair to cedo. Voc  quem sabe.
Elisa estremeceu. Arrependeu-se de haver feito esse trato, porm, diante da expresso
firme de Sabino, no duvidou que ele cumpriria o que estava dizendo. Por isso, decidiu:
-- Est bem. Comeo agora. O que deverei fazer?
-- Jairo j tem as ordens e explicar tudo. Estou contente que tenha resolvido dessa
forma. No entanto, quero deixar claro que sei at o que est pensando. Por isso, no
tente enganar-me. A punio pode ser pior. Em todo caso, se fizer tudo direito, ser
recompensada. Sou exigente, porm justo. Sei reconhecer um bom trabalho.
A um sinal de Sabino, Elisa retirou-se. Para encontrar Jairo, dirigiu-se a uma atendente
no saguo. Estava em um prdio enorme, sbrio, decorado com pesadas cortinas cor de
terra, mveis escuros
exageradamente trabalhados. Pessoas iam e vinham distribuindo-se pelos corredores e
salas em intensa atividade. Elisa notou que elas eram sisudas, preocupadas, solenes e
formais. Pareceu-lhe estar em um tribunal. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
Arrependeu-se de haver-se metido com eles. Suspirou fundo. Agora s lhe restava
obedecer.
Encontrou Jairo e foi logo dizendo:
-- Vim para comear a trabalhar. Quero saber o que deverei fazer e quando poderei ter
folga para ver os meus.
Ele sorriu irnico:
-- Nem comeou e j quer descansar?
-- No  isso. Voc sabe que o trabalho no me preocupa. O que eu no quero  deixar
o Eugnio sozinho.
-- Bem se v que voc no sabe de nada. Para isso, no precisa ficar l o tempo todo.
Pode trabalhar a distncia.
-- Como assim?
-- Seria bom tomar algumas aulas de magnetizao. Temos gente especializada que
poder ensin-la. Embora no esteja l, manter o contato. Sempre que acontecer algo
que no deseja, voc sentir e poder tomar providncias.
Elisa arregalou os olhos:
--  possvel isso?
-- Claro.  nossa especialidade. Como acha que mantemos as coisas funcionando na
Terra do nosso jeito? Sem isso no poderamos levar avante nossos projetos de justia.
- Quando entrei aqui, percebi que estava em um tribunal.
-- Isso mesmo. Aqui so analisados todos os casos e, conforme so julgados, tomadas
as providncias para fazer justia.
-- Eu no sabia que funcionava dessa forma. Tive medo de perder o controle sobre
minha famlia.
-- Engano seu. Quanto mais trabalhar aqui, mais ter poder sobre os seus. E aqui que
vai aprender a usar sua fora. Voc vai me dar trabalho, no sabe de nada. Mas se se
esforar, poder ir longe, deixar de ser a boba que sempre foi.
-- No precisa me ofender.
-- No estou ofendendo. Voc sabe que foi ingnua e por isso foi enganada. Est na
hora de ficar esperta. Chega de ser passada para trs.
Elisa levantou a cabea com altivez:
-- Isso mesmo. Chega de me fazerem de boba. Quando comeo aprender?
-- Agora mesmo. Vou apresent-la ao nosso melhor magnetizador.
Ficar maravilhada.
-- Quando comeo o trabalho?
-- Se tudo correr bem, amanh mesmo ter sua primeira incumbncia.
-- Est bem. Vamos embora.
Satisfeito, Jairo tomou o brao de Elisa e foram em busca do magnetizador. Vendo-a,
ele descreveu sua vida como se estivesse lendo um livro aberto, no esqueceu nada. Ela
ficou maravilhada. Sua aparncia era a de um homem alto, magro, rosto comum, porm
seus olhos eram penetrantes e fortes e ao fix-los, ela logo se sentiu fascinada. Depois,
foi alm, falou de suas possibilidades energticas, fez alguns testes para comprovar o
que dizia:
--  preciso que acredite em sua fora -- disse com firmeza. -- Sei que voc pode
fazer muitas coisas, mas nada conseguir se no acreditar que pode. Esses testes so
para mostrar-lhe um pouco do que pode conseguir.
Estavam em uma espcie de laboratrio, onde havia diversos objetos, inclusive
pequenos animais e plantas. Era com eles que Elisa ia experimentar sua fora
energtica. A princpio ela pensou que ele estava enganado. Ela no ia conseguir.
Ele colocou pequena planta diante dela e ordenou:
-- Agora voc vai murchar essa planta. Vai jogar todo seu dio sobre ela.
-- Mas eu no tenho dio dela!
-- Ter que usar sua imaginao. Vamos l. Ela tentou, mas no aconteceu nada.
-- Eu sei que voc pode. Lembre-se de algo ruim, que a deixou com raiva. Depois
jogue essa energia sobre a planta.
Ela lembrou-se do Eugnio beijando a Lourdes e quando estava com dio, imaginou que
a planta era eles. A plantinha estremeceu e algumas folhas penderam desmaiadas.
Os dois bateram palmas:
-- Muito bem! Eu no disse que voc pode? -- falou o magnetizador, satisfeito.
Elisa olhou a plantinha, admirada. Nunca pensou que funcionasse.
-- Agora vamos fazer diferente. Ela est mal, como pode ver, voc vai levant-la. Pense
em algum que voc ama e imagine que  essa planta e est doente.
Elisa arrepiou-se. Lembrou-se de Nelinha e se enterneceu. Lembrando seu rostinho
amado, sorriu docemente e jogou a energia sobre o vaso. A planta no reagiu, e ela
olhou os dois decepcionada.
-- No se preocupe. Precisamos esperar um tempo. Aprenda que a energia do dio
opera mais rapidamente. No sabia que  mais fcil destruir do que construir? Essa 
uma lei da natureza. Jogue mais um pouco de amor sobre ela e vamos esperar.
Elisa obedeceu. Ele deu-lhe mais algumas explicaes sobre o mundo da energia.
Depois de alguns minutos, ao olharem a planta, ela j havia se recuperado quase
totalmente.
-- Nunca imaginei que tinha esse poder -- disse Elisa, admirada.
-- Todas as pessoas tm. Poucos sabem usar.
-- Quer dizer que se algum me odiar e mandar essas energias sobre mim, eu vou ficar
mal?
-- Vai, se no souber se defender. Para tudo h remdio. Mas essa  uma aula que darei
depois. Agora voc precisa aprender a identificar as energias. S assim poder saber o
que est acontecendo a distncia e com quem. Esse  um treino que leva certo tempo.
Como voc  iniciante e deve comear seu trabalho amanh, precisa conhecer o mais
simples.  medida que for aprendendo, iremos nos aprofundando.
-- No sabia que era to interessante!
-- Conhecer a natureza  fascinante.
 tarde, Elisa compareceu a uma reunio onde aprendeu os regulamentos da ordem. As
regras disciplinares eram severas. Seu caso havia sido investigado, catalogado, bem
como as providncias de ajuda que ela solicitara e o que havia sido feito. Tanta
organizao infundia-lhe respeito e temor. Quando vivia no mundo, nunca poderia
imaginar tudo aquilo, depois da morte.
 noite, Jairo lhe disse:
-- Amanh, ao nascer do dia, receber suas ordens, e a levarei ao local de trabalho.
-- No posso agora ir at em casa, saber se est tudo bem?
-- No. Voc est sendo preparada e durante a noite esse trabalho continua. Mas no se
preocupe. Com um pouco mais de treino, se acontecer alguma coisa diferente com eles,
voc imediatamente vai perceber. Nesse caso, ter permisso para ir v-los. Fora disso,
ter seus dias de folga.
Elisa inquietou-se:
-- Tenho receio de no conseguir perceber. Agora mesmo, no sei o que est
acontecendo l.
-- Quando tudo est bem, do jeito que voc quer, no vai mesmo perceber nada. Agora,
se algo mudar, se ameaar comprometer
nossos objetivos, voc ser imediatamente avisada. Nosso sistema de comunicao 
perfeito. Todos os casos que estamos assistindo tm um dispositivo no local que nos
alerta sempre que algo acontea que possa prejudicar nossos planos. Por isso, no h
nenhuma razo para inquietar-se. Tudo est sob nosso controle. Essa  a vantagem de
filiar-se  nossa organizao. Seu caso no est entregue s em suas mos. Outros
elementos, mais treinados do que voc, esto assistindo e acompanhando sua famlia.
-- Como no notei nada?
-- So discretos. Seu caso, por exemplo, est sendo acompanhado a distncia. Nosso
tempo  precioso. No precisamos deixar pessoas l para saber o que est acontecendo,
nossos aparelhos fazem isso perfeitamente.
-- Para que somos treinados ento?
-- Para operar, realizar trabalhos, manipular energias e conseguir o que desejamos. Isso
 mais importante do que observar.
-- Ah!... Nunca pensei que isso fosse possvel. Ele fitou-a com certo ar de
superioridade:
-- Voc  novata. Bem se v que nunca fez isso antes.
-- Como poderia? S agora estou sabendo dessas coisas. Achava que tudo acabasse
com a morte.
-- Estou me referindo s suas vidas passadas. Lembra-se delas?
-- Vidas passadas? Eu tive outras vidas? Ele riu malicioso:
-- Eu no disse que voc era marinheiro de primeira viagem? Faz cada pergunta! No 
capaz nem de se lembrar do seu passado?
-- No. S me lembro desta vida.
-- Pois eu conheo duas vidas antes dessa. Sei quem fui, o que fiz, as injustias que me
fizeram. Por isso estou aqui. Tenho algumas contas a ajustar. Eles agora esto
reencarnados. Mas isso no vai impedir nada. Todos vo me pagar.
-- Voc pode achar que sou ignorante, mas no consigo lembrar-me de nenhuma outra
vida. Acho que s tive uma.
-- No seja ignorante. Voc esqueceu, mas qualquer dia destes vai se lembrar. Todos j
nascemos muitas vezes na Terra.
-- Quer dizer que um dia eu voltarei a ser criana e tornar a nascer?
-- Por que no iria? Essa  uma lei da vida! Todos ns aqui um dia voltaremos a
reencarnar, ser crianas de novo.
Elisa estava boquiaberta. Nunca imaginara que isso fosse
possvel.
-- Quer dizer que meus filhos tambm tiveram outras vidas antes dessa?
-- Tiveram. Seu marido, sua irm, todos.  uma lei da qual ningum consegue se furtar.
A reencarnao  um fato.
-- Se isso  mesmo verdade, gostaria de saber quem eu fui. Ser que me casei com o
Eugnio tambm?
-- Pode ser que sim, pode ser que no. Um dia voc mesma vai saber.
--  estranho pensar nisso. Saber que eu j fui outra pessoa.
Jairo meneou a cabea com ar de comiserao:
-- Voc no foi outra pessoa, Elisa. Deixe de ser boba. Voc teve outros corpos, usou
outros nomes, mas era sempre voc. Quando estava no mundo, nunca viu um
mergulhador?
-- J. Eles vestem uma roupa especial para ir ao fundo do mar.
-- Ento.  a mesma coisa. Para viver na crosta da Terra, ns precisamos vestir o corpo
adequado, feito de matria apropriada para poder viver l. Quando temos que voltar
para c, o abandonamos da mesma forma que o mergulhador deixa seu escafandro
quando retorna  superfcie. Aprenda que somos espritos e que o esprito  que tem a
fora da vida. O que acontece com o corpo de carne quando o abandonamos?
-- Ele apodrece.
-- Se decompe e suas matrias vo servir para formar novos corpos para outras
pessoas. Nunca ouviu falar nisso?
Ela sacudiu a cabea negativamente.
-- Os padres no sabem nada disso. Alis, depois do que tenho visto aqui, acho que eles
esto muito fora. Falam do juzo final, mas estou comeando a desconfiar que isso no 
verdade.
-- Se um dia vai ter juzo final, eu no sei. Alis, aqui, ns achamos que no d para
esperar. Sabe-se l quando isso vai ocorrer? At quando vamos ser prejudicados pelos
maus sem nos defendermos?  preciso que as pessoas sejam responsabilizadas pelo que
fazem de errado. A defesa  um direito sagrado.
-- Voc tem certeza de que se algo que prejudique nossos planos acontecer com minha
famlia, serei avisada?
-- Pode ficar tranqila. Eu me responsabilizo por isso. Trate mais  de aproveitar o que
est aprendendo aqui. Vai ser de grande utilidade para voc. Pode crer.
-- Se  assim, fico mais sossegada. Afinal, vocs tm
mesmo muito poder.
Ele sorriu com superioridade:
-- Temos mesmo. Nossa organizao  perfeita.
Elisa sentiu-se mais calma. Estava protegida. Entregou-se inteiramente aos novos
conhecimentos disposta a aprender.
O dia estava clareando quando Jairo a procurou no pequeno quarto que lhe fora indicado
como seu novo lar. Aps alguns esclarecimentos, juntaram-se a um pequeno grupo e
partiram rumo  Terra. Quando chegaram a So Paulo, separaram-se. Jairo levou Elisa a
um apartamento de luxo no Jardim Amrica. Entraram em um dormitrio onde foram
recebidos por uma mulher de meia- idade.
-- Ento? -- perguntou Jairo. -- Tudo em ordem?
-- Sim -- respondeu ela. -- Tudo sob controle.
-- timo. Esta  Elisa, nova companheira. Veio substitu-la.
-- Muito bem.
-- Pode ir agora. Deixe comigo, que eu explico a ela.
-- Est bem, Jairo.
Ela despediu-se retirando-se rapidamente. Elisa, curiosa, olhava o quarto luxuoso e a
cama onde havia um casal. Ele, uns quarenta anos presumveis, ela, uns trinta e cinco.
Enquanto ele dormia a sono solto, ela remexia-se no leito, tendo sono agitado.
-- O caso  simples. Ele  o Carlos, ela  Ins. Casados h quinze anos, dois filhos. Ele
 nosso alvo. Um homem cruel, infiel, desonesto, possessivo e autoritrio. Judia da
famlia, se aproveita da bondade de Ins que  esposa virtuosa e boa me.
Estamos atendendo a um pedido do Adalberto, um companheiro da organizao e que
foi pai dela. Nunca gostou do Carlos e no queria o casamento, fez tudo o que pde para
separ-los, no conseguiu. Quando morreu e chegou aqui, lembrou-se de suas vidas
passadas e descobriu que, na vida anterior, Ins havia sido sua esposa. Ela se apaixonara
por Carlos que no s lhe roubara a mulher como toda sua fortuna. Morreu na misria,
jurando vingana, e seu dio aumentou quando soube dos maus tratos aos quais ele
submetia Ins.
Nesse tempo, Adalberto quase enlouqueceu de desgosto. Quando reencarnou
novamente, no sabia que Ins seria sua filha. Tinha mais filhos, mas ela era sua
predileta. Quando Carlos apareceu e comeou a namor-la, ele, mesmo sem se lembrar
do passado, o odiou desde o primeiro dia e tentou impedir esse casamento de todas as
formas. No conseguiu. A paixo que ela sentia por ele era demais. Casaram-se. Depois
que Adalberto morreu e voltou para c, recordou-se de tudo, nos procurou para fazer
justia. Sentiu-se duas
vezes prejudicado. Quer livrar Ins desse mau carter, pretende que ele pague por tudo
quanto fez de ruim. Alis, no  s Adalberto que tem contas a ajustar com Carlos.
Outros apareceram e juntaram-se a ns.
-- E Ins, ainda gosta dele?
-- Ela era fascinada. Mas estamos lhe mostrando a verdade e afundando Carlos na
prpria lama.
Elisa fez um gesto de desprezo:
-- Bem-feito. No casamento, a mulher sempre leva a pior.
-- Isso quando no sabe fazer valer seus direitos. As ingnuas, como voc, sempre so
passadas para trs.
-- Isso foi naquele tempo, meu caro. Porque no tive ningum que me mostrasse a
verdade.
-- Tinha sua irm.
-- . Se tivesse ouvido Olvia, as coisas teriam sido diferentes.
-- Agora no adianta chorar.  seguir adiante.
--  verdade.
-- Bom. Voc aqui vai observar. Sua funo  fazer com que ela perceba a verdade.
Ela tem que perceber o mau carter dele. Entendeu? Sempre que ele fizer algo errado,
voc chega perto dela e conta a verdade. Aprendeu a mandar energia. Faa isso com
toda sua fora. Coloque-se no lugar dela. Sabe avaliar isso.
-- Pode deixar. J estou do lado dela. Esse sem-vergonha vai ver uma coisa.
Jairo sorriu satisfeito.
-- Muito bem. Se acontecer alguma coisa que no souber resolver,  s me chamar.
Estarei em contato.
Jairo saiu, e Elisa sentou-se ao lado da cama olhando com curiosidade para Carlos.
Sentiu um cheiro forte de bebida que a tonteou. Lembrando-se das instrues, pensou:
-- Tenho que olhar sem me envolver.
Fixou sua ateno sobre Ins. Admirada, pde perceber que ela dormia, mas seu esprito
no deixara o corpo e seus pensamentos agitados no a deixavam relaxar. Angustiada,
debatia-se entre a desiluso e o medo do futuro, tentando, sem conseguir, encontrar
respostas que a tranqilizassem. A descoberta da traio do marido, sua displicncia e
falta de honestidade a entristeciam e deixavam mais insegura. Elisa condoeu-se.
Lembrou-se de sua prpria vida, de como fora enganada, e tentou ajud-la. Colocou a
mo sobre a testa dela e disse-lhe com convico:
-- Tenha calma, Ins. Voc no est s. No tenha medo.
Ns vamos ajud-la. Se nos ouvir, logo estar livre desse malandro. De que lhe serve
viver ao lado dele, enganada e infeliz? O que adianta no encarar os fatos se eles esto
a? Quer esperar que um dia ele a abandone? Reaja. Separe-se dele. Voc no vai
conseguir salv-lo. Ele vai responder pelo que fez. Chega de sofrer!
Ins remexeu-se no leito e abriu os olhos suspirando dolorosamente. Quando teria paz?
Olhou o marido que ressonava e trincou os dentes com raiva. Enquanto ela sofria, se
desesperava, ele parecia muito bem, sem se preocupar com as conseqncias
desastrosas de seus atos.
Levantou-se e foi  cozinha onde tomou um copo de gua. Depois, voltou ao quarto e
deitou-se olhando o relgio de cabeceira. Eram cinco horas e o dia comeava a clarear.
Por que no conseguia dormir? Queria esquecer, no ligar para as farras do marido, para
o seu temperamento agressivo e egosta, para seus porres e desmandos, mas no
conseguia.
No comeo, tinha esperanas de que ele melhorasse com o tempo. Mas, ao contrrio, ele
estava cada vez pior. s vezes se revoltava e pensava em deix-lo, mas para onde iria
com duas crianas? Nunca fora independente. Sua me vivia assoberbada de problemas
e ela no queria perturb-la ainda mais. Seu pai sempre a protegera e fizera tudo por ela,
mas infelizmente estava morto. No sabia a quem recorrer.
No era religiosa, mas um dia resolvera pedir a ajuda da igreja. Procurou um padre no
confessionrio e contou o que se passava, como vivia desesperada pelos maus tratos.
Ele lhe dissera que era preciso ter pacincia, que Cristo havia sofrido mais sem ter
pecados e que como mulher era preciso tolerar o marido e sofrer calada. Ela sara de l
mais deprimida sentindo o peso da obrigao. Nunca mais voltou a pensar em religio.
Elisa aproximou-se alisando-lhe os cabelos com carinho e dizendo:
-- No tenha medo, ns estamos aqui. Seu pai nunca a abandonou. Ele a ama e
protege.
Ins lembrou-se do pai com carinho. Para ele, ela era a princesa, era assim que a
chamava. Recordou-se da infncia com saudade. Por que se apaixonara daquela forma?
Apesar de tudo, ainda o amava muito. Ao pensar em deix-lo, sentia um aperto no peito,
um terror incrvel que a deixava ansiosa e desesperada. Era isso o que temia. Que um
dia ele a deixasse. Como poderia viver sem ele?
-- No seja boba -- tornou Elisa. -- Abra os olhos. Oua o
que estou dizendo. Tipos como ele so egostas e s pensam em si mesmos. Carlos nem
liga para o que voc est sentindo. Do que tem medo? Abandonada, voc j est,
agarrar-se nele no vai mudar nada. Um dia ele vai chegar e dizer que no a quer mais e
que tem outra. Sei como  isso. No seja idiota. Reaja. No espere mais. Embora Ins
no lhe registrasse as palavras, pensou:
-- Deix-lo, no tenho coragem. Preciso ajud-lo a melhorar. Se ele ficar s, vai perder
completamente o controle e entregar-se mais  bebida. Preciso ficar a seu lado para
salv-lo. O amor dos filhos pode faz-lo mudar.
-- Que besteira! Quanta iluso! Ningum conseguir salv-lo! No v que ele gosta da
vida que leva? Melhor seria tentar se salvar e a seus filhos. Eles, com certeza, sofrem
com os problemas que vocs tm.
Ins lembrou-se dos filhos. O mais velho ia mal na escola, e o mais novo ficava
apavorado, tinha crise de choro quando eles discutiam e Carlos a maltratava. Ele no se
importava com a presena das crianas. Fazia o que queria diante deles ou de qualquer
pessoa.
Elisa lembrou-se de Eugnio. Ele pelo menos a tratava decentemente. Nunca a
maltratara. Ao contrrio, era educado e a respeitava. Estava descobrindo que havia
maridos piores do que ele.
Passava das nove quando Carlos acordou, tomou seu banho e sentou-se  mesa para
tomar caf. Ins o serviu em silncio. As crianas haviam comido e estavam no quarto
fazendo lio. Carlos olhou Ins franzindo o cenho:
-- Credo, que cara! Parece que passou a noite em claro! J reparou como est
envelhecendo depressa? Ainda arranjou essas olheiras...
Ela olhou e no respondeu. Ele continuou:
-- No gosto de mulher velha e de cara feia logo cedo!
-- No passei bem a noite.
-- V se tratar. Procure um mdico. No sei o que voc faz aqui o dia inteiro. Acho que
vou mandar as empregadas embora. Deve ser falta do que fazer. O trabalho faz bem,
sabia? No d tempo de pr minhocas na cabea. Hoje no venho almoar. Vou sair e
no sei a que horas volto. Quando chegar, no quero ver essa sua cara feia.
Ins empalideceu. Lbios trmulos, no conseguiu deter as lgrimas que desceram pelas
suas faces. Carlos irritou-se:
-- Isso no vou tolerar. Chega! No agento mais. Elisa abraou-se  Ins dizendo com
raiva:
-- Ele no pode fazer isso com voc!  demais! Vamos
reagir!
O rubor tingiu o rosto plido de Ins, e seu rosto transformou-se. Fixando-o com rancor,
ela gritou:
-- Chega digo eu! Quem  voc para me tratar dessa forma? Exijo respeito.
Seus olhos faiscavam e seu corpo tremia como folha agitada pelo vento. Ele
surpreendeu-se:
-- Cale a boca -- disse. -- Mulher minha nunca levanta a voz para mim.
-- Pois eu grito quanto quiser. E voc vai me pagar. Dando vazo  raiva, Ins comeou
a atirar ao cho tudo
que havia sobre a mesa. Carlos levantou-se gritando enraivecido:
-- No admito que faa isso. Agora voc vai ver!
Elisa, vendo que ele partia para cima dela com visvel inteno de agredi-la, atirou-se
sobre ele apertando seu pescoo, cheia de raiva, dizendo-lhe:
-- Voc no vai fazer isso enquanto eu estiver aqui. Vou defend-la! Voc no passa
de um covarde, provocando sua mulher e tentando intimid-la. Vai pagar pela sua
crueldade!
Carlos empalideceu e tonteou. Faltou-lhe o ar e, cambaleante, foi sentar-se em um sof.
Nessa hora, o esprito de um homem deu entrada na copa e dirigindo-se a Elisa, disse:
-- Sou o Adalberto. Vim ajud-la. Obrigado por haver tomado a defesa dela. Deixe-o
comigo. V cuidar dela. Eu sei como tomar conta dele.
Elisa, mais calma, obedeceu. Ins, assustada com o que havia feito, soluava, enquanto
que os dois filhos que haviam ouvido o barulho, abraavam-na plidos. Uma das
empregadas apontou na porta com um copo de gua com acar pedindo a Ins que
bebesse. Carlos, recostado no sof, plido, sentia-se mal. Adalberto, atrs dele,
magnetizava seu corpo, retirando energias.
-- Voc no vai mais abusar dela! -- disse Adalberto. -- No ter mais foras para
agredir uma mosca.
-- O senhor quer tomar gua com acar? -- indagou a empregada, assustada.
-- No. Estou nervoso. Vai passar. Vou sair para respirar um pouco de ar puro. Esta
casa est me sufocando!
-- Melhor o senhor no sair assim -- disse a moa. -- No seria melhor chamar um
mdico? Est plido.
-- No posso ser contrariado. Essa mulher quer me matar. Qualquer dia eu sumo. Vocs
vo ver. Nunca mais volto.
A empregada no respondeu. Ele respirou fundo e saiu
cambaleante. A moa procurou Ins na cozinha:
-- Dona Ins, ele saiu daquele jeito. No devia ter ido. Estava mal. Acho que o
problema dele  srio. Estava plido feito defunto!
Ela no respondeu. Abraada aos filhos, tentava acalm-los dizendo que estava melhor.
Adalberto procurou Elisa dizendo comovido:
-- Obrigado. Quando a vi, percebi logo que poderia contar com voc! Fique aqui; eu
vou atrs dele.
-- Quando ele voltar, pode querer brigar com ela.
-- Isso no vai acontecer. Ele s vai voltar quando no tiver mais foras para ficar em
p. Qualquer empurro vai derrub-lo. Deixe comigo.
Quando ele se foi, Elisa sentiu-se satisfeita. Enquanto ela estivesse ali, tomaria conta de
Ins e no deixaria o marido maltrat-la. Se ela tivesse tido essa ajuda, talvez sua vida
no tivesse terminado daquela forma. Por que quando estava no mundo, nunca
acreditara na comunicao dos espritos?
Aproximou-se de Ins que continuava tentando acalmar as crianas. A criada interveio
conciliadora:
-- Vamos, meninos, sua me est cansada e precisa descansar. Ela vai tomar um ch
bem gostoso e repousar. J passou. Tudo est bem agora.
-- Eu quero um pouco de ch tambm -- disse Marcos, o mais novo.
-- Est bem -- resolveu Ins. -- Ns trs vamos tomar ch, comer um pedao daquele
bolo gostoso que a Maria fez e depois vocs vo fazer a lio.
Elisa notou que ela fazia grande esforo para parecer bem diante do olhar desconfiado
dos filhos, mas mal se sustinha em p. Decidida, abraou-a com carinho procurando
transmitir-lhe energias boas.
-- Voc vai ficar bem. Precisa cuidar de seus filhos! Eles merecem todo seu amor. Viva
para eles. Deixe Carlos de lado. Ele no presta mesmo. Tudo vai melhorar, ver. Vamos
ajud-la, e ele no vai mais molest-la.
Havia tanto carinho, tanta vontade de ajudar em Elisa que, apesar de no ouvir nada que
ela lhe dizia, Ins comeou a se sentir melhor. Respirou fundo e pensou:
-- Meus filhos so os meus amores.  neles que preciso pensar. Vou me cuidar,
recuperar a sade. Se eu morrer, o que ser deles com o pai que tm?
Sentou-se com eles  mesa, tentando conversar e para alegria de Maria que os olhava
prestativa, tomou o ch e comeu um bom pedao de bolo. Depois, quando os filhos
foram fazer seus deveres escolares, ela foi para o quarto e parou diante do espelho.
Estava excessivamente magra, ossuda, plida, e sua pele perdera o vio. At seus
cabelos, dos quais sempre tivera orgulho, estavam gordurosos e sem brilho. Estava
abatida e muito acabada.
Elisa que a acompanhara, aproveitou para dizer-lhe ao ouvido:
-- No se deixe abater. Voc tem dinheiro, pode gastar  vontade. V se cuidar. Procure
um mdico, tome calmantes, vitaminas, recupere a sade. V a um salo de beleza,
trate-se, compre roupas novas. Se eu tivesse feito isso ao invs de economizar para
Eugnio gastar, talvez ele no tivesse deixado de me amar.
Ins sentiu vontade de sair, procurar ajuda profissional para melhorar sua aparncia.
Elisa entusiasmou-se. O caso de Ins tinha tanta semelhana com o seu, que era como se
o problema fosse dela. Ajudando-a, tinha a impresso que estava resolvendo o prprio
problema.
Mas a disposio de Ins durou pouco. Ela pensou:
-- Isso no vai adiantar. Ele no me ama mais. Estou enlouquecendo. Nunca perdi o
controle desse jeito. Tenho medo dele. No sei como no me matou.
Elisa imediatamente retrucou:
-- No tenha medo. Ns estamos aqui. Nada vai lhe acontecer. Ele no poder mais
agredi-la. Ns no vamos deixar. No seja boba. No deixe aquele malvado se
aproveitar de voc. Reaja mesmo. Ele precisa aprender a respeit-la.
Ins no registrou nada. Triste, deprimida, estendeu-se no leito e, desanimada, no
conseguia fazer outra coisa seno pensar, pensar, pensar.
Por mais que Elisa tentasse anim-la, no conseguiu tir-la da depresso.  noite,
quando Jairo voltou acompanhado de seu substituto, Elisa quis contar-lhe o que
acontecera. Mas ele disse logo:
-- No precisa. Sei de tudo. Fez um bom trabalho. Com um pouco mais de prtica, voc
se tornar uma tima magnetizadora.
-- No estou muito animada. A princpio ela parecia disposta a reagir, mas em seguida
entrou em depresso e no consegui mais nada. Por qu? Terei esquecido de alguma
coisa?
-- No. Voc foi bem at demais. O Adalberto est muito satisfeito com seu trabalho.
Pode crer, voc fez dele um aliado logo no primeiro dia.
-- Fiquei com pena de Ins. Ela no merece o que est sofrendo. Gostaria que ela se
cuidasse e deixasse o Carlos de uma vez.
Jairo sorriu:
-- Voc est otimista demais. No espere conseguir isso de repente.  uma ligao de
vidas passadas.
-- Ela parecia to animada! Pensou at em ir ao mdico, se cuidar, ficar mais bonita.
Por que no levou adiante?
-- Porque ainda no est madura para pular fora.
-- Ento o que adianta todo nosso esforo?
-- Bem se v que  novata. Precisamos continuar tentando, tentando, at funcionar. Um
dia ela vai conseguir. Quando, no sabemos.
-- Vocs que estudam tudo no conseguem saber?
-- Ns podemos sentir que ela est querendo, que tem melhorado, que seus
pensamentos so mais firmes. Agora ela j consegue pensar em separao. Houve
tempo em que ela nem admitia essa possibilidade. Mas o momento em que ela vai jogar
fora toda essa paixo e ver Carlos do jeito que ele , isso est fora do nosso alcance.
-- Humm. J vi que este negcio  demorado. Muito esforo e poucos resultados.
-- Se fosse fcil, voc teria ouvido as advertncias de Olvia. Agora vamos embora.
Conforme pediu, ter tempo de ir visitar sua famlia.
Elisa sorriu satisfeita.
-- Est tudo bem l?
-- Est.
-- Posso ir direto daqui?
-- Pode. Contudo, amanh voc voltar conforme o combinado. Precisa tomar cuidado
com um amigo do seu marido. O Amaro. Ele est tentando atrapalhar nossos planos.
-- Eu sei disso. Quer levar Eugnio ao Centro Esprita.
-- Trate de impedir que ele faa isso. Eles podem interferir e mudar tudo.
-- De que forma?
-- Eles esto ligados com espritos que preferem deixar Deus resolver todos os
problemas. Dizem que no podemos fazer justia. Pretendem que cruzemos os braos
diante das agresses e dos agravos, perdoando e dando a outra face para bater.
-- Que horror!
-- Pois . Negam o nosso direito de punir nossos agressores
A vida  uma guerra constante. Se ns no reagirmos nem nos defendermos, seremos
pisados e destrudos pelos egostas e maus.
-- Por que ser que eles pensam assim? So espritos, deveriam saber e apoiar as boas
causas.
-- Pra voc ver. Por isso, cuidado com ele.
-- O Eugnio nunca acreditou em nada disso. Ele no ir a um Centro Esprita. O
Amaro est perdendo tempo.
-- No sei, no. Ele tem argumentos, tambm est envolvendo Olvia. Ela est muito
interessada. Anda at lendo os livros que ele emprestou. No me admiraria se uma noite
destas ela o acompanhasse ao Centro.
-- Olvia! Ela nunca acreditou em nada disso. Nem quando nossos pais morreram no
desastre e algumas pessoas vieram falar de mensagens que eles teriam nos mandado do
alm. Ns nem quisemos ouvir. Agora estou em dvida. Eles teriam mesmo mandado
aquelas mensagens?
-- O que  isso? Tambm est ficando impressionada?
-- Eu no. Mas se eu estou viva depois de haver morrido, eles tambm esto. Gostaria
de encontr-los. Seria possvel?
-- Possvel . Mas neste universo imenso, como localiz-los? Depois, eles podem estar
reencarnados.
-- Vai ver que  por isso que ainda no nos encontramos. H alguma maneira de
descobrir isso?
-- H. Mas saiba que, apesar de termos alguns poderes, estamos longe de poder saber
tudo. H limites no s para nosso conhecimento como para sarmos do nosso plano.
-- Ento aqui  quase igual no mundo. Podemos muito pouco.
-- Podemos muitas coisas. Mas no tudo. Ponha isso na sua cabea e deixe de querer
bisbilhotar. Alis, Sabino no gosta de muita curiosidade. Diz que aqui temos tudo o
que precisamos. Por isso, se quer viver bem, trate de se acomodar.
-- Est bem. Pode ficar sossegado. Estou gostando muito do meu trabalho. Ajudar os
outros faz bem. Estou me sentindo til.
-- Melhor assim. Agora pode ir. No se esquea das recomendaes. Trate de tirar
essas idias da cabea de sua irm. Ela quer conversar com voc.
-- Eu gostaria muito de falar com ela.
-- Voc pode sempre que quiser. Mas no naquele Centro Esprita. Nunca faa a
loucura de entrar l. Pode se arrepender muito.
-- Por qu?
Eles podem tirar sua fora e convenc-la a ficar do lado deles.
-- Isso no. Preciso cuidar da minha famlia.
-- Ento, tome cuidado. Faa o que estou dizendo.
Eles separaram-se e dentro em pouco seus vultos desapareceram no horizonte.

Captulo 14

A tarde estava acabando quando Elisa, aps passar parte do dia ao lado das crianas e
estado com Eugnio no escritrio, sentiu saudade de Olvia e resolveu procur-la.
Encontrou-a em seu escritrio ocupada em examinar alguns projetos. Aproximou-se
emocionada, abraando-a com carinho. Embora no a pudesse ver, Olvia parou o que
estava fazendo e lembrou-se de Elisa com saudade.
Sentia-se muito s. Lembrou-se de Amaro e pensou: se tudo o que ele lhe contara fosse
verdade mesmo, se Elisa estivesse viva em outro mundo, faria tudo para comunicar-se
com ela. Pensar nisso era confortante, mas, ao mesmo tempo, como ter certeza de que
no estava sendo iludida? As pessoas desejam tanto rever os que partiram que bem
podiam estar fantasiando, para fugir ao sofrimento do "nunca mais".
Ela era pessoa instruda, prtica, habituada desde cedo a enfrentar os problemas da vida.
No podia deixar-se envolver por falsas esperanas. Temia ser enganada. No entanto,
Amaro lhe parecera honesto e sincero. Afirmava que a vida continua depois da morte.
Ficara impressionada com os livros que lera, escritos por pessoas cultas e srias, cujas
pesquisas haviam comprovado essa teoria. Como saber a verdade?
Se pudesse crer! Falar com Elisa... saber como estava, o que lhe acontecera. Dizer-lhe
que as crianas estavam bem, que podia ficar em paz que ela cuidaria do bem-estar
delas e jamais as abandonaria. Seria to bom!
Elisa, abraada a ela, sentia as lgrimas correrem pelas faces. Gostaria de dizer-lhe que
estava ali, que tudo isso era verdade. Que a morte do seu corpo no a havia privado de
continuar existindo. Que era a mesma de sempre, amando os filhos, a famlia,
entristecida por no poder mais estar cuidando deles como antes. Que confiava nela e
sabia que cuidaria dos seus filhos com amor. Era cruel
poder estar ali e no conseguir fazer-se entender.
-- Olvia, estou aqui. Acredite! A morte no  o fim. Ah! se eu pudesse fazer alguma
coisa para que me visse...
Olvia sentiu-se muito triste. Nunca como naquele instante a lembrana de Elisa se
fizera to forte.
-- Preciso saber a verdade! -- pensou ela, agoniada. O telefone tocou, e ela atendeu:
-- Amaro! Estava pensando em voc!
-- Eu tambm. Quer jantar comigo esta noite?
-- Quero. Precisamos mesmo conversar.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Nada.  que hoje estou me sentindo particularmente triste. No consigo tirar Elisa
do pensamento. Voc tem o dom de me acalmar. Agradeo haver ligado.
-- Quer que v busc-la a, s seis e meia? Assim teremos mais tempo para conversar.
-- timo. Estarei esperando.
Elisa olhou-a preocupada. Precisava afastar esse Amaro de Olvia. No era ele o perigo
que Jairo mencionara? Esperou vendo-a guardar as coisas e arrumar-se cuidadosamente.
Ela continuava bonita e elegante, pensou. Sabia viver e no era boba como ela que
aparentava ser muito mais velha do que era. Por que no lhe dera ouvidos?
Quando ela desceu, acompanhou-a. Estaria vigilante e afastaria Amaro do caminho dela
de uma vez por todas. Ele chegou e quando entraram no carro, Elisa acomodou-se no
banco traseiro. Aprendera que o primeiro passo era observar, para depois agir.
Eles conversavam e Olvia desabafara falando da saudade que sentia, da falta que Elisa
lhe fazia, do amor que sentia por ela e do desejo de poder saber se tudo quanto ele lhe
dissera e ela lera nos livros, era verdade.
-- A nica maneira de saber  experimentar -- respondeu ele quando ela se calou. -- A
verdade no  patrimnio de ningum. A sobrevivncia do esprito aps a morte pode
ser comprovada. Nossos entes queridos que partiram, continuam vivos em outro lugar.
A comunicao com eles  possvel, j tem acontecido. Desde que respeitemos as
condies naturais do processo, podemos obter o mesmo resultado.
-- Desde que me falou isso, no penso em outra coisa. Se isso  verdade, se Elisa est
viva no outro mundo, quero falar com ela, saber como est, o que aconteceu no dia da
sua morte, se foi acidente mesmo, como eu penso. Sei que onde ela estiver, deve
estar muito preocupada com as crianas que ela deixou sozinhas fechadas em casa, coisa
que nunca fez. Acha que poderei falar com ela?
-- Possvel . Mas  preciso saber se ela pode vir at ns, se est bem o bastante para
poder comunicar-se. Se tem permisso para faz-lo.
-- No podemos evoc-la? Se a chamarmos, ela no viria? Amaro havia parado o carro
em uma rua tranqila para poderem conversar mais  vontade. Olhou-a srio e
respondeu:
-- No seria bom para ela fazermos isso.
-- Por qu?
-- Ns no sabemos onde nem como Elisa se encontra. Pode estar em recuperao em
algum lugar sem poder sair. Nesse caso, sentindo nosso chamado sem poder atender,
sentir-se-ia angustiada, desejaria vir de qualquer forma, poderia revoltar-se pondo a
perder todo trabalho da sua recuperao.
-- A morte no liberta o esprito do sofrimento?
-- A morte liberta do corpo. Os sofrimentos so do esprito que depois de haver
desencarnado, conserva os mesmos sentimentos, as mesmas dificuldades que tinha em
vida. Muda o estado, mas o esprito continua igual.
-- Quer dizer que Elisa pode estar sofrendo por causa do acidente?
-- Depende de como ela viu o acontecimento. Fisicamente ela no sentiu nada. Uma
morte instantnea como foi a dela, priva o esprito da lucidez naquela hora. Tudo
depende de como ela viu os fatos ao acordar no astral. Se teve calma, concordou com a
orientao dos espritos socorristas, colocou-se sob a proteo deles, est bem. Embora
possa estar triste, com saudade ou desejosa de ver a famlia, com a assistncia adequada
logo estar recuperada e at em condies no s de visitar vocs como at de ajudar
dentro de suas possibilidades. Isso s ser possvel quando ela puder controlar as
emoes. Evoc-la poder contribuir para que ela se emocione e ponha tudo a perder.
Elisa olhava-o admirada no perdendo nenhuma das suas palavras. Como ele podia
conhecer tudo isso vivendo no mundo? Olvia indagou:
-- E se ela se revoltou? Conheo Elisa. Ela era passiva, bondosa, mas quando queria
uma coisa, teimava, e ningum conseguia demov-la. Ela no ia se conformar em deixar
as crianas.
-- Se ela houver feito isso, poder estar circulando em volta de vocs, influenciando
seus pensamentos, interferindo em suas
vidas.
-- Voc acha que ela pode j saber de tudo quanto est acontecendo, ter visto as
crianas?
--  possvel.
-- Nesse caso, seria fcil falar com ela. Evoc-la no atrapalharia em nada, ao contrrio.
-- Como no temos certeza de onde ela est, o mais adequado  esperar que ela se
comunique espontaneamente.
-- Como, se ela est invisvel a ns?
-- Atravs de um mdium. Ele  o canal por onde ela poder comunicar-se.
-- Como conseguir isso?
-- Indo ao Centro Esprita.  l que essas coisas ocorrem de maneira adequada, com a
devida proteo dos espritos superiores e com bons resultados para ambas as partes.
-- Nesse caso, quando voc for, quero ir tambm. Preciso saber a verdade.
Ouvindo essas palavras, Elisa resolveu interferir. Embora a conversa de Amaro fosse
sugestiva, ela sabia que estava correndo perigo. Jairo a advertira. Aproximou-se de
Amaro, concentrou-se para magnetiz-lo, ao mesmo tempo que lhe dizia:
-- Voc no vai lev-la a esse lugar. No permitirei. Se tentar, eu e meus amigos vamos
reagir. Voc no vai conseguir.
Amaro sentiu certo mal-estar, enquanto seu corpo arrepiava-se como se estivesse com
febre. Sem se impressionar, ele disse calmo:
-- Amanh  noite poderemos ir.
-- Acha que vou conseguir?
--  provvel. Tudo depende de como as coisas esto. Elisa, vendo-o imperturbvel,
irritou-se e continuou a seu
lado enviando pensamentos fortes na tentativa de influenci-lo.
-- Isso no vai adiantar com ele.
Elisa olhou assustada o homem de meia-idade que se sentara calmamente no banco
traseiro do carro.
-- Quem  voc? Parece que j o vi em algum lugar.
-- Sou o Amlcar. J nos falamos uma vez, lembra-se?
-- Vagamente. O que faz aqui?
-- Sou amigo do Amaro. Trabalhamos juntos. Voc est perdendo tempo. O Amaro
no vai se deixar envolver pelas suas energias. Est treinado para isso.
-- Por isso, ele no estava me atendendo. Por que voc veio? O que quer?
-- Nada. Trabalho com ele. Sempre que algum tenta fazer o que voc fez, eu sinto e
me aproximo.
-- Voc  o magnetizador dele?
-- No. Sou o companheiro.
-- Veio defend-lo?
-- No. Ele sabe defender-se muito bem. Voc nunca conseguiria perturb-lo, por mais
que tentasse.
-- Ele sentiu minha presena. Estremeceu, teve arrepios.
-- Percebeu, mas isso no quer dizer que fez o que voc quis.  diferente. Eu vim s
para conversar com voc.
-- Bem que me avisaram. Vocs chegam mansos, com essa conversinha e vo
conseguindo nos dominar. Comigo no vai ser assim. Estou protegida.
-- Voc  livre para fazer o que quiser, mas ter que colher os resultados de seus atos.
-- Voc fala como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada. No estou fazendo nada
de mal. Cuido da minha famlia, o que sempre foi minha obrigao. Estou procurando
ajudar os outros.
-- Ajudar os outros no  fcil. s vezes voc pensa que est ajudando e est s
complicando.
-- No  meu caso. Felizmente tenho amigos importantes e estou sendo bem orientada.
-- Julgar, interferir na vida dos outros nunca deu bons resultados.
-- Por qu ? Eu posso distinguir o bem do mal.
-- Tem certeza? Quando voc estava no mundo, fez o que achava melhor. Pensou que
estava fazendo bem. Pelos resultados, j deve ter percebido o quanto estava enganada.
Pelo rosto de Elisa passou uma sombra de tristeza:
-- Isso aconteceu, porque eu era muito ingnua e no sabia das coisas. Agora no.
Estou aprendendo. Sou outra pessoa.
-- Voc  inteligente e poderia estar muito melhor do que est se houvesse aceitado a
proteo dos espritos superiores. Ao invs de estar se envolvendo com pessoas
desconhecidas, e complicando sua vida, estaria em condies de ajudar efetivamente
sua famlia. No  isso o que deseja?
-- . Mas eles no me deixaram fazer o que eu queria. Durante toda vida fui
dependente. Primeiro de Olvia, depois do Eugnio. Agora estou livre. Pela primeira vez
posso fazer o que tenho vontade. Voc acha que eu concordaria em voltar a ser
dependente, fazer tudo que eles querem? Depois, no gostei da conversa. Eles no
culpavam o Eugnio pelo que ele fez. Senti-me injuriada. Fui
enganada, desrespeitada, ofendida. Tenho direito a tirar uma desforra.
-- Se eu fosse voc, esquecia isso e tratava de melhorar suas condies espirituais.
Voc ainda no recuperou nada da memria. Quando isso acontecer, pode vir a
arrepender-se amargamente de sua atitude de agora.
Elisa deu de ombros:
-- Bem que Jairo me avisou que vocs tentariam convencer-me a deixar as coisas
como esto. Saiba que no vai conseguir. No vou entrar na sua conversa. Sei onde
pretende chegar.
Amlcar sorriu levemente:
-- Garanto que est perdendo uma boa chance de melhorar sua situao. Faa como
quiser, mas depois, quando estiver em dificuldade, no diga que no lhe avisei.
-- Isso nunca vai acontecer. Tenho amigos influentes e de grande poder.
-- No se iluda com as aparncias. A verdade sempre aparece e a desiluso  um preo
amargo. Olvia vai ao Centro Esprita com Amaro. Por que no os acompanha?
-- Eu?! De forma alguma. Bem que eu desconfiei, era isso que voc queria com toda
essa histria e essa fala mansa. L eu no piso. E tem mais, impedirei Olvia de ir. Ela
tambm no ir.
-- No gostaria de conversar com ela?
-- Gostaria, mas no l. Eu sei que vocs esto preparando uma armadilha. Eu seria
louca se concordasse.
-- Ento reconhece que l estaro espritos de grande poder, aos quais voc no poderia
resistir.
-- Eles tm recursos que desconheo.
-- Eles tm amor e conhecimento.  isso o que desejam lhe oferecer.
-- No creio. Depois estou muito bem como estou. No preciso de nada. O que eu
gostaria era de voltar atrs e viver no mundo com minha famlia. Queria que nada disso
houvesse acontecido. Como  impossvel, estou conformada. S me resta velar pelos
meus filhos e obrigar o Eugnio a cumprir com suas obrigaes de pai.
-- Voc quer mais do que isso. Voc no quer que ele refaa sua vida com outra pessoa.
-- No quero mesmo. Meus filhos nunca tero uma madrasta.
-- Poderia ser uma pessoa boa e cuidar bem deles. Eles necessitam de ateno e de
amor.
-- Tm o pai e Olvia.
-- Voc est com cimes. Ainda gosta dele.
-- Engana-se. Eu o amava muito, mas agora odeio. Depois do que me fez, ele no tem o
direito de ser feliz. Eu estou aqui, sofrendo por sua culpa, longe dos meus filhos,
sozinha, amargando o meu destino.
-- A vingana  um sentimento perverso. S faz mal. A vida faz tudo certo. O que lhe
aconteceu deve ter uma boa razo, mas que agora voc no consegue perceber. No
acuse ningum pelos seus problemas. Cada um atrai para si as experincias de que
precisa para aprender a viver. Aceite o que lhe aconteceu e tente descobrir como atraiu
para si esta situao. Pense, medite, aceite e procure melhorar seus conhecimentos,
aprender a viver melhor. Se deseja deixar a dependncia e ser livre, comece por assumir
completa responsabilidade pela sua vida. Esse  o caminho adequado para reencontrar a
serenidade e a alegria de viver.
Enquanto Amlcar falava, uma luz branda saa de seu peito e envolvia Elisa que baixou
a cabea tocada de funda emoo. De repente, ela sentiu uma sensao de insegurana
como uma criana que houvesse sido apanhada em falta e no soubesse como proceder.
Lgrimas corriam pelas suas faces.
-- Ah! Se eu pudesse voltar a ser feliz! -- disse com tristeza.
-- Voc pode. Ns fomos criados para a felicidade. Se sofremos,  porque nos
desviamos do rumo adequado e nos perdemos nas iluses. Enfrente corajosamente seus
problemas sem medo. Com a ajuda de Deus, encontrar o que procura. Comece por
acompanhar Olvia ao Centro. Ver que as coisas so diferentes do que imagina.
De repente, Elisa ouviu a voz de Jairo chamando-a:
-- Elisa, reaja! No se deixe envolver. Saia j da!
Ela estremeceu e deu um pulo para trs. Sentiu que Jairo a puxava com fora. No
mesmo instante, viu-se em outro lugar e ele, indignado, fitando-a disse:
-- Que estpida! Entrou na dele com facilidade. Voc  pior que uma criana. No pode
andar sozinha por a. Depois de tudo que lhe disse, como pde fazer isso?
Trmula, Elisa no sabia o que responder. Ele prosseguiu:
-- Fui avisado do perigo e fiquei o tempo todo tentando me comunicar com voc, mas
foi intil. Precisei largar tudo e vir correndo arranc-la do domnio deles. Se Sabino
souber, no deixa mais voc visitar sua famlia.
-- Ele falava tantas coisas! Disse que vou me arrepender de no querer a ajuda deles.
-- E voc ouviu! Que tola! Acho que vou ter que conversar com Sabino. Seno,
qualquer dia destes voc vai se meter em apuros. Depois de tudo quanto fizemos para
ajud-la. Devia se envergonhar. Meia dzia de palavras e voc cede. Que confiana
poderemos ter em voc?
Envergonhada, Elisa no sabia o que dizer:
-- No precisa ficar zangado. No vai acontecer de novo. Eu juro. Eu no ia deixar
vocs. Eu disse que no ia fazer o que ele queria.
-- , mas estava quase cedendo. Se no sou rpido, a esta hora talvez j estivesse presa
nas malhas deles.  isso o que quer?
-- Deus me livre!
-- Ento, cuidado. Faa sempre o que eu disser. Em todo caso, levarei o fato ao
conhecimento de Sabino. No posso facilitar.
-- No. Por favor... Ele pode me prender, proibir de sair de novo. Me d mais uma
chance. Eu garanto que no vai se arrepender. Desta vez estou mais esperta. No vou
me deixar envolver. Agora j sei como eles so perigosos.
Jairo suspirou e ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
-- Se eu contar, ele vai mesmo deixar voc presa por algum tempo. No sei, no. 
muita responsabilidade. E se voc fraquejar de novo? A eu  que terei que responder
por isso. Sabino  muito bom, ajuda todo mundo, mas  justo. No permite falhas.
Quem fraquejar  punido.  a nossa lei.
-- No faa isso. Eu juro que no vou dar mais motivos para ser punida.
-- Est bem. Como foi a primeira vez, passa. Voc nunca tinha estado com eles. Mas de
agora em diante no ter perdo. Se fraquejar, contarei a Sabino.
-- Obrigada, Jairo. Voc  meu amigo mesmo. Pode crer que nunca mais ter nenhum
motivo para se aborrecer. E agora o que faremos com Olvia? Ela parecia disposta a ir
ao Centro com Amaro. Eu tentei influenci-lo, mas ele resistiu. No consegui seno
incomod-lo um pouco. J que eu no posso, gostaria que voc os impedisse de ir
quele lugar. Olvia est de boa f, quer falar comigo.
-- Se voc no for l, ela no vai conseguir nada.
-- Voc no vai cuidar de Amaro? Poderamos chamar reforos e domin-lo.
-- Bem se v que no conhece nada. Ele est sob proteo
dos seres da luz. Seria perigoso demais.
-- Quer dizer que eles tm mais poder do que Sabino?
-- No se trata disso. Sabino prefere no interferir no trabalho deles. Uma guerra no
seria proveitosa. O melhor  usar a astcia e conseguir tudo com diplomacia. Isso 
fcil, uma vez que eles no interferem na deciso das pessoas. Eles falam, tentam
convencer e esperam. Nunca obrigam. S usam a fora em casos extremos. E isso no
nos convm. Quando eles percebem, ns j conseguimos tudo que queramos.
Elisa riu satisfeita:
-- Quer dizer que vocs so mais espertos.
-- Somos. A est nossa fora.
-- Vou voltar e tentar convencer Olvia a no ir com Amaro.
-- Por hoje chega. Voc tem seu trabalho a fazer. J esqueceu? Depois seria perigoso.
Olvia vai ao Centro e se ficar impressionada e acreditar neles, amanh voc pode
colocar a dvida em sua cabea, fazendo-a pensar que tudo no passou de iluso.
Assim, vai conseguir muito mais do que se expor ao perigo.
Elisa concordou satisfeita. Realmente, Jairo sabia das coisas. Fazendo o que ele dizia,
tudo sairia como eles queriam. Disposta a obedecer, Elisa acompanhou o amigo com
entusiasmo.

Captulo 15

Sentada em uma sala espaosa e clara, no
meio de silenciosa platia, Olvia esperava a sesso comear. Diante deles, uma mesa
com alguns livros, uma bandeja com jarra de gua, copos, um vaso com flores. Amaro e
outros freqentadores do Centro haviam se sentado ao redor dela.
Ele a apresentara a uma jovem senhora dizendo:
-- Ester lhe far companhia. Fao parte do grupo e tenho que colaborar. Qualquer
dvida, ela est apta a esclarecer.
Olvia sorriu tentando aparentar calma. Desde que entrara ali, sentia-se ansiosa,
inquieta. Aquilo era loucura. Talvez fosse melhor ir embora. No era pessoa fraca nem
medrosa, entretanto parecia-lhe que se ficasse ali, algo de terrvel iria acontecer. Seu
impulso era de sair correndo, mas ela dominou-se envergonhada.
Ester tomou seu brao dizendo baixinho:
-- Vamos nos sentar. Agente firme que logo tudo vai passar.
Olvia olhou-a desconfiada. No havia dito nada. Como ela podia saber que no estava
se sentindo bem? Teria deixado transparecer?
--  a primeira vez que venho a um Centro Esprita -- disse tentando parecer natural.
-- Faz tempo que voc vem aqui?
-- Desde que desenvolvi mediunidade. H mais de cinco anos.
-- Ah! Voc  mdium...
-- Sou.
-- Esse  um dom.
-- No  bem assim. Mediunidade  uma condio natural humana. Todos somos
influenciveis e influenciamos os outros.
-- Eu nunca senti nada.
--  que no percebeu.
Quem no conhece o assunto,
sente as influncias, mas d outras explicaes para isso. Voc est sendo envolvida por
um esprito desde que entrou aqui.
-- Eu?
-- No sentiu arrepios, medo, vontade de sair correndo?
-- Como sabe?
-- Eu registrei isso e sei o que est acontecendo.
-- Sabe?
-- Tem algum interessado em que voc no fique aqui.
-- Por qu?
-- Isso eu no sei. Talvez seja interessante para ele que voc continue descrente, que
no encontre aqui o que veio buscar.
Olvia ia responder, mas no houve tempo porque a reunio comeou com o dirigente
fazendo uma prece. Depois, outro abriu um livro e leu uma mensagem sobre a fora da
f. Durante vinte minutos, eles comentaram o assunto da noite. Depois as luzes
apagaram-se ficando acesa apenas uma luz azul.
O corao de Olvia batia forte, e ela comeou a suar frio, fazendo esforo enorme para
controlar-se, no levantar-se e sair. Ester percebeu e segurou sua mo dizendo baixinho:
-- Calma. No tenha medo. Voc j est sendo ajudada. Nesse momento, uma mulher
ao redor da mesa deu um
soco na mesa e gritou enraivecida:
-- Soltem-me. No me segurem. Deixem-me sair.
Um senhor levantou-se e colocando a mo sobre a cabea dela disse calmo:
-- Calma. No tenha medo. Queremos ajudar voc.
--  mentira! Vocs querem me prender. Isso sim. Estou prevenido.
-- Fale a verdade. Voc estava prejudicando uma pessoa. Invadiu nosso recinto e
pretendia que ela fosse embora. Do que tem medo?
-- De nada. Ela no acredita. Por que perdem tempo com ela?
-- No desvie o assunto. Voc a estava envolvendo, querendo control-la. Pensou que
no ia ser notado.
O mal-estar de Olvia desaparecera como por encanto, e ela, admirada, no perdia uma
palavra do que eles diziam.
-- Voc precisa de ajuda. Sua vida est mal. Por que se uniu a esse grupo? No v que
prejudicando os outros est atraindo sofrimento para si? Por que faz o que eles
mandam?
-- No estamos prejudicando ningum. Ao contrrio. Ajudamos que a justia seja feita.
Voc no sabe de nada. Eu quero ir
embora. Deixe-me sair.
-- No sair daqui, enquanto no tirar todas as energias que colocou sobre ela.
-- No posso. Se fizer isso, serei punido.
--Se no fizer, ser levado para esse local. Veja.
-- No. Por favor. L no!
-- Ento trate de cooperar. Faa a limpeza.
-- Eles vo me punir! Tenho medo.
-- Se fizer isso, cuidaremos de voc. Nossos amigos espirituais vo lev-lo a um local
onde se sentir bem.
Houve uma pausa. Depois ele disse:
-- Est bem. Vou tirar o vu que coloquei diante dos olhos dela. Mas Isso no ser o
bastante. H outros cuidando do caso.
-- Faa sua parte e deixe o resto com Deus.
Olvia sentiu novamente arrepios pelo corpo e bocejou insistentemente. Depois sentiu
sono e enquanto outros falavam, ela cochilou por algum tempo. Levou um susto quando
as luzes se acenderam. Como pudera adormecer sentada? Isso nunca lhe acontecera.
-- Desculpe, acho que cochilei... Ester sorriu:
-- Isso  assim mesmo. Sente-se bem agora?
-- Muito bem. Amaro aproximou-se:
-- Tudo bem?
-- Agora estou. No sei se foi por estar no meio das pessoas, mas senti-me indisposta.
Se no fosse Ester, talvez eu tivesse sado.
-- J havia sentido isso antes? -- indagou Amaro.
-- s vezes sou um pouco inquieta. No gosto de aglomerao. Parece que falta o ar.
Tenho que sair para respirar. Mas nunca foi to forte como hoje. Depois peguei no sono.
Nunca me aconteceu de dormir sentada. Logo quando eu queria prestar ateno para ver
se Elisa aparecia. Ela deu algum sinal?
-- No. Hoje no.
-- Preciso ir -- disse Ester. -- Foi um prazer conhec-la. Volte sempre.
-- Obrigada.
-- At a semana que vem e obrigado -- tornou Amaro. -- Vamos embora. Estou com
fome. Voc no? Sei de um lugar aqui perto onde poderemos fazer um lanche delicioso.
-- Eu comeria mesmo alguma coisa. Vamos.
Foram caminhando at o restaurante. Quando estavam
devidamente acomodados, Amaro perguntou:
-- E a, o que lhe pareceu a reunio?
-- Diferente do que eu imaginava. As pessoas falavam com naturalidade. No havia
rituais nem misticismo. No vi nada de sobrenatural.
-- No h mesmo. Tudo na vida  natural. O nascimento, a morte, a sobrevivncia do
esprito, a existncia de vida em outras dimenses, a possibilidade de nos comunicarmos
com eles, a reencarnao.
-- No penso assim. Essas coisas me parecem misteriosas, assustadoras.
-- Tudo que desconhecemos parece misterioso.  medida em que vamos nos tornando
cientes, tornam-se naturais. Quem hoje questionaria a eletricidade, as ondas do rdio e
da televiso? No entanto, at h bem pouco tempo, para muitos, elas no passavam de
um sonho irrealizvel. A verdade tem mltiplas facetas e ns ainda percebemos muito
pouco.
-- Nisso voc est certo.
-- Voc tem mediunidade e nunca percebeu.
-- Eu?! No acredito.
-- Mas  verdade. Voc  forte, corajosa, firme, sabe o que quer. Mas tem muita
sensibilidade. Quando conhece uma pessoa, sente logo se pode confiar nela ou no.
Sabe como trat-las. Chega a perceber como elas pensam.
Olvia sorriu divertida:
-- Est descrevendo minha personalidade. Sou assim mesmo. Mas isso no significa
que eu tenha mediunidade.
-- Significa que tem o sexto sentido bem desenvolvido. Hoje percebi que vai alm.
Consegue captar as energias dos espritos desencarnados tambm. Gostaria de explicar-
lhe o que aconteceu esta noite.
-- Confesso que at agora no entendi.
-- Quando voc sentiu mal, no se entregou. Reagiu.
--  verdade. No sou impressionvel nem fraca. Fao isso sempre.
-- Fazendo isso, conseguiu segurar um esprito.
-- Como?
-- Isso mesmo. Aquele esprito perturbador, que se manifestou logo que as luzes se
apagaram, estava com voc. Ele pertence a um grupo interessado em afast-la do
Centro. Quando entramos l, ele a envolveu, tentando magnetiz-la.
-- Com que fim?
-- Para que voc fosse embora. Mas como resistiu, no fez o que ele queria, foi mais
forte do que ele, que acabou ficando preso em sua energia e ns pudemos atra-lo para
aquela mdium e conversar com ele.
Olvia abriu a boca, fechou-a de novo, e no disse nada. Amaro prosseguiu:
-- Quando ele comeou a falar pela Marilda, voc se sentiu melhor. No foi?
--  verdade.
-- Claro, ele foi afastado de sua aura.
-- Mas depois senti sono, bocejei muito e acabei dormindo sentada. Nunca me
aconteceu.
-- Ele havia colocado energias negativas em voc para dificultar sua viso, a fim de que
no percebesse o que estava acontecendo. Quando resolveu cooperar, teve que tirar
essas energias e foi nessa hora que voc sentiu. Os mentores espirituais, para ajud-la,
retiraram voc do corpo, por isso dormiu. Quando acordou, no se sentia bem?
-- Muito bem.
-- E agora, como se sente?
-- tima. Mas eu sempre estive bem. No fui pedir nada para mim. S queria me
comunicar com Elisa, saber como ela est, ter notcias.
-- H algum interessado que voc no entre em contato com ela.
-- No creio. Quem poderia fazer isso e por qu? Sempre nos relacionamos bem com as
pessoas. Nunca tivemos inimizades. Cuidamos de nossa vida. Eu ainda sou mais
exigente, mas Elisa era cordata e bondosa.
-- Sei disso. Mas aquele esprito estava tentando tir-la do Centro. Pertencia a uma
falange organizada do astral que no tem ainda muito conhecimento e estava ali para
impedi-la de falar com Elisa.
Olvia assustou-se:
-- O que isso significa? Elisa no est bem?
-- No sei. Ainda no tivemos nenhuma notcia.
-- Ter sofrido com o acidente? Os espritos sentem dor?
-- Com o acidente, no creio. Ela morreu na hora. Pelo que sei, quando isso acontece,
eles no sentem nada. Sequer se recordam como foi. Quanto a sentir dor, sentem sim.
As emoes no astral so muito mais fortes do que aqui. As impresses dolorosas
provocam dor e sofrimento.
-- Elisa estar sofrendo?
-- No da forma como voc pensa. Se ela no aceitou os fatos, se deseja continuar
envolvida com os que ficaram na Terra, pode ter muitos problemas.
-- Que tipo de problemas?
-- Envolver-se com espritos ignorantes.
-- Elisa sempre foi muito boa. Isso no lhe garante proteo?
-- Ela teria proteo ainda que houvesse sido ruim. A ajuda espiritual existe para todos.
Ningum est desprotegido. O que acontece  que quando a pessoa no aceita a
orientao, se revolta, age como lhe parece melhor, os mentores espirituais no
interferem. Sabem que ela vai aprender pela experincia. Mandam vibraes de amor e
esperam que ela amadurea.
Olvia ficou pensativa por alguns instantes. Depois disse:
-- Isso me preocupa. Elisa sempre foi muito boa, mas teimosa. Se lhe pediram para se
afastar da famlia, receio que ela no tenha obedecido.
-- Nesse caso, ao invs de ir para as colnias de ajuda, onde iria recuperar-se, ela pode
ter decidido ficar em volta de vocs, na tentativa de ajud-los.
-- Isso  ruim? Ela nos ama. S pode nos ajudar.
-- A inteno dela pode ser essa, mas estar em condies de faz-lo? Como ficar
revivendo seus problemas familiares sem poder dizer nada? Depois, na crosta da Terra,
perambulando entre ns, h espritos de todos os nveis. Ela no tem experincia de
conviver com eles. No desejo de ajud-los, ela pode ter se envolvido com grupos
perigosos.
-- Voc pensa que esteja acontecendo isso? Elisa era mesmo muito ingnua. Acredita
em tudo quanto lhe dizem.  um trao dela que sempre me preocupou. Nesse caso,
como poderemos ajudar?
-- No posso afirmar nada ainda. O que sei  que algum tem interesse que voc no
v ao Centro e fale com ela. O que ser que temem?
-- Isso  o que no consigo entender.
-- Podem estar armando alguma trama e no querem ser descobertos.
-- Pensei que nunca mais Elisa iria me preocupar. Quando poderia imaginar que ela o
faria at depois de morta? Essa  uma idia louca, mas me deixa muito inquieta. Se seu
esprito continua vivo depois da morte, se ela anda solta por a, no  difcil que tenha
se metido em confuso. Ela era to passiva, to ingnua...
-- Preocupar-se no vai ajudar. Ns precisamos conservar a calma e a f. No cai uma
folha da rvore sem a vontade de Deus. Quando pensar nela, reze, visualize-a bem e
entregue tudo nas mos de Deus. Quando ns no podemos fazer, ele pode. Nesta noite,
nossos amigos espirituais comearam o atendimento a Elisa, atravs de voc.
-- Mas ela nem apareceu...
-- Isso no importa. Vamos nos manter firmes e com f.
-- Voc acha mesmo?
-- Tenho certeza. Na semana que vem, voltaremos  reunio.
-- Teremos que esperar uma semana? No pode ser antes?
-- No. Vamos aguardar com serenidade e alegria. Evite qualquer pensamento de
angstia e tristeza.
-- Farei um esforo. Estou ansiosa para que esse dia chegue.
Amaro sorriu. Ele sabia que cada coisa tinha sua hora e o momento adequado para
acontecer.
Elisa, sentada em uma poltrona no quarto de Ins, no via a hora que o tempo passasse e
pudesse ir ao encontro de Jairo. Ele lhe prometera acompanhar Olvia ao tal Centro
Esprita e contar-lhe os resultados. Ela estava curiosa. Bem que gostaria de ver como era
essa histria de se comunicar com as pessoas. Mas, tinha que ficar ali, no posto que lhe
fora destinado.
Era madrugada e Carlos ainda no chegara. Ins remexia-se na cama, insone. Recebera
um telefonema annimo. Uma voz de mulher informava que, enquanto ela estava em
casa com os filhos, Carlos estava ao lado de uma jovem e bela mulher. Abatida, triste,
deprimida, Ins, num acesso de desespero, pensou em suicidar-se. Foi at o banheiro e
apanhou o vidro de calmantes que o mdico receitara e pensou:
-- Se eu tomar tudo isso, nunca mais vou acordar.
Elisa ficou apavorada. Precisava fazer alguma coisa. Estava ali para ajudar Ins e no
podia permitir. Suicdio era tornar a situao pior. Ins continuaria vivendo, sofrendo,
arrependida, tendo deixado seus filhos rfos e sem poder fazer nada. Os problemas
ainda seriam os mesmos, mas a situao, mais grave.
Aproximou-se dela procurando transmitir-lhe pensamentos de nimo e fazendo-a
lembrar-se dos filhos. Pensando neles, Ins recolocou o vidro de calmantes no lugar.
Elisa respirou aliviada.
Ainda bem. Mas com a mente cheia de pensamentos dolorosos, Ins sofria, e Elisa,
assistindo seu tormento, sentia aumentar sua raiva contra Carlos. Aproximou-se de Ins
dizendo-lhe ao ouvido:
-- Por que continua vivendo com Carlos? Ele no presta. Quanto antes se libertar dele
melhor. Est aqui sofrendo, perdendo sua mocidade, ficando feia, velha, enquanto que
ele est com outra mais jovem, mais bonita. At quando vai tolerar essa situao? Reaja.
Hoje, quando ele chegar, diga que quer a separao. Mande-o embora de casa.
Ins pensava:
-- Preciso reagir. Me separar. Ele no me ama mais, se  que me amou algum dia.
Estou me consumindo, tornando a vida dos meus filhos um inferno. Eles no tm paz,
vivem apavorados com as brigas. No  justo.
Remexia-se no leito, aflita.
-- Se ele for embora, vou ficar s. Tenho horror  solido. No quero ficar s. No vai
aparecer outro que me queira. Estou to acabada! Depois, e se eu arranjar outro pior?
Nunca tive sorte na vida. Tudo sempre foi difcil para mim. H mulheres para quem
tudo d certo. Os maridos so fiis, andam sempre atrs delas e elas nem ligam. Acho
que os homens gostam das que so malvadas. Quem  bondosa no  valorizada. Mas
que fazer? Eu sou assim. No gosto de brigas nem de discusses. Fao tudo para viver
em paz. Por que ser que no consigo?
Percebendo seus pensamentos, Elisa pensava:
-- Como ela  boba. To boba e ingnua como eu. Ah! Se fosse hoje, com o que sei,
faria tudo diferente. O Geninho ia cortar uma volta comigo. Teria que fazer tudo quanto
eu desejasse. -- E aproximando-se de Ins, disse-lhe:
-- Abra os olhos. No seja to idiota. No tenha medo de brigar. Se no reagir, ele
nunca vai respeitar. No tenha medo. Ns estamos aqui e no vamos deixar acontecer
nada a voc. Quando ele chegar, no o deixe dormir em sua cama. Ele vem dos braos
de outra e voc vai agentar isso?
Ins decidiu:
-- Vou pr o pijama dele no quarto de hspedes e fechar a porta do quarto. Nesta noite
ele no vai dormir comigo. Chega de ser resto das outras. Ele precisa aprender a me
respeitar.
Levantou-se e levou tudo para o outro quarto, voltou, fechou a porta  chave e deitou-se
novamente. Elisa olhou satisfeita. Agora, era vigiar para que ela no se arrependesse.
Precisavam dar uma lio naquele desavergonhado.
Quase uma hora depois, Carlos chegou e vendo a porta fechada, bateu vrias vezes
chamando por Ins, ordenando-lhe que abrisse. Ela, trmula, no obedeceu. Elisa a seu
lado dizia-lhe firme:
-- Isso mesmo. No abra. No tenha medo.
Carlos comeou a gritar dizendo que ia arrebentar a porta. Ins fez meno de levantar-
se. No queria assustar as crianas. Elisa tentou det-la, mas estava difcil. Quando ela
pretendia ir at a porta, Carlos se calou. Corao batendo forte, ela esperou. Mas ele no
disse mais nada.
Adalberto entrou no quarto, e Elisa, vendo-o, disse com satisfao:
-- Logo vi que o silncio dele tinha uma causa. Voc o obrigou a se calar.
-- Isso mesmo. Ele se sentiu mal e foi para o outro quarto. Acha que foi da bebida.
Gostei de ver. Ins est reagindo. Como conseguiu isso?
Elisa contou tudo e finalizou:
-- Precisamos ter cuidado. Ela pensou em suicdio. No ser perigoso?
-- Pobre Ins.  o desespero que faz isso. Falarei com Sabino. Precisamos ultimar a
execuo de Carlos.
-- Execuo? -- estranhou Elisa.
-- Temos que tir-lo do caminho de Ins. Ele est acabando com ela e com os filhos.
No fizemos antes, pois ela no estava preparada. Agora, creio que est chegando a
hora.
-- O que vo fazer com ele? -- indagou Elisa, assustada.
-- No se preocupe com isso. Nada que no seja justo. Ele j foi julgado e condenado.
Ter que cumprir a sentena.
-- De que forma?
-- Esses detalhes no devem preocup-la. Voc tem feito um bom trabalho. Vou
recomend-la a Sabino. Sou-lhe muito grato.
-- Fao isso tambm pela felicidade de Ins. Ela  muito boa e merece.
-- Obrigado.
-- Espero que amanh cedo Carlos no brigue com Ins por causa da porta fechada.
-- Vai tentar, mas estarei por perto.
O dia j havia clareado quando o substituto de Elisa chegou e ela pde ir embora.
Resolveu procurar Jairo para se informar sobre os acontecimentos da vspera. Quando o
encontrou, foi logo dizendo:
-- E ento? Como foi ontem com Olvia no Centro?
-- Ainda bem que voc no foi. no lhe disse que aquele lugar era uma armadilha? Pois
foi.
-- Como assim? O que aconteceu? Voc foi at l?
-- Eu? No. Sabino mandou o Solon acompanh-la e faz-la no se sentir bem l dentro
e sair.
-- Olhe l o que vocs vo fazer com Olvia. No quero que nada de mal lhe acontea.
-- No  nada disso. O Solom s ia faz-la se sentir abafada e ter vontade de sair dali.
Mas a coisa no funcionou.
-- Como assim?
-- Ele  um bom magnetizador, mas ela no atendeu o que ele queria. Esse  sempre um
risco quando vamos magnetizar algum. Sua irm  um osso duro de roer. No
espervamos por isso.
-- Ela  durona mesmo, no  boba como eu. Mas conta... o que foi?
-- Ela no fez o que ele queria, segurou o Solom e ele acabou sendo apanhado por eles.
Ficou l, prisioneiro.
-- Que horror! Eles o prenderam?
-- Prenderam. No disse que era perigoso? Aconteceu isso com ele que  to
experiente! J pensou o que aconteceria com voc se estivesse l? Eles a prenderiam e
nunca mais sairia.
-- Que tristeza! Isso nunca acontecer. E agora, o Sabino no vai libert-lo?
-- No momento, no. Acha melhor no intervir. Por isso, eu digo: cuide-se bem. No se
deixe apanhar. No v l de forma alguma.
-- Fique sossegado. No irei mesmo.
-- Antes assim.  para seu prprio bem.
-- Eu sei -- concordou Elisa, confortada.
Por mais que desejasse conversar com Olvia, ela no iria. Deveria haver outras formas
de fazer contato com ela. No era s atravs daquele lugar to perigoso que ela poderia
fazer isso. Quando descobrisse, teria a alegria de dizer-lhe que estava bem e que sabia
de tudo quanto acontecera na vida da famlia:. Diria tambm o quanto se sentia saudosa.
Continuava a mesma, amando a todos como sempre. Olvia gostaria de saber que ela
mudara, no era mais a boba de sempre. Agora, era o Eugnio que estava em suas mos.
Ela  quem dava as cartas na vida de ambos.
A esse pensamento, sorriu alegre. Um dia ainda teria a satisfao de dizer isso no s 
irm, como tambm ao marido. Ela agora era outra mulher, mais vivida, experiente,
mais ativa.. Um dia eles saberiam disso.

Captulo 16

Eugnio entrou em casa preocupado. Euvira o chamara dizendo que Nelinha estava com
muita febre. Subiu para o quarto da filha e vendo Euvira sentada ao lado da cama,
perguntou:
-- E ento? Baixou a febre?
-- No. J dei o remdio que o senhor mandou, mas a febre continua alta.
-- Quanto tempo faz?
-- Uns vinte minutos.
-- Humm. J deveria ter feito efeito.
Nelinha, corada, olhos lacrimejantes, tossia de vez em quando.
-- Ser gripe? -- disse Eugnio.
-- Parece. S que gripe no d febre to alta. Ela tem trinta e nove graus.
-- Vou chamar o mdico. Isso pode complicar.
Eugnio foi telefonar, e Nelinha reclamava choramingando:
-- Pai, fica comigo. Est doendo minha cabea.
-- Seu pai j volta -- prometeu Euvira. -- No chore.
-- Eu quero minha me!
-- Ela no pode vir. Acalme-se. Seu pai volta logo. Nelinha pareceu no ouvir e
continuou:
-- Me! Onde voc est? Por que me abandonou?
Euvira, penalizada, tentava confort-la, mas ela chorava e continuava chamando pela
me.
Elisa, que estava no escritrio com Eugnio, o acompanhara e, emocionada, abraava
Nelinha dizendo:
-- Estou aqui, filha. Nunca a abandonei. No chore.
Vendo que ela no registrava sua presena, resolveu experimentar o que havia
aprendido. Concentrou-se e envolveu Nelinha com amor, repetindo com firmeza: --
estou aqui. Sou eu. Veja. Voc pode me ver e sentir. Vim para ajudar. No chore.
Nelinha parou de chorar, esboou um sorriso dizendo contente:
-- Me! Voc veio! Eu sabia que voc no ia me abandonar. Fica comigo! Estou me
sentindo to mal!
Elisa abraava-a com amor e com pensamento firme dizia:
-- Voc vai ficar bem. Eu estou aqui.
Elvira, ouvindo as palavras de Nelinha, assustou-se. Ela estava delirando. A febre teria
subido? Colocou o termmetro novamente e esperou. A menina adormecera, mas pela
respirao agitada ela percebia que a febre no baixara. Eugnio voltou em seguida:
-- Falei com o mdico. Dentro de pouco estar aqui.
--  bom mesmo. Ela est delirando.
-- Delirando?
-- Chamava pela me. Depois disse que ela estava aqui. Olhe o termmetro. A febre
no subiu. Ser que a alma de D. Elisa veio mesmo?
-- No diga besteira, Elvira. Quem morre no volta.
-- Ela disse que a me veio e que sabia que ela nunca a abandonaria. Precisava ver a
cara de felicidade dela. Parecia que estava vendo mesmo. Estou ficando com medo.
-- S me faltava esta! No percebe que ela chama pela me, porque est se sentindo
mal? Toda criana quer a me nessa hora. Ela est fantasiando.  uma maneira de
satisfazer sua vontade de ter a me de volta.  s alucinao. Quando a febre passar, ela
nem se lembrar disso.
Elvira olhou desconfiada. Seu irmo contava sempre histrias de assombrao e ela
sentia muito medo. Ele costumava brincar com ela dizendo: -- tome cuidado. Trate bem
das crianas. A alma da me delas est vigiando. Se judiar delas, vai aparecer e pedir
contas.
Apesar de saber que ele no acreditava no que estava dizendo, ela no queria nada com
alma do outro mundo. Se desconfiasse que a me das crianas poderia estar por ali,
deixaria o emprego. Gostava de trabalhar l. No tinha patroa para mandar. D. Olvia
era educada, e o dr. Eugnio a tratava bem. Afeioara-se s crianas e elas tambm a
tratavam com carinho.
-- Em todo caso, seu Eugnio, seria bom que mandasse benzer a casa. Nunca se sabe.
-- Deixe de bobagem. Precisamos  tratar de Nelinha.
O mdico chegou pouco depois e examinou Nelinha dizendo por fim:
-- Ela est com sarampo. No  nada grave. Alguns cuidados
e ela ficar bem. Os outros j tiveram?
-- J. Faz tempo. Nelinha ainda no havia nascido.
-- Os cuidados so os mesmos.
-- Gostaria que me dissesse o que fazer. Naquele tempo, minha mulher cuidava de
tudo, e eu no sei como tratar essa doena.
--  contagiosa. Vocs tambm j tiveram?
Eles j haviam tido e o mdico receitou os medicamentos. Depois que ele se foi,
Eugnio mandou Elvira  farmcia e sentou-se no lado da filha. De vez em quando
colocava a mo na testa dela e percebia que a febre continuava alta. O mdico dissera
que era assim mesmo. Mas olhando o rostinho corado de Nelinha, Eugnio sentia o
corao oprimido. Criana no deveria ficar doente, pensava.
Ela acordou tossindo e com olhos lacrimejando muito. Ele deu uma colherada de
remdio e pingou um remdio no nariz.
-- Est melhor, filha? -- perguntou ansioso.
-- Estou. Onde est mame? Ela foi embora outra vez? Eugnio tentou desconversar:
-- O mdico disse que  sarampo. Logo voc estar boa.
-- Voc a viu, pai?
-- Quem?
-- A mame. Ela me abraou muito e disse que nunca vai me abandonar.
-- No, eu no vi.
-- Aquele machucado que ela tem na testa foi do desastre?
Eugnio sobressaltou-se. Como Nelinha sabia que Elisa ficara com um ferimento na
testa? Ela no vira o corpo da me. Com certeza algum teria contado. Teria sido
Olvia? No. Ela tinha muito cuidado com as crianas. No seria capaz dessa maldade.
Precisava saber:
-- Quem falou que sua me ficou com a testa machucada?
-- Ningum, pai. Eu vi. Ela tinha uma marca de ferida na testa. Sabe que ainda no
sarou?
-- Vamos deixar isso de lado. Voc precisa repousar para o remdio fazer efeito logo e
voc sarar.
-- Me conta uma histria?
Eugnio concordou e tentou distra-la contando algumas histrias. No fim da tarde,
Olvia e Amaro apareceram para ver Nelinha. Vendo-os juntos, Eugnio sorriu. Eles
agora no se largavam. Olvia lhe parecia menos agressiva. Teria Amaro domado a
fera?
Enquanto Olvia ficava com Nelinha no quarto, Eugnio conversou com Amaro
contando-lhe as palavras de Nelinha:
-- Ela delirou por causa da febre. Teve uma alucinao.
Mas como  que podia saber que Elisa tinha uma marca na testa? Quem teria contado?
Nunca comentamos isso em casa, e as crianas no viram a me depois de morta. Sabe
como , ns quisemos poup-las. Isso me deixou intrigado.
-- A explicao  fcil e simples. Nelinha chamou e ela veio. Sempre foi me amorosa.
No resistiria a um chamado desses.
-- Voc diz isso com uma facilidade! Como se fosse possvel! Elisa est morta! Eu vi
quando a enterraram.
-- Voc viu quando enterraram o corpo, mas no tem condies de ver onde est o
esprito dela. Acredite, Eugnio, Elisa continua viva em outro mundo. Hoje voc teve
uma prova disso. Por que  to resistente?
Antes que respondesse, Olvia apareceu na sala assustada:
-- Nelinha disse que viu Elisa! Ser mesmo?
-- Ela est com febre alta. Teve uma alucinao.
-- Vamos conversar com ela de novo -- sugeriu Amaro. Juntos, subiram ao quarto de
Nelinha, e Amaro sentou-se
ao lado da cama dizendo com naturalidade:
-- Sua me veio visitar voc. Conte pra mim como foi isso.
-- Eu estava chamando mame, porque minha cabea doa muito e eu estava com frio.
Eu queria v-la. A, ela veio, me abraou e disse: "Estou aqui, filha, sou eu, veja. Nunca
a abandonei. No chore. Voc vai ficar bem. Eu estou aqui". Vi o machucado dela na
testa e queria perguntar se tinha sido do acidente. Mas estava to bom o abrao dela,
senti tanto sono que dormi. Quando acordei, ela j tinha ido embora. Quando ela voltar,
vou perguntar onde  a casa dela. Ser que eu posso ir l de vez em quando?
-- No. Onde ela mora, ns ainda no podemos ir.
-- Voc sabe onde ?
-- Sei que  longe, em outro mundo,  difcil para ela vir at aqui. Voc precisa
entender e no ficar chamando-a. Tenha pacincia. Saiba que se ela pudesse, estaria
aqui. Se no est,  porque Deus quis que ela fosse para outro lugar. Ele sabe o que 
melhor.
-- Eu queria que ela ficasse aqui comigo como antes.
-- Ela tambm gostaria. Mas no  possvel por enquanto. Ela agora s pode visitar de
vez em quando.
-- Espero que ela venha de novo.
-- Ela estava bem? Alegre e disposta?
-- No. Estava chorando. Acho que ficou triste por me ver doente. Ela emagreceu e
estava plida.
-- Voc estava chorando, ela ficou preocupada com voc. Quando pensar nela, procure
se lembrar de como ela era, cheia de
sade e alegria. Voc vai sarar logo, e ela vai ficar bem. De volta  sala, Eugnio
comentou:
-- No sei se  bom alimentar a iluso dela como voc fez. Ela pensou que essa visita
foi real.
-- E foi. Elisa esteve mesmo aqui com ela e talvez ainda esteja.
-- Ser? -- disse Olvia, impressionada.
-- Como duvidar depois do que Nelinha contou? Ela deu detalhes.
-- Disse que Elisa estava magra, plida e chorando -- considerou Olvia.
-- Essa deve ser a realidade. As crianas na idade de Nelinha tm muita facilidade de
perceber o mundo astral.  comum elas verem determinados espritos, algumas
costumam ter amigos e passam horas na companhia deles. Os pais acreditam que seja s
imaginao. Mas no. Elas percebem mesmo a presena deles. Com o tempo,
geralmente depois dos sete anos, elas esto mais integradas na reencarnao e esquecem
o mundo astral.
-- Se Elisa esteve ou est aqui, podemos tentar falar com ela. Seria possvel?--
perguntou Olvia.
-- No. Ns no temos os elementos adequados para isso.
-- Um mdium de incorporao? -- perguntou ela.
-- Pelo visto, voc j entrou na conversa dele -- interveio Eugnio, admirado. -- Logo
voc, sempre to p no cho, to materialista.
-- Olvia  mais sensata do que voc. H algum tempo est estudando o assunto. Voc
deveria fazer o mesmo. Garanto que est precisando.
-- Por qu?
-- Ajudaria sua vida e a de sua famlia. Depois, pelo que Nelinha disse, Elisa ainda no
est bem. Seria uma forma de ajud-la a equilibrar-se.
-- Voc acha que ela no est bem mesmo? -- tornou Olvia sria.
-- Pelo que Nelinha descreveu, ela ainda est sofrida e no superou o que aconteceu.
-- Vocs esto dando demasiada importncia ao que Nelinha disse. Ela tem s quatro
anos. Alm disso, queimava em febre.
-- Seja como for, voc deveria ir ao Centro Esprita. Rezar no lhe faria mal algum.
-- Deixe para Olvia. Ela sempre quer saber tudo. Eu no quero me meter nisso.
-- Pois eu quero. Se existe alguma coisa, eu vou descobrir. Se Elisa continua existindo
em algum lugar, se  verdade mesmo que pode se comunicar conosco, eu quero falar
com ela.
-- Isso  fantasia! Nunca ningum voltou para dizer o que acontece depois da morte.
Morreu, acabou -- enfatizou Eugnio.
-- Negar simplesmente no resolve nada. Depois do que tenho lido, das pesquisas de
tantas pessoas srias e cultas que se convenceram de que a vida continua aps a morte,
minha descrena est desaparecendo. H muitas coisas neste mundo que ainda no
podemos compreender... nossos olhos enxergam to pouco... nossos sentidos nos
enganam tanto... quantas coisas haver que ns ainda no percebemos?
-- Mas da a pensar que algum que j morreu e foi enterrado possa voltar,  uma
loucura.
-- A vida  uma aventura espetacular -- interveio Amaro. -- H muitos sculos, quem
no mundo poderia acreditar que estivssemos todos vivendo em cima de uma bola que
gira no espao, em grande parte coberta de gua, sem que ela se derrame ou que um de
ns caia? Tambm no  uma loucura? Entretanto, hoje ningum mais questiona isso.
-- No questiona, porque j est cientificamente provado. O que no acontece com a
vida aps a morte -- retrucou Eugnio.
-- Pode ainda no estar para voc, que nega sem investigar. O que significa que o faz
sem base. J existem provas concludentes sobre a vida aps a morte, mas o preconceito
ainda  grande. As manifestaes dos espritos acontecem em toda parte e raras so as
famlias que no podem contar alguma coisa sobre isso. Ocorre que as pessoas tm
medo de no serem compreendidas e preferem guardar segredo sobre esses fatos. Dia
vir que a cincia oficial, mais amadurecida e sem ter mais como negar, ser forada a
reconhecer a continuidade da vida aps a morte.
-- At l vou continuar descrente -- disse Eugnio. -- No vou entrar nessa iluso.
Amaro olhou-o srio e respondeu:
-- Do jeito que as coisas esto, melhor seria que voc no pensasse assim. Sua
descrena pode vir a lhe trazer maiores problemas do que j est tendo. Sou seu amigo
h muitos anos. Sempre tive minhas convices espirituais e nunca lhe disse nada sobre
isso nem tentei convenc-lo a que compartilhasse das minhas opinies. Porm, agora
voc est sendo chamado a pensar na vida espiritual. Quando isso acontece, no d mais
para escapar. Quanto mais resistir, mais a presso aumentar ao seu redor.
Eugnio sentiu um arrepio de medo e tentou disfarar:
-- O que quer dizer com isso?
-- Que voc est maduro para entender certas coisas e a vida o est pressionando. No
tenho dvida de que voc est sendo chamado para comear a enxergar alm do mundo
material e olhar a vida de outra forma, mais lcida e completa. Precisa progredir
espiritualmente e no pode fazer isso sem sair do mundo estreito onde voc vive.
Precisa abrir sua mente, alargar seu espao, ampliar suas fronteiras.
Amaro falava mansamente, mas com voz firme. Eugnio, admirado, escutava sentindo-
se leve como se houvesse alguma coisa diferente no ar. Amaro continuou:
-- Aproveite, Eugnio. Enriquea sua alma, fortalea seu esprito e tudo em sua vida
ser diferente. A pretexto de no se iludir, voc mergulha na descrena que  a maior
iluso.  a f que alimenta e conforta. Voc ainda no tem essa crena, mas nada o
impede de pensar no assunto, de investigar, de procurar uma prova, seja do que for que
possa lhe dar uma resposta. Qualquer coisa ser prefervel do que negar por negar. Voc
est fechando os olhos para no ver. Isso no vai modificar os fatos. A tragdia que se
abateu sobre sua vida, a infelicidade de Elisa que ainda no encontrou a paz, os
problemas angustiantes de sua vida pessoal que se agravaram e podero se tornar mais
graves.
-- Eu quero esquecer e voc me obriga a pensar nesse assunto. S eu sei a falta que
Elisa me faz e ningum mais do que eu lamenta o que aconteceu. Mas ela morreu e eu
estou vivo, preciso cuidar da minha vida, no posso continuar pensando nisso. Essa
histria de que ela est viva e infeliz no outro mundo,  muito distante e no me parece
real. O que posso fazer? Estou sendo sincero.
-- Sei disso. Mas por que resiste tanto a ir conosco a uma reunio no Centro Esprita?
Estar com medo?
-- Claro que no.  que no me sinto bem com essa idia. No sou religioso. Acredito
em Deus, mas no gosto das religies. Rezo a minha maneira. Depois, nunca aceitei
essa histria de mdiuns e espritos. Sendo assim, o que irei fazer l? Estarei sendo
hipcrita. No vou me sentir bem, tenho certeza.
-- Est bem. Respeito sua opinio, embora continue achando que seria muito melhor
se fosse conosco. Em todo caso, no vou mais falar nisso. Quando resolver ir,  s me
avisar.
-- Esse dia nunca chegar -- disse Eugnio, convicto.
-- No diga isso que pode se arrepender -- retrucou Olvia.
-- Voc gostaria muito que eu me arrependesse s para
provar que eu estava errado. Mas no ter esse prazer -- respondeu Eugnio, sarcstico.
-- Elvira tem que ir embora e vou subir para ficar com Nelinha -- tornou Olvia
tentando ignorar a resposta do cunhado.
Depois que ela subiu, Eugnio comentou:
-- Viu como ela ? Sempre que pode, quer me derrubar. O prazer dela  me ver no
cho.
-- No seja ingrato. Ela tem dado muita assistncia s crianas. Se no fosse por ela,
voc teria tido muito mais problemas.
-- Isso , mas ela no perde ocasio para mostrar o quanto me odeia.
-- Voc est exagerando. Ela no morre de amores por voc, mas da a odiar, vai
grande distncia. No seja dramtico.
Em um canto da sala, Elisa presenciara toda a conversa. Gostaria de poder aparecer ali,
para provar para o Eugnio que ela continuava viva, mas era impossvel. Viu quando o
Amlcar chegou e, atravs de Amaro, conversou com Eugnio. Se por um lado, ela
estava preocupada com a doena de Nelinha, com a vontade que eles tinham de levar
Eugnio ao Centro Esprita, por outro, pensava:
-- Como o Eugnio  ignorante! Sempre pensei que ele soubesse mais do que eu e
agora estou vendo que eu sou mais esperta. Ele nem imagina que eu estou aqui, fazendo
com ele o que eu quero. Quantas coisas aprendi que ele nem sonha. Ele no passa de um
pretensioso que no enxerga um palmo diante do nariz.
Amlcar aproximou-se de Elisa:
-- Como vai, minha filha?
-- Bem. Estou preocupada com a Nelinha. Ela est com muita febre.
-- Voc sabe que o sarampo  assim mesmo. Amanh ela j estar bem.
-- Tem certeza?
-- Tenho. Voc vai passar a noite aqui?
-- Bem que eu gostaria. Infelizmente no posso. Eu trabalho, tenho que ir.
-- Por que no pede dispensa por esta noite? Assim poder ficar ao lado dela.
Elisa suspirou:
-- Eu gostaria muito, mas  impossvel. Meu chefe  muito rigoroso. No tolera falhas
de disciplina.
Amlcar olhou-a firme nos olhos e perguntou:
-- Voc est feliz vivendo naquele lugar?
O rosto de Elisa entristeceu, e ela respondeu:
-- H muito tempo que eu no sei o que  felicidade. Desde aquele dia em que fui
abandonada, nunca mais pude ser feliz.
-- Ningum pode ser feliz conservando a mgoa no corao. Se deseja encontrar a paz
interior e a felicidade, precisa primeiro aprender a perdoar. Esse  o primeiro passo.
O rosto de Elisa transformou-se e seus olhos brilharam de rancor:
-- Como posso perdoar, se eu dei todo meu amor, minha dedicao ao Eugnio, se
esqueci de mim para cuidar do bem-estar dele, e ele me trocou por outra? Se ele me
enlouqueceu a tal ponto, que eu sa desnorteada e por causa disso perdi a vida naquele
acidente? Como esquecer meus filhos pequenos que ficaram ss sem que eu possa
cuidar deles como sempre fiz? Quem poder me devolver tudo quanto eu perdi?
-- A vingana e o rancor tambm no vo trazer tudo de volta. S podem agravar seus
padecimentos e atrasar a conquista da sua paz. O perdo dar alvio ao seu corao
aflito e far mais por voc do que qualquer outra coisa.
-- Sinto que o senhor  bom e quer me ajudar. Agradeo sua inteno, mas s eu sei a
dor que me vai na alma. O Eugnio tem que pagar pelo que me fez.
-- Voc vai se machucar ainda mais.
-- Agora nada mais importa. Perdi tudo quanto eu mais amava. O que me resta, seno
amargar minha tristeza e vigiar minha famlia protegendo meus filhos, para que nada de
mal lhes acontea?
-- Voc poderia fazer mais se estivesse bem. Voc est doente, Elisa. Precisa se tratar.
-- Eu tenho amigos que cuidam de mim. Nada me falta.
-- Em todo caso, eu gostaria que pensasse um pouco no que eu lhe disse. Gosto de
voc e quero ser seu amigo. Se um dia as coisas piorarem e precisar de ajuda, basta me
chamar e eu irei v-la. Lembre-se disso.
Elisa agradeceu confortada. Quando conversava com Amlcar, sentia-se bem. Mas no
podia concordar com o que ele dizia. Subiu ao quarto de Nelinha e aproximou-se de
Olvia que, sentada ao lado da cama, velava, colocando de quando em quando a mo na
testa da menina para ver se a febre havia melhorado. Ela ainda tinha bastante febre, mas
notava-se que estava mais tranqila. Parecia melhor.
-- Olvia -- disse Elisa -- que vontade de falar com voc! De abra-la, de colocar a
cabea em seu colo e falar tudo que sinto como quando ns ramos crianas! Tempo
bom aquele! Apesar da
morte dos nossos pais, ns conseguimos viver muito bem. Voc est comeando a
entender que eu continuo viva. Que bom se eu pudesse aparecer agora, para dizer: 
verdade! Eu estou aqui. Mas no posso. E o pior, tenho que ir embora. No tenho sequer
o direito de ficar ao lado de Nelinha. Por que fui me comprometer com aquela gente? Se
no tivesse feito isso, agora poderia ficar aqui o quanto quisesse.
Olvia recordou-se de Elisa e pensou:-- Se ela estivesse aqui, estaria sentada em meu
lugar. -- A vida fora cruel com Elisa. Se ela estivesse mesmo viva no outro mundo,
deveria estar muito triste por no poder cuidar de Nelinha. Sem pensar bem o que fazia,
Olvia disse em voz alta:
-- Fique tranqila, Elisa. Eu no sairei daqui at a febre passar. Pode ficar em paz que
eu estou fazendo o que voc faria.
Elisa sorriu. De alguma forma, Olvia registrara suas palavras. Mais calma, saiu
apressada. A hora estava avanada, e ela se dirigiu rapidamente ao apartamento de Ins.
Tinha que substituir uma companheira. Esta j estava impaciente:
-- Puxa, Elisa, hoje voc demorou.
-- Desculpe, mas minha filha estava com muita febre e eu fiquei l mais do que deveria.
-- Est bem. J vou indo. Hoje as coisas aqui prometem. Parece que  a grande noite.
Voc sabia?
-- A grande noite?
-- Pois . A cobrana da sentena. Mas estou atrasada, preciso ir. O Jairo depois te
conta tudo.
Ela se foi, e Elisa no entendeu nada do que ela lhe dissera. Que sentena seria aquela?
Adalberto mencionara o julgamento de Carlos e uma sentena. Seria isso? Sentiu uma
sensao desagradvel. No gostava de confuso. O que estaria para acontecer?
Deu uma volta pelo apartamento e no encontrou nada de anormal. Ins, como sempre,
jogada na cama, enquanto o marido no aparecera para o jantar. A mesa posta e as
panelas no fogo revelavam que nem Ins havia se alimentado. As crianas j estavam
no quarto, e a empregada, cansada de esperar para servir o jantar, tambm se recolhera.
-- Como ela  boba -- pensou Elisa.-- Eu nunca mais farei isso. Se eu voltar a nascer
na Terra, conforme me disseram, e casar de novo, ningum vai mais me fazer de trouxa.
Eu  quem vou dar as cartas. Homem nenhum vai mais mandar em mim. Aprendi a
minha lio.
Acomodou-se na poltrona, no quarto de Ins, e esperou. O dia estava amanhecendo
quando Adalberto apareceu, olhou para Ins adormecida e disse a Elisa:
-- Ela est bem? Tomou muito remdio?
-- No. Esta noite no tomou nada.
-- Voc precisa ficar preparada para ajud-la. Ela est melhor, mas no sei ainda como
vai reagir quando souber.
-- Souber o qu?
-- A justia se cumpriu.
-- De que forma? O que aconteceu?
Antes que Adalberto pudesse responder, o telefone tocou. Ins acordou e atendeu:
-- Al... o qu? Meu Deus! Tem certeza? Onde? Irei imediatamente.
Ela estava plida. Adalberto e Elisa correram para sustent-la transmitindo-lhe energias
revigorantes. Cambaleante, Ins chamou a empregada dizendo nervosa:
-- Telefonaram da polcia. Carlos foi assaltado, parece que se feriu. Preciso ir l
imediatamente.
-- Vou com a senhora. No  melhor telefonar para o dr. Nelson?
-- No vamos precisar de advogado. Preciso ver se o Carlos est bem. Sempre temi que
acontecesse algo. Ele bebe, sai de madrugada, leva muito dinheiro nos bolsos. Meu
Deus! Estou to nervosa que nem acho a roupa para vestir.
-- Eu ajudo a senhora. Vou chamar o chofer para tirar o carro.
A criada procurou a roupa, entregou a Ins e telefonou para o chofer pedindo o carro.
Correu para o quarto, vestiu-se rapidamente e voltou para ajudar Ins a acabar de se
arrumar. Ela parecia uma barata tonta e no sabia o que fazer.
-- Precisamos fortalec-la bem -- disse Adalberto. -- O momento  crucial.
-- Carlos est mal? -- indagou Elisa.
-- Carlos est morto -- retrucou Adalberto. -- A justia foi cumprida.
Elisa estremeceu e comeou a tremer. Estava apavorada. Eles teriam alguma coisa que
ver com a morte de Carlos? Adalberto olhou-a srio e ordenou:
-- No seja mole nessa hora. O que  isso? Tem que reagir. Pensei que voc fosse
melhor.
Elisa, assustada, procurou no se impressionar.
-- Desculpe,  meu primeiro trabalho. No estou acostumada com um caso desses.
-- Pois trate de se acostumar. No podemos fraquejar agora. No percebe que Ins
precisa de todo nosso apoio? Trabalhamos tanto para isso!
Elisa concordou e procurou no pensar. O assalto acontecera, e eles no tinham nada a
ver com isso. Tratou de ajudar Ins transmitindo-lhe energias revigorantes.
Entraram no carro. Ins estava sendo amparada por Adalberto de um lado e a criada de
outro. Elisa, sentada ao lado do motorista, fazia grande esforo para se controlar.
Na delegacia, a notcia da tragdia. Carlos fora assaltado e assassinado. A polcia
acreditava que ele tentara reagir e o mataram. Levaram o carro e o dinheiro, em seu
bolso ficara um documento com o qual ele fora identificado.
Ins desmaiou e no teve condies de ir fazer o reconhecimento do corpo. O motorista
e a criada o fizeram, enquanto Ins era socorrida por um mdico. Elisa, plida, ao entrar
na delegacia, notara a presena de alguns companheiros da organizao tomando conta
do corpo de Carlos. Assustada, fez o possvel para no demonstrar o medo que sentia.
Se o fizesse, com certeza seria punida.
Adalberto, satisfeito, comandava a operao dizendo aos companheiros que tomassem
conta do corpo de Carlos no deixando ningum se aproximar.
-- Vamos -- disse a Elisa. -- Sua tarefa  cuidar de Ins. Ela pode dar trabalho quando
acordar. Felizmente o mdico deu-lhe forte sedativo, e ela dormir por algumas horas. O
suficiente para resistir ao primeiro impacto.
-- O que devo fazer? -- indagou Elisa, esforando-se para vencer o mal-estar e o medo
que sentia.
-- Vigiar. Dar-lhe energias de fortalecimento. Sustent-la. -- Olhou-a desconfiado. --
Ter condies de fazer isso? Voc me parece perturbada.
-- Eu no sabia de nada. Fiquei assustada, mas j passou. Sei como fazer isso.
-- Ento v. Se ela voltar a si, me chame imediatamente.
-- Est certo.
Elisa postou-se ao lado de Ins, que havia sido acomodada em uma cama. A polcia,
depois de haver tomado declaraes dos dois empregados, os liberou. Colocaram Ins
deitada no assento traseiro do carro, amparada pela empregada. Elisa sentou-se na
frente, ao lado do motorista. Estava penalizada. Apesar de conhecer
os problemas do marido, ela o amava. Por outro lado, estaria livre dele e poderia refazer
sua vida.
De repente um pensamento a assaltou. A morte estava longe de ser uma soluo. Carlos
se conformaria em deixar Ins em paz? Fora do corpo, no iria atorment-la ainda mais?
Talvez fosse por isso que Adalberto colocara os companheiros vigiando-o, para que no
perturbasse a famlia. Nesse caso, teria sido um bem. Teria sido s isso? Eles teriam
participado do crime?
A esse pensamento, um arrepio de medo a acometeu. No, Isso no podia ser verdade.
Ela desejava vingana, mas seria incapaz de uma atrocidade dessas. Se ao menos ela
pudesse sair da organizao... E se eles a perseguissem, prendessem e torturassem?
Havia ouvido algumas histrias as quais se recusara a acreditar. Seriam verdadeiras?
De qualquer forma, precisava tomar cuidado. Eles eram argutos e percebiam seus
pensamentos. O mais prudente seria ignorar, fingir que no sabia de nada.
Em casa de Ins, havia desolao e tristeza. As crianas haviam acordado e se assustado
com o estado da me.
-- Ela ficou nervosa, porque aconteceu um acidente com seu pai e o mdico deu um
calmante. Ela est bem -- explicou a criada.
-- Onde est papai? -- indagou um deles.
-- No hospital -- mentiu ela. -- Sofreu um acidente e ficou machucado. Depois sua
me conta tudo a vocs.
Acomodaram Ins na cama e trataram de chamar o mdico dela. Conhecendo-a bem,
eles queriam que ele estivesse l quando ela acordasse.
Elisa acomodou-se no quarto. Naquele dia, ela no poderia sair dali. Pensava em
Nelinha, gostaria de ir v-la e saber se sua febre havia passado, mas Adalberto fora
categrico. Ela teria que ficar ao lado de Ins quanto tempo fosse preciso.
As horas foram passando sem que Ins desse sinal de vida. Passava do meio-dia quando
ela remexeu-se no leito, e Elisa, percebendo que ela estava acordando, pensou em
Adalberto, chamando-o. Dentro de alguns instantes, ele apareceu acompanhado de Jairo
e mais dois companheiros:
-- E ento? -- indagou. -- Tudo calmo por aqui?
-- Tudo. Ela parece que est acordando.
-- Vamos ajud-la -- disse Adalberto postando-se  cabeceira da cama, colocando os
companheiros ao redor. -- Vamos dar-lhes energias revigorantes.
Concentraram-se e Elisa esforou-se para colaborar, o que no era difcil, porquanto a
figura abatida de Ins, o drama de sua vida, a comoviam muito. Adalberto aproximou-se
de Ins dizendo-lhe ao ouvido:
-- Ins, soou o dia da sua liberdade. Finalmente est livre! Nunca mais aquele infeliz se
aproveitar da sua fraqueza nem da sua ingenuidade. Esse captulo de sua vida est
encerrado.
Ins, atordoada, passou a mo pela testa, tentando se recordar do que havia acontecido.
De repente lembrou-se: Carlos fora assaltado e estava morto. Teria sido um pesadelo?
Teria sonhado ou seria verdade? Precisava saber.
Chamou a criada fazendo um esforo enorme para que a ouvisse.
-- Janete! Janete!
Ela atendeu prontamente.
-- Diga que no aconteceu nada. Que eu sonhei, que no  verdade... que o Carlos no
foi assaltado e... diga... no me deixe neste desespero.
-- Tenha calma, dona Ins. No adianta nada a senhora se desesperar agora. O dr. Silva
est a caminho e vai cuidar da senhora.
-- Janete, isso no aconteceu, no pode ter acontecido!
A criada continuava em silncio, no querendo agravar a situao.
-- Eu quero levantar -- disse ela agitada -- preciso v-lo. Saber a verdade. Me ajude.
Onde ele est?
-- Calma, dona Ins. A senhora precisa ser forte. As crianas esto assustadas e no
sabem de nada. Precisa ver como eles esto plidos. O que ser deles se a senhora
perder a serenidade?
Ins olhou-a e ficou pensativa por alguns segundos. Janete tinha razo. As crianas
precisavam dela. Teria que encontrar foras para reagir. Se ao menos seu pai estivesse
vivo e pudesse ajud-la naquela hora amarga!
Adalberto, comovido, colocou a mo sobre o peito de Ins dizendo com amor:
-- Minha querida! Eu estou aqui. Nunca a abandonei. Eu a amo como sempre. Voc vai
reagir, ficar bem, cuidar de seus filhos e levar uma vida feliz. Ns cuidaremos para que
aquele canalha no a incomode nunca mais. Um dia, voc saber toda a verdade e nos
agradecer por a termos libertado dele.
Ins respirou fundo e naquele instante o dr. Silva entrou no quarto. Vendo-o, ela sentou-
se na cama e pediu:
-- Doutor, me ajude! Eu preciso ser forte, mas no sei se suportarei tamanho golpe!
No posso me conformar com o que aconteceu.
Ele a abraou dizendo:
-- Vim para ajud-la. Ficarei a seu lado o tempo que quiser. Deite-se, o calmante que
lhe deram foi muito forte, no tem condies de se levantar.
-- Estou tonta, mas no quero dormir. Meus filhos precisam de mim e eu quero ver o
Carlos. Hei de ter foras para v-lo. Prometa que no o levaro sem que eu me despea
dele.
-- Para conseguir fazer isso, precisa reagir e tentar melhorar. Sei que  difcil, mas  o
melhor que tem a fazer agora. Os meninos esto apavorados. Tentei acalm-los, mas
ainda no sabem a verdade. Voc precisa ser forte nessa hora.
-- Se eu me acalmar, poderei v-lo?
-- Naturalmente. Voc vai tomar alguns remdios que iro ajud-la a ficar firme.
-- Tenho medo que o levem sem que eu veja.
-- Isso no vai acontecer. O corpo vai demorar um pouco para ser liberado. Eu e o dr.
Nelson vamos tratar de tudo. Pode ficar tranqila. No faremos nada sem seu
conhecimento.
Ins deixou-se cair na cama suspirando angustiada, depois disse:
-- Sempre tive medo que algo acontecesse a Carlos. Mas agora ainda no me parece
verdade.
O mdico ficou conversando com Ins, e Adalberto, satisfeito, considerou:
-- O pior j passou. Foi melhor do que eu esperava. Agora  s uma questo de tempo.
Tenho que sair e vocs dois ficam dando energias a ela. Voltarei mais tarde.
Elisa, que contava poder sair, teve que ficar. Jairo ficaria com ela. Quando se viu a ss
com ele, ela disse:
-- Pensei que fosse ser liberada. Estou preocupada com Nelinha.
-- Fique tranqila, ela est melhor. Elisa animou-se:
-- Voc foi v-la?
-- Passei por l hoje cedo. Eu tinha certeza de que me faria essa pergunta.
-- Ela est sem febre?
-- O sarampo estourou e a febre diminuiu.
-- Ser que hoje vou poder ir v-la?
-- Estamos em uma emergncia. No podemos facilitar. Se tudo correr bem, verei o que
posso fazer.
-- Obrigada.
Ins, juntamente com o mdico, conversara com os filhos que abraados a ela, estavam
muito assustados. Elisa, vendo a tristeza deles, no continha as lgrimas. Observando
sua emoo, Jairo considerou:
-- Voc  boba, no pode entrar na tristeza deles. O que aconteceu foi para o bem. De
agora em diante, eles podero viver melhor, livres da presena daquele safado.
-- Uma coisa me preocupa: o que Carlos vai fazer quando acordar? E se ele no desistir
da famlia e ficar aqui amolando?
Jairo sorriu tranqilo:
-- Bem se v que voc no sabe de nada! Depois de tanto trabalho para arranjar tudo,
voc acha que Adalberto o deixaria livre para fazer o que quisesse? Para isso, nossos
companheiros esto tomando conta dele. Assim que se libertar do corpo e acordar, ele
ser levado para a organizao. L ter que responder pelos crimes que tem praticado.
Seu julgamento j foi feito, e ele pegou uma pena grande. Pode ter certeza que, nesta
vida, no incomodar mais a famlia.
Elisa sentiu um calafrio de medo, mas fez o possvel para disfarar.
-- Me disseram que ele estava condenado e teria que cumprir a sentena. Esse assalto
favoreceu a que vocs pudessem apanh-lo.
Jairo olhou-a com ar de superioridade:
-- Claro que favoreceu. Tudo foi planejado minuciosamente. Voc sabe como , Ins
precisou de tempo para ser preparada e agentar esse fato. Quando ela estava madura,
foi fcil induzir esses ladres a assalt-lo.
-- Quer dizer que vocs fizeram tudo isso? -- disse Elisa procurando encobrir o terror
que isso lhe provocava.
-- Claro. E tudo saiu como planejamos. Agora, Carlos ser levado para a priso e
pagar por todos os seus crimes.
Elisa no respondeu. Tinha medo que ele percebesse o que ela estava pensando. Eles
haviam chegado ao crime para concluir sua vingana! Naquela hora, ela arrependeu-se
de haver se metido com aquela gente. Gostaria de poder sair, mas como fazer isso sem
provocar uma reao desagradvel? Precisava pensar e encontrar uma maneira. Deveria
haver outro lugar e outras pessoas melhores com as quais pudesse morar.

Captulo 17

Eugnio apressou-se em sair do escritrio. Estava atrasado. Combinara ir apanhar
Lourdes na sada do trabalho.
Enquanto se dirigia para o local, pensava: nunca trabalhara tanto e nunca ganhara to
pouco! Antigamente os negcios eram fceis, mas agora, para fechar algum, tinha que
suar a camisa. Estava em uma mar de falta de sorte. S conseguia ganhar para as
despesas. Nunca tivera que controlar seus gastos. Qualquer despesa extra descontrolava
seu oramento.
Lourdes o esperava bem-disposta como sempre. Sua presena fazia-o esquecer por
momentos as preocupaes. Gostaria de dedicar mais tempo a esses encontros, mas
ainda no estava sendo possvel.
No conseguira arranjar outra empregada que dormisse no emprego. As crianas haviam
se afeioado a Elvira que as tratava com pacincia e carinho. No tinha certeza se uma
outra o faria. Por isso, sujeitava-se a ir cedo para casa. Aos domingos, ficava s com
elas. Lourdes os visitara quando ele ficara impossibilitado de sair, e as crianas,
temerosas que ele se interessasse por ela, no a receberam bem. Ele sentia que elas
ainda no estavam preparadas para aceitar que ele se casasse de novo.
Lourdes era atraente, gostava dela. Era uma moa decente que poderia tornar-se uma
boa esposa, ajud-lo a cuidar da sua famlia. Mas do jeito que as coisas haviam
acontecido, teria que esperar para tomar uma deciso. A forma chocante e repentina da
morte de Elisa, traumatizara as crianas. Ele precisava ser paciente. Conquistar o amor e
a compreenso de Marina tornara-se importante. Com o tempo, vendo sua dedicao,
ela compreenderia e voltaria a am-lo.
Quando Lourdes entrou no carro, depois dos cumprimentos, ele disse:
-- Desculpe o atraso. No pude sair mais cedo.
-- Eu entendo.
-- Obrigado. Voc tem sido muito compreensiva comigo. No sei o que faria sem
voc. Esses momentos que passamos juntos tm me ajudado a superar os problemas que
tenho tido. Gostaria de poder ficar a seu lado o quanto tivesse vontade, sem ter hora
para chegar em casa.
Lourdes sorriu:
-- Eu tambm. Voc sabe que eu gosto de voc e estou disposta a esperar que as coisas
possam ser diferentes.
Eugnio parou o carro em uma rua tranqila de um bairro residencial e abraando-a,
beijou-a nos lbios repetidamente.
-- Eu quero voc -- disse. -- No agento mais ficar assim, precisamos encontrar uma
maneira de nos ver em algum lugar onde eu possa mostrar o quanto eu a quero. Talvez
eu consiga tempo para fazermos outra viagem. Voc vai?
-- Talvez.
-- Diga que vai e eu tentarei arranjar tudo.
-- No sei se  direito.
-- Voc havia concordado.
-- Eu fui, mas deu no que deu. E eu pensei: ser que no foi um aviso de que eu no
deveria ter ido?
-- Foi um acidente, poderia haver acontecido a qualquer um.
-- Mas aconteceu conosco. Isso me fez pensar. Quando a vida no quer uma coisa, 
melhor no forar. Vamos esperar. Esperamos at agora. Quando voc puder fazer tudo
direito, ento sim, seremos felizes.
-- Podemos ser felizes desde agora. Esperar para qu? Eu preciso de voc. Assim que
as crianas aceitarem melhor a situao, que Marina compreender como as coisas
aconteceram, poderemos nos casar. Voc no entende minha ansiedade?
-- Tanto entendo que estou cooperando. Voc no disse agora mesmo que eu estou
sendo muito compreensiva?
-- No neste ponto.
Naquele instante, Elisa entrou no carro.
Enquanto Nelinha estivera doente, Eugnio saa do trabalho e ia direto para casa, mas
agora que ela j estava bem, Elisa sabia que ele procuraria Lourdes. Tendo um tempo
livre, havia ido ao escritrio e no o encontrando, tratou de localiz-lo mentalizando-o.
Havia aprendido a fazer isso. Tendo conseguido, foi at l.
Eugnio, abraado a Lourdes, beijava-a com paixo tentando vencer sua resistncia em
entregar-se a ele. Ela resistia.
Mesmo estando apaixonada por ele, no conseguia vencer o receio de estar fazendo algo
errado. Tentou soltar-se de seus braos dizendo:
-- Por favor, Eugnio. No faa isso!
-- Ns vamos nos casar! Eu prometo. Assim que as crianas esquecerem um pouco, nos
casaremos.  s uma questo de tempo.
Elisa, plida, sentiu uma onda de rancor. Para ele era fcil esquecer, substitu-la, dar
seus filhos nas mos de outra mulher. Mas ela no ia admitir. Ele no podia tir-la do
caminho como um objeto que depois de usado no serve mais. Ela estava morta, sofria a
solido, a angstia de no poder mais voltar. Ele fora o culpado de tudo, tinha que
pagar.
Atirou-se sobre ele, dizendo rancorosa:
-- Nunca, entendeu? Nunca voc vai fazer isso. No vou permitir. Voc no ser de
outra mulher, eu juro!
Eugnio sentiu uma tontura, e sua viso se turvou por alguns instantes. Empalideceu
soltando Lourdes imediatamente.
-- O que foi? -- disse ela assustada. -- Est se sentindo mal?
Ele tentou afrouxar a gravata respirando com dificuldade. Lourdes ajudou-o a
desabotoar a camisa e abriu a janela do carro. Eugnio suava frio.
-- Parece que vou desmaiar -- disse assustado.-- Estou enjoado.
-- Vamos sair do carro, andar um pouco -- disse ela.
-- Estou tonto, espere um pouco.
Fechou os olhos recostando-se no banco do carro. Seu rosto estava coberto de suor.
Lourdes olhou-o sria e disse:
-- Vamos rezar.
-- Rezar?!!
-- Sim.  isso que est precisando.
Lourdes fechou os olhos e rezou evocando a ajuda dos seus guias espirituais. Elisa,
percebendo que ela chamava por socorro, tentou impedi-la segurando seu brao,
enviando-lhe energias paralisantes e dizendo:
-- Voc vai se afastar dele. No vai v-lo nunca mais. Eu a probo. Se no me obedecer,
vai se arrepender.
Lourdes estremeceu e concentrou-se ainda mais. Vendo que ela resistia, Elisa utilizou
toda sua fora para det-la e foi nessa hora que Lourdes a viu. Foi um relance, mas foi o
bastante.
Elisa percebeu que fora vista e, ao mesmo tempo, sentiu-se
arremessada a distncia. Isso nunca lhe acontecera. Assustada, tentou voltar, mas por
mais fora que fizesse no conseguia sair do lugar. Lourdes continuava em prece e de
seu corao saa uma luz azul que envolvia o lugar onde eles estavam. Por mais que
tentasse, Elisa no conseguia atravessar aquela luz e se aproximar deles. Lourdes abriu
os olhos perguntando:
-- Est melhor?
-- Estou -- respondeu ele, aliviado. -- No sei o que  isso. O mdico disse que 
estresse. Estou ficando assustado. Eu devo ter algum problema de sade.
-- Voc no est doente -- disse ela com voz firme.
-- Como pode dizer isso?
-- Porque eu sei. Voc precisa urgente ir a um Centro Esprita.
-- Voc tambm?
-- Se j foi alertado, tanto melhor. O que voc tem ficou bem claro. Eu vi o esprito
que est atacando voc.
-- Viu?!
-- Vi. Acho que  a Elisa, sua mulher. Ela est cheia de dio. No quer que voc se
case novamente e pretende vingar-se do que voc lhe fez.
-- Voc sabe que no tive culpa do acidente.
-- No sou eu quem pensa assim,  ela.
Eugnio remexeu-se no banco do carro dizendo assustado:
-- No pode ser. Voc no viu nada disso. Ela morreu e est bem enterrada. Eu vi.
Como poderia estar aqui?
-- A vida no acaba com a morte do corpo. O esprito dela estava aqui e nos atacou. Me
ameaou e proibiu de sair com voc.
Eugnio passou as mos pelos cabelos aflito.
-- No posso crer.  uma loucura. Isso no pode ser verdade.
-- Mas . Ela estava plida e tem uma ferida na testa.  magra, cabelos castanhos
claros, amarrados atrs com uma fita, trajava um vestido verde claro, com bolinhas
pretas.
Eugnio comeou a tremer assustado. Lourdes no conhecera Elisa e mesmo que a
houvesse visto em algum lugar, como podia saber a forma que ela usava os cabelos e o
vestido com o qual ela fora enterrada?
-- Isto  uma loucura! Eu me recuso a crer.
-- Como eu poderia saber como ela  se no a houvesse visto? Foi um relance, mas eu
consegui.
-- No posso admitir. Elisa era dcil e amorosa. Nunca seria
capaz de uma atitude dessas. Era uma mulher nobre, de sentimentos elevados. Se
espritos existem, algum pode estar se fazendo passar por ela. Os padres dizem que o
demnio pode tomar a forma que quiser para assustar as pessoas.
-- No seja ingnuo, Eugnio. Sei o que estou afirmando. Por que tem tanto medo de
admitir a verdade? At quando vai continuar sofrendo esses ataques e permitindo que
ela abuse de voc? Precisa se defender. Por outro lado, ela precisa ser ajudada. Est em
pssimo estado e incapaz de tomar uma deciso melhor. Do jeito que as coisas esto,
no  de admirar que sua vida esteja to confusa e que tenha tantos problemas.
-- No sei o que dizer.
-- No momento, voc precisa de ajuda e deve procurar um lugar onde possa receb-la.
Depois que resolver isso, far o que quiser.
-- Voc fala como se fosse fcil. Eu nunca acreditei em nada disso. Sempre pensei que
essa histria de espritos fosse mentira.
-- Est vendo que no . Eu tambm no me preocupava com esses assuntos at o dia
em que comecei a ter vises, e os mdicos diziam que eu estava tendo alucinaes.
Quase enlouqueci de verdade, tomei tantos medicamentos que nem conseguia raciocinar
mais. Foi quando algum me levou a um lugar onde descobri que o que eu tinha era
apenas mediunidade. Estudei o assunto, aprendi a lidar com a minha sensibilidade e
fiquei muito bem.
-- Voc freqenta um Centro Esprita?
-- Freqento. Fao um trabalho voluntrio e procuro alimento para o meu esprito.
-- Voc est sempre bem.
-- Aprendi a me ligar com bons pensamentos e com Deus.
-- No  que eu no creia em Deus. Pelo contrrio, penso que deve haver uma fora
maior que comanda o universo, mas para ser franco, no gosto de religio. H tantas
contradies, eles no se entendem nem entre si.
-- Voc fala dos religiosos. Eles so pessoas, tm limitaes. No pode basear-se neles
para desenvolver sua f. Eu falo dos fatos da vida. Das leis naturais que comandam o
universo. Deus  grande demais para o nosso entendimento. Dele apenas captamos
reflexos e mesmo assim, quando o conseguimos, nossa vida se ilumina.
-- Custo a entender. Minha vida sempre deslizou maravilhosamente bem. De repente,
quando pensei que poderia melhor-la
ainda mais, a tragdia se abateu sobre mim e a partir da, tudo comeou a dar errado. s
vezes, penso que estou sendo castigado. Neste mundo cruel, ningum pode ser feliz.
Deus pode estar me cobrando em dobro os anos felizes que desfrutei.
-- Que horror, Eugnio! No diga isso nem por brincadeira. Deus no castiga ningum.
Todos fomos criados para a felicidade. Esse  o nosso destino. Mas para que ele se
cumpra, precisamos desenvolver nossa conscincia. A lucidez  condio essencial para
ser feliz. Enquanto alimentarmos iluses, crenas inadequadas, inexperincia, isso no
acontecer.  a vivncia que amadurece.  enfrentando situaes conflitantes,
desenvolvendo nossa fora interior que vamos aprender. A conquista da sabedoria  o
preo da felicidade. Quanto mais ingnuos, mais seremos estimulados pela vida a reagir.
Antes, voc no era to feliz como diz. Se isso fosse verdade, no teria procurado um
novo amor. Observando seu caso, posso perceber que voc no tinha intimidade com
seus filhos e acredito que nem mesmo com Elisa, seu relacionamento estava
inexpressivo. Na verdade, voc foi casado com ela, mas nunca se integrou de fato nem a
conheceu verdadeiramente.
-- Tambm no  assim. Ela era competente e cuidava de tudo com perfeio. Eu no
precisava me preocupar. Em casa as coisas andavam sempre na mais perfeita ordem.
-- Mas a vida no  apenas organizao.  vivncia, participao, sentimento, bem-
estar, alegria. No so s as funes que contam. So as pequenas coisas do dia-a-dia,
os momentos de troca amorosa, as coisas que so verdadeiras e nos causam prazer. Na
verdade, pelo que sei, voc nunca desfrutou das alegrias da vida familiar.
-- Eu chegava cansado do trabalho e queria me distrair. Em casa tudo sempre andava
bem.
-- No precisa explicar nada. Quero apenas que perceba que voc amadureceu muito
ultimamente. Tornou-se mais humano, mais verdadeiro.
-- Isso . Eu mudei muito.
-- Quando se casar de novo, sua postura ser diferente do que foi. Seu relacionamento
com seus filhos, no ser modificado.
-- Tem razo. Eu vivia alheio. No que eu desejasse me omitir, pensava que cuidar
deles fosse uma funo de Elisa. Alis, no comeo eu quis colaborar, mas ela no
deixou. Sempre que eu queria me aproximar deles, arranjava uma desculpa. S percebi
isso quando me vi sozinho com eles sem saber como me relacionar.
Elisa observava amargurada, sem poder intervir. O que ele
dizia era verdade, mas ela era a me. A ela competia essa tarefa. No podia abrir mo do
seu dever. Eugnio estava sendo cruel, mas, ao mesmo tempo, pela primeira vez ela se
perguntou se teria errado em no deixar que ele a ajudasse a cuidar das crianas. Se ela
houvesse agido diferente, ele teria se ligado mais  famlia?
Elisa torceu as mos em desespero. Por que nunca ningum lhe ensinara nada sobre
isso? Por que uma menina se casa sem experincia de nada, iludida e cheia de sonhos,
carregando sobre os ombros a responsabilidade de dirigir uma famlia sem estar
convenientemente preparada?
Como fora cega! Enquanto cheia de boa vontade ela aprendia as regras da sociedade no
desempenho da suas funes, se esquecera de ser mulher, mergulhara de corpo e alma
no papel que exigiam dela e deixara de lado a felicidade.
Tornara-se uma esposa perfeita, mas perdera o amor de Eugnio. Tarde demais
percebeu que no era isso o que ele desejava. Ele queria a mulher, no apenas a esposa.
Naquela hora reconheceu amargurada que lavar, passar, cozinhar, cuidar do conforto da
famlia era bom, mas poderia ser feito por qualquer pessoa, at por uma criada, bastando
para isso que ela a comandasse. Que manter acesa a chama do amor, alm de torn-la
mais feliz, teria preservado sua unio.
Entretanto, ela fizera tudo isso por amor. Acreditava estar dando o melhor de si.
Adorava quando ele a beijava e entregava-se a ele com paixo, mas procurava no
demonstrar. Ela era a esposa, a me, se o fizesse, ele poderia julg-la vulgar. Lgrimas
desciam-lhe pelas faces e ela dava vazo  sua angstia. Por que no percebera o quanto
ele era romntico e amoroso? Por que s agora, vendo-o nos braos de outra,
compreendia isso?
Lembrou-se do amor dos primeiros tempos de casamento. Como haviam sido felizes!
Em que momento as coisas comearam a mudar? A gravidez, o nascimento de Marina,
o receio de no cuidar direito do beb. Foi quando ela comeou a no acompanhar mais
o marido. No podia abandonar a criana para sair com ele. Marina era to pequenina,
to dependente! No sabia ainda falar. E se a maltratassem? No podia deix-la com
ningum.
Lembrou-se que no comeo ele reclamara, mas depois acostumou. No a convidava
mais. Saa com os amigos. Afinal trabalhava o dia inteiro e precisava distrair-se.
E ela? Por que se sujeitara a ficar em casa cuidando dos filhos sem parar, lavando,
passando, cozinhando, limpando, atravessando noites em claro quando eles tinham
problemas, enquanto
Eugnio na cama ressonava tranqilamente? Por que apesar de saber que ele ganhava
bem, nunca quis contratar uma empregada? Desejara poup-lo, se sacrificara
acreditando que ele compreendesse que o fazia por amor. Como fora tola!
-- Voc se casou por amor? -- indagou Lourdes.
-- Sim. Sempre gostei de Elisa.
-- Estou falando de amor. Voc sentia atrao por ela?
-- Sentia. Ela era muito bonita.
-- Mas depois apaixonou-se por outra e queria deix-la.
-- ... nem sei como aconteceu. Depois do nosso casamento, ela mudou muito. Estava
sempre s voltas com o trabalho domstico, com as crianas, mal me dava ateno. Foi
ficando diferente. Depois voc sabe como , a rotina, a falta de interesse... No sei
como, mas a atrao dos primeiros tempos acabou. Quando isso acontece,  o diabo.
Fica difcil continuar.
Fez uma pausa e baixou a cabea pensativo. Elisa, embora no pudesse aproximar-se
muito deles, no perdia uma s palavra. Depois de alguns minutos, ele prosseguiu:
-- Ela era o que se pode chamar de uma esposa perfeita. Eu gostava dela, sempre
gostei. H momentos em que me sinto culpado pelo que aconteceu, mas por outro lado,
sinto que no fiz nada de mal. Ultimamente ela no me atraa mais. Era como se fosse
uma irm muito querida e nada mais. Minha natureza  romntica. No posso viver sem
amor. Preciso de amor, de sexo. Isso me motiva a viver, a trabalhar, me traz felicidade.
Quando encontrei Eunice, minha vida estava uma rotina insuportvel. Eu vivia irritado e
me sentia muito s. Ela despertou em mim a paixo e eu me entreguei completamente.
Aquela vida dupla no era agradvel, cada vez que eu olhava para Elisa, me sentia mal,
ento decidi ser sincero, sair de casa. E deu no que deu.
-- Pelo jeito, voc tambm no amava Eunice.
-- No. Depois compreendi isso e minha dor tornou-se maior. Eu havia destrudo meu
lar, prejudicado Elisa, por uma iluso. Sofri muito. O arrependimento machuca e  uma
ferida difcil de carregar. Principalmente quando Marina e Olvia me acusam.
Lourdes passou a mo pela cabea de Eugnio levemente acariciando-o.
-- Como est essa ferida agora? Ainda di?
-- Ainda.  difcil esquecer.
-- Se voc pudesse ver Elisa, encontrar-se frente a frente com ela, o que lhe diria?
Ele emocionou-se e fez o possvel para se controlar.
-- No sei. Gostaria que ela compreendesse. Que me perdoasse. Que soubesse que voltei para
casa e tenho procurado ser um bom pai. Que apesar de tudo, eu a quero muito bem e lamento de
corao o que aconteceu.
-- Tenho a certeza de que ela est aqui e ouvindo o que voc diz.
-- Se eu pudesse ter essa certeza! Infelizmente no tenho sua f. No posso acreditar que ela
possa estar aqui agora.
Elisa torcia as mos angustiada. Ele lhe parecia sincero. Ela percebera o seu desinteresse. Ele
no a procurava mais como nos primeiros tempos, mas ela pensara que isso era normal em todos
os casamentos. Sempre ouvira dizer que com o tempo o amor se modifica, a paixo se acalma e
acaba se tornando s amizade. Naquele momento, Elisa teve conscincia do quanto estivera
enganada. Olvia tentara abrir-lhe os olhos, por que no a ouvira?
-- Mesmo assim, seria bom se procurasse um Centro de atendimento espiritual. Mesmo no
acreditando, faa isso por ela, pelo muito que ela fez por voc.
Elisa levantou-se assustada. No queria que ele fosse a esse lugar. Depois do que ouvira, no
estava muito preocupada com o que pudesse lhe acontecer. Agora nada mais importava. Sua
vida estava perdida e a felicidade no voltaria nunca mais. Mas temia que a prendessem, e ela
no pudesse mais ver os filhos. Eles eram sua alegria. No poderia suportar ficar longe deles,
sem saber o que estava lhes acontecendo. Ficou aliviada quando Eugnio respondeu:
-- Sei que tem boas intenes, que deseja me ajudar, mas eu no vou. No me sinto com
coragem.
-- Faa como quiser -- disse ela. -- Em todo caso, estou  sua disposio. Quando resolver, 
s me avisar.
-- Obrigado -- respondeu ele abraando-a e beijando-a nos lbios demoradamente.
Lourdes afastou-o com delicadeza dizendo:
-- Agora no.
-- Por qu? Eu a amo e desejo sentir que me ama.
-- Eu tambm o amo. Mas Elisa pode estar aqui ainda. No gostaria que ela se sentisse infeliz.
-- Essa agora! Voc pensa mesmo isso ou est usando essa desculpa para me conter?
-- No preciso de desculpas. Vamos deixar para outro dia. Depois, est na hora de irmos
embora. Quer que as crianas fiquem sozinhas?
-- Est bem, voc venceu, vamos embora. No posso esperar
 mais.
Elisa olhou para Lourdes com admirao. Como ela podia saber de todas essas coisas?
Quando estava no mundo, nunca ouvira falar nada disso. Apesar de sua tristeza, sentia-
se menos revoltada. Saber que Eugnio se sentia arrependido, que a deixara porque no
queria continuar enganando-a, perceber que ela tambm errara em alguns pontos,
aliviara um pouco sua raiva.
Ao chegar em casa, Elisa foi ver as crianas. Ela gostaria de poder ficar ali bastante
tempo, mas no podia. Precisava continuar dando assistncia a Ins. Tinha desejo de
deixar a organizao, mas no sabia como. Eles levavam muito a srio os
compromissos, e ela temia no poder desligar-se com facilidade. Por que aceitara a
ajuda deles?
Chegou ao apartamento de Ins um pouco atrasada.
-- Se continuar perdendo a hora e me deixando aqui sem poder sair, terei que me
queixar ao Jairo -- disse o companheiro ao qual ela iria substituir.
-- Desculpe. Isso no vai se repetir. Eu prometo.
-- Vamos ver. Tambm tenho meus compromissos. No posso adi-los por sua causa.
-- No diga nada, por favor. Nunca mais ter queixa de mim, eu juro.
-- Est bem. J vou indo. Por aqui est tudo bem.
Fazia dois meses que Carlos havia morrido. Notava-se uma mudana geral no ambiente.
Havia flores nos vasos, a criada cantarolava na cozinha, as crianas no quarto
brincavam alegres.
Elisa suspirou satisfeita. Ins, sentada na sala, ouvia msica clssica. Sentia-se triste,
mas conformada. De certa forma, depois de viver durante tanto tempo sob tenso,
sentia-se aliviada por no ter que esperar a volta de Carlos, sem saber como ele viria. Se
teria bebido, andado com outras mulheres, se metido em confuso. Na verdade, ela
temera o tempo todo que acontecesse uma tragdia e quando finalmente aconteceu, ela
conseguiu relaxar.
A msica sempre fora sua grande paixo. Gostava dos clssicos e deliciava-se em ouvi-
los. Mas Carlos no gostava desse tipo de msica e ela, envolvida tambm pelas
preocupaes familiares, acabara por no sentir mais esse prazer.
Fez tudo quanto sabia para viver bem com Carlos apesar das diferenas de
temperamento que havia entre eles, mas no conseguiu. Sua arrasadora paixo por ele
fazia-a deixar de tudo para obedec-lo cegamente. Apesar de sentir-se menos tensa, se
perguntava o que fazer agora sem ele? Ele era o homem de sua vida. Nunca
haveria outro. S no desistia da vida por causa dos filhos. Eles s podiam contar com
ela no mundo. Dedicaria sua vida a cuidar deles.
Elisa aproximou-se. Gostaria de poder ajud-la. Ela era to moa, to bonita! Tinha
dinheiro, poderia refazer sua vida, ser feliz! Ah! se ela pudesse estar na Terra, ainda que
sozinha, sem Eugnio, s com os filhos! Haveria de valorizar cada minuto. Eugnio no
a amava mais, gostava de outra. Ela poderia tambm encontrar um novo amor, algum
que a amasse de verdade.
A esse pensamento, assustou-se. Que idia! Mesmo que estivesse viva na Terra e que
Eugnio a houvesse abandonado, no teria coragem de pensar em outro. Ela era casada!
Era me! Como seus filhos receberiam uma coisa dessas? Mas no era dela que se
tratava e sim de Ins. Ela estava viva e bem poderia encontrar a felicidade.
Aproximou-se dela dizendo-lhe ao ouvido:
-- Voc est livre agora! Viva sua vida com alegria. Voc pode, tem dinheiro. V
passear, viajar, gozar a vida. Aproveite enquanto pode.
Ins sentiu vontade de viajar, conhecer outros lugares, sair da rotina. Elisa sorriu
satisfeita e ia sentar-se em um sof quando foi surpreendida por uma sensao
desagradvel. Viu Carlos entrar na sala, plido, desfigurado, trazendo ainda no corpo as
feridas que o vitimaram, olhos muito abertos, gritando rancoroso:
-- Eles pensaram em acabar comigo, mas se enganaram. Sou mais forte do que eles!
Esta  minha casa e aqui mando eu!
Estava acompanhado de alguns companheiros de aparncia desagradvel e disse-lhes
com firmeza:
-- Faam o que eu mandei. Montem guarda e no deixem ningum entrar. Se for
preciso, usem suas armas. -- Depois voltou-se e vendo Elisa que em um canto,
apavorada, tentava chamar os companheiros, aproximou-se dela segurando-a com fora
e dizendo com raiva:
-- Voc me arruinou! Ajudou a me matar! Preparou aquela infame armadilha! Agora
vai pagar.
Elisa tremia qual folha sacudida pelo vento. Quando conseguiu falar, disse:
-- Est enganado. No tive nada a ver com sua morte. Estou aqui, porque gosto de Ins
e desejo ajud-la.
--  mentira! Voc pertence ao grupo deles. Trabalha para Adalberto. Vocs vo ver
com quem esto lidando.
Sem perceber nada, Ins sentiu-se inquieta e desligou a msica. Sentia arrepios pelo
corpo, medo e angstia. Subiu para ver se as crianas estavam bem. Havia violncia por
toda parte, os assaltos
 eram comuns, e se os marginais que vitimaram Carlos resolvessem entrar em sua casa?
Ela agora estava s com as crianas. Quem os defenderia? Angustiada, resolveu
telefonar para o dr. Nelson e pedir ajuda.
Elisa, plida, trmula, apavorada, debatia-se tentando escapar de Carlos sem conseguir.
Ele chamou dois dos seus companheiros ordenando:
-- Segurem-na. No a deixem fugir. Aquele bandido me paga. Ele e todos os malditos
que o ajudaram.
Elisa fitou-os receosa. Eles tinham pssima aparncia, deveriam ser criminosos da pior
espcie. O que pretendiam fazer com ela? Por que Jairo no aparecia para ajud-la? Ela
o chamara com veemncia. E Adalberto no havia prendido Carlos e levado para a
organizao? Como havia conseguido escapar?
Carlos circulou pelo apartamento, dando ordens aos seus homens que guardassem a casa
e o avisassem se algum se aproximasse. Depois de andar de um lado a outro e
certificar-se de que no havia ningum mais alm de Elisa, aproximou-se dela dizendo:
-- Agora voc vai me contar tudo.
-- Contar o qu?
-- Como foi que tramaram a minha morte e quem mais ajudou o Adalberto a me
destruir?
-- Eu no sei de nada. Carlos olhou-a rancoroso:
-- Vai saber logo, logo. Depois do que fizeram comigo, no terei piedade de ningum.
Se no cooperar, vai se arrepender.
Elisa tremia assustada:
-- Estou dizendo a verdade, juro! Eu no sabia o que eles iam fazer. Sou nova na
organizao. Eles me pediram para ajudar Ins, tomar conta dela, e eu vim.
Carlos olhava-a desconfiado.
-- No se faa de santa. Se fosse boa, no teria se juntado a esses assassinos.
-- Acho que est enganado. Eles nunca fariam isso. Eles esto do lado da justia.
Querem endireitar as coisas. Defender os fracos contra os fortes.
-- Voc  idiota? Ento no sabe que eles andam por a, mandando em todo mundo,
destruindo quem no faz o que eles querem? Chama de justia o que fizeram comigo?
-- No estar enganado? Voc foi morto por marginais. Quem pode prever uma coisa
dessas?
Os olhos de Carlos brilharam rancorosos enquanto ele
respondeu:
-- Foram eles que tramaram minha destruio. Eu sei que induziram aqueles bandidos a
me matar! Quando acordei, eles me prenderam e levaram para aquela cela imunda. Se
vangloriaram pelo que fizeram. Disseram que eu havia sido julgado e condenado. Como
se eles fossem os donos do mundo! -- Ele riu sarcstico. -- Mas eu consegui levar a
melhor. Eu tenho poderes, sabe? Agora, vou me preparar para a vingana. Ningum
escapar! Vou arrasar todos vocs e as pessoas que vocs mais amam! Vo se
arrepender amargamente de se haverem envolvido nessa trama.
Elisa no conteve o horror. Pensou em sua famlia, nas crianas a quem tanto amava e
arrependeu-se amargamente de haver se envolvido naquela histria. Por que fora to
boba? Por que se metera nos assuntos alheios? Ela no tinha nada com aquela gente e
agora estava presa quela situao terrvel. E os seus amigos que no apareciam para
ajud-la? Eles que se diziam to fortes, como no conseguiam dominar Carlos?
Lgrimas de terror desciam pelas faces de Elisa, e ela disse:
-- Por favor! Estou dizendo a verdade! Lamento o que lhe aconteceu e garanto que no
fiz nada para isso.
-- Se voc prestasse, no estaria junto com eles. No acredito no que diz.
Elisa chorava desesperada:
-- Pode crer. Eu seria incapaz de matar uma mosca! Se soubesse o que iria acontecer,
no teria me metido aqui. Eu gosto de Ins.  uma pessoa bondosa e sofredora, como
eu. S quis ajud-la, nada mais. E depois, -- continuou nervosa -- se eu no
obedecesse, eles me prenderiam. Fiquei com medo. Bem que eu no queria, mas fui
obrigada.
Carlos olhava-a pensativo, depois disse:
-- Quer que eu acredite nisso?
--  verdade! No comeo, eles foram bondosos comigo, me ajudaram. Eu estava
desesperada, morri num acidente de carro e deixei meus filhos fechados em casa
sozinhos. Eu no sabia que havia morrido, estava confusa. S queria ajudar minha
famlia!
Elisa, soluando, desesperada prosseguiu:
-- Eles me ajudaram e depois exigiram que eu pagasse a ajuda. Disseram que eu
deveria trabalhar para eles, me ameaaram e eu tive que obedecer. Nunca me falaram o
que iam fazer. S soube que o Adalberto era seu inimigo em outros tempos, e os dois
amavam a mesma mulher.
-- Quem lhe disse isso?
-- Eles. Disseram que Ins estava fraca e precisava reagir, melhorar. Eu vim e fiquei ao
lado dela, tentando dar-lhe foras. Eu juro que s fiz isso.
Ele olhou-a balanando a cabea negativamente:
-- Custo a crer. Voc parece estar dizendo a verdade.
-- Deixe-me ir embora. Eu lhe peo!
-- Para voc ir correndo at eles e contar o que viu aqui? Acha que sou idiota?
-- Se eu sair daqui, juro que nunca mais vou ter com eles.
-- De que forma? No est devendo a eles?
-- Estou, mas no volto mais l.
-- Bem se v que  novata mesmo. Acha que pode se livrar deles assim? No sabe
como so vingativos! Adalberto me odeia porque nunca pde mandar em mim. Sempre
quis me manipular, mas nunca conseguiu. Por isso me odeia!
-- Posso ir para longe, onde eles no possam me encontrar.
Carlos riu irnico:
-- Voc? Ignorante desse jeito? Se eles descobrem que quer ir embora, vo tortur-la
at que resolva obedecer cegamente suas ordens.  assim que eles mantm aquela
maldita organizao.
Elisa sentia-se realmente apavorada.
-- Hei de dar um jeito. Depois do que aconteceu, no volto mais para l. Isso eu juro.
-- Vai ficar aqui, comigo. Vai ter que me obedecer. Voc me deve uma reparao --
riu mordaz e continuou: -- ajudou-os contra mim. Agora vai ter que me ajudar contra
eles. Exijo que faa isso. Ser a nica maneira de pagar o que me deve.
-- Por favor!... Deixe-me ir embora! Eu juro que nunca mais farei nada que possa
prejudic-lo!
Carlos levantou-se decidido olhando-a srio:
-- Chega de lamrias. Voc vai me obedecer. Agora quem manda em voc, sou eu. 
minha escrava. E no adianta querer me enganar. Estou ligado em voc e se tentar
alguma coisa, vai se arrepender. Agora, vai para o lado de Ins. Ela est nervosa e isso
me irrita. Preciso de sossego para pensar. Voc no disse que quer ajud-la? Ento, vai
l e faa-a se acalmar. Se ela ficar aflita, vai atrair Adalberto e eu quero que ele s
venha quando eu j estiver devidamente preparado.
Elisa ia responder, mas ele no lhe deu chance. Empurrou-a com fora dizendo:
-- Vamos, anda. Trata de faz-la se acalmar ou eu no respondo por mim.
Elisa foi at o quarto de Ins onde ela, angustiada, abraada s crianas, esperava
impaciente a chegada do dr. Nelson. Sentia vontade de colocar um guarda do lado de
fora do apartamento. No se sentia segura.
Elisa ainda estava trmula e no conseguia acalmar-se. Como iria transmitir calma a
Ins se ela tambm estava nervosa? Encolheu-se em um canto do aposento e tentou
pedir ajuda dos amigos. Ela estava sendo sincera. No queria voltar  organizao, mas,
naquele instante, a quem recorrer seno a eles? No lhe haviam prometido proteo e
garantido que estava tudo sob controle e que nada de mal lhe aconteceria? Pensando
nisso, decidiu chamar os companheiros. Precisava se libertar daquela situao. Depois
daria um jeito de se retirar da organizao.
Concentrou o pensamento em Adalberto, pedindo ajuda. Dali alguns segundos, sentiu
que estava sendo sacudida brutalmente. Abriu os olhos e Carlos estava diante dela.
-- O que est fazendo? No lhe disse que estava vigilante? Pensou que podia enganar-
me?
Furioso, ele comeou a lhe bater, e ela sentiu-se desfalecer. O corpo doa-lhe
terrivelmente e a cada tapa que ele lhe dava, sua cabea rodava. Por fim atirou-a a um
canto dizendo com raiva:
-- Comigo  assim. Se no me obedecer, vai ver uma coisa. No sou nenhum idiota.
Trate de fazer o que eu mandei se no quiser levar mais. Vamos, levante-se e desta vez
faa o que eu disse.
Elisa sentia-se mal, mas com medo de apanhar mais, fez tremendo esforo para
levantar-se e postou-se ao lado de Ins, tentando acalmar-se.
-- V l o que vai fazer -- vociferou ele, irritado. -- Se ela piorar, voc me paga.
Preciso de calma para pensar. Eu exijo que me obedeam, todos vocs.
Elisa, lgrimas descendo pelas faces plidas, fez tremendo esforo para se acalmar. Se
Ins fizesse alguma besteira, Carlos desforraria nela. Uma experincia fora o bastante.
No queria passar por aquilo de novo. Tratou de obedecer como pde. Porm,
arrependia-se amargamente de haver se envolvido com aquelas pessoas. Se ao menos
ela pudesse se livrar, seria esperta o bastante e nunca mais se meteria com quem quer
que seja. Enquanto isso, no lhe restava outra alternativa, seno ficar ali e tentar fazer o
melhor.

Captulo 18

Elisa olhou desconsolada para Ins sem saber o que fazer para acalm-la. Quando ela
entrava em depresso, tomava seus calmantes e ficava estirada na cama, Elisa podia
pelo menos ter um pouco de sossego. Mas quando ela ficava inquieta, andando pela
casa, apavorada e em crise, Carlos se irritava:
-- Voc no est aqui para ajud-la? Por que no a faz se calar? Ela est me irritando!
-- dizia ele, descarregando sua raiva, espancando-a brutalmente.
Fazia trs dias que ela estava prisioneira dele, sofrendo suas agresses, sem poder sair
por um momento sequer. Apavorada, perguntava-se por que Adalberto no aparecia
para salv-las. Se ele no se preocupava com ela, Elisa, esperava que ele pensasse em
Ins, sofrendo por causa da presena daqueles espritos perversos.
De que adiantava eles o terem matado? Antes, pelo menos, ele ficava fora a maior parte
do tempo e ao regressar de madrugada, bbado, cansado, logo dormia. Agora, ficava l
todo o tempo, destilando dio contra tudo e contra todos, tornando o ambiente da casa
irrespirvel a ponto de ningum mais ter sossego. A criada s no ia embora de pena das
crianas. Ins, tendo crises de terror e de depresso, os meninos, abatidos e sem apetite,
um com dor de cabea, o outro com nuseas, vomitando cada vez que ingeria qualquer
alimento. A situao deles estava um horror! Com sua morte, a situao tornara-se
muito pior.
Elisa, apavorada, achava que executando-o, eles haviam errado tremendamente. Onde
estava Adalberto que no vinha consertar o que ele fizera de errado? Eles no se
intitulavam justiceiros? Carlos estava se aproveitando de uma mulher indefesa, que era
ela mesma, e infelicitando sua prpria famlia.
Ins andava de um lado a outro inquieta.
-- Janete! Janete!
-- Senhora
-- Por que o vigia no est no hall de entrada?
-- Ele est, D. Ins.
-- No est, no. Eu espiei e no o vi.
-- Ele foi ao banheiro por um instante, mas j voltou, a senhora pode ver. Ele est l.
Ins abriu a porta do quarto e espiou. Ele estava l mesmo. Suspirou e disse:
-- No quero que ele saia nem por um instante. Estou pagando para ele ficar l,
vigiando.
-- Sim, senhora. Acho bom chamar o dr. Silva de novo. O Nequinho est vomitando
muito. Agora mesmo ele tomou suco de laranja e ps tudo fora.
O rosto de Ins contraiu-se :
-- Meu Deus! O que ser que ainda vai acontecer?
-- No vai acontecer nada, D. Ins. Acalme-se. O dr.Silva vem, receita outro remdio e
ele vai ficar bem.
Ins torceu as mos em desespero:
-- No sei, no... estou me sentindo insegura. Algo de ruim vai acontecer. No sei o que
, mas tenho a sensao que esta casa vai ser invadida... Preciso proteger meus filhos...
no sei como...
Janete aproximou-se dela, e Elisa aproveitou para transmitir energias calmantes.
-- A senhora est assim pelo que aconteceu -- disse Janete. -- Foi horrvel. Mas
passou. No vai acontecer de novo. O prdio est protegido e temos um vigia dentro do
apartamento. Ele est armado.
Ins acalmou-se um pouco:
-- ... pode ser. Vai, telefona para o doutor. Vamos ver o Nequinho.
-- D. Ins, a vizinha do 511 tem perguntado da senhora. Ela deseja fazer-lhe uma
visita.
-- No estou com disposio para receber ningum.
-- No se recorda dela? Sempre conversava com ela no jardim do prdio quando
levava as crianas para tomar ar. Vocs conversavam muito.
-- Eu sei. Ela  muito agradvel. Mas prefiro ficar s.
-- Esta casa est muito triste. A senhora precisa distrair-se. Depois, o filho dela  da
idade do Nequinho. Eles gostam de brincar juntos. Se eles viessem, talvez ele
melhorasse.
Ins suspirou:
-- Est bem. Estou sendo egosta, pensando s em mim. Diga a ela que venha e traga o
menino.
Janete sorriu satisfeita. No agentava mais o clima de tristeza daquela casa. Sentia-se
sufocar. D. Ins precisava distrair-se, fazer novas amizades, agora que estava livre
daquele marido.
Passava um pouco das quinze horas quando Marilda chegou acompanhada do filho.
Janete atendeu-a com satisfao, fazendo-a entrar. O mdico examinara cuidadosamente
o Nequinho e no encontrara nada de especial. Disse que ele estava nervoso, chocado
pelos acontecimentos e precisava distrair-se. Receitou vitaminas e um calmante suave.
-- No se esquea, D. Ins, ele precisa de alegria, distrao.
Por isso, quando o Rubinho chegou com a me, foi recebido efusivamente e logo
conduzido ao quarto dos meninos para brincar. Ins, fazendo Marilda sentar-se na sala,
explicou:
-- Ele no est muito bem, mas pode ficar tranqila que o mdico disse que no  nada.
No tem perigo seu filho brincar com ele. O caso dele  s nervoso, sabe como , depois
do que passamos...
-- Sinto muito, Ins. Desejo expressar minha tristeza e dizer que estou a sua disposio
para o que precisar.
-- Obrigada. Infelizmente nada h que possamos fazer. A morte  irreversvel.
--  verdade. Resta-nos a possibilidade de rezar e seguir adiante. Afinal, a vida
continua e voc tem dois filhos para criar.
-- Se no fosse por eles, no estaria mais aqui. Juro que para mim tudo acabou.
-- No diga isso. Voc  moa, pode refazer sua vida. Ins meneou a cabea dizendo
amargurada:
-- Carlos era tudo para mim. Sei que ele no foi o marido que eu gostaria, mas o que
posso fazer? Meu sentimento por ele continua vivo. Sinto um vazio, uma tristeza sem
fim. Depois, v-lo morrer daquele jeito... foi horrvel!
-- No vamos recordar o que passou. Quando falar nele, esquea esse pedao ruim e
lembre-se de como ele era quando estava bem.
-- No posso esquecer como ele ficou depois de morto.
-- Faa um esforo. O tempo  um grande remdio. A ferida vai cicatrizar. Tudo passa
neste mundo. Com a ajuda de Deus, vocs vo se refazer.
-- No acredito nisso. Voc fala em Deus, tem f, mas eu no. A vida tem sido injusta
comigo.  difcil ter f quando a vida nos maltrata.
-- A vida no maltrata ningum. Ela s responde ao que lhe damos.
-- S recebi maldade e nunca fiz mal a ningum.
-- Tem feito mal a voc mesma.
-- Isso no tem importncia. Fui uma filha dedicada e sempre fiz o que meu pai queria.
Depois, com o marido foi a mesma coisa, me apaguei para fazer s o que ele gostava.
S fiz o bem e recebi sofrimento.
-- Para Deus, voc vale tanto como seu pai ou seu marido. Quando se julga menos, se
coloca para trs, se desvaloriza, est fazendo mal a voc mesma, deixando de viver todo
o bem que a vida deseja lhe dar.
Ins olhou-a admirada.
-- Voc diz coisas que nunca ouvi. Sempre me ensinaram que em amor, a renncia, o
sacrifcio e a abnegao so fundamentais. Eu fiz tudo isso. Nunca fui egosta. Nunca
pensei em mim, s neles.
-- Pensar em voc no  ser egosta.  seu primeiro dever. O que voc pode oferecer
aos que ama se estiver mal e precisar que eles cuidem de voc? Para mim, o egosta  o
que se descuida de si mesmo esperando que os outros cuidem dele.
-- No estou entendendo onde quer chegar...
--  simples. Voc dedicou-se exclusivamente ao marido, aos filhos. Esqueceu de si,
s pensou neles. O que pretendia fazendo isso?
-- Conquistar o amor deles. Fiz tudo por amor.
-- O que pensaria se eles no correspondessem a esse amor de maneira igual  sua?
Ins permaneceu pensativa por alguns segundos depois disse:
-- Sofreria muito. A ingratido di. -- Calou-se hesitante, depois continuou: -- sabe
como , os homens so diferentes, menos romnticos. Carlos no era delicado e eu sofri
muito. Para ser franca, ele nunca me amou como eu queria. Ele era tudo para mim,
enquanto que eu no era tudo para ele. Para mim, estar com ele era o bastante, para ele,
no. Preferia os amigos freqentemente, deixando-me sozinha. Eu me casei por amor,
esperava que ele me fizesse feliz. Nunca consegui. Por isso, perdi a f. Sempre dei tudo
e nunca tive nada.
-- Eu no diria isso. Voc tem a vida, dois filhos maravilhosos, uma bela casa, 
saudvel, moa, tem muitas coisas boas.
-- Voc diz isso, porque no passou pelo que eu passei...
-- Realmente. Sua vida no tem sido um mar de rosas. Nunca se perguntou por qu?
Nunca se interessou em saber como atraiu uma situao dessas?
-- No. Como poderia saber? Falta de sorte, infelicidade. Eu nasci com esse destino.
-- Ns fazemos nosso destino. A vida nos d de acordo com o que acreditamos. Se
voc cultiva pensamentos negativos, se acredita que est destinada ao sofrimento,  isso
que vai obter. Nossas crenas determinam nossa vida.
Ins olhou-a admirada:
-- No creio. Sempre desejei a felicidade. Sonhei com ela a vida inteira. Quando me
casei com Carlos, julguei hav-la encontrado. Isso no aconteceu. Ele no me deu tudo
quanto eu esperava.
-- Esse foi seu engano maior. Voc sofreu porque se iludiu, fantasiou, fugiu da
realidade. Ele pode ter dado todo seu amor, mas o que ele tinha para dar no era o que
voc esperava. Cada um d o que tem e no o que gostaramos que eles nos dessem.
-- Eu dei tudo, por que deveria conformar-me com menos?
-- Essa foi uma escolha sua, no dele. Ser que ele queria tudo quanto voc quis lhe
dar?
-- s vezes penso que no. Quanto mais eu cedia, mais ele me humilhava.
-- Talvez sentisse que voc pretendia manipul-lo e sentisse medo.
-- Medo de mim? Nunca quis manipular ningum. Ao contrrio, sempre fui passiva e
obediente.
-- Para poder exigir mais. Quanto mais bondosa voc se tornava, maior era a culpa
dele por no fazer o que voc queria. Voc mesma disse, "deu tudo, por que deveria
conformar-se com menos"? Era isso o que queria. S que ele no tinha. Nunca poderia
dar-lhe. Voc desejava o impossvel e sofria por isso. Quanto mais voc sorria, mais ele
aparecia como responsvel pela sua dor.
-- Voc diz coisas estranhas. Nunca exigi nada dele a no ser amor.
-- Amor como voc queria, da forma como voc gostava. Ins, voc pode sair desse
sofrimento, mudar sua vida para melhor. Vencer os problemas que a afligem, tornar-se
uma mulher feliz.
-- Para mim, no h mais esperana!
-- Ao dizer isso, est escolhendo seu futuro. Pode ter certeza que  isso que ter.
Entretanto, est em suas mos mud-lo. Basta querer. No gostaria de viver melhor,
com mais alegria e fazer de sua vida uma experincia boa?
-- Gostaria pelos meus filhos. Tenho pensado que no  justo para eles, to crianas,
viverem ao lado de uma pessoa triste como eu. Mas o que fazer com a depresso? No
tenho foras para sair dela.
-- No tem ou no quer?
-- No me sinto capaz.
-- Voc  capaz. Precisa querer de verdade. Enterrar o passado de uma vez. Nada que
fizer, vai modificar o que j passou. No adianta voc ficar remoendo coisas que
aconteceram. Elas nunca mais voltaro. Houve momentos bons, momentos tristes, mas
tudo acabou. Por que continuar sofrendo por coisas que no poder modificar? Liberte-
se delas.
-- De que forma? No consigo esquecer a tragdia que nos vitimou. Eu havia
melhorado um pouco, mas no sei o que se passa comigo, sinto-me inquieta, tenho
medo. Tenho a sensao de que minha casa est sendo invadida por malfeitores e no
consigo pensar em outra coisa. Coloquei um vigia, mas apesar disso essa angstia no
passa.
-- Est assim desde que seu marido morreu?
-- No. Nos primeiros dias, apesar de deprimida, sofrida, de certa forma a tenso
desapareceu. Eu vivia preocupada com Carlos, parece que pressentia o que ia acontecer.
Ele saa  noite, voltava de madrugada, bebia, sabe como , eu s sossegava quando ele
chegava. Depois do que aconteceu, no havia mais nada para esperar, e eu, por esse
lado, senti-me at aliviada. Mas alguns dias para c, no sei o que , os meninos esto
indispostos, eu, apavorada, inquieta. Ser que vai acontecer mais alguma tragdia?
-- No. O que tinha que ser j aconteceu. Como eu j lhe disse tempos atrs, sou
mdium e freqento um Centro Esprita. Se quiser, posso pedir ajuda espiritual para
voc.
-- Faria isso por mim?
-- Claro. Com prazer. Gostaria que cooperasse conosco, procurando cultivar
pensamentos mais positivos. Vai ter que se esforar para isso. Mas  um trabalho que s
voc pode fazer e que vai ajudar a melhorar o ambiente de sua casa e equilibrar a sade
de seus filhos.
-- Vocs rezando por mim no vai ajudar?
-- Vai. Ns vamos pedir e os espritos de luz viro at aqui dar-lhes energias
renovadoras, mas para que elas possam penetrar no ambiente, voc vai precisar
cooperar.
-- Como assim?
-- Nossos pensamentos so to densos, to fortes que
formam uma massa de energia compacta ao nosso redor. Ns chamamos de aura. Se
voc no abrir espao, as energias passam sem penetrar e voc no se beneficiar delas.
Agora, se voc melhorar seu padro mental, pensar em coisas mais agradveis, mais
positivas, vai absorv-las e sentir-se melhor.
Elisa se aproximara e ouvia com interesse. Desconfiada, observava Marilda. Ela ia ao
tal Centro Esprita. Seria perigosa?
-- Sua visita fez-me bem. Quando chegou, eu estava desesperada, agora estou mais
calma. O Nequinho vomitou e o Zeca t com dor de cabea. Sei que voc d passes,
poderia dar um passe neles?
-- Certamente. Mas voc vai me ajudar e rezar comigo.
-- Est bem.
Elas subiram at o quarto onde os meninos brincavam, e Marilda, depois de conversar
um pouco com eles, disse com naturalidade:
-- O Nequinho est indisposto e ns vamos fazer uma orao para ele ficar bom. Vocs
me ajudam?
Eles concordaram e depois que se sentaram, ela colocou a mo direita sobre a testa do
Nequinho e pediu:
-- Cada um de vocs converse com Deus e pea ajuda para ele e para esta casa. Basta
pensar e desejar.
Marilda fechou os olhos e silenciosamente evocou seus guias espirituais. Do seu
corao saam energias coloridas e brilhantes que envolviam o corpinho do Nequinho
massageando-o. Ele comeou a tossir e a suar.
-- Isso, meu filho. Jogue fora toda essa energia ruim. Acenda uma luz no seu corao e
se ligue com Jesus. Ele vai curar voc.
Elisa os acompanhara e, a um canto, observava surpreendida. Uma enfermeira entrara
no aposento trazendo alguns apetrechos. Colocou-se atrs de Nequinho e  medida em
que ele tossia, saa do seu corpo uma substncia viscosa e escura que ela recolhia com o
aparelho que trazia. Marilda continuava orando em silncio e envolvendo o corpo do
menino com energias coloridas.
Elisa estava maravilhada. Que poder era aquele que ela nunca havia visto? Tanto os
meninos como Marilda e Ins estavam isolados dentro de uma luz azulada e poderosa.
Carlos observava tudo a certa distncia, com curiosidade. Quando Marilda subiu para
dar o passe, um dos seus asseclas, assustado, quis intervir, mas Carlos ordenou:
-- No. Ela vai curar o Nequinho. Deixe-os em paz.
Marilda deu passes em todas as crianas e aproximou-se de Ins colocando a mo em
sua cabea, dizendo:
-- Pense em seu marido.
Ins comoveu-se. Lgrimas desciam-lhe pelas faces.
-- Fale com ele -- tornou Marilda com voz suave. -- Diga-lhe o que sente. Despea-se
dele.
-- No posso deix-lo ir! -- murmurou ela com voz trmula.
--  preciso. Vamos rezar por ele, para que ele seja feliz e possa encontrar a paz.
Do corao de Marilda saam energias cor-de-rosa que envolviam Ins, e ela pensou
emocionada:
-- Carlos! Como eu gostaria que estivesse aqui! Que pudesse sentir o quanto eu
lamento o que aconteceu. Sempre tive medo que isso acontecesse. Voc abusava da
vida. Agora  tarde demais. Nada h para fazer.
Carlos aproximara-se atrado por uma fora maior. Seu rosto perdera o hirto de dio, e
seus olhos brilhavam de emoo. Ah... se ele pudesse voltar  vida! Se ao menos por
alguns momentos ele pudesse dizer o que sentia! O quanto sofria por haver deixado o
mundo de forma to abrupta. Ele queria viver! Queria voltar!
Ins continuava falando com ele em pensamento:
-- Se eu pudesse abra-lo de novo, dizer o quanto o amo, e como sofro por no ter
sequer me despedido de voc...
-- Despea-se agora -- disse Marilda como que ouvindo seus pensamentos. -- Deseje
que ele aceite o novo caminho e siga em paz. A justia pertence a Deus. A vingana s
agrava e infelicita ainda mais. Entregue seu destino nas mos de Deus e siga em paz.
Diga isso a ele.
-- Carlos -- murmurou Ins baixinho, com voz que a emoo embargava -- sei que
voc  vingativo. No costumava perdoar. Mas pense pelo menos uma vez na sua
felicidade e no guarde dio no corao. Esteja onde estiver, desejo que seja muito feliz.
-- O destino nos separou e agora cada um de ns deve seguir por caminhos diferentes.
Eu aceito isso, e voc pode ir com Deus e seja feliz. Um dia, nos encontraremos em
melhores condies e ento seremos mais felizes. Enquanto isso, vamos cada um cuidar
da prpria vida e viver em paz -- repita isso, sugeriu Marilda.
Ins deu fundo suspiro e obedeceu, enquanto Marilda aplicava-lhe passes. Elisa chorava
comovida com a cena e pensando em seu prprio drama. Carlos, triste, abatido, calado,
observava. A enfermeira atendia o Zequinha alisando-lhe a cabea e aspirando, com o
aparelho que trazia, uma substncia escura que saa dela.
Quando Marilda terminou, voltou-se para Nequinho e perguntou:
-- Est melhor?
-- Estou. Os arrepios passaram e eu senti tanto calor! Estou at com fome. Queria
comer um sanduche de presunto.
Ins olhou para Marilda preocupada:
-- Acho pesado. Ele vomitou tanto. Melhor algo mais leve.
-- No h problema. Ele sente vontade de presunto, pode dar. Vai fazer-lhe bem.
Ins mandou Janete buscar sanduches para todos e trazer refrigerantes. Enquanto os
meninos comiam com alegria, Ins considerou:
-- Abenoada hora que voc veio. Estou me sentindo aliviada. O Nequinho est at
corado. O Zequinha mudou de cara. Voc fez um milagre.
-- Nada que voc no possa fazer.
-- Gostaria de ir a esse Centro que voc vai.
-- Quando quiser.
-- E quero aprender essa histria de pensamento positivo. Me parece que funciona
mesmo.
Marilda sorriu com satisfao. Elisa observava curiosa. Olhando Marilda, ela agora lhe
parecia uma pessoa comum. Como conseguia ter tanto poder? Elisa pensou: e se ela
aproveitasse o momento para fugir dali? Carlos parecia-lhe imerso nos prprios
pensamentos, e ela poderia sair sem que ele notasse. Afastou-se lentamente e quando ia
sair, uma mo a agarrou. Era um dos homens de Carlos.
-- Onde pensa que vai? S vai sair quando dr. Carlos deixar.
Empurrou-a violentamente para dentro e Elisa, temerosa, refugiou-se no quarto onde
Marilda ainda estava conversando com Ins. Ali sentia-se mais segura. Eles no se
atreviam a entrar. Quando Marilda se levantou para despedir-se, Elisa aproximou-se. Se
pelo menos ela pudesse ajud-la! Se Marilda pudesse v-la, saber que era prisioneira,
poderia pedir-lhe para libert-la.
A enfermeira que cuidara dos meninos olhou para Elisa e disse baixinho:
-- Faa suas oraes e tenha f. Buscaremos ajud-la. Elisa exultou. O que ela mais
desejava era sair dali, ver as crianas e nunca mais se envolver com a vida de ningum.
Porm, estava difcil. Se Carlos permanecera pensativo e triste depois que Marilda se
foi, seus companheiros continuavam vigilantes
observando-a.
As palavras da enfermeira no lhe saam da mente. Ela no estava habituada a rezar.
No era pessoa de f. Acreditava que no fazendo mal a ningum, cumprindo com sua
obrigao, merecia viver bem. No era isso que lhe acontecera. Desde aquele dia
fatdico, sua vida havia se transformado em tragdia que a cada momento tornava-se
pior. Se recusara a acompanhar os que diziam querer ajud-la, tentara reagir contra a
traio do Geninho e o que conseguira? Ficar prisioneira e ser maltratada por um grupo
de malfeitores.
Marilda estava unida a espritos de grande poder. Nunca havia assistido nada igual.
Carlos e seus homens, e at ela mesma, tiveram que ficar a distncia. Se eles quisessem,
certamente poderiam t-la salvo com facilidade. Por que no o fizeram? Deviam saber
que ela se encontrava ali para ajudar Ins e a famlia e fora feita prisioneira.
Suspirou angustiada. As palavras da enfermeira voltavam-lhe  mente. Seria melhor
obedecer. Ins, mais refeita, colocara novamente o disco de msica clssica e,
pensativa, acomodara-se no sof. Carlos sentara-se em um canto da sala e permanecia
imerso em seus prprios pensamentos. Os outros continuavam alerta vigiando. Eles
temiam que Adalberto viesse com seus companheiros para tentar prend-los.
Elisa acomodou-se por sua vez, fechou os olhos e comeou a rezar uma Ave-Maria.
Lembrou-se da infncia. Ela costumava acordar durante a noite e ficar com medo. Tinha
pesadelos, levantava-se e ia correndo ao quarto da me que pacientemente a levava
novamente para cama dizendo:
-- Para no ter pesadelos, precisa rezar antes de dormir.
-- Eu tenho medo. Quero ficar com voc. Quero que voc fique aqui me olhando para
ver se tenho outro pesadelo. No quero que v dormir!
-- Estou cansada e preciso dormir. Amanh tenho que levantar cedo.
-- Quando voc dorme, eu fico sozinha. Tenho medo!
-- Quando eu estou dormindo, Nossa Senhora, que  a me de todos, cuida de voc --
dizia Rosa. --  para ela que precisa rezar. Ela nunca deixa de socorrer uma criana em
perigo. Vamos, reze uma Ave-Maria e tudo ficar em paz.
Elisa, segurando a mo de Rosa, rezava e aos poucos adormecia novamente. Lembrou-
se da me com saudade. Nunca se conformara com a morte dos pais naquele acidente.
Eles eram to bons! No mereciam morrer daquela forma. Fora a partir da que ela
deixara de rezar. Sua me havia rezado a vida inteira, do que lhe valera? Nunca como
naquele momento sentiu tanta saudade da me. Agora que sabia que a morte era s uma
mudana de lugar, onde estariam seus pais? Como seria bom poder encontr-los agora
que tanto precisava! Eles deveriam estar mais experientes e com certeza poderiam
aconselh-la.
Ela continuava rezando uma Ave-Maria atrs da outra, e lembrou-se de um retrato de
Maria de Nazar que havia no quarto de sua me. Ela era muito devota de Nossa
Senhora. Olhando o rosto de Maria, Elisa percebeu o quanto era bonita e doce. Era
bondosa e havia sofrido muito. Poderia compreender sua dor. Ela vira seu filho amado
morrer cruelmente de forma injusta. Quem melhor do que ela para saber o que era a dor
de perder os filhos? Ela perdera os seus, todos de uma vez. Podia v-los, mas no
abra-los, conversar com eles, v-los crescer, orient-los para que fossem felizes. Para
eles, ela no existia mais.
Emocionada, Elisa pediu:
-- Me ajuda, me do cu! Me ensina a entender o que  melhor. Estou to perdida!
Mostra-me o caminho certo. Estou cansada de sofrer! S tenho feito bobagens. Estou
arrependida. Quero sair desta situao dolorosa. Me ajude, eu peo. Farei o que for
possvel!
Nesse momento, Elisa viu uma luz azul muito brilhante e ouviu uma voz suave que lhe
dizia:
-- Tenha um pouco mais de pacincia. Continue rezando. Voc foi ouvida.
Essa luz aproximou-se e a envolveu, e Elisa sentiu enorme bem-estar, como h muito
tempo no se lembrava de sentir. As lgrimas continuavam correndo pelo seu rosto e
parecia que toda sua angstia e amargura saam com elas. Quando passou, estava mais
calma.
Agora sabia que a orao era poderosa forma de comunicao com as foras superiores
da vida. Em algum lugar, algum a escutara e lhe mandara aquelas energias
maravilhosas que lhe fizeram tanto bem. Sua me estava certa. Nossa Senhora era a me
de todos e estava velando por ela. Nunca mais se sentiria s. Haviam lhe pedido um
pouco mais de pacincia. Enquanto esperava, ela no se esqueceria de rezar.

Captulo 19

Eugnio chegou em casa apressado. Passava das oito, mas felizmente Elvira no havia
ido embora ainda.
-- Atrasei um pouco -- explicou ele -- estava preocupado. Nelinha est bem, mas por
enquanto no quero que ela fique sozinha. Ainda bem que esperou.
-- Meu namorado tambm se atrasou hoje. Posso ir agora? As crianas j comeram e a
mesa est posta para o senhor.
-- Obrigado. Pode ir, claro.
Depois que ela se foi, ele foi ver as crianas, tomou um banho e desceu para o jantar.
Marina estava na cozinha.
-- Voc j jantou? -- indagou ele.
-- J.
Ele notou que ela estava esquentando o jantar e no disse nada. Se ela j havia comido,
estava fazendo isso para ele. Emocionou-se. Havia notado que nos ltimos tempos ela
estava menos agressiva. Com o tempo, ela haveria de compreender e perdoar. Ele sentia
que no devia pressionar. Por isso, fez de conta que no notou nada. Apanhou o prato,
serviu-se e quando ele sentou-se para comer, ela subiu para o quarto.
O que estava acontecendo com ele era estranho. As palavras de Lourdes ainda estavam
vivas em sua memria. Ela teria mesmo visto Elisa?
Nelinha dissera a mesma coisa. Claro que ela poderia ter imaginado, estava com febre,
poderia ter sido uma alucinao. A febre alta pode provocar alucinaes. Mas, como ela
poderia saber que Elisa ficara com um ferimento na testa? Ela no vira a me depois do
acidente e ningum lhe contara esse detalhe. Olvia afirmava nunca haver mencionado
isso.
J com a Lourdes, o fato era ainda mais impressionante. Ela no conhecia Elisa. Poderia
t-la visto com ele em algum encontro casual, mas como poderia descrever o vestido
com o qual ela fora
enterrada e o ferimento ? Ele no se lembrava de ter mencionado isso a ela.
Amaro afirmava que a vida continua depois da morte, seria verdade mesmo? At Olvia
dissera que estava estudando esses fenmenos e que eram verdadeiros. Passou a mo
pelos cabelos suspirando fundo. Se ele pudesse descobrir a verdade! Lourdes garantira
que Elisa estava l, vendo e ouvindo tudo que eles diziam. E se fosse verdade mesmo?
Claro que seria muito doloroso, para ela, v-lo ao lado de outra mulher.
Isso no podia ser. Ele estava delirando, imaginando, deixando-se levar pelas
aparncias. Precisava reagir. Acreditar nisso seria loucura. Terminou o jantar, apanhou
o jornal e subiu para ver se as crianas haviam feito as lies para o dia seguinte. Mas
por mais esforo que fizesse para esquecer, as palavras de Lourdes voltavam-lhe 
mente a todo instante.
Apesar de mais calma, Elisa continuava em casa de Ins sem poder sair. Depois daquela
tarde, Carlos ficara mais deprimido. Seus companheiros tentavam anim-lo:
-- No se deixe abater! Vamos precisar de toda nossa fora quando eles vierem atrs de
ns -- disse um deles.
-- Eu no quero voltar mais quela priso horrorosa! -- considerou outro com ar
ameaador. -- Se voc afrouxar, eu posso assumir o comando. Se eles vierem aqui, vo
se arrepender!
-- Isso mesmo! -- concordou um terceiro.
-- Quem manda aqui sou eu! -- disse Carlos readquirindo um pouco da antiga energia.
-- Ns no vamos voltar mais quele lugar. Eles que no tentem nos pegar.
Elisa ouvia calada. Em vo, implorara a Carlos que a deixasse ir embora. Falara dos
filhos, tentara comov-lo dizendo que a filha estava doente, mas ele estava irredutvel.
-- Preciso de voc para tomar conta de Ins. No disse que essa era sua funo? Ento.
-- Eu posso continuar ajudando Ins, mas preciso ir at em casa ver meus filhos. Deixe-
me ir e prometo voltar e ficar aqui, mas preciso saber o que est acontecendo l. Faz
dias que estou aqui sem sair. Quase uma semana. Nunca fiquei tanto tempo longe deles.
-- J disse que no. Se deixar voc sair, quem garante que no vai atrs daqueles
bandidos dar com a lngua nos dentes e dizer que estamos aqui?
-- Eu nunca faria isso! -- garantiu ela. -- Quero me livrar deles. Nunca mais pretendo
ir at l! Depois, eles so bem informados e devem saber que estamos aqui.
-- Mas no conhecem nossas armas nem como pretendemos enfrent-los. Voc fica.
-- At quando?
-- At quando eu quiser. Agora chega de criar problemas.
Elisa recolheu-se a um canto pensativa. Talvez Marilda pudesse ajud-la da mesma
forma que ajudara as crianas. Depois daquele dia, os meninos haviam melhorado e at
Ins reduzira suas crises de inquietao. Permanecia horas ouvindo msica, lendo,
recordando momentos felizes de sua vida. Parecia-lhe menos angustiada.
Esperava-a com ansiedade. Quando ela voltasse, talvez aquela enfermeira viesse junto.
Ento poderia conversar com ela, dizer-lhe que estava rezando e esperando, conforme
ela lhe recomendara. Mas, ao invs de aparecer, Marilda telefonara para Ins
convidando-a para ir ao Centro Esprita com ela naquela noite.
Elisa ficou decepcionada. No era isso que ela esperava. Ins concordou em ir com ela.
Marilda passaria s dezenove horas para busc-la.
Os homens de Carlos ficaram apreensivos.
-- Vai deix-la ir a esse lugar? -- indagou um deles. -- Acho perigoso.
-- O que eles podem fazer? -- alegou Carlos.
-- Podem se intrometer em nossos negcios -- disse o outro.
--  verdade. Naquela tarde em que ela veio aqui, voc lembra como ficou? Perdeu
toda fora. Eles so poderosos, ns no pudemos nos aproximar. E se eles nos
prenderem? Um amigo meu acompanhou um parente e eu nunca mais o vi. Ele sumiu de
vez.
-- Comeo a pensar que tem razo. Enquanto ela veio ajudar a famlia, tudo bem. Mas
meter-se em nossa vida, isso no.  melhor mesmo Ins no ir.
-- O que vai fazer?
-- Cuidar disso.
Elisa observava curiosa. Carlos saiu, e ela no sabia onde ele havia ido. Dentro de
alguns minutos, Janete entrou na sala em que Ins estava, dizendo aflita:
-- D. Ins, preciso sair imediatamente. Minha me caiu da escada e se machucou. A
vizinha a levou para o hospital e ainda no voltaram. Preciso ver o que est
acontecendo.
-- Espera mais um pouco. Elas vo telefonar. Vai ver que no foi nada.
-- Estou aflita. Preciso ir...
-- Logo hoje que combinei com a Marilda de sair?
-- Sinto muito, D. Ins. Fica para outro dia.
-- Est bem, se  assim, o que posso fazer?
Ela se foi apressada, e Ins imediatamente telefonou para Marilda desmarcando o
compromisso, porque no tinha com quem deixar as crianas. Carlos, que j voltara,
postou-se ao lado de Ins, dizendo-lhe categrico:
-- Voc no vai a esse lugar. Eu no quero!
-- Ins, faa um esforo. Agora que voc deve ir! -- dizia Marilda. -- Traga os
meninos e eles podero ficar com o Rubinho e a minha empregada.
-- Fico-lhe muito grata, mas  melhor deixar para outro dia -- respondeu Ins. -- Sabe
como , eu tambm fiquei preocupada. Iremos na semana que vem.
-- Seja como quiser -- disse Marilda. -- Colocarei seu nome no livro de oraes.
-- Muito obrigada.
Carlos sorriu satisfeito, e Elisa sentiu-se triste e desanimada. At quando teria que
esperar? E se Marilda demorasse para visitar Ins de novo? Carlos aproximara-se de
Ins abraando-a e dizendo-lhe satisfeito:
-- Continue assim. Enquanto fizer o que eu quero, nos daremos bem. Voc sempre me
obedeceu; no ser agora que vai me abandonar.
Ins lembrou-se de Carlos com saudade. Como viveria sem ele dali para frente? Foi
para sala e sentou-se no sof enterrando a cabea nas mos. Sua vida estava acabada.
Nunca mais seria feliz. Lgrimas desciam-lhe pelas faces.
Elisa no se conteve:
-- Se quer que ela continue calma, deixe-a em paz. Quando se aproxima dela, d nisso.
No v que a est infelicitando ainda mais?
Carlos irritou-se:
-- Cale-se. No se meta. Pensa que eu no sei que voc pretende coloc-la contra mim?
Voc e aquele canalha do Adalberto. Fique sabendo que Ins me pertence e ningum
conseguir tir-la de mim. Quem se meter entre ns vai se arrepender.
Elisa afastou-se temerosa. Ele era bem capaz de agredi-la novamente. Mais uma vez
arrependeu-se amargamente de haver se metido naquela enrascada. Que ingnua havia
sido! Quem poderia imaginar o que aconteceu? A organizao parecia-lhe to poderosa!
Por que teria permitido que alguns malfeitores, alm de fugir, ainda
continuassem os desafiando daquela forma? Onde estariam Jairo, os outros, sempre to
atentos e eficientes?
Carlos pareceu ler seus pensamentos, porque disse com raiva:
-- No adianta apelar para aqueles canalhas. Eles no viro. Sabem que estamos
dispostos a tudo e bem preparados. So covardes. S agem s escondidas e atacam pelas
costas. Mas isso no vai acontecer conosco. Eles que venham! Quero ter o prazer de dar-
lhes uma lio!
Elisa, encolhida a um canto, no respondeu, mas assim que ele desviou a ateno, ela
comeou a rezar. Estava arrependida. Se Deus lhe desse chance de escapar dali, nunca
mais se meteria na vida de ningum.
Quando na manh seguinte Marilda telefonou dizendo que passaria por l  tarde, para
uma visita, Elisa exultou. Finalmente! Preocupada, percebeu que Carlos ficara
contrariado.
-- Essa mulher est se metendo muito em nossa vida. - comentou ele, irritado. -- Est
precisando de uma lio.
Elisa estremeceu. Ele era bem capaz de impedir Marilda de fazer a visita. Mas, antes que
ele pudesse tratar do assunto, um dos homens chamou-o, preocupado:
-- Carlos, estamos sendo vigiados.
-- Tem certeza?
-- Tenho. Vi um vulto no corredor olhando furtivamente para dentro e quando
percebeu que eu o havia visto, desapareceu. Foi rpido, mas tenho certeza que tinha
algum l.
-- Hum!. Certamente eles esto preparando uma ofensiva. Vamos cuidar de preparar-lhes
uma boa recepo. At que enfim, vamos acabar com eles. Depois disso, nunca mais se
meter conosco. Eles vo ver s!
Elisa, apesar de temerosa, animou-se um pouco. Era uma perspectiva de liberdade. Carlos
reuniu todos seus homens e mandou redobrar a vigilncia. Enquanto isso, ele e mais dois
encarregaram-se de preparar as armas e as munies.
Elisa estava admirada. Nunca imaginara que, depois de mortos, os homens pudessem
continuar guerreando com armas, bombas e tudo! Notou que apesar de algumas serem
semelhantes as que havia no mundo, outras eram bem diferentes, parecendo-lhe ainda mais
perigosas.
Notando seu interesse, Carlos comentou irnico:
-- Nunca viu uma destas? Trate de obedecer e nunca queira experiment-la. Garanto que
se arrependeria amargamente-
-- Pelo que sei, s se morre uma vez. Somos imortais. Nunca conseguir nos destruir.
Ele riu com superioridade:
-- Como voc  burra! Me d vontade de fazer um rombo em voc s para mostrar o
que ela faz! Garanto que voc preferiria morrer a ficar com a dor desse ferimento. E
esse ser meu castigo, eles vo sofrer, mas no podero morrer! Vo querer acabar com
a dor, mas ela vai continuar queimando seus corpos!
Elisa calou-se. Ele era to maldoso que era bem capaz de atirar nela! Encolheu-se ainda
mais no seu canto, rezando e pedindo a ajuda de Deus. Comeava perceber que no
mundo onde estava agora, se no havia um corpo de carne para ser atingido, havia
outros meios terrveis e dolorosos de manifestar a maldade. Ela no queria viver nesse
mundo. Estava cansada de sofrer, de conviver com pessoas desclassificadas e infelizes.
Ela era uma mulher honesta, boa, cumpridora de seus deveres. O que lhe acontecera no
era justo. Ela no merecia estar ali sendo constantemente ameaada por malfeitores.
Foi com alvio que viu Marilda chegar horas mais tarde. Carlos, ocupado em defender-
se, esquecera-se da sua visita. Ao entrar, ela percebeu logo o abatimento de Ins.
Contudo, no disse nada. Abraou-a com carinho tentando manter uma conversa
agradvel.
-- A me de Janete j est bem. Felizmente no houve nada grave.
-- Ainda bem. Ela ficou dois dias fora. No sei o que faria sem ela! Sabe como , no
tenho boa sade, alm do que ainda no estou refeita do duro golpe que sofri.
-- Voc tem ficado muito s. Precisa sair, respirar ar puro. Por que no passeia um
pouco com os meninos? Andar faz bem. Ficar fechada aqui, s recordando os momentos
dolorosos, est arruinando sua sade.
-- No sinto vontade...
-- Pense no bem-estar dos seus filhos. Eles precisam de voc agora mais do que nunca.
Depois, chorar, lamentar-se, ficar deprimida no vai trazer de volta quem partiu, s vai
machucar ainda mais.
Ins suspirou triste:
-- Sei que tem razo. Mas Carlos era tudo para mim. Era uma obsesso, uma doena,
um vcio. Apesar de tudo quanto ele fazia, sempre foi difcil para mim ficar sem ele.
-- Talvez tenha sido por isso que a vida separou os dois.
-- No estou entendendo!
-- Sua dependncia a estava prejudicando. Amar, estar Junto no  isso. Como voc
mesma diz, seu amor por ele era obsessivo. Voc estava pendurada nele, mesmo
sofrendo a seu lado, no conseguia deix-lo.
--  verdade! Voc sabe que ele nunca foi bom marido. Muitas vezes pensei em ir
embora, mas nunca consegui.
-- O que voc sente por ele no  amor,  apego. De alguma forma voc acredita que
precisa dele. Isso a estava prejudicando. A vida deseja que voc descubra sua prpria
fora, que possa agir por si mesma, que assuma responsabilidade pela prpria vida. Isso
no vai impedi-la de amar, de usufruir da companhia de quem ama. Ao contrrio, vai
lhe dar condies de encontrar o companheiro mais adequado para sua felicidade.
Felicidade, Ins, no  nada do que voc conhece como vida em comum.
-- Nunca fui feliz com Carlos. Essa paixo tem me infelicitado. Eu vivia muito bem
com meu pai, que sempre me tratou com amor e carinho. Fazia todas as minhas
vontades. Era Deus no cu e eu na Terra. Depois que conheci Carlos, comeou o
inferno. Meu pai nunca o aceitou. Reconheo que ele tinha suas razes, mas o que
fazer? Eu no podia viver sem ele. Era como o ar que eu respirava.
-- Por isso, a vida os separou. Para que voc possa vencer essa paixo infeliz. Voc 
moa, tem muitos anos de vida pela frente. Ainda poder refazer sua vida, encontrar
outra pessoa que a faa feliz.
-- Para mim, o amor acabou. Se me libertar dessa paixo, dessa nsia e desse vazio que
me consome e tira a alegria de viver, juro que nunca mais quero amar ningum. Vou
fechar meu corao a qualquer sentimento de afeto.
--  cedo para falar sobre isso. Deixe o tempo correr. Dedique-se  felicidade de seus
filhos. Eles precisam do seu carinho e da sua companhia.
--  por eles que continuo vivendo.
--  importante que se interesse pela vida espiritual. Ligando-se com Deus, poder
encontrar a paz que procura.
-- Eu quero ir com voc ao Centro.
-- Iremos na quinta-feira. Quando chegar o dia, novos obstculos podero aparecer para
impedi-la. Nesse caso, precisar manter a vontade firme e ir, acontea o que acontecer.
-- Voc me assusta! Por que diz isso?
-- Porque h alguns espritos interessados em que voc no v.
-- Como sabe?
-- D para sentir. Depois, o que aconteceu no dia em que voc queria ir  sintomtico.
Eles temem que, se voc for ao Centro, tero que ir embora. Como desejam ficar aqui,
fazem tudo para impedi-la de ir.
-- No entendo. Tudo l no  para o bem? Se eles fossem para l, no seriam
auxiliados e poderiam melhorar? Voc no disse que o Nequinho estava com energias
de um esprito doente?
--  verdade. Se eles forem l, sero atendidos, recebero muita ajuda. Garanto que se
libertariam de muitos sofrimentos. Mas eles no sabem disso. Acreditam que seriam
castigados pelos seus erros, tm muito medo.
Elisa aproximara-se e ouvia com interesse. Marilda tinha poder, disso ela no duvidava.
Havia visto o que ela fizera com os meninos. At Carlos no fizera nada contra ela. Mas
esse lugar seria mesmo bom? Jairo teria mentido? Comeava a suspeitar que ele se
aproveitara da sua credulidade. Afinal, com eles, ela nunca vira uma luz to grande
como a que iluminara Marilda. Talvez ela pudesse ajud-la. Aproximou-se dela e disse-
lhe ao ouvido:
-- Marilda, me ajude por favor! Estou desesperada! No sei o que est acontecendo
com meus filhos! Estou prisioneira desses malfeitores! Por favor, faa alguma coisa por
mim!
Marilda estremeceu. No registrou as palavras desesperadas de Elisa, mas sentiu uma
onda de medo e de inquietao. Imediatamente ligou-se mentalmente com seus amigos
espirituais. Na mesma hora, Elisa viu entrar a enfermeira que ela tanto esperara rever.
Dirigiu-se a ela com satisfao:
-- Finalmente! Tenho esperado ansiosamente sua volta.
-- Precisamos conversar. Deixe Marilda em paz.
-- Estava pedindo ajuda. Sei que ela  poderosa e pode me ajudar. Estou desesperada.
Sou prisioneira e no sei mais o que fazer para libertar-me desses malfeitores.
-- No  fcil fazer o que pede. Voc meteu-se com eles de livre vontade.
-- Isso no. Eu tentava ajudar Ins, no tenho nada a ver com a briga deles.
-- Quando aceitou a ajuda dos membros da organizao, estava criando ligaes que
agora sero difceis de romper.
-- Estou vendo que sabe de tudo! Estou arrependida do que fiz. No quero mais nada
com eles. Descobri que no so to poderosos como diziam e me deixaram aqui
prisioneira, sem me socorrer.
Depois, estou cansada de tanto sofrimento. Quero descansar, cuidar s da minha famlia
e nada mais. Preciso ver meus filhos. Faz semanas que estou aqui sem saber de Nelinha
que estava doente!
-- Se est mesmo arrependida, vou ver o que posso fazer.
-- No v embora, por favor. Tenho rezado conforme me pediu. No agento mais
ficar aqui. Eles me maltratam e esto  espera do Adalberto para acabar com ele. Estou
assustada. No gosto de brigas. Sou de paz. Leve-me com voc. No me deixe aqui
sozinha com eles novamente.
-- No posso fazer isso. Como eu disse, vou procurar ajud-la. Enquanto isso, confie
em Deus e continue rezando. Afaste-se deles o mais que puder. Cultive pensamentos
bons. Quando sentir-se triste, procure lembrar-se dos bons momentos de sua vida.
A enfermeira olhava-a com carinho e Elisa no resistiu. Deu vazo  angstia que sentia
e as lgrimas desceram pelas suas faces.
-- Ah! Se eu pudesse voltar atrs! Se eu pudesse viver novamente com meu marido e
meus filhos, eu seria a mulher mais feliz deste mundo!
-- Agora  impossvel, Elisa! Mas a vida tem outras compensaes, e voc pode
encontrar novamente a felicidade. Esquea o passado e perdoe. A mgoa e a revolta s
trazem mais sofrimentos, mais dor.  o amor e o perdo que liberta e ajuda. A felicidade
no existe sem eles. Agora preciso ir.
-- No se esquea de mim, por favor! Estou sofrendo muito.
-- Meu nome  Renata. Quando se sentir s, fale comigo. Mesmo que eu no possa
aparecer, responderei seu chamado. Vou pedir por voc aos nossos superiores. Veremos
o que ser possvel fazer. Confie e continue rezando.
-- No me abandone, por favor! Renata sorriu:
-- Ningum est abandonado. Se quer ajuda, comece por ajudar-se acabando com o
drama. Seu lado dramtico tem lhe trazido muita infelicidade. Est na hora de aprender
o quanto ele  intil. Quando olhar os fatos com mais naturalidade, perceber que tudo
poderia ter sido menos doloroso se voc no fosse to dramtica.
Ela afastou-se, e Elisa notou que Marilda estava tomando ch com Ins e que ela estava
bem mais animada. Suspirou aliviada. Felizmente Carlos continuava ocupado e no
percebera sua conversa com Renata.
As palavras dela no lhe saam da cabea. Era fcil falar para que ela no fizesse drama.
Fora enganada pelo marido, abandonada,
atingida por aquele desastre horrvel, ficara sem poder cuidar dos filhos. Como podia
conformar-se? Como no chorar sua infelicidade? Reconhecia que exagerara um pouco
com o Geninho. Se houvesse sido mais calma quando ele a abandonara, no teria sado
de casa desesperada naquela noite e aquela desgraa no lhe teria acontecido.
Renata tinha razo quanto a isso. Estava to pendurada no marido que viver sem ele
parecia-lhe impossvel. Como fora boba! Se pudesse voltar atrs, no agiria daquela
forma. Compreendia que de certa maneira havia relaxado com a prpria aparncia. No
se valorizava, colocava Eugnio sempre em primeiro plano! Arrependia-se
amargamente dessa atitude! Para um homem,  mais importante a mulher, a amante, do
que a esposa dcil, perfeita, obediente e dedicada. Esse fora seu erro!
Para ela, o Eugnio era uma espcie de super-homem, ao qual deveria servir e que tendo
um bom desempenho como me e esposa, seria amada e protegida para sempre!
Como estava enganada! Ele era apenas um homem comum, como tantos, romntico e
sensual, querendo usufruir tudo da vida! Agora que o conhecera por dentro, reconhecia
que se houvesse encarado a realidade e sido mais esperta, poderia reconquist-lo com
facilidade. Ele amava os filhos e a havia amado um dia. Se ela voltasse a ser como nos
primeiros tempos, tinha certeza de que ele voltaria para casa.
Rememorando o passado, Elisa lamentou sua imprudncia. Na verdade, ela contribura
para sua infelicidade. Reconhecer isso deu-lhe uma viso mais clara dos fatos. Renata
estava certa. Fora ela quem se metera com a organizao pretendendo castigar o
Eugnio. Se ela tambm contribura para sua desgraa, no tinha nenhuma razo em
querer vingar-se dele. Percebia que se ele fora leviano, ela fora ingnua. Ambos
estavam despreparados para a vida em comum.
Na verdade, ele pretendera ser sincero e expor os fatos. Se ela no houvesse feito na
cabea um drama to grande, poderia ainda estar viva, cuidando dos filhos. Agora, isso
parecia-lhe o mais importante. A presena de Eugnio a seu lado era indesejada. Sentia
que no o amava mais como antes. Agora que via nele um homem comum, cheio de
dvidas, inseguro, sua afeio por ele desaparecera. S o amor dos filhos machucava
seu corao. Daria tudo, faria qualquer sacrifcio para poder estar novamente vivendo
com eles, podendo abra-los e beij-los. Mas, infelizmente, era impossvel.
Queria ir embora dali onde estava oprimida e assustada,
mas sentia medo do futuro. Na Terra sentia-se segura. Fora arremessada a um mundo
desconhecido e perigoso. Para defender-se, como deveria proceder? Onde encontrar
pessoas decentes nas quais pudesse confiar e viver melhor? Em meio a tudo quanto lhe
acontecera, Marilda e Renata inspiravam-lhe confiana. Dava para perceber que eram
gente de bem, muito diferentes dos membros da organizao e daqueles malfeitores. Por
que no notara isso antes? Poderia ter se poupado de muitos problemas.
Lembrou-se de Amaro. Ele teria tanto poder quanto Marilda? Seu amigo Amlcar
tentara ajud-la. Arrependeu-se de no haver seguido seus conselhos. Estava cega. O
cime, o dio, a vingana no a deixavam enxergar a verdade. Quanta iluso! Eugnio
no valia tanto trabalho! Agora, ele podia namorar quem quisesse, s no permitiria que
ele colocasse outra mulher em casa, no seu lugar. Seus filhos no ficariam sob a guarda
de uma madrasta! Estava convencida que eles seriam maltratados e sofreriam.
Elisa suspirou agoniada. Ah! Se ela pudesse sair dali! Mas isso era impossvel e ela
precisava esperar.
Marilda despediu-se havendo combinado que elas iriam ao Centro Esprita na quinta-
feira  noite. Ela havia afirmado que a ajuda espiritual viria, e Elisa se perguntava de
que forma isso aconteceria. Aqueles malfeitores seriam expulsos de l? Ela ficaria livre?
Rezava para que isso acontecesse. Faltavam dois dias ainda e o tempo custaria a passar.
Carlos continuava entretido conversando com os companheiros, preparando armadilhas
para surpreender seus inimigos, caso aparecessem.
-- Sinto que eles viro -- dizia convicto. -- Algo me diz que esto por perto. 
chegada a hora da luta definitiva. Adalberto vai levar uma lio to grande que nunca
mais ter coragem de meter-se em nossa vida! Aquele cachorro!
Olhando-o, Elisa assustou-se. Acabava de ver vrios vultos escuros em volta dele. O
que seria aquilo? Ela nunca vira isso antes!
-- Afaste-se deles e reze! -- dissera Renata.
Elisa afastou-se o mais que pde, ficando ao lado de Ins que, estendida no sof, estava
calma, comeando a ler um livro que Marilda lhe emprestara. O que seriam aquelas
sombras escuras ao lado de Carlos? Como ele ou os companheiros no percebiam
aquelas presenas? Sim, porque aqueles vultos pareceram-lhe pessoas. Elisa, trmula,
temia o que poderia acontecer. E se aqueles vultos fossem da organizao? Eles teriam
conhecimento de tudo quanto Carlos estava tramando e certamente dariam o troco. E
ela, que no
tinha nada com a briga deles, estava no meio daquela guerra. O que lhe poderia
acontecer ainda?
Apavorada, Elisa comeou a rezar chamando Renata, pedindo-lhe ajuda.
-- Elisa!
Ela tentou ver quem a estava chamando, mas nada viu.
-- Elisa! Sou eu... Renata! Ouvi seu chamado. Acalme-se. Estamos atentos.
-- Onde voc est? -- perguntou ela, aflita.
-- Aqui, mas vocs no me podem ver. Vamos nos comunicar pelo pensamento.
Elisa admirou-se. Embora no pudesse ver Renata, ouvia claramente sua voz.
-- Como posso fazer isso? -- indagou Elisa.
-- J est fazendo. Basta pensar e eu escuto.
-- Estou com medo! Carlos est rodeado de vultos escuros. Eles vo nos atacar?
-- Os vultos que voc viu, so os espritos que convivem com Carlos h muito tempo.
Seus companheiros de bebida e de farra.
-- Mas vieram agora. Foi a primeira vez que eu os vi!
-- Sempre estiveram com ele. Voc est melhorando sua percepo, Elisa. Est se
tornando mais lcida e percebendo melhor as energias que a cercam. Suas oraes esto
ajudando a equilibrar suas energias. Continue orando e confie em dias melhores.
-- Eles no vo me atacar?
-- Enquanto afastar-se deles, nada acontecer.
-- No posso me afastar muito. O apartamento  pequeno.
-- No falo da distncia fsica, mas da distncia energtica. Eles s pensam no mal. Se
voc fizer o oposto, pensar s no bem, eles no a alcanaro. Voc aprendeu a
magnetizar e sabe que a vontade  importante. Se voc melhorar o padro dos seus
pensamentos, vai emitir energias positivas e magnetizar sua aura positivamente. Eles
no tero nenhum poder sobre voc. No percebeu como eles no se envolveram com
Marilda?
--  por isso?
-- . Continue como at aqui. Cultive pensamentos bons. Ajude esta famlia tentando
espalhar calma e paz nesta casa e alm de se sentir muito melhor, no correr nenhum
perigo com eles.
-- Est bem. Farei o que me pede. No me abandone, por favor. Estou arrependida!
Percebi o quanto fui imprudente e ingnua! No quero mais me vingar do Eugnio. Para
mim, ele pode ter a mulher
que quiser!
-- Continue rezando, Elisa. E lembre-se que o bem  mais forte do que tudo.
Elisa no ouviu mais nada. Quem diria! Ela, conversando em pensamento com uma
pessoa invisvel! Que mundo curioso esse em que ela estava! Alm de Renata, teriam
outras pessoas ali que ela no conseguia ver? Sentiu leve sensao de desconforto. Ela
podia estar sendo vigiada sem saber. O melhor que tinha a fazer era confiar em Renata e
seguir seus conselhos. Ela falava no bem, era bondosa e atendera seu apelo. Como
pudera ouvir o que ela dizia? Sentada em uma poltrona ao lado de Ins, Elisa pensou em
Deus e silenciosamente comeou a rezar.
A noite chegou e Carlos comeou a sentir-se inquieto. Andava de um lado a outro,
nervoso, verificando se cada um dos seus homens estavam em seu posto,
recomendando-lhes ateno.
-- Prestem muita ateno. Vocs no podem distrair-se um momento sequer. Sinto que
eles esto perto, aguardando o momento de nos atacar. Vo aparecer a qualquer instante.
Precisamos estar preparados.
 medida em que o tempo passava, sua ansiedade crescia. Elisa distanciara-se o mais
que podia e, assustada, continuava rezando. Ela tambm sentia-se inquieta. Havia algo
no ar que a intimidava. Muitas vezes, ao olhar para Carlos, vislumbrara os vultos
escuros que o rodeavam e temia que eles a vissem e viessem atac-la. Ins remexia-se
no leito sem conseguir dormir, apesar de haver ingerido dose dupla do calmante
habitual.
Passava da uma quando um dos homens chamou Carlos, gritando agitado:
-- Eles esto do lado de fora. Eu vi o Adalberto. Passou rapidamente, mas garanto que
era ele.
-- Chegou a hora! -- disse Carlos. -- Eles vo se arrepender de terem vindo! Est tudo
preparado?
-- Sim.
-- Ento vamos acender o crculo -- ordenou Carlos. Acionaram um boto em um dos
aparelhos que haviam
montado ali e imediatamente formou-se um crculo incandescente ao redor do
apartamento.
Carlos sorriu satisfeito.
-- Quero v-los encostar nessa barreira! -- disse com voz triunfante.
Elisa, apavorada, rezava maquinalmente j que no conseguia desviar o olhar do que
estava acontecendo. Ela viu dois homens
tentarem entrar. Ao chegarem prximo ao crculo de fogo, eles deram um grito e foram
atirados a muitos metros de distncia.
Carlos e seus homens deram um grito de alegria. Mas em seguida, o crculo de fogo foi
atingido por algumas bolas, parecendo de metal escuro, disparadas pelos que estavam
do lado de fora, que cortaram o crculo, dilacerando alguns pedaos, e ele foi se
apagando. Por mais que Carlos e seus homens tentassem recuper-lo, no conseguiram.
Elisa ouviu a voz de Adalberto, dizendo colrica:
-- Voc est perdido, Carlos! Entregue-se! Saia j da. Alguns homens de Adalberto
haviam se atirado contra os
vigias de Carlos, mantendo luta corporal. Como eram em maior nmero, conseguiram
por fim domin-los.
Carlos, vendo-se acuado, gritou com raiva:
-- V embora! Voc nunca vai me pegar de novo! Vou destruir quem ousar entrar aqui!
Apanhou uma arma e atirou nos homens que estavam entrando no apartamento,
derrubando-os. Eles gritavam de dor e Carlos, furioso, berrava fora de si:
-- Afastem-se. Estou disposto a destru-los. No se atrevam a aproximar-se mais. Saiam
imediatamente!
Os dois que ele ferira, gritavam de dor retorcendo-se no cho. Os demais, embora
armados, compreenderam que suas armas no se comparavam a dele e, assustados,
afastaram-se arrastando os companheiros.
Do lado de fora, Adalberto gritou:
-- No se iluda. No vai conseguir nos vencer. Temos recursos para prend-lo, voc
sabe. A, ento, seu julgamento ser muito pior. Ter novos crimes a responder.
-- V embora! Voc no vai mais me prender. Desista.
-- No vou desistir. Voc vai pagar pelos seus crimes de qualquer maneira!
-- Se tentar entrar aqui, vai se arrepender -- disse Carlos. -- Vou acabar com Ins,
traz-la para c. Assim, ela ficar comigo para sempre, longe de voc.
-- No se atreva a tocar nela! -- vociferou Adalberto com voz que o dio enrouquecia.
-- Pois  o que farei. Ela tem que vir para c. No est feliz sem mim, vive chorando e
dizendo que no pode me esquecer, que me ama.  a mim que ela quer. Voc no 
nada para ela. Deixe-a em paz. Ela  minha e no conseguir tir-la de mim. Por isso, se
quer que ela continue viva na Terra, deixe-me em paz. Se tentar me
prender, juro que acabo com ela. E voc sabe que eu farei!
-- Que voc  perverso, eu sei. Ter coragem de deixar seus filhos sem me?
-- Meus filhos ficaro bem. Ela  fraca e no tem condies de cuidar bem deles.
Ficaro melhor sem ela.
-- No se atreva a fazer isso! -- esbravejou Adalberto. -- Garanto que se arrepender.
-- No tenho medo das suas ameaas! Deixe-me em paz e ela ficar bem. Se perceber
que quer me atacar, acabo com ela. Juro que fao isso.
-- Deixe-a em paz -- disse Adalberto. -- Vou embora, mas lembre-se que no desisti e
que estou vigilante. Qualquer coisa que faa contra ela, eu acabo com voc.
-- V embora e nos deixe em paz. Estou cuidando da minha famlia. Estou no meu
direito. Voc  quem est nos perturbando. Lembre-se, estou alerta. Se perceber
qualquer movimentao contra mim, qualquer ameaa, acabo com ela. Quero ver se,
estando ela aqui comigo, voc vai se atrever a me ameaar. Sabe que ela o odiaria por
causa disso.
Adalberto no respondeu. Carlos, arma em punho, olhos muito abertos, permaneceu em
estado de alerta durante algum tempo. Um dos homens aproximou-se dizendo:
-- Eles foram embora, Carlos. Ns vencemos!
-- . Vieram buscar e levaram. Comigo  assim. Se voltarem, vo ver uma coisa!
-- O Antnio e o Miguel esto muito feridos.
-- Voc e o Jos cuidem deles. Mas a vigilncia continua agora mais do que nunca.
Precisamos vigiar constantemente, nos revezando no posto.
Elisa, agoniada, tentava acalmar Ins que, agitada, andava de um lado a outro, tendo ido
acudir um dos meninos que chorava dizendo que estava tendo um pesadelo. Com mos
trmulas, ela dera um copo de gua com acar ao Nequinho e tentara acalm-lo, mas
sentia a cabea doendo terrivelmente e o estmago enjoado.
Elisa fazia o que podia para ajudar, mas ela mesma estava muito assustada e mal
conseguia conter-se. Seu desejo era sair dali, deixar aquele lugar onde aqueles vultos
escuros circulavam livremente e o ar estava sufocante. Uma sensao de peso e de
tristeza a esmagava. E era com muita dificuldade que ela conseguia continuar
murmurando uma orao, como a agarrar-se na esperana de atrair a ajuda de Renata ou
dos amigos espirituais de Mariuda.
Ouvira as ameaas de Carlos. Sentia que ele seria bem capaz
de tentar acabar com Ins. Precisava falar com Renata e contar-lhe tudo. Carlos teria
esse poder? A vida e a morte poderiam estar no arbtrio das pessoas desclassificadas
como ele? Ins era pessoa boa e no fazia mal a ningum. Isso no era justo. Nada na
vida era justo. Ela tambm sempre fora bondosa e dedicada. Entretanto, estava ali,
metida naquela confuso da qual no conseguia sair.
Aos poucos, Carlos foi se acalmando. Nequinho adormeceu, e Ins finalmente
conseguiu pegar no sono. Elisa, entretanto, continuava pensando, pensando. A vida era
muito diferente do que ela imaginara. Havia muitos mistrios e ela percebia o quanto
era ingnua e despreparada para viver naquele mundo onde estava agora. Pela primeira
vez, comeou a pensar que errou em preferir ficar sozinha e fazer tudo quanto queria.
Alm de no conseguir ajudar a famlia, ainda se metera naquela encrenca da qual no
sabia sair.
O melhor agora seria obedecer quem tinha mais conhecimento e tentar aprender um
pouco mais. Se ao menos Renata viesse conversar com ela! Tinha tantas perguntas a
fazer, tantas coisas a compreender!
Lembrou-se de seus filhos, e a saudade doeu fundo. Se ao menos pudesse ter notcias
deles! Estariam bem? Lgrimas corriam pelo seu rosto, e ela daria tudo para acordar
daquele pesadelo em que sua vida se transformara e voltar a viver com eles. Mas isso
no era possvel, e ela precisava conformar-se. Que tempo bom aquele! Quanto amor
sentira quando tinha seus filhos nos braos! Lembrou-se que se no podia ir at onde
eles estavam, podia mandar-lhes pensamentos de amor e de bem-estar. Ela sabia como
fazer isso.
Fechou os olhos e visualizou Marina mandando-lhe energias de amor. Depois foi a vez
do Juninho e, no fim, pensou em Nelinha. De repente, sentiu sua emoo aumentar
enquanto que Nelinha a abraava cobrindo seu rosto de beijos. Elisa abriu os olhos e
no conseguiu conter a emoo. Ela estava ali, apertando-a nos braos e dizendo com
sua vozinha doce:
-- Me, que saudade!
Apertando-a nos braos, Elisa sentia como se algum a tivesse transportado ao paraso.
Seu peito dilatara-se cheio de amor, e um calor gostoso e imenso a invadiu.
Quando conseguiu falar, disse:
--  voc mesmo? Que felicidade!
-- Sou eu. A moa que me trouxe mandou um recado. Disse para voc ficar firme, que
tudo vai ficar bem. Confie em Deus!
-- Foi a Renata! Eu sei que foi ela!
Aconchegada no colo de Elisa, Nelinha deixou-se ficar durante algum tempo. Depois,
Elisa viu Renata aproximar-se:
-- Obrigada -- disse com os olhos brilhantes de emoo. -- Voc no sabe o bem que
me fez!
-- Sabia que ia ficar feliz. Agora precisamos ir. Tenho que lev-la de volta.
Elisa beijou a testa de Nelinha com amor, depois entregou-a adormecida a Renata,
dizendo:
-- Foi o melhor presente que poderia me dar. Como esto os outros?
-- Bem. Acalme seu corao. Eles esto protegidos. Ningum fica sem proteo.
-- Estou com medo. Carlos ameaou matar Ins. Voc acha que ele teria esse poder?
-- Infelizmente, Ins continua muito dependente dele. Assim, ela transfere todo seu
poder a ele. Contudo, estamos tentando ajudar. Vamos confiar em Deus.
-- Mas isso no  justo. Ela  boa pessoa, e ele  um malfeitor. Ela precisa de defesa.
-- A melhor defesa  tomar posse de si. Quem faz isso, impede que os outros interfiram
em sua vida. Ins sempre s fez o que ele quis. Estabeleceu assim uma ligao que 
difcil de cortar. Ela voluntariamente se colocou nas mos dele. H longo tempo, vimos
tentando separ-los, cortar esses vnculos. Mas ela no quer. E quanto mais a vida tenta
separ-los, mais ela deseja estar com ele. Agindo assim, s quando ela perceber o
quanto essa maneira de amar a prejudica e desejar sair  que conseguiremos ajudar.
Lembre-se, Elisa, no existe nenhuma injustia no mundo. Tudo est certo como est.
As pessoas tm tudo para libertar-se dos problemas, mas so elas que preferem
determinados caminhos. A vida d-lhes a liberdade de escolher. Assim, cada um vai
aprender por si mesmo.
-- Quer dizer que se ele quiser traz-la para c, pode conseguir?
-- Pode, se ela deixar. Se desejar ficar perto dele, ou achar que s ser feliz com ele.
Nesse caso, ser difcil conseguir evitar.
-- Como ela  boba! To moa e to bonita, com dois filhos para cuidar! Se eu pudesse
ficar com os meus, enfrentaria qualquer situao.
-- Voc pensa assim agora. Ins ainda no sabe. Nesse tempo que ainda estiver com
ela, procure ajud-la a entender. Ser uma forma de evitar o pior.
-- Farei. Gosto dela. Se se deixar iludir por ele, vai sofrer muito.
-- Contamos com voc, Elisa. Agora temos que ir. Nelinha precisa voltar ao corpo.
-- Obrigada, Renata. Nunca esquecerei o que fez por mim.
-- Continue rezando e confiando, Elisa. Dias melhores viro.
Renata afastou-se com Nelinha adormecida nos braos, e Elisa, mais calma e -
agradecida, murmurou sentida prece, deitou-se ao lado de Ins e finalmente adormeceu.

Captulo 20

Olvia chegou em casa apressada. Ficara trabalhando at mais tarde e dentro de meia
hora Amaro passaria para apanh-la. Estava suada, cansada, resolveu tomar uma
chuveirada. Apesar da rapidez com que ficou no banho, sentiu-se aliviada. Se no desse
tempo para comer alguma coisa, poderia faz-lo mais tarde.
Sabia que a porta do Centro se fecharia s vinte horas e quem chegasse depois ficaria de
fora. Ela estava muito interessada naquelas sesses onde experimentava novas emoes
e aprendia coisas novas. Ficava motivada com o fato de qualquer pessoa poder
experimentar suas faculdades medinicas, e a curiosidade de saber onde se situava nesse
processo a entusiasmava.
Ela gostava de entender como as coisas aconteciam e nunca se dedicara  religio por
achar que tudo era hipottico e no havia como saber at que ponto o que eles diziam
era verdade. Ler sobre as pesquisas cientficas sobre os fenmenos da mediunidade a
interessaram, mas a possibilidade de testar at que ponto eles eram verdadeiros a
fascinava ainda mais. Amaro lhe dissera que ela podia experimentar.
Desde a primeira noite que fora ao Centro Esprita, comeara a sentir diversas sensaes
que no entendia, mas que Amaro esclarecia, apontando as possibilidades, pedindo-lhe
que ficasse atenta, observando melhor o que sentia nesses momentos.
Descobrira coisas interessantes nas quais nunca pensara e a cada dia motivava-se mais.
Eugnio ouvia-a conversando com Amaro e no entendia como sua cunhada, sempre to
materialista, to "durona", se deixara envolver. Ela agora tinha como certo que Elisa
estaria "viva" em algum lugar e tentava comunicar-se. Quando ele discordava, ela citava
alguns fatos como provas, que ele julgava apenas "coincidncias".
Advertia-o que deveria ir ao Centro Esprita e que sua descrena
 estava interferindo nos problemas do dia-a-dia. Ele no concordava. Pensava at que
ela, agora, como no tinha mais nada para implicar com ele, tomara isso como desculpa
para critic-lo.
Olvia acabou de arrumar-se e ainda teve tempo de tomar um copo de leite para poder
agentar at o jantar, que seria depois da reunio. Desceu para esperar Amaro no
saguo. Ele era pontual e chegou logo depois.
Chegaram ao Centro dez minutos antes da hora. Olvia acomodou-se nas cadeiras,
enquanto Amaro, como sempre, dirigia-se  mesa. Logo aps, Marilda chegou
acompanhada por Ins e, vendo Olvia, cumprimentou-a amvel.
-- Sente-se a, Ins. Como eu lhe disse, no posso ficar a seu lado, preciso sentar 
mesa. -- Olhando Olvia, disse com um sorriso: -- voc ficar em boa companhia.
Olvia olhou Ins e notando seu abatimento, interessou-se. Sempre quando estava
sentada l, ficava pensando nos dramas que levam as pessoas a procurarem o conforto
espiritual. Ela mesma fora em busca de alvio para sua dor. A perda de Elisa a chocara e
a orfandade dos sobrinhos a sensibilizava muito. Por isso, quando Marilda se afastou,
ela procurou conversar com Ins:
-- Meu nome  Olvia -- disse. -- Voc est doente?
-- Estou triste. Meu marido foi assassinado e no consigo aceitar. Tenho sofrido muito!
Ele era tudo para mim. No posso viver sem ele. Tenho vontade de morrer.
-- Sinto muito... como  seu nome?
-- Ins.
-- Pois , Ins, avalio o que est passando. Perdi minha irm em um acidente. Ela
deixou trs filhos pequenos, uma tristeza. Voc tem filhos?
-- Dois meninos.  o que me segura, porque se no fosse por eles, acabava com tudo de
uma vez.
-- No diga isso! Seus filhos precisam de voc. A me faz mais falta do que o pai.
-- Eu sei. Mas h momentos em que a saudade aperta e parece que vou enlouquecer.
--  a primeira vez que vem aqui?
-- Acontea o que acontecer, no se afaste. Aqui encontrei conforto. Nunca me
incomodei com religio nenhuma. No era descrente, mas no freqentava nenhum
lugar. Mas saber que a vida continua depois da morte, e que minha irm Elisa est viva
em algum lugar, na outra dimenso, me conforta. Aqui  o lugar onde voc pode
obter essa certeza. Isso fez muito bem ao meu corao saudoso e aflito.
-- Marilda fala isso. Se eu pudesse ter essa certeza...
As luzes diminuram, e elas se calaram. A reunio ia comear. Depois da prece, eles
abriram ao acaso o Evangelho Segundo o Espiritismo. Algumas pessoas ao redor da
mesa comentaram o tema da noite. Depois, as luzes apagaram-se, e os mdiuns
deixaram-se envolver pelos espritos desencarnados.
A certa altura, um dos mdiuns levantou-se, dizendo:
-- Vim aqui hoje para falar com minha filha.  urgente. Ela est presente nesta sala.
O dirigente respondeu com voz calma:
-- Voc pode dar seu recado. Se ela est presente, vai ouvir.
-- Quero ir at onde ela est. Por que me seguram? Desejo abra-la, dizer-lhe que
ainda a amo e que estou sofrendo muito com tudo quanto ela est passando.
-- Acalme-se. No  preciso abra-la. Voc pode, mesmo de onde est, mandar-lhe
vibraes de carinho. Sei que voc sabe como fazer isso.
-- Eu sei. Mas esta oportunidade  nica, preciso aproveitar.  como se eu ainda
estivesse no mundo. Por favor!
-- Vou consultar os superiores -- respondeu o dirigente. Houve alguns instantes de
silncio, depois ele continuou:
-- Ela ainda no est preparada para isso. Vai confundi-la e emocion-la ainda mais.
Voc s pode dizer-lhe coisas que a ajudem a recuperar o equilbrio interior. Qualquer
referncia ao assunto que voc sabe, no ser tolerada. Se tentar, ser afastado.
-- Isso  injusto. Ela corre perigo, e eu preciso avis-la. Aquele infeliz est interessado
em traz-la para c de qualquer jeito. No posso entrar l, porque ele tomou conta da
casa e est armado. Qualquer tentativa que eu fizer para salv-la, ele vai desforrar nela!
No posso deixar minha filha  merc daquele malfeitor! Vocs precisam entender, me
ajudar!
-- Ela ainda se liga muito a ele. Sua interferncia s est piorando a situao. Por que
no confia em Deus e os deixa em paz?
-- Confiar?! Deus est muito longe. Ele viu todo o sofrimento dela em todos os anos de
casamento e nunca fez nada para ajud-la. Se no fosse eu e meus homens, ele ainda
estaria vivo, judiando dela e dos filhos!
-- Sua intromisso s prejudicou os dois. Pense nisso. Deixe-os em paz e trate de
cuidar de sua prpria vida. Voc j est
seriamente comprometido com as leis de Deus e quando menos esperar, tudo quanto
tem feito, voltar sobre voc esmagando-o. E, ento, haver pranto e sofrimento e
ningum poder fazer nada em seu favor. Acorde enquanto  tempo! Voc pode
comear desde agora um esforo de recuperao interior, dedicando-se a ajudar as
pessoas que tem prejudicado. Essa seria a melhor forma de evitar os problemas que ter
para enfrentar.
-- Eu sei o que estou fazendo e no ser voc, quem ir me dizer como devo conduzir
minha vida. Jamais desistirei. Ins  minha. Sempre foi e nunca ser dele. No
descansarei enquanto no separ-los.  comigo que ela dever ficar.  a mim que ela
deve amar! Se no fosse por ele, ela estaria comigo at agora!
-- Se no quer atender o que estou pedindo, ser afastado do caminho dela por algum
tempo.
-- Vocs no tm foras para me impedir.
-- Esse  um assunto que ter que resolver com nossos superiores. Agora v, deixe o
mdium. Sua oportunidade acabou.
Ele ia retrucar, mas de repente o mdium suspirou fundo e deixou-se cair na cadeira,
com o corpo sacudido por forte tremor. Depois, abriu os olhos e respirou fundo,
voltando ao estado normal.
Desde que ele comeara a falar, Ins fora acometida de forte emoo. Tremia, chorava,
e Olvia tentara acalm-la, segurando suas mos geladas e pedindo-lhe baixinho que
rezasse e tivesse confiana em Deus.  medida em que ele falava, ela ia chorando cada
vez mais forte e quando ele disse seu nome, ela agarrou-se a Olvia, dizendo:
--  meu pai! Ele est aqui. Eu sei que  ele!
-- No chore -- disse Olvia sem saber como ajud-la. -- Vamos ouvir o que ele quer
lhe dizer. Preste ateno. Seno vai perder a mensagem.
Essas palavras tiveram o dom de faz-la controlar-se e ela parou de chorar. Seu corpo
era sacudido por estremecimentos, e Olvia alisava-lhe os cabelos com carinho,
abraando-a na tentativa de transmitir-lhe conforto.
Quando ele terminou, o dirigente aproximou-se de Ins e tomando sua mo, conduziu-a
a uma cadeira perto da mesa, pedindo a um mdium que lhe aplicasse energias de
refazimento.
-- Pense em sua casa -- pediu ele. -- Imagine que Jesus est entrando l e abenoando
sua famlia. Ligue-se com Deus, pense no bem.
Ins esforou-se por obedecer e, aos poucos, enquanto o mdium estendia as mos
aplicando o passe, ela foi se sentindo mais
cerena e relaxada. Chegou a sentir sono e por alguns segundos pareceu-lhe haver
adormecido. Reagiu abrindo os olhos.
Em seguida, foi feita a prece de encerramento e quando as luzes se acenderam, Olvia
levantou-se e foi at Ins, sentando-se a seu lado.
-- Est melhor? indagou ela com interesse.
-- Estou, obrigada. Desculpe t-la incomodado. Foi mais forte do que eu. No consegui
me controlar.
Olvia sorriu.
-- No se preocupe. Tambm j passei por algo semelhante.
Marilda e Amaro aproximaram-se oferecendo a ambas um pouco de gua energizada.
-- Voc viu, Marilda! Foi o meu pai quem se comunicou. Eu notei que era ele logo que
comeou a falar. Quando ele falou meu nome, no agentei. Foi uma emoo muito
grande, Tive vontade de levantar e ir abra-lo. Mas fiquei paralisada tamanha a
emoo.
-- Ainda bem que se conteve. Sua emoo iria dificultar a comunicao. Ele teria sido
levado mais depressa. Nossos mentores dizem que a emoo descontrolada  muito
prejudicial.
-- Ele estava desesperado. Sempre foi muito apegado comigo! Quando estava vivo,
no se separava de mim para nada. Foi muito difcil, para ele, aceitar meu casamento.
Odiava meu marido. Eu tinha esperana que com o tempo eles se entendessem. Mas
qual nada. Tambm, Carlos dava-lhe motivos de sobra para implicar. Sabe como ,
nunca foi um marido bom. Para ele, eu merecia toda felicidade do mundo, e Carlos tinha
muitos problemas. Arranjava mulheres fora, bebia, era bomio, ficava na rua at a
madrugada.
-- Pelo que ele disse, a briga deles continua mesmo depois da morte -- disse Olvia,
admirada. -- Nunca pensei que isso pudesse acontecer.
-- As pessoas no mudam apenas por haverem morrido. Elas continuam as mesmas, e
tanto o amor quanto o dio que elas guardam no corao, permanecem.
-- Gostaria tanto que eles se entendessem! -- tornou Ins com tristeza.
-- Eles agora tomaram outro rumo e voc precisa esquecer o passado, cuidar de sua
vida, dos seus filhos. Voc  jovem e pode ser feliz -- garantiu Marilda.
-- Para mim, tudo acabou -- disse Ins.
-- No diga isso -- tornou Amaro. -- Amanh ser outro dia. Os que morreram esto
no outro mundo agora. Por muito tempo
voc no os ver. Portanto, trate de reagir, pensar em si mesma e em seus filhos. A vida
guarda muitas surpresas e ningum sabe o que acontecer amanh. Deixe o passado!
Pense no presente, na beleza da vida, no amor dos seus filhos, no quanto ainda pode
fazer neste mundo. E um dia, quando for o momento e chegar a hora de voc morrer,
ento, pensar como vai lidar com eles. A vida est lhe dando uma pausa para
descansar. Aproveite. Faa alguma coisa por si mesma.
Ins olhava-o admirada.
-- Sempre vivi com eles! -- disse pensativa. -- Primeiro papai, depois Carlos. Nunca
imaginei minha vida sem eles. Estou perdida, no sei o que fazer.
-- Est na hora de deixar de ser aquela menina mimada e sem fora nenhuma. Foi para
isso que voc ficou sozinha. Deus entregou em suas mos dois espritos, porque ele sabe
que voc tem capacidade de orient-los melhor do que seu pai ou seu marido. Em sua
famlia, foi em suas mos que Deus confiou.
Ouvindo as palavras de Marilda, ins comoveu-se. Nunca havia pensado nisso.
Realmente, seus filhos estavam em suas mos. Ela  quem deveria decidir como educ-
los, orient-los, prepar-los para a vida. De repente, sentiu-se mais forte. Ela os amava e
sabia que por eles seria capaz de muitas coisas.
Olvia ouvia calada, pensando em seu prprio drama. Deus levara Elisa e deixara as
crianas entregues  responsabilidade de Eugnio. Teria ele melhores condies de
orient-los do que ela? Essa pergunta comeou a incomod-la. Marilda convidou Ins
para ir embora, e Olvia abraou-a com carinho:
-- Cuide-se bem -- disse com olhos brilhantes de emoo. -- Sua vida  preciosa para
seus filhos!
-- Farei o possvel! Obrigada por tudo.
-- Espero v-la na semana que vem.
-- Virei, se Marilda convidar. Estou me sentindo confortada.
-- Viremos, sim -- adiantou Marilda com um sorriso, despedindo-se dos amigos.
Olvia saiu com Amaro para jantar. Sentados  mesa no restaurante, ele perguntou:
-- Voc est to calada! Aconteceu alguma coisa?
-- O caso de Ins me emocionou. Fez-me pensar em Elisa e em seus filhos sem me.
-- O caso de Elisa  diferente. Eugnio assumiu a famlia e est fazendo o que pode.
Est se sensibilizando, descobrindo o prazer da paternidade. As crianas esto
amparadas.
-- Ins est desorientada. Mas o sentimento materno  muito forte. Tenho certeza de
que ela vai reagir. O tempo  santo remdio.
-- A vida a libertou do cativeiro, e ela sequer percebeu. A dependncia cria laos que
obscurecem a viso e deturpam os fatos.
-- Pelo que ela disse, seu marido era pssimo, mas ainda assim ela queria ficar a seu
lado. Por que ser que as mulheres se tornam to cegas quando gostam de algum?
Amaro sorriu enquanto respondia:
-- No sei. Talvez a educao seja um dos fatores. As meninas so criadas para
obedecer ao pai, ao marido, aos mais velhos. As que no se rebelam acabam
dependentes e fracas. Esse parece ser o caso de Ins. Contudo, creio que sua
dependncia vem de longe. De outras vidas.
-- Como sabe?
-- Pelo que o esprito do pai dela disse, compreendi que os dois, ele e o genro, so
rivais. Ambos disputam o amor dela.
-- No pode ser! Ele  o pai!
-- Foi, nesta encarnao. Houve tempo em que ele foi o amante, o marido.
-- Apesar de haver estudado o assunto, certas coisas da reencarnao ainda confundem
minha cabea. O amor de pai  diferente do amor de marido.
-- Quando a paixo  muito forte e carnal, uma encarnao dentro dos limites da
famlia, como pai e filha, por exemplo, vai contribuir para, aos poucos, ir modificando
esse sentimento, tornando-o mais verdadeiro, mais profundo.
-- Que interessante!
-- Nesses casos, pode acontecer que desperte entre eles uma atrao fsica mais forte,
mas salvo em alguns casos onde os envolvidos so mais primitivos, eles repelem essas
sensaes por julg-las pecaminosas, permitindo-se apenas o apego e o carinho da
companhia constante.  o que me parece ser o caso de Ins.
-- Voc lhe disse que Deus confiou-lhe a guarda dos filhos por julg-la mais capaz do
que o marido para isso. Acha mesmo isso, ou falou para anim-la? Ela pareceu-me to
frgil, to perturbada...
-- Ela est fora de si. Por viver tanto tempo dependente, mimada pelo pai, pendurada
no marido, perdeu a individualidade. Isto , no sabe mais do que gosta nem do que 
capaz, no tem vontade prpria. O que eu lhe disse  verdade.
-- Dessa forma, como poder ser apta a cuidar dos filhos?
-- A vida sempre sabe o que faz. Deus nunca erra. Tirou
suas muletas. Sozinha, tendo que decidir o que fazer daqui para frente, ela vai ter que
aprender a usar seus prprios recursos. E posso garantir que todas as pessoas, por mais
frgeis que paream ser, guardam dentro de si toda fora necessria! Alm do mais,
como voc disse, o amor materno  forte, e esse ser o estmulo para que ela desperte
sua fora interior.
-- Uma coisa me intriga. O Eugnio foi sempre desligado, ausente da famlia,
desinteressado. Enquanto que Elisa era a me por excelncia, dedicada, correta,
bondosa. Se o que voc disse  verdade, Deus teria confiado mais em Eugnio do que
em Elisa para cuidar das crianas? No posso aceitar isso!
-- Eu logo vi que voc tinha alguma coisa quando samos do Centro. Estava calada,
pensativa!
-- Sei que voc  amigo do Eugnio, que v qualidades nele, mas se as compararmos
com as de Elisa, ele perde longe.
,        -- As pessoas so diferentes, no  justo compar-las.
Uma coisa eu posso afirmar, no h nada errado nesta vida. O que h  apenas nossa
incapacidade de compreender.  difcil saber por que aconteceu aquele acidente com
Elisa. Talvez ela precisasse dessa mudana, para aprender a lio do desapego e com ele
fosse o contrrio. Se como diz, ele era desligado, deveria perceber a beleza da famlia,
do amor filial etc. Alis, o Eugnio sempre foi muito carnal. Tenho certeza que o afeto
dos filhos est lhe fazendo um bem enorme.
-- At a eu concordo. Sua mudana continua me surpreendendo.
-- A vida tem suas razes. Elisa, sendo to apegada e dedicada, talvez acabasse por
superproteger os filhos, mimando-os, tornando-os fracos e incapazes. Que eu saiba, uma
me sacrificiosa, que faz tudo sozinha, no dando espao a que os filhos errem para
aprender, acaba por prejudic-los.
Olvia mordeu os lbios. Apesar de querer elevar Elisa, reconhecia que ela era assim
mesmo e que Amaro tinha razo.
Ins entrou em casa acompanhada de Marilda. Sentia-se mais animada. Vendo que ela
fazia meno de retirar-se, pediu:
-- Fique mais um pouco! Sinto-me to bem a seu lado! Vou pedir a Janete para fazer
um ch.
-- Eu j preparei, D. Ins. Deixei at a mesa posta na copa -- disse ela, que acabara de
entrar na sala.
Marilda aceitou e as duas sentaram-se para tomar o ch com bolo. Ins crivara a amiga
de perguntas sobre a comunicao do pai. Elisa, que as vira entrar, aproximara-se
interessada.
-- Ele disse que eu estou correndo perigo -- disse Ins. -- No entendi muito bem por
qu. Quando ele falou que a minha casa estava cheia de malfeitores, tive muito medo.
Se no fosse aquela moa to bonita e educada que me confortou nem sei o que faria.
-- A Olvia  muito amiga do Amaro. Ela perdeu a nica irm em um acidente e sofreu
muito com a separao.
-- Ela me contou. O pior  que ela deixou trs crianas pequenas. Deve ter sido
horrvel!
Elisa ouvia emocionada e surpreendida. Estavam falando dela! Ento, Olvia continuava
freqentando aquele Centro que, por coincidncia, era o mesmo de Marilda!
-- Ela no perde a esperana de comunicar-se com Elisa -- continuou Marilda
pensativa.
-- Eu fui pela primeira vez e meu pai se comunicou, falou at meu nome. Por que ser
que ela no consegue?
-- Difcil dizer. Sabemos que a vida continua aps a morte, que nossos entes queridos
vivem em outro mundo. Algumas vezes conseguimos nos comunicar com eles, mas
ainda estamos longe de conhecer tudo sobre o assunto. O que tenho observado  que os
que morreram, quando conseguem, procuram comunicar-se com seus familiares.
-- Que perigo seria esse que meu pai disse? Ser que os ladres que assaltaram Carlos
pretendem vir aqui? Houve tempo em que eu nem conseguia dormir de tanto medo.
Parecia mesmo que minha casa estava cheia de bandidos e que eles iam nos pegar a
qualquer momento!
Marilda abanou a cabea negativamente:
-- No creio que seja isso. O esprito de seu pai estava nervoso e descontrolado. Talvez
tenha se referido  presena de espritos desencarnados. Voc tem ficado muito
envolvida por pensamentos de tristeza, desespero. Sua casa estava cheia de energias
negativas, de dor e mgoa. Elas atraem a presena de espritos infelizes que pensam da
mesma forma!
-- Que horror! Voc j me havia dito. Mas  que de repente eu sinto tanta tristeza, tanta
revolta, tanta dor! No estou encontrando foras para sair disso.
-- Pense que com isso est criando um ambiente perigoso para seus filhos e reaja. Os
espritos superiores esto cuidando do SEU caso e vo dar-lhe foras para conseguir
melhorar o padro do seus pensamentos. Mas voc precisa querer. S quando voc
quiser fazer isso,  que eles podero ajud-la.
-- Eu quero, mas no consigo!
-- Isso no  verdade. Quando voc quer realmente, consegue.  que foi sempre muito
mimada e ainda no se conforma em ter que cuidar de si mesma.
-- Est sendo rude. Depois de tudo quanto passei!
Marilda olhou-a firme nos olhos enquanto dizia:
--  verdade. Sua vida tem sido uma tragdia. Agora j chega. Tem oportunidade de
torn-la mais feliz. Seu pai, que lhe tirava a chance de aprender e de crescer, no est
mais aqui. Seu marido, que a agredia moral e at fisicamente todo tempo, para ver se
voc reagia, tambm se foi. Agora voc est s, sem ningum que faa a parte que lhe
compete. At quando vai chorar, bater o p como criana birrenta, porque a vida lhe
tirou as muletas, e decidir crescer, ser gente, aprender como se faz as coisas, assumir a
responsabilidade por si e cuidar dos seus filhos, ajudando-os a crescer?
Ins olhou-a surpreendida. Baixou a cabea sem encontrar palavras para responder.
Marilda continuou:
-- Algum precisava dizer-lhe a verdade. Voc no  a mulher intil, fraca,
incapacitada que parece ser. Dentro de voc, tem uma alma que deseja expressar-se, tem
uma me que ama seus filhos e deseja o melhor para eles, tem uma mulher jovem e
bonita, cheia de qualidades e potencialidades a desenvolver e que pode fazer na vida
algo melhor do que chorar um passado que no volta mais e um tempo que nunca foi
feliz! Agora voc  livre! Pode refazer sua vida como quiser, criar sua felicidade e de
sua famlia, fazer de seus momentos, algo melhor. Dar graas a Deus, pelas coisas boas
que possui.
-- Voc v em mim tudo isso? Acredita que eu seja capaz?
-- Tenho certeza. O passado morreu, Ins. Est enterrado junto com seus mortos.
Nunca mais voltar. Mas a vida continua e cada dia pode ser um novo momento de
felicidade. O futuro ainda no aconteceu. Na realidade, voc s tem o momento
presente! Por que teima em infelicit-lo?
  difcil esquecer os entes queridos! Nunca vou
conseguir.
-- O amor, as lembranas, os momentos bons do passado, podem ser guardados dentro
do corao. O que voc no pode  usar essas recordaes para infelicitar mais sua vida
e da sua famlia. Pense nisso, Ins, e perceba quanto tempo perdido!
-- Voc fala de felicidade. Para mim, esse tempo acabou.
-- Pois agora  que ele est comeando. Se tiver o propsito de reagir, de enxotar os
pensamentos dolorosos e de buscar a alegria, dentro de pouco tempo, tudo ter mudado
em sua vida e na
da sua famlia. E, dessa forma, ter expulsado do seu lar os espritos malfeitores que
tanto teme. Eles iro embora por no encontrarem mais ambiente propcio.
Elisa ouvia deliciada, pensando como Marilda era sbia. Se algum houvesse lhe falado
daquela forma quando ainda estava no mundo, talvez no tivesse morrido naquele
acidente. Para ela, as coisas estavam claras. Por que Ins teimava em no perceber?
Lembrou-se do conselho de Renata e aproximou-se de Ins, dizendo-lhe ao ouvido:
-- Faa o que ela est dizendo! Voc est livre! Ah!... se eu pudesse estar em seu lugar!
Saberia apreciar cada momento, abraaria meus filhos, os ajudaria com a lio, os veria
crescer, aprender! Andaria livremente pelas ruas, compraria lindas roupas, iria aos
sales de beleza, aos teatros, procuraria amigos! Voc tem dinheiro! Por que no
aproveita sua liberdade? Viva a vida, seja feliz, pense EM voc!
Ins suspirou pensativa depois disse:
-- Estou comeando a pensar que tem razo. Tenho sofrido muito. Meu pai era muito
bom e dedicado, mas me irritava com seus EXCESSOS. Nunca me deu liberdade! Quando
conheci Carlos, foi um Sacrifcio. Ele fez tudo para impedir nosso casamento.
-- Talvez por saber que voc no poderia ser feliz com ele.
-- Ele no o conhecia ainda. No podia saber. Depois, ele era ciumento com tudo e
todos. No gostava nem que eu tivesse amigas.
-- Agora voc est livre! Pode fazer o que quiser, ir para onde quiser, com quem quiser.
J pensou que bom? Para comear, o que gostaria de fazer? Um teatro, uma viagem...
-- No sei. Primeiro preciso cuidar um pouco da minha aparncia. Estou envelhecida.
-- Isso, Ins! Um tratamento de beleza seria ideal. Um bom corte de cabelos, uma
renovao no guarda-roupa. Se quiser, poderei acompanh-la.
Ins hesitou:
-- No sei... Talvez seja ainda muito cedo... Faz to pouco tempo que Carlos se foi...
-- Ele no voltar mesmo que fique chorando em casa.  preciso reagir, reconquistar
sua sade, criar um ambiente gostoso para seus filhos. Eles precisam de um lar feliz.
Voc nunca teve chance de cuidar de si, comece agora. Isso far-lhe- um bem enorme.
A vida  bela, Ins, est na hora de perceber isso.
Elisa ouvia com satisfao, mas dissimulou porque Carlos
entrou na copa acompanhado por um dos seus homens.
-- Eu no disse que ela ia virar a cabea dela? -- dizia ele. -- Se voc no reagir, logo
sua mulher estar pondo as manguinhas de fora. Vai deixar? E se ela o expulsar daqui?
-- Cale-se -- respondeu Carlos, irritado. -- Ela nunca far isso! O que essa
mulherzinha diz no me importa. Eu sei que basta eu abra-la, falar de amor, tudo
voltar a ser como antes. Ins  minha, ouviu bem? Ningum e nada ter fora bastante
para separ-la de mim!
O outro meneou a cabea negativamente:
-- Eu estou avisando! Voc confia demais. Mulher  volvel.
Carlos sorriu com superioridade:
-- Voc no conhece as mulheres! Por isso que a sua o traiu daquela forma!
O outro deu um salto e segurou o brao de Carlos, dizendo colrico:
-- Cale a boca. No admito que ningum toque nesse assunto! Por causa disso foi que
me meti com a organizao.
-- E no conseguiu nada, porque sua mulher foi mais forte do que voc.
-- Se tocar de novo neste assunto, vou-me embora de vez e nunca mais me ver. Estou
aqui, perdendo tempo, enquanto voc se acomodou e deixou de lado nossos planos. No
foi o que combinamos.
-- No gosto de ameaas! Se quer nos deixar, pode ir. Tenho certeza que os homens da
organizao que cercam a casa, o prendero em seguida. No percebeu que aqui
estamos em segurana? Enquanto estivermos com Ins, o Adalberto no permitir
nenhum ataque.
-- Voc disse que no tinha medo dele, que poderia derrot-lo. Onde est sua valentia?
Estamos encurralados e voc nada faz.
Carlos aproximou-se dele, olhando-o nos olhos ameaadoramente:
-- No me pressione! Posso ficar nervoso e quando perco a calma, no respondo por
mim. Trate de moderar sua linguagem e de me obedecer. O chefe ainda sou eu,
esqueceu?
O outro baixou a cabea, e Carlos aproximou-se de Ins, abraando-a e dizendo-lhe ao
ouvido:
-- Voc no vai me abandonar! Ficar comigo para sempre! Ns nos amamos, recorda-
        se? Sinto falta dos seus beijos, das suas
        CARCIAS, do seu aconchego, voc no  nada sem mim. Ins empalideceu e
baixou a cabea:
-- O que foi? -- indagou Marilda.
-- Quando voc fala, parece que as coisas mudam, mas de repente, sinto uma tristeza
to grande... comeo a me recordar dos beijos de Carlos, dos momentos de amor que
vivemos juntos e sinto que nunca poderei esquecer. No me iludo, Marilda. Sei que
voc quer me ajudar, mas eu sinto que no terei foras para reagir.  difcil crer que
Carlos esteja morto. Para mim, ele continua vivo, eu posso sentir sua presena, seu rosto
perto do meu, seus braos em volta do meu corpo! Sei que  iluso, mas ele ainda est
vivo dentro de mim.
Marilda olhou-a penalizada, mas procurou sorrir confiante.
-- At certo ponto, isso  natural. Vamos ser pacientes. O tempo  um santo remdio.
Amanh ser outro dia. Agora, preciso ir.
Marilda despediu-se, e Elisa viu com tristeza o olhar desafiador de Carlos para o
companheiro, seu sorriso irnico enquanto dizia:
-- Eu no disse? Tudo continua como sempre. Eu sei como fazer Isso!

Captulo 21

Eugnio estugou o passo, estava atrasado.
Ele finalmente havia conseguido contratar uma senhora para passar a noite com as
crianas.
Sentia-se particularmente feliz nesse sbado. Depois da morte de Elisa, era a primeira
vez que podia sair  noite sem hora para voltar. Convidara Lourdes para o teatro e um
jantar em um restaurante elegante. Depois, quem sabe, o to sonhado momento de amor.
Queria que aquela noite fosse perfeita. Havia caprichado na elegncia e antegozava o
prazer daquele encontro. Aquele namoro, que a princpio fora um passatempo, ganhara
fora, e ele sentia-se apaixonado por ela.
Naqueles dois anos de viuvez, aprendera muito sobre o casamento. Reconhecia que
havia negligenciado, envolvendo-se com outras mulheres, no se aproximando dos
filhos. Percebeu tambm que escolhera mal a mulher para casar-se. Reconhecia que era
de temperamento romntico, apaixonado, ardente. Elisa, calma, pacata, disciplinada e
passiva estava longe de satisfazer suas necessidades. Apesar de reconhecer suas
qualidades de bondade, honestidade, (dedicao, sabia que era preciso algo mais para
alimentar a chama do amor.
Parecia-lhe ouvir a voz de sua me aconselhando:
-- Pode ter muitas aventuras, meu filho, voc  homem! Mas na hora de se casar,
precisa encontrar uma mulher honesta, obediente, bondosa, recatada.  preciso cuidado
para escolher a me dos seus filhos!
Ao conhecer Elisa, pensara haver encontrado essa mulher ideal para o casamento. Ela
tinha todas as qualidades necessrias, alm disso, era bonita, e ele se apaixonou.
Agora, porm, pensava muito diferente. Apesar de apreciar  liberdade, Eugnio
gostava da vida em famlia. Sentia prazer ao
chegar em casa e abraar os filhos, ouvindo-os tagarelar alegremente sobre os
acontecimentos do dia. Marina carregava sua pasta colocando-a no escritrio, enquanto
Nelinha ia buscar seus chinelos, e Juninho, fazendo-o sentar-se no sof, tirava seus
sapatos. Depois, Nelinha sentava-se em seus joelhos, e Marina trazia-lhe um copo de
suco de laranja ou de gua gelada.
O carinho deles o encantava e por mais que desejasse sair e usufruir de mais liberdade,
era com muito prazer que ia para casa. Embora Marina fosse reservada, ele percebia que
ela perdera a animosidade e aproximava-se dele com naturalidade. Ele a tratava com
respeito e carinho. O que ele mais desejava era que um dia ela o amasse tanto quanto os
outros dois.
Reconhecia que a influncia de Olvia fora decisiva para essa mudana de Marina. Sua
cunhada estava muito diferente. J no o agredia como antigamente e at o tratava com
certa delicadeza. Ela e Amaro no se largavam; ele andava desconfiado de que eles
estavam namorando. Quando mencionava isso ao amigo, ele sorria dizendo:
-- Eu e Olvia somos bons amigos.
-- No sei, no. Andam sempre juntos! Para mim, isso  sintomtico.
-- Voc s se aproxima de uma mulher quando o interessa!
--  verdade. Mas apesar dos nossos desentendimentos, posso enxergar que ela  uma
bela mulher.
-- Tem razo. Bela, inteligente, lcida.
-- Pena que seja to fria. Amaro sorriu:
-- Bem se v que no conhece Olvia! Sobre aquela discreta aparncia, esconde-se um
vulco.
Eugnio sorriu:
-- Bem me pareceu que estava apaixonado por ela! S assim pode ver essas qualidades
nela.
-- Para dizer a verdade, se ela me quisesse, eu seria o homem mais feliz do mundo.
-- Eu no disse? J se declarou?
-- Ela no me ama. Posso perceber isso.
-- Se voc a quer, no custa tentar.
-- Para afast-la e perder sua amizade? De forma alguma. Independente dessa minha
fraqueza, sua amizade  muito importante para mim. No desejo perd-la.
-- Olvia mudou muito desde que o conheceu. Deixou de me hostilizar, ficou mais
compreensiva, cooperativa com os problemas
 da famlia. Eu gostaria muito que vocs se casassem. Talvez com isso ela se
humanizasse.
-- Voc est enganado com relao a ela. No  uma mulher passiva.  forte e encara
os problemas de frente. Mas  humana, sencvel. No se esquea que quando Elisa
morreu, foi ela quem o ajudou a solucionar os problemas decorrentes.
-- Quanto a isso, tem razo. Eu estava to chocado, to perturbado, que no sei o que
teria sido de mim e das crianas sem a ajuda dela. Mas isso no muda seu temperamento
arredio, orgulhoso. Quando Elisa era viva, vivia falando mal de mim, aconselhando-a a
ME desafiar, a se rebelar contra mim.
-- O tempo acabou mostrando que ela estava certa.
-- Voc tambm?
-- Ela percebeu que vocs no eram felizes, embora aparentassem. Alertava a irm a
que mudasse a maneira de agir, cuidasse mais de si mesma. Ela sabia que voc saa com
outras mulheres, como acha que se sentia? Apesar de conhecer suas aventuras
extraconjugais, nunca contou nada  irm.
-- Por que no queria dar-lhe esse desgosto. Naquele tempo, se ela pudesse, teria nos
separado.
-- Pode ser.  que ela via que vocs no eram feitos um para o outro. Afinal, por que a
critica? Voc no chegou  mesma concluso depois? No desejou a separao?
Eugnio no se deu por vencido:
-- E voc viu no que deu. Seja como for, Olvia agora est mais cordata. No implica
comigo como antes.
-- Voc no foi o marido que ela sonhou para Elisa. Vocs nunca foram amigos. Ela
no o conhecia intimamente. Suas atitudes com a famlia a irritavam. Achava que voc
abusava da ingenuidade de Elisa, enganando-a com outras mulheres, no lhe dando o
conforto que podia.
-- Olhando as coisas desse modo, posso at entender. Por que ser que agora ela
mudou?
-- Porque voc tambm mudou. Assumiu com dignidade suas funes de pai e tem se
esforado para fazer seus filhos felizes. Ela os adora. Quando fala neles, seus olhos
brilham e seu rosto se modifica.
-- Mas quando Elisa morreu, no quis tomar conta deles. Se gostasse tanto como voc
diz, teria ficado com eles. Cheguei a propor para que viesse morar aqui em casa e eu me
mudaria, pagaria todas as despesas, mas ela disse que os filhos eram meus e eu  que
deveria cuidar deles.
-- No que ela estava certa. Voc ganhou com isso. Seus filhos aprenderam a am-lo e,
pelo que observei, at Marina est mais cordata.
-- Ela no fez isso para me ajudar. Ao contrrio. Jurou que se vingaria e que eu nunca
mais seria feliz!
-- Ela disse isso em um momento de dor. Nunca seria capaz de fazer nada contra voc.
-- Pelo jeito, voc a considera muito.
--  verdade. Pena que voc no a tenha conhecido melhor.  uma mulher
excepcional.
Ele riu malicioso:
-- Voc est caidinho! Para enxergar isso em Olvia,  preciso mesmo muita boa
vontade.
Lourdes j o esperava e foram apressados para o teatro. Eugnio parecia outra pessoa,
alegre, descontrado, bem-disposto. Lourdes olhava-o embevecida. Ao sarem do teatro,
ela comentou:
-- Como voc est bem! Parece at que remoou!
-- Estou muito feliz nesta noite. Desde que Elisa morreu,  a primeira vez que me sinto
assim. Minha vida agora parece estar voltando ao normal.
-- A alegria faz bem  alma. Se as pessoas soubessem disso, nunca se entregariam 
tristeza.
-- H momentos na vida que no d para sentir alegria. Mas como tudo passa, hoje
estou muito feliz. Desejo que esta noite seja maravilhosa. A seu lado tudo fica mais
bonito.
Ela sorriu feliz. Para completar a noite, ele reservara mesa para jantar em uma boate.
Pretendia pedir a Lourdes que se aproximasse mais das crianas. Queria que elas a
conhecessem melhor. Quando estivessem se entendendo, poderiam pensar em
casamento. Pensava sinceramente que Lourdes tinha todas as qualidades e juntos seriam
felizes.
O ambiente era requintado e a orquestra tocava uma msica romntica. Eugnio,
satisfeito, experimentou o vinho e depois do garom encher os copos, fez um brinde:
-- Ao nosso futuro!
-- De felicidade, alegria e amor! -- completou ela levantando o copo e tocando
delicadamente o copo dele.
Enquanto esperavam o jantar, foram danar. Eugnio adorava danar e era exmio
danarino. S pararam quando o jantar foi servido.
-- H quanto tempo no me divertia tanto! -- disse ele alegre. -- Parece mentira que
estou aqui e que o pesadelo acabou.
Antes que Lourdes respondesse, Eugnio, surpreendido, olhou para a porta principal.
Amaro e Olvia acabavam de entrar e yenduzidos a uma mesa, sentaram-se.
-- No  sua cunhada?
-- . Com meu amigo Amaro. Ele est apaixonado por ela.
--  uma mulher muito bonita!
-- Bonita, mas sem graa.
-- Voc diz isso porque no se d bem com ela.
-- Isso j passou. Agora ela est mais cordata. Percebeu que eu no sou to ruim como
ela imaginava.
-- Vocs agora so amigos?
-- Amigos, amigos, no. Mas podemos conviver sem brigar.
-- Voc ainda guarda ressentimentos.
-- De forma alguma.
-- A maneira como fala dela mostra que no esqueceu.
-- Voc est enganada. Para mostrar que no guardo nenhum rancor, vou convid-los 
nossa mesa.
Chamou o garom e mandou que ele os convidasse. Apesar da pose, Eugnio sentiu-se
um pouco ansioso enquanto esperavam. E se Olvia recusasse? Nesse caso, ele estaria
bem, ela  que Passaria por antiptica.
Vendo-os levantar, sentiu-se particularmente envaidecido. ela havia aceito. Levantou-se
delicadamente quando se aproximaram, cumprimentando-a educadamente:
-- Como vai, Olvia? Esta  Lourdes, acho que j se conhecem.
-- Bem. J nos vimos, sim. Como vai, Lourdes? Depois de se acomodarem, Olvia disse
com delicadeza:
-- Vocs j esto jantando. Continuem, por favor. Ns pedimos agora, temos mesmo
que esperar.
-- No sabia que freqentava esta boate -- disse Eugnio a Amaro.
-- Temos vindo aqui algumas vezes. A comida  excelente e a msica, maravilhosa.
Olvia adora este lugar.
-- Depois de dois anos,  a primeira vez que saio para me divertir. Finalmente encontrei
uma senhora muito boa, que ficou com as crianas -- explicou Eugnio olhando
furtivamente para Olvia. No queria que ela pensasse que ele havia deixado as crianas
sozinhas.
Enquanto esperavam pelo jantar, Amaro convidou Olvia para danar e Eugnio,
curioso, disfaradamente os observava. Nunca imaginara que sua cunhada gostasse de
danar e que o fizesse
to bem. Era surpreendente seus olhos brilhantes de prazer, sua elegncia e leveza.
-- Voc ficou to calado! -- tornou Lourdes. -- A presena de sua cunhada o
entristeceu? Trouxe recordaes do passado?
Eugnio sacudiu a cabea negativamente:
-- No. O que houve com Elisa foi doloroso, mas j esqueci.
-- Voc estava to alegre e agora ficou pensativo... Ele sorriu ao responder:
-- Continuo alegre. Estava observando Olvia. Nunca pensei que ela soubesse danar. 
a primeira vez que nos encontramos em uma boate.
-- Ela dana divinamente! D para entender por que Amaro est apaixonado por ela!
-- . Eles esto se divertindo. Quer danar?
Apesar do ar despreocupado, Eugnio no conseguia desviar a ateno de Olvia.
Percebeu como a presena dela atraa a ateno masculina por onde passava.
-- Isso  porque no a conhecem! -- pensava ele, irritado. Disposto a aproveitar aquela
noite, Eugnio disfarava a irritao, mostrava-se alegre e espirituoso.
-- Eugnio me disse que voc freqenta um Centro Esprita e o convidou -- disse
Lourdes dirigindo-se a Amaro.
--  verdade, mas ele no vai.
-- Eu gostaria de ir.
--  um lugar muito bom -- aduziu Olvia com entusiasmo. -- Tenho aprendido muito
l.
-- Nasci em uma famlia esprita. Sou do interior. Na minha cidade, freqentava um
Centro muito bom. Mas depois que vim morar em So Paulo, no encontrei o meu
lugar. Isto , um lugar onde eu me sinta ligada espiritualmente.
-- Isso  fundamental -- esclareceu Amaro. -- Cada Centro Esprita tem um grupo de
espritos que o dirige no astral. Quando voc encontra aquele ao qual estava convivendo
no astral antes de reencarnar, a ligao  imediata e prazerosa.
-- Eu me sinto muito bem naquele centro -- disse Olvia. -- Quer dizer que sou ligada
quele grupo de espritos que esto l?
-- Com certeza. s vezes, a pessoa fica algum tempo freqentando um Centro para
aprender o que precisa, mas depois sempre acaba buscando seu grupo de afinidade.  l
que se sentir realizada.
Eugnio ouvia contrariado. Queria se divertir e no falar de
espritos. Vrias vezes ensaiou uma frase para dizer, mas os trs estavam to
interessados no assunto que conversavam, que ele no conseguiu.
-- Faz tempo que voc est freqentando o Centro? -- indagou Lourdes, interessada.
-- Quase um ano. A princpio fui l na esperana de receber alguma mensagem de
Elisa.
-- E recebeu? -- indagou Lourdes.
-- Infelizmente, no. Mas tenho estudado o assunto e sei que Isso no depende de ns,
mas deles. Se Elisa pudesse se comunicar comigo, j o teria feito.
-- Vocs esto se iludindo -- tornou Eugnio procurando dissimular a irritao. -- Ela
est morta e nunca mais voltar para falar com ningum!
-- Voc no est dizendo a verdade! Eu a vi naquela tarde no carro, lembra-se?
Eugnio remexeu-se na cadeira contrariado. Sentia-se nervoso com aquele assunto. Ia
responder, mas Amaro no lhe deu tempo e perguntou:
-- Pode descrever o que aconteceu?
-- Posso. Foi to forte que fiquei impressionada por vrios dias. Bem... -- ela calou-se
embaraada olhando para Olvia.
-- Pode falar -- disse Amaro com firmeza. -- Olvia vai entender.
-- Claro! -- tornou Olvia, interessada. -- Finalmente notcias de Elisa! Seja l o que
for, quero saber.
Ignorando o olhar furioso de Eugnio, Lourdes explicou:
-- Ns estvamos namorando no carro. Sabe como . Como o Eugnio precisa ir para
casa antes das oito, costuma ir buscar-me no trabalho. Ele estava particularmente
amoroso naquela tarde e, ento, quando me beijava, comeou a passar mal.
Empalideceu, faltou-lhe o ar, parecia que ia desmaiar. Foi a que eu a vi, furiosa,
ameaadora, apertando o pescoo dele. Comecei a rezar, chamei meus guias espirituais,
e ela o largou, mas me fixou bem e com tal dio que parece-me v-la ainda.
-- Voc a conhecia? -- indagou Amaro.
-- Bem, certa vez, h muitos anos eu a vi com Eugnio. Voc sabe que Eugnio e eu
tivemos alguns encontros sem maiores conseqncias.
-- Voc a reconheceu? -- indagou Olvia.
-- Estava muito diferente, mas eu senti que era ela! Vestia um vestido de bolinhas
verdes e tinha uma ferida na testa. Deduzi
que fora do acidente.
Olvia ia retrucar, mas calou-se. Era verdade. Mesmo a tendo conhecido, como Lourdes
podia saber o vestido com o qual ela fora enterrada e principalmente a marca em sua
testa? A mesma descrio de Nelinha! Suspirou preocupada. Olhou para Amaro
esperando suas palavras.
-- Era ela -- disse ele convicto. -- Eu j pressentia que ela no havia se conformado
com sua situao, agora estamos vendo que  verdade. Eu bem havia dito a voc,
Eugnio, que deveria ir ao Centro conosco.
-- E essa agora? Vim aqui para divertir-me, esquecer as mgoas e vocs ficam falando
dessa tragdia? Acham que  justo isso? -- reclamou Eugnio, agoniado.
Olvia olhou-o com tristeza dizendo:
-- Desculpe se estamos estragando sua noite. Mas deve convir que ter notcias de Elisa
 muito importante. Ns no planejamos nada. Nos encontramos aqui, talvez com a
ajuda de Deus para que eu pudesse pelo menos saber alguma coisa sobre ela. Voc no
se preocupa em saber como ela est, depois de tudo? Nunca se perguntou como ela
estaria enfrentando a saudade dos filhos, a mudana, sua vida truncada de forma to
violenta? -- Olvia falava com emoo e Eugnio, fitando-a, percebeu o brilho das
lgrimas em seus olhos.
-- Eu no me pergunto nada. No creio que ela continue vivendo em outro mundo. No
quero me atormentar com essas idias -- disse ele.
-- Como pode ser to resistente? -- retorquiu Olvia. -- As provas de que ela continua
existindo esto se avolumando a sua volta. Por que se nega a v-las? Tem medo que ela
venha cobrar-lhe alguma coisa?  o peso de sua culpa que o est perturbando?
Eugnio olhou-a firme nos olhos. At quando Olvia o culparia pela morte de Elisa?
Respondeu com voz firme:
-- Se existe uma culpa, foi a de no ter sido experiente o bastante para casar com ela.
-- Pretende ofend-la at agora? -- retrucou ela com voz dorida.
-- No. O que eu quero dizer  que s agora, tarde demais, reconheo que nosso
casamento foi um erro. Elisa tinha todas as virtudes e qualidades, mas no era a mulher
adequada ao meu temperamento. Juntos, nunca seramos felizes. ramos muito
diferentes um do outro. Cedo ou tarde nossa unio acabaria.
-- Sempre achei isso mesmo! -- concordou Olvia com tristeza.
  -- Eu sempre soube que um dia ainda se separariam.
-- Nesse caso, por que me culpa? Fui sincero. Quando percebi que no a amava mais,
me separei. E deu no que deu. Nunca pensei que isso pudesse acontecer. Achei que com
o tempo ela esqueceria e acabaria encontrando outra pessoa que a pudesse fazer feliz
como merecia. Era isso o que eu queria. O acidente no foi culpa minha!
Lourdes, preocupada, colocou a mo no brao de Eugnio dizendo:
-- Sinto muito. Lamento haver tocado nesse assunto.
-- Chega de tristeza -- disse Amaro. -- Essa tragdia j foi. Passou. No vamos voltar
atrs. Acabou. Vocs sabem que ningum tem culpa de nada. A vida joga com as
pessoas e sabe o que est fazendo. Ela quer que todos aprendam a viver melhor. Apesar
do que passaram, vocs dois aprenderam muitas coisas com essa triste experincia.
Vamos olhar s o que foi positivo. O resto est nas mos de Deus.
-- Pensei que houvesse esquecido, mas parece que tudo conspira para que eu me
lembre -- reclamou Eugnio.
-- Amanh poderemos voltar ao assunto. Porm, hoje  noite de alegria. Viemos aqui
nos divertir. Vamos danar, Olvia.
Olvia se entristecera e havia mil perguntas que gostaria de fazer a Amaro sobre Elisa.
Mas entendia os sentimentos de Eugnio. Ele estava se esforando para fazer sua parte
com a famlia. O momento no era propcio para falar sobre a tragdia. Levantou-se
sorrindo, procurando retomar a alegria de momentos antes.
Observando-os, Lourdes convidou:
-- Vamos danar? Eugnio pareceu no ouvir:
-- Voc viu como ela me detesta? No perde chance para me culpar. Essa mulher me
odeia! Ela nunca me perdoar!
-- Voc exagera. Havia tristeza em seus olhos, no dio. Ela no o odeia. Ama a irm e
fica triste quando se recorda do que aconteceu.
-- Voc no precisava falar do que viu.
-- Senti vontade de contar. Era importante para ela saber. Assim poder ajudar o
esprito de Elisa. Sei que ela ainda no est bem. Se voc acreditasse, seria to bom!
Poderia contribuir para que ela melhorasse e, ento, teria condies de resolver os
problemas de sua vida.
-- Voc insiste...
-- Porque gosto de voc. Sei que no conseguir refazer
sua vida amorosa enquanto no esclarecer o esprito dela. Ela no deseja que ningum
se aproxime de seus filhos e tudo faz para impedir que voc se case novamente. Sem
que ela mude de idia, voc no vai conseguir ser feliz!
-- Voc diz isso com tanta firmeza! Acredita mesmo no que est afirmando?
-- Claro. Eu a vi e senti sua revolta, sua raiva. Sei o que estou dizendo. Ela est
comandando a sua vida e da famlia. Voc s vai conseguir fazer o que ela deixar.
-- Elisa no era mandona. Mesmo que fosse verdade o que voc diz, ela nunca faria
isso comigo. Sempre foi obediente, passiva.
-- Isso era antes dela passar pelo que passou. Agora est revoltada. Alm disso, tem
medo que voc se case e que a sua esposa maltrate as crianas.
-- Isso eu nunca permitiria!
-- Ns sabemos disso, mas ela no sabe. Depois do que aconteceu, no confia mais em
voc. J pensou que ela agora pode ler seus pensamentos, ver onde voc vai e com
quem se relaciona?
Eugnio remexeu-se na cadeira.
-- Isso  horrvel! Deus no permitiria essa invaso. No posso crer!
-- Por mais que parea estranho,  verdade. Um esprito pode nos observar, ler nossos
pensamentos sem que percebamos. Elisa pode estar acompanhando todos os seus passos
e saber tudo que voc faz.
-- Eu no fao nada de mais. Mas me incomoda pensar que algum possa estar me
vigiando.  difcil de acreditar!
-- Voc pensa assim, porque nunca se interessou em estudar esses assuntos. Se o
tivesse feito, teria outra opinio. Eu comecei a ver os espritos desde criana. Pensava
que todas as pessoas pudessem v-los de vez em quando, como eu. Minha me,
assustada a princpio, passou a freqentar um Centro Esprita e aceitou minha
mediunidade de forma natural. Quando descobri que nem todos podiam ver o que eu
via, ela me ajudou a compreender, ensinando-me a disciplinar minha sensibilidade.
Enquanto morei na minha cidade, freqentei esse Centro e aprendi muito. Presenciei
fatos interessantes, comprovei a sobrevivncia do esprito depois da morte e sei que eles
podem se comunicar conosco.
-- Seja sincera, voc acredita mesmo que a vida continua depois da morte? Que Elisa
continua viva em outro lugar?
-- Tenho certeza disso. Eu a vi. Quer maior prova?
-- Voc no estaria sugestionada pelo fato de estar namorando
com um vivo?
-- De forma alguma. Depois, como eu podia saber o vestido que ela usava e a
localizao do seu ferimento?
-- Isso me intriga. Ser que no foi por telepatia? Eu sabia como ela estava, e voc
pode ter captado isso do meu inconsciente.
-- Por que voc complica tanto um fato to simples? De que forma eu iria tirar do seu
inconsciente uma imagem da qual voc nem se recordava naquele momento? Voc
estava me beijando pensando nela?
-- Isso no. Voc sabe que nos ltimos tempos, Elisa era como uma irm para mim. Eu
no sentia atrao por ela como mulher. Naquela hora, eu s via voc em minha frente!
-- Convena-se de que era ela mesma! Estava com raiva e queria nos separar. Ela
gostava de voc. Como pensa que reagiria vendo-nos namorar?
Eugnio remexeu-se na cadeira.
-- E. Se ela visse, acho que ficaria com raiva mesmo.
-- Seria natural. Ela estava se julgando trada.
-- Voc fala dela como se estivesse mesmo viva!
-- E ela est. Convena-se disso de uma vez.
-- No  fcil. Quando penso nisso, sinto um arrepio pelo corpo. No sei como vocs
podem falar de gente morta com essa naturalidade.
Lourdes sorriu.
-- Por que no? Morrer  natural neste mundo. Todos ns morreremos um dia. Bom 
saber que a morte no  o fim e que vamos continuar vivendo em outro mundo. As
pessoas que amamos e que morreram, simplesmente foram para outro lugar e um dia
ainda nos encontraremos novamente. No  maravilhoso?
-- Visto dessa forma, pode ser. Mas como ter certeza? Como saber se isso  verdade?
--Interessando-se em estudar os fatos. Pesquisando. Experimentando. Olvia est
fazendo isso e voc mesmo disse o quanto ela mudou a maneira de ser.
-- . Mudou. Mas ainda continua com raiva de mim. Viu como me culpa?
-- Ela continua sofrendo pela morte da irm. Pelo que sei, no tinha mais ningum no
mundo.
-- Isso no lhe d o direito de me crucificar.
-- No seja to dramtico. Pelo que sei, ela o tem ajudado com as crianas.
-- Voc fala como Amaro. No sei por que vocs vo sempre
a favor dela. Ele ainda est apaixonado por ela, mas voc...
-- Eu me interesso pela sua felicidade e pelo seu bem-estar. Vamos esquecer esse
assunto. No quer danar?
Eugnio ia retrucar, mas mudou de idia. Pretendia se divertir. Esquecer. Retomar a
mesma alegria de antes. Levantou-se prontamente dizendo:
-- Isso mesmo. Vamos nos divertir.
No voltaram a comentar o assunto. Passava das trs quando Olvia e Amaro se
despediram:
-- Amanh  tarde pensei em ver as crianas -- tornou Olvia. --Vocs vo sair?
-- Vou lev-los almoar fora, mas depois das trs estaremos em casa.
-- Est bem. Irei v-los. At amanh -- e dirigindo-se a Lourdes: -- vou ao Centro s
quintas-feiras. Gostaria que voc fosse nesse dia para nos encontrarmos. Alguma coisa
me diz que voc indo, teremos notcias de Elisa.
-- O melhor seria o Eugnio ir -- respondeu ela.
-- Seja como for, voc est ligada a ele. Sua presena pode ajudar.
-- Est bem. Irei.
Despediram-se e apesar de esforar-se para divertir-se, Eugnio no conseguiu. Era
muita falta de sorte haver encontrado Olvia logo na primeira noite de liberdade.
Contrariado, esqueceu completamente suas pretenses com Lourdes. Aquela noite que
ia ser motivo de comemorao, onde ele pretendia fazer planos para o futuro, tornara-se
uma noite comum e sem importncia. Fazendo imenso esforo para manter a aparncia
de alegria, Eugnio danou mais um pouco, bebeu mais vinho, mas no conseguiu fazer
a alegria voltar.
No carro com Amaro, Olvia no se conteve:
-- Agora podemos falar sobre Elisa. Acha que ela est mal como Lourdes viu?
-- Eu sabia que ela estava seguindo Eugnio. Falei com ele, pedi que tomasse
providncias. Mas ele no acreditou.
-- O que podemos fazer para ajud-la? Fico angustiada ao pensar o quanto ela pode
estar sofrendo.
-- No entre nesse tipo de energia. Se quer ajud-la, precisa ficar calma e confiar em
Deus.
-- O que posso fazer? Rezar?                                  !
-- Se isso a conforta, reze. Penso que no deve preocupar-se. Ela est sendo ajudada
pelos nossos amigos espirituais. Eles tm
SEUS prprios   mtodos. E eu garanto que so muito mais eficientes do que os nossos.
-- Tem certeza de que eles a esto ajudando?
-- Tenho. Amlcar est tomando conta dela.
-- Por que nunca me contou nada?
-- Para no preocup-la. Ele me disse que ela se envolveu com um grupo de espritos
justiceiros, provavelmente na tentativa de vingar-se de Eugnio.
-- Elisa no era vingativa!
-- Ela mudou. Foi vista perseguindo o Eugnio.
-- Por que no a levaram ao Centro para receber ajuda?
-- Ela tem medo de ir.
-- Gostaria tanto de falar com ela, saber como est, o que tem feito!
-- Confie e espere. Ainda vai ter notcias dela.
-- Quando?
-- Quando for oportuno. Tudo acontece da maneira certa, na hora que tem que ser.
-- Fico ansiosa! Voc acha que o Eugnio est apaixonado pela Lourdes?
-- Parece que sim. Faz tempo que s sai com ela. A Lourdes  uma moa boa. Daria
excelente me para as crianas.
Olvia sobressaltou-se:
-- Ele est pensando em casar?
-- Por que se admira? Seria uma tima soluo para ele.
-- Ainda  muito cedo.
-- Eu no acho. Faz dois anos que est vivo. Tenho a impresso de que voc no
concorda que ele se case novamente.
-- No  bem isso. Tenho dvidas a respeito. Como as crianas a receberiam? No
esto preparadas para aceitar outra mulher em lugar de sua me. E depois, tem Elisa. Se
ela estiver mesmo seguindo Eugnio, vai sofrer muito vendo-o casar-se com outra.
Chega j o que sofreu com sua traio. Ele no a respeitou quando viva, pelo menos que
a respeite depois de morta!
Amaro meneou a cabea negativamente:
-- Voc est enganada, Olvia. Ele tem todo direito de reconstruir sua vida e a de sua
famlia. Elisa  que tem de entender que no pode intervir na vida dele.
-- Ela vai ficar preocupada com os filhos!
-- Ter que abrir mo deles. A vida determinou a separao. Pode ser duro, mas ela ter
que compreender que no tem o direito de intervir, a no ser para dar-lhes amor e bem-
estar.
-- Elisa era muito agarrada a eles. Sempre quis fazer tudo. Quando eles eram
pequeninos, eu queria ajudar, ela no deixava.
-- Talvez por isso hoje esteja aprendendo a lio do desapego. Lembre-se, Olvia, que
ningum  de ningum. Ser muito bom para ela entender isso.
-- Vai ser difcil. Agora entendo o que Lourdes quis dizer. Ela deve mesmo estar com
raiva e com cimes.
-- Procure no se envolver tanto com as emoes dela. Podem afetar seu equilbrio. Se
deseja ajud-la, precisa estar bem.
-- Eu deveria estar contente por haver obtido notcias de Elisa. Contudo, no sei por
que, sinto-me inquieta, angustiada. Triste. -- Suspirou fundo e prosseguiu: -- No
gosto de me sentir assim.
-- Voc entrou demais nas energias de Eugnio e de Elisa. Ao chegar em casa, faa
uma meditao, reze, pea ajuda aos amigos espirituais. Entregue suas preocupaes nas
mos de Deus e trate de esquecer esse assunto.
-- Est bem. Farei isso.
Chegando em casa, Olvia tomou um banho e preparou-se para dormir. Estendida no
leito, procurou relaxar. Rezou pedindo ajuda para Elisa, para as crianas e para Eugnio.
Temia que ele se casasse e as crianas viessem a sofrer com isso. Fez tudo quanto
Amaro recomendou, mas no se sentiu melhor.
Mil pensamentos tumultuavam sua cabea, e o dia j havia amanhecido de todo quando
ela, cansada, finalmente conseguiu adormecer.

Captulo 22

Eugnio levantou-se cedo naquele domingo. Sentia-se insatisfeito, inquieto, inseguro.
Por qu? Antes tomava decises, tinha objetivos, sabia o que queria. Agora no sentia a
mesma facilidade. Isso o desgostava. Estaria se tornando incapaz?
Depois de tomar o caf, sentou-se na sala para ler o jornal, mas no conseguia fixar sua
ateno nas notcias. Ele no era mais um adolescente. No podia permitir-se a
fraquezas que poderiam resultar em problemas para sua famlia. Na vspera, sara de
casa disposto a falar com Lourdes seriamente. Estava certo de que a amava e de que ela
seria a esposa ideal para tomar conta de seus filhos. Entretanto, seu entusiasmo
arrefecera e agora j no tinha mais certeza de nada. As crianas conheciam Lourdes e
no demonstravam simpatia por ela. Mudariam se a conhecessem melhor?
Na noite anterior, sara com o propsito de declarar-se e de levar Lourdes para um hotel.
Passara a semana inteira antegozando o prazer desse encontro, fantasiando como seria.
Por que de repente perdera completamente a vontade? Seu antigo problema estaria de
volta?
Passou a mo pelos cabelos preocupado. O que estava acontecendo com ele no era
normal. Sempre fora ousado, audacioso e nunca perdera a oportunidade de estar com
uma bela mulher. Por que perdera o interesse?
Pensou em Olvia. A presena dela teria algo a ver com o que lhe acontecera? V-la era
recordar-se do passado. Era pensar que, de alguma forma, ele desencadeara a tragdia
que havia matado Elisa e o reduzira quela triste situao. Quando poderia esquecer?
Teria que suportar esse peso pelo resto da vida?
Pensamentos sombrios o incomodavam, tirando-lhe a alegria e a paz. Quando Amaro
chegou para irem almoar juntos, percebeu logo que ele no estava bem. Enquanto as
crianas se arrumavam
para sair com eles, tentou conversar:
-- Ontem voc estava to bem, to alegre! Fazia tempo que eu no o via assim.
Aconteceu alguma coisa?
-- No sei o que est se passando comigo. Sempre fui firme, determinado. Agora,
estou confuso, insatisfeito, inseguro.
-- Por que pensa isso?
-- Porque ontem eu estava certo do que queria. Sa de casa disposto a pedir Lourdes
em casamento. Claro, depois que ela se aproximasse mais das crianas e elas a
apreciassem. S pensava na noite de amor que teramos. De repente, perdi o interesse,
no lhe disse nada. Esfriei. Agora j no sei mais o que quero. Um casamento com ela
parece-me quase impossvel.
-- Voc no a ama!
--  uma mulher maravilhosa! Seria a esposa perfeita! Depois, ela me atrai. At ontem
acreditava estar perdidamente apaixonado. Agora...
-- Pretende ter outra esposa perfeita, igual a Elisa?
-- Dizendo isso, voc me confunde mais. Alm de gostar, eu preciso me casar com
algum que cuide bem das crianas. Tem que ser uma mulher especial.
-- Talvez no seja hora de se casar de novo!
-- Pode ser. No  isso o que me preocupa. Posso continuar a viver bem como at aqui.
Mas no gosto de me sentir inseguro, de ser leviano, ora querendo, ora no.
-- Voc tem dormido bem?
-- No. Minha cabea parece um vulco. No trabalho, no consigo a mesma lucidez de
antigamente. Quando me esforo para prestar mais ateno, sinto atordoamento, sono,
mal-estar. O dr. Jlio chamou-me para conversar, disse que a tragdia com Elisa havia
perturbado minhas idias e, no fim, aconselhou-me a consultar um psiquiatra. Voc
acha que ele est certo? Estou comeando a pensar nisso. No posso mais continuar
assim.
-- Seu problema  espiritual, no mental. Voc reagiu bem a tudo quanto lhe aconteceu.
Assumiu a famlia, fez tudo certo. Quem est com problemas mentais no faz o que
voc fez.
-- Ento, por que no posso voltar a ser como antes?
-- Claro que voc mudou. Amadureceu. Aprendeu a olhar outros lados da sua vida.
-- Nesse caso, eu deveria sentir-me melhor.
-- Voc saiu de uma situao a que estava habituado, na qual se julgava seguro para
enfrentar novos desafios. De certa forma, isso pode haver provocado um pouco de
insegurana.
-- No incio, fiquei desnorteado. Escolhera uma coisa e a vida me chamou para outra
completamente diferente. Mas, hoje, o fato de haver assumido a famlia sozinho parece-
me natural e no me assusta mais. Ao contrrio, no saberia mais pensar em mim sem
eles. No creio que meu problema venha da. Antigamente eu ganhava bem e achava
que as crianas precisavam de muito pouco para manter-se. Gastava a maior soma
comigo, nas coisas que me davam prazer. Agora eu percebo a necessidade de dar-lhes
uma boa educao, coloquei-os em um colgio melhor, preciso ganhar mais. E o que me
acontece? Estou me sentindo limitado, incompetente como nunca fui.  desanimador!
-- Voc  muito resistente! Nunca se perguntou o porqu de tudo quanto lhe aconteceu?
-- Mil vezes. Essa  uma pergunta sem resposta.
-- No  verdade. A vida no faz nada sem uma finalidade. Quando ela age
precipitando os fatos,  porque sabe que voc j tem condies de aproveitar,
amadurecer.
-- Estarei sendo castigado por no haver dado a importncia que devia aos meus filhos
e desejar abandon-los?
-- Que idia! No  nada disso. Estou vendo que voc ainda no se libertou da culpa
pela morte de Elisa.
-- De uma certa forma, contribu para isso.
-- Voc no teve culpa de nada. Fez o que lhe pareceu melhor naquele tempo. Nunca
pensou que o acidente pudesse ocorrer.
--  verdade.
-- Nesse caso, de que se culpa? O que lhe aconteceu no foi um castigo. A vida sempre
faz o melhor. Ela mudou seu destino, porque o caminho que voc havia escolhido no
era aquele que lhe daria mais felicidade. Ela o chamou para uma reavaliao dos seus
sentimentos, e tambm para que despertasse para a vida espiritual. Voc sempre foi
desligado desse assunto. Est sendo forado a pensar nele. Ontem foi se divertir e o que
aconteceu? A vida nos juntou para a conversa que tivemos. No lhe parece mais do que
uma simples coincidncia?
-- Encontr-los nesta imensa cidade sem havermos combinado foi surpreendente.
-- Nada acontece por acaso. A vida  mgica e cada coisa tem uma importncia
particular. Voc est sendo pressionado de todas as formas. Nelinha viu Elisa, Lourdes
tambm. Olvia j est convencida de que ela vive em outro mundo. S voc ainda
resiste. O que espera?
-- Nada. Eu desejo apenas tocar minha vida e da minha famlia o melhor possvel.
-- Se espera que as coisas voltem a ser como antes, perca as iluses. Voc j no  o
mesmo, seus filhos tambm. Vocs esto maduros para perceber a espiritualidade e no
vo poder voltar atrs.
-- O que quer dizer?
-- Que quanto mais voc resistir, mais a vida vai pression-lo , at que voc aceite.
-- Voc fala, mas no sei se isso  verdade! Essa histria de espritos parece-me to
irreal!
-- No lhe peo que acredite no que estou dizendo, mas que pelo menos estude o
assunto. V assistir algumas sesses no Centro.
-- Por que insiste nisso?
-- Por que voc tem tanto medo de ir l?
-- No tenho medo de nada.  que nunca acreditei em nada disso. Parece-me
constrangedor ir a um Centro Esprita.
Amaro riu bem-humorado:
--  s para continuar a ser "duro" comigo e com Olvia? Saiba que se voc no for, o
problema ser s seu. Eu e ela continuaremos cada dia melhor. No sei se poder dizer o
mesmo.
-- At parece que ir l vai resolver todos os meus problemas. Isso chega a ser
fanatismo.
-- Voc est falando de algo que no conhece. Nunca foi, nunca experimentou e j
condenou. Se pretende ser to radical, no se fala mais nisso.
-- Radical? Eu?!
-- Radical e preconceituoso, sim. No foi, no conhece e no gosta. Quer mais
preconceito do que isso?
-- Qualquer noite destas, eu vou a esse Centro s para que no pense que sou tudo isso.
-- Quando quiser ir, terei prazer em acompanh-lo.
-- Vamos almoar que as crianas esto com fome.  tarde e Olvia resolveu vir v-los
esta tarde.
-- Voc est  querendo fugir ao assunto. Nunca se preocupou com as visitas de Olvia!
-- Eu prometi estar em casa. Vamos embora.
Amaro sorriu e resolveu no insistir. Contudo, na quinta-feira seguinte, conversou com
ele no escritrio, renovando o convite:
-- Hoje  noite vou com Olvia ao Centro. Quer ir conosco?
-- No posso. Tenho que ir para casa cedo. No programei ningum para ficar com as
crianas.
-- Fica para outra vez.
Eugnio concordou aliviado. Parecia-lhe absurdo, mas quando pensava em ir at l,
sentia arrepios e uma sensao de desconforto. No queria admitir que tinha medo do
que poderia ocorrer. No acreditava em nada disso, mas e se Elisa viesse mesmo pedir-
lhe contas? A esse pensamento, sentia-se assustado. Estava chocado com a tragdia e
desejava esquecer. No iria procurar nada.
Amaro comentou com Olvia a atitude de Eugnio, finalizando:
-- Ele diz que no acredita, mas fica apavorado s em falar
-- Ele nunca ir!
-- No penso assim. Quando Deus quer, no h como fugir.
Ao entrarem no salo das reunies, Olvia passou o olhar pela assistncia pensando em
Ins. Quando a viu, imediatamente foi cumpriment-la.
-- Que bom que voc veio! -- disse abraando-a.
-- Fiquei em dvida se deveria... estava me sentindo muito deprimida, sem vontade de
sair... mas Marilda passou em casa e me animou.
-- Fez bem. Precisa reagir. No pode se deixar dominar pela tristeza.
-- Tenho esperanas de saber notcias de Carlos. Daria tudo para poder falar com ele...
saber como est...
-- Eu tambm gostaria de falar com Elisa. Quem sabe hoje teremos mais sorte.
Calaram-se porque as luzes se apagaram. A reunio ia comear. Aps a leitura de um
trecho de O Livro dos Espritos, dos comentrios esclarecedores dos dirigentes, das
oraes costumeiras, o silncio se fez.
Olvia quase no prestou ateno ao que eles haviam dito, porquanto Ins, a seu lado,
sentia-se mal. Vrias vezes fizera meno de levantar-se para sair, e Olvia tentava
acalm-la, falando baixinho que logo tudo iria passar, segurando suas mos geladas e
trmulas. Quebrando o silncio da sala, Ins comeou a soluar e a gritar:
-- Me ajudem! Estou desesperado! Me ajudem! Imediatamente, Marilda levantou-se da
mesa e foi ter com
ela, dizendo com voz serena:
-- Vamos ajudar. Acalme-se. Venha, Ins.
Ela levantou-se e Marilda a fez sentar-se em seu lugar ao
redor da mesa. Ela soluava sem parar.
-- Pronto. Voc pode falar. Como poderemos ajud-lo? Ins levantou a cabea e
esforou-se para conter os soluos que lhe sacudiam o corpo. Marilda continuou:
-- No se preocupe. Fale o que est sentindo. Deus vai nos ajudar.
-- Estou sofrendo todos os tormentos do inferno! -- disse ela. -- Pensei que havia
resolvido definitivamente o problema, mas agora percebo que s o agravei! As coisas
esto piores do que antes! A culpa  minha! Eu mereo ser castigado, no ela. Meu
Deus, o que fiz da minha vida? Quem poder me socorrer nesta hora?
-- Deus! Pea ajuda a ele!
-- Eu no mereo! Precipitei as coisas. Estava desesperado! No agentava mais ver os
maus tratos que ela sofria ao lado dele!
-- No se martirize. O passado no volta mais. Pense o que voc pode fazer agora de
melhor.
-- Estou manietado! O miservel me ameaa! Sei que ele cumprir! Ele  perverso!
Estou sem poder fazer nada!
-- O que voc no pode fazer, entregue nas mos de Deus! Ele tem sabedoria para fazer
o que for mais adequado.
-- Deixar as coisas como esto? Impossvel!
-- Voc nada pode fazer. Pretende agravar mais a situao?
-- Ela precisa saber! Ele pretende continuar dominando-a mesmo depois de morto!
No posso tolerar isso!
-- Por que no pra com esse jogo de poder? Voc quer que ele se afaste, para voltar a
domin-la.
-- Mas eu a amo e posso zelar pela sua felicidade! Ele no! Estava cheio de aventuras e
sequer a respeitava!
-- Quem ama, liberta. Se a amasse mesmo, deixava-a em paz para seguir seu destino.
-- No posso! Ela ficaria com ele!
-- Quem pode saber o futuro? Deixe-a em paz. Cuide de voc que est infeliz e
descontrolado.
-- Estou assim porque, apesar de tudo, no consegui libert-la dele. Anos planejando,
trabalhando para isso e agora est tudo perdido.
-- Cada um  livre para escolher seu caminho. Voc no  dono de ningum. J
interferiu demais na vida deles. Deixe a vingana de lado. Afaste-se e cuide de sua vida.
Veja em que estado lastimvel voc est!
-- Tudo parecia ir to bem! Nunca pensei que pudesse dar errado! Eu estava do lado da
justia. Ele foi julgado e condenado!
-- Ns no temos condies de julgar ningum. Voc estava enganado!
-- Trabalhei anos na organizao, eles sabiam de tudo. Fizeram o julgamento e o
condenaram. Por que agora se recusam a intervir e me deixam sozinho com meu
desespero? Eles se diziam to poderosos, e agora percebo que seus poderes so
limitados. Eles so incapazes de aprision-lo de novo!
-- Voc pede ajuda. Para ser ajudado, precisa se ajudar. Perdoar, acabar com idias de
vingana. Elas esto infelicitando vocs todos. A nica forma de melhorar essa situao
 deix-los em paz, entregar tudo nas mos de Deus.
--  difcil... no posso...
-- Pode, sim.
-- Como fazer isso?
-- Desligando-se dela de uma vez. Libertando-a!
-- No suportarei a separao!
-- No seja dramtico. Sua atitude s tem contribudo para a infelicidade de todos. Seja
generoso. Deixe-a em paz. Se fizer isso, ns o ajudaremos a se recuperar. E, quando
estiver bem, poder voltar a v-la.
-- Farei qualquer coisa para que ela seja feliz!
-- Comece deixando-a seguir o prprio caminho. Ela precisa crescer, aprender outras
coisas, encontrar a felicidade. No acha que tem sofrido bastante?
-- Acho. Sinto-me exausto e sem foras. Mas se eu a deixar, ele vai atorment-la, e ela
estar sem defesa.
-- Ns a ajudaremos. Ele tambm ter que deix-la.
-- Nesse caso, concordo. Se conseguir que ela se liberte dele, farei tudo quanto me
disserem. Mas preciso ter certeza, sossegar meu corao.
-- Voc ser informado, prometo. Agora, vai junto com essa moa que est a seu lado.
Ela lhe dir o que fazer e o conduzir a um lugar de recuperao.
-- Tenho medo da organizao! Eles no queriam que eu os deixasse, alegaram que
estou comprometido com eles!
-- Se deseja mesmo deix-los, ns o protegeremos e nada lhe acontecer. Agora v.
Fundo suspiro escapou do peito de Ins, e ela deixou-se cair trmula sobre a mesa.
Marilda apanhou um copo com gua e a fez ingerir alguns goles dizendo:
-- J passou. Reze e procure pensar em Deus.
Quando a sesso terminou, Olvia levantou-se e foi ter com Ins que, ainda trmula,
sentia-se atordoada.
-- Sente-se melhor? -- indagou.
-- Sim. Apesar de tudo, estou calma. Amaro aproximou-se sorrindo e dizendo:
-- Mediunidade! Voc tem mediunidade! Nunca percebeu? Ins meneou a cabea
negativamente:
-- Mas fui eu quem falou! Foi esquisito, porque eu estava vendo e ouvindo tudo, mas
no conseguia parar. Minha boca falava sem eu pensar, e eu sentia desespero, tristeza,
medo, remorso e culpa! No d para explicar tudo que senti. O que aconteceu de
verdade? Eu me sentia como se fosse meu pai! Foi muito estranho!
-- Foi o esprito de seu pai quem falou atravs de voc. A maior parte do que sentiu,
era o sentimento dele -- esclareceu Marilda.
-- Nesse caso, ele estava sofrendo muito!
-- Estava. Mas foi ajudado, graas a voc. Atravs da sua mediunidade, ele pde
desabafar, entender algumas coisas. Ele era muito apegado a voc. Desde que morreu,
nunca deixou de estar a seu lado.
-- Ele era assim mesmo. s vezes at me dava medo. Nunca vi tanto apego! Chegava
at a me incomodar!
-- Agora ele entendeu e vai deix-la em paz -- disse Amaro, calmo.
Ins sacudiu a cabea pensativa:
-- No sei, no. Custo a crer que ele tenha me deixado.
-- Deixou, sim. Foi levado pelos nossos amigos espirituais para um lugar de
recuperao onde, alm de receber ajuda para se reequilibrar, vai aprender a viver
melhor. S poder visit-la quando estiver em melhores condies -- confirmou
Marilda.
Ins suspirou:
-- Ele sempre implicou com Carlos. At depois de morto, ele o perseguiu. No entendi
bem o que ele quis dizer, o que ele fez para as coisas piorarem. Acho que ele gostou do
que aconteceu.
-- No pense nisso para no atra-lo novamente. Agora  sua vez de libert-lo. Ele
precisa retomar o prprio caminho -- tornou Amaro.
-- Por que ser que ele estava com medo de Carlos?
-- Procure no pensar nisso. Voc agora precisa cuidar da sua sade, recuperar suas
foras. Deixe-os em paz. Eles partiram e voc ficou. Significa que seu caminho agora 
diferente do deles.
Enquanto eles precisam aprender a viver no outro mundo, enfrentar seus problemas,
seguir para frente, voc ter que viver aqui, cuidando de seus filhos, aprendendo a
cuidar de si.  isso o que a vida deseja agora, e ela sempre quer o melhor -- disse
Marilda convicta.
--  verdade -- ajuntou Olvia com voz firme. -- Voc agora est livre para fazer o
que quiser. J pensou que maravilha?
Ins meneou a cabea negativamente:
-- Eu preferia que eles estivessem comigo. Sinto-me insegura, no sei o que fazer da
vida...
-- Se jogar fora o passado e pensar na sua felicidade, tenho certeza de que aprender
bem depressa! -- tornou Marilda sorrindo.
-- Eu e Olvia vamos comer alguma coisa, vocs nos acompanham?
-- O que aconteceu hoje me intriga. Eu gostaria de conversar mais -- disse Ins.
-- Infelizmente hoje no poderei demorar -- esclareceu Marilda.
-- Preciso voltar com ela -- disse Ins. -- Mas vocs poderiam ir para minha casa!
Comeremos alguma coisa e poderemos conversar mais um pouco! Depois do que me
aconteceu esta noite, SEI que no vou conseguir dormir.
Amaro olhou para Olvia que sorriu e respondeu:
-- Para mim, est bem. S que no vamos nos demorar muito, porque amanh terei que
acordar cedo.
Naquela noite, Elisa, vendo Ins aprontar-se para sair com Marilda, sentira-se triste. Sua
situao no se resolvia, e ela no suportava mais a falta de notcias dos seus. Carlos
parecia muito  vontade sem se preocupar com os problemas dela e dos demais que o
acompanhavam.
Depois que elas saram para o Centro, Elisa aproximara-se de Carlos:
-- Precisamos conversar. No posso ficar mais aqui. Tenho famlia, preciso cuidar dos
meus filhos e da minha vida. Por favor! Eu peo! Deixe-me ir embora. Juro que nada
farei que possa prejudic-lo. Ao contrrio. Estou cansada da organizao e no pretendo
voltar mais l.
Carlos olhou-a com certa indiferena.
-- Voc diz isso agora. Assim que sair daqui, vai procurar aquele covarde!
-- Juro que no! Eu mal o conheo. No tenho nada a ver com ele.
-- Mentira! Estava trabalhando para ele.
-- S aceitei, porque queria ajudar Ins. Tive pena dela. Agora estou arrependida. No
devia ter me envolvido nesse caso...
-- Mas se envolveu. Quando voc est por perto, Ins se acalma. Preciso de voc aqui,
ao lado dela.
-- Ela est melhor, j no precisa de mim.
-- Voc faz o que eu quiser, entendeu? - gritou ele pegando-a pelos ombros e
sacudindo-a com fora. Elisa tonteou e procurou segurar-se para no cair. No tinha
coragem de enfrent-lo. Receosa, disse com voz splice:
-- Est bem. Mas pense no que eu pedi.
-- Ela tem razo -- disse um dos homens que se aproximara. -- Isto aqui no est
certo. Estamos perdendo muito tempo. Eu tambm tenho negcios para tratar. No
posso ficar aqui toda vida  espera de que voc decida enfrentar Adalberto.
Carlos olhou-o irritado:
-- Voc no  como ela. Se quer ir, v. A porta est aberta. Mas depois no grite por
mim quando a organizao o prender. Sabe que eles no descansaro enquanto no nos
apanharem. Se quisermos vencer, teremos que ser mais astuciosos do que eles.
-- Esta calmaria me deixa nervoso! -- disse outro que ouvira suas palavras.
-- A mim tambm. Mas no podemos facilitar. Teremos que esperar. Aqui estamos
seguros.
Vendo intil suas rogativas, Elisa afastou-se postando-se a um canto do quarto de Ins,
mais uma vez lamentando sua ingenuidade ao envolver-se com eles. Triste, comeou a
rezar, implorando ajuda, pensando em Renata e em Amlcar. Lembrando-se de tudo
quanto lhe acontecera, Elisa deixava que as lgrimas corressem livremente, dando vazo
 angstia que sentia. O que seria dela dali para frente? Estaria destinada a ficar
prisioneira daqueles facnoras at quando? Estava cansada. Pediu a Deus que a ajudasse,
tirando-a daquela triste situao.
Sentiu-se mais calma depois disso. Naquele instante, percebeu uma claridade a um
canto do quarto, e Renata apareceu dizendo-lhe:
-- Hoje chegamos mais prximos  soluo dos problemas que os afligem. Adalberto
resolveu cooperar. Concordou em deixar Ins e Carlos em paz.
-- Nesse caso poderei ir embora?
-- Mais depressa do que imagina.
-- Se me ajudar, poderei ir agora.
-- Isso no ser possvel. Precisamos de voc a mais um pouco.
-- Se Adalberto se afastou, no haver mais briga. Eu posso cuidar da minha vida.
-- Temos que ajudar Carlos a compreender. Elisa meneou a cabea:
-- Esse nunca entender!  duro como uma pedra!
-- Deus tem seus prprios meios. Tenhamos f. Adalberto veio comigo e deseja falar-
lhe.
Elisa, admirada, viu entrar Adalberto plido, abatido, apoiado por dois enfermeiros.
Aproximou-se dela dizendo com voz triste:
-- Elisa, sei que est angustiada, mas no pude fazer nada para libert-la! Voc viu
como Carlos me ameaou... Em meio ao nosso sofrimento, percebi que voc  bondosa
e tem feito muito bem a Ins. Estou agoniado, no tenho foras para lutar mais,
compreendi que preciso afastar-me por uns tempos para refazer-me. Di muito deixar
Ins principalmente por ver que Carlos continua a, prejudicando-a como sempre.
Prometeram-me que ele tambm ir embora, que sua permanncia ao lado dela no ser
por muito tempo, por isso eu rogo a voc que no a abandone. Confio que voc tudo
far para ampar-la, caso ele tente algo contra ela.
Elisa, comovida, sentia que as lgrimas voltaram a cair. Onde estava aquele homem
orgulhoso, seguro de si, forte, cheio de pose que conhecera? Era difcil reconhec-lo
nesse ser inseguro e agoniado que lhe falava.
-- Gosto de Ins. Ela  to sofrida quanto eu. Farei tudo que puder para ajud-la.
Entretanto, sou fraca e no posso nada. Estou cheia de problemas e vivo angustiada
longe dos meus, prisioneira, sem saber o que vai ser da minha vida.
-- Segundo me disseram, as coisas vo mudar, e voc poder tambm resolver sua vida.
No volte  organizao. Eles esto enganados e no sabem o que esto fazendo. No se
iluda mais com eles. Ns precisamos ter a ajuda dos filhos da luz! -- A voz de
Adalberto era fraca, mas Elisa entendeu.
-- Tambm estou arrependida. No quero mais nada com eles. Se eu sair dessa, nunca
mais volto l.
-- Agora temos que ir -- tornou Renata. -- Continue rezando e confiando. Tudo vai
ser resolvido.
-- Por favor, acalme meu corao! Diga que a proteger! Confio em voc!
Elisa sentiu-se valorizada, olhou-o nos olhos dizendo firme:
-- Pode contar comigo. Ficarei atenta.
-- Qualquer coisa, pea ajuda, chame pela Renata.
-- Acalme-se, Adalberto. Ela sabe como fazer. Este lugar est sob nosso controle. Tudo
que acontecer aqui ns saberemos. Vamos embora.
-- Adeus, Elisa, beije as crianas por mim.
-- Adeus, Adalberto. Felicidades!
Quando eles se afastaram, Elisa sentiu-se mais animada. Sua liberdade estaria por
pouco. Dirigiu-se  sala temerosa de que Carlos houvesse visto algo. Encolhido a um
canto, ele no estava bem. Praguejava e andava de um lado a outro, inquieto. Um dos
homens aproximou-se dele dizendo:
-- O que foi? Voc no me parece bem.
-- As dores voltaram. De repente recomearam. Veja, este ferimento est novamente
sangrando.
-- Voc precisa de socorros mdicos. A situao pode piorar.
-- Vire essa boca pra l! Nada vai piorar. Vou ficar bom. Esqueceu que j passei pela
morte?
-- Por isso mesmo. E se no passar? Vai ficar sentindo isso quanto tempo?
-- J estava quase bom. No sei por que piorou. Vai ter que passar.
-- No sei, no... Precisa tratar-se. Carlos irritou-se:
-- De que jeito? Esqueceu que estamos presos aqui?
--  por isso que precisamos fazer alguma coisa. No podemos ficar aqui para sempre.
At voc que estava muito  vontade em sua prpria casa, agora comea a ficar ruim.
-- Comeo a pensar que tem razo. Esta situao comea a me cansar. E esta dor que
no passa?
-- Est sangrando muito. Tem que fazer alguma coisa para parar.
Realmente, os ferimentos de Carlos sangravam sem que ele pudesse fazer nada.
Instintivamente, passou pelo quarto onde Elisa estava e foi ao banheiro na tentativa de
procurar algo que o aliviasse.
Elisa, vendo-o, assustou-se:
-- Voc est mal! -- disse.
-- Estou, mas no  por isso que voc vai escapar. Estou de olho aberto.
-- Precisa de ajuda.
Ele sacudiu a cabea negativamente:
-- Ningum pode me ajudar.
-- Seu estado pode agravar-se. Ontem, seus ferimentos estavam s irritados, mas hoje
esto sangrando muito. Por que no procura ajuda?
-- No v que  impossvel? Estou preso aqui e se sair, Adalberto e os outros me
prendem de novo.
-- Voc no precisa sair para obter ajuda.
-- Voc sabe o que fazer para estancar o sangue?
-- No. Mas conheo algum que pode.
-- Voc  da organizao. No quero nada com eles. Est me armando uma...
-- Est enganado. Tambm no quero nada com a organizao. Por causa deles me meti
nesta confuso. Quando me livrar, tjuro ficar bem longe deles.
-- Est me dizendo a verdade? Voc tem raiva de mim, por isso me ajudaria?
-- No gosto de voc, isso  verdade. Mas no posso ver ningum sangrando desse jeito
sem ajudar. Sou humana e nunca fiz mal a ningum. Voc no me conhece.
Carlos olhou-a firme como que querendo penetrar seus pensamentos. Depois disse:
-- Estou lavando as feridas, mas o sangue no pra. Se ao menos eu soubesse um
remdio...
-- Isso eu no sei. Mas conheo uma pessoa que tem me Ajudado muito desde que
fiquei prisioneira. Talvez possa ajud-lo.
Ele olhou-a desconfiado:
-- No vi ningum estranho aqui. Como entrou e eu no percebi?
-- Ela s fica visvel quando quer e para quem quer. Tem muitos poderes. Eu estava
muito angustiada e se no fosse por ela, nem sei o que teria sido de mim.
-- Se tivesse mesmo poder, teria libertado voc. Por que no o fez?
-- Por que ela quer que eu fique mais um pouco perto de Ins. Diz que preciso ajud-la.
Carlos fez um gesto ameaador:
-- No quero estranhos aqui! Avise-a que no aparea mais. Se a encontro, ela vai se
arrepender.
Elisa deu de ombros dizendo:
-- Voc  quem sabe! Est sofrendo, se acabando, precisando de ajuda e continua
maldoso. No direi mais nada. Arranje-se como puder. Se lhe acontecer algo pior, a
culpa  s sua.
Ele ameaou agredi-la respondendo com raiva:
-- Saia da minha frente. No preciso da sua ajuda.
Elisa saiu do banheiro e foi at a sala exatamente quando Ins abriu a porta e, para sua
surpresa, Olvia e Amaro entraram com ela. Emocionada, Elisa abraou Olvia chorando
copiosamente.
Olvia, embora no a pudesse ver, foi acometida de grande emoo. Era pessoa
controlada, no se emocionava com facilidade. Entretanto, sentada no sof, a custo
continha o pranto. Amaro olhava-a preocupado e no se conteve:
-- O que foi, Olvia. No se sente bem?
-- Aconteceu uma coisa estranha. Meu corao disparou e sinto muita vontade de
chorar. Eu estava to bem...
-- Foi s entrar aqui... -- disse Ins que se sentara tambm depois de pedir a Janete que
providenciasse o lanche. -- Tenho chorado muito, e voc deve ter sentido essas
energias. Marilda me disse que quando eu choro e lamento, estou poluindo o ambiente
de minha casa, enchendo-o de energias ruins, prejudicando minha famlia. No acreditei
muito, mas agora vendo voc, penso que ela estava certa.
-- No sei se foi isso -- respondeu Olvia, pensativa. -- Apesar da vontade de chorar,
no sinto tristeza, ao contrrio,  uma sensao de alvio, alguma coisa muito familiar
que no sei o que .
-- Seria bom trazer alguns mdiuns aqui para uma reunio -- sugeriu Amaro. -- Sinto
que ajudaria muito sua recuperao.
Carlos, que os observava, no gostou da idia. Aproximou-se de Amaro e disse-lhe com
raiva:
-- V embora. Ningum o chamou aqui. Se tentar fazer o que diz, vai se arrepender.
Amaro registrou certo mal-estar, mas controlou-se. Havia percebido alguns vultos
escuros  sua volta. Continuou calmamente:
-- Seria uma forma de receber a ajuda dos bons espritos.
-- Eu gostaria muito. Antes de ir ao Centro no dia da sesso, fico inquieta, nervosa,
sinto receio de ir. No entanto, eu vou e volto sempre melhor. Penso que se eles viessem
rezar aqui em casa, todos nos sentiramos melhor.
--  verdade. Se voc quiser, falarei com os dirigentes e poderemos marcar para a
semana que vem.
Carlos irritou-se ainda mais. Avanou em Amaro dizendo:
-- Probo-o de fazer isso! Era s o que me faltava!
Amaro sentiu o impacto e fechou os olhos orando em silncio. Sentia-se mal e seu corpo
cobrira-se de frio suor.
-- O que foi? -- indagou Olvia, assustada. -- Est se sentindo
mal?
-- Rezem -- disse ele -- ajudem-me.
Elas comearam a rezar maquinalmente, mas estavam assustadas demais para pr
sentido na orao.
-- Preciso receber um esprito -- disse Amaro. -- Vocs precisam conversar com ele.
-- No sei como fazer isso! -- disse Ins, apavorada.
-- Olvia pode. No d para esperar mais! -- disse ele fazendo enorme esforo para
controlar-se.
-- Est bem -- tornou Olvia, decidida. -- Tentarei.
Elisa, abraada a Olvia, tentava proteg-la. Temia que Carlos e seus homens em sua
revolta tambm a agredissem.
Amaro concordou e em seguida comeou a contorcer-se na cadeira gemendo e gritando
com voz rouca:
-- Vo embora! No quero ningum aqui. Se tentarem alguma coisa, vo se ver
comigo.
-- Acalme-se -- disse Olvia -- no vamos fazer-lhe mal.
--  mentira. Vocs todos esto contra mim, querem afastar-me de Ins. Mas no vo
conseguir. Ela me pertence, entenderam?  minha. S faz o que eu quero. Sempre foi
assim e sempre ser.
-- No estamos contra voc -- respondeu Olvia -- s queremos ajud-lo.
-- No creio. Vocs querem  o meu fim. Mas no vo conseguir. Sou forte e nada vai
me tirar daqui.
Elisa resolveu intervir. Lembrou-se das aulas de magnetizao e, colocando a mo na
testa de Olvia, procurou transmitir-lhe seus pensamentos e percebeu com satisfao que
ela repetia suas palavras:
-- Veja como voc est mal. Voc precisa de atendimento mdico. No pode ficar
como est. At quando vai agentar?
-- Eu agento. Sei que vai passar.
-- Suas feridas sangram e, a cada dia, vo piorar at que sem foras voc perca os
sentidos. Nesse dia, ser arrebatado pelos seus inimigos que s esperam isso para
apanh-lo.
-- Como sabe? Quem lhe contou isso?
Elisa viu que Amlcar se aproximara envolvendo Olvia que Imediatamente respondeu:
-- Viemos ajud-lo. Podemos lev-lo a um hospital onde ser tratado. Precisa curar
seus ferimentos.
-- Que garantia me do que no vo prender-me?
-- No vamos prend-lo. Mas para atend-lo, voc precisa
prometer que vai obedecer o tratamento, cooperando com os mdicos e fazendo o que
eles disserem.
-- E se eu no quiser?
-- Ficar como est. No temos tempo a perder com quem no quer se ajudar.  uma
chance que voc tem.  pegar ou largar.
-- Depois poderei voltar aqui?
-- S quando estiver muito melhor. De que lhe adiantaria vir sem estar curado para
comear tudo de novo?
-- O que vo querer em troca dessa ajuda?
-- Que obedea a disciplina do hospital.
-- No posso sair daqui. Se eu sair, o Adalberto vai voltar.
-- Ele foi ajudado hoje e concordou em deixar Ins em paz.
-- No creio.
-- Se for conosco, vamos mostrar-lhe onde e como ele est.
-- Vocs tm poder para isso?
-- Deus pode tudo. Agora vamos. Quanto antes comear seu tratamento, melhor.
-- Se eu sair, meus amigos sero presos. Nossos inimigos esto esperando do lado de
fora.
-- Se eles quiserem ir, poderemos lev-los conosco para nossa colnia, desde que
concordem em atender a disciplina. Garanto que no iro se arrepender.
-- Vou perguntar-lhes. -- Amaro fez alguns segundos de silncio, depois continuou: --
faro qualquer coisa para se livrarem da organizao.
-- Muito bem. O tempo urge. Vamos embora -- disse Olvia.
-- Eu vou, Ins. Mas eu volto. Adeus.
Amaro suspirou, estremeceu e abriu os olhos. Olvia deixou-se cair em uma poltrona
olhando admirada para Ins que soluava.
-- Era ele! -- disse ela por fim. -- Senti que era ele! Meu Deus, ele estava aqui
sangrando o tempo todo e eu nunca vi. Por isso, me sentia to aflita. Os dois se foram, o
que ser de mim agora? Que farei da vida sem eles? Eu quero ir com ele... quero morrer
tambm...
Olvia levantou-se e, aproximando-se de Ins, disse-lhe com voz diferenciada:
-- Como voc  boba! Agora est livre! Deveria festejar, gritar de alegria. No sabe do
que se livrou. Se eu pudesse estar a, em seu lugar, com meus filhos, no ia fazer
questo nenhuma daquele meu marido sem-vergonha e traidor. Abra os olhos, Ins,
voc tem
dinheiro, tem uma linda casa, dois filhos saudveis.  moa e bonita. O QUE est
esperando para viver? Ah! Se eu estivesse em seu lugar, que feliz seria! Todos os dias
agradeceria a Deus a bno da vida! T enxugue suas lgrimas e de hoje em diante seja
voc mesma. Faa O QUE lhe d vontade. Aproveite.  s o que eu posso dizer.
-- Quem  voc? -- indagou Ins, curiosa. -- Parece-me familiar.
-- Faz tempo que estou com voc. Estava aqui presa, primeiro pelo Adalberto, depois
pelo Carlos. Agora estou livre para ver meus filhos e fazer o que eu quero. Nunca mais
vou me prender. queria lhe dizer que tive muita pena dos seus sofrimentos. Eu tambm
fui como voc, mas aprendi que no vale a pena. Se quando estava no mundo, eu
soubesse o que sei hoje, tudo teria sido diferente. Agora  muito tarde para mim, mas
voc ainda est a, com seus filhos, tem tempo de recomear. Acredite, chorar por um
homem desleal e malvado,  intil. Voc pode viver melhor. No se acovarde. Antes,
agradea a Deus por haver se livrado dele.
Amaro aproximou-se de Olvia dizendo com voz suave:
-- Agora est tudo bem. Voc est livre. Amlcar me disse que veio busc-la.
-- No posso -- respondeu Olvia. -- Preciso ver meus filhos.  com eles que quero
ficar.
--  impossvel. Voc precisa refazer-se. Quando estiver bem, poder visit-los, ajud-
los.
-- Eu preciso v-los! Estou me libertando deles e me tornando prisioneira de vocs?
-- No se trata disso. Voc vai apenas para equilibrar-se. se ficar sozinha, pode lhe
acontecer algo pior. Precisa aprender a proteger-se. Estou informado de que voc tem
condies de viver melhor. Se houvesse atendido nosso apelo tempos atrs, no teria
sofrido o que sofreu.
Olvia suspirou enquanto lgrimas desciam pelo seu rosto plido. Amaro colocou a mo
sobre sua testa dizendo:
-- Agora v. Deixe Olvia em paz. Quando se sentir melhor, poder voltar.
-- Olvia, cuide das crianas por mim! Eu deveria ter ouvido voc! Por que no a
escutei? Estou sofrendo muito! Por favor, no deixe outra mulher tomar conta delas.
Faa isso por mim! Eu lhe peo! S confio em voc!
Olvia tremia como folha sacudida pelo vento. Amaro percebeu que ela estava no limite
de suas foras. Por isso, rezou pedindo A Amlcar que a socorresse.
Amlcar aproximou-se de Elisa que, abraada a Olvia, chorava copiosamente:
-- No faa isso. Voc a est perturbando. Se prometer obedecer, levarei voc para ver
as crianas.
Imediatamente, Elisa parou de chorar e concordou. Olvia respirou fundo dizendo:
-- Eu vou. Quando puder, voltarei para conversar. Adeus. Olvia tonteou e teria cado
se Amaro no a houvesse amparado, fazendo-a sentar-se no sof. Estava gelada e seu
corpo estremecia de vez em quando.
-- Calma, Olvia. Ela j se foi. Vai passar -- disse Amaro enquanto trabalhava com as
mos, tirando as energias perturbadoras que Olvia absorvera.
Dentro de alguns minutos, ela sentiu-se melhor. Ins trouxe lhe um copo com gua e ela
bebeu alguns goles. Depois, olhou para Amaro dizendo aflita:
-- No sei o que aconteceu comigo. Acho que estou misturando as coisas. No posso
entender. Desde que entrei aqui, me emocionei, senti a presena de Elisa. No sou
sugestionvel. O que aconteceu? Todo tempo eu falava como se fosse ela! De tanto
desejar v-la, ser que eu criei tudo isso? No foi animismo? Eu no sou mdium!
Amaro olhou-a calmo e respondeu:
-- Voc  mdium. Lembra-se de como se sentiu quando foi ao Centro pela primeira
vez? Tenho observado voc. Tem muita sensibilidade. Percebe os fatos rapidamente.
-- Mas e hoje, o que aconteceu? Foi fantasia minha?
-- No. Por incrvel que possa parecer, Elisa estava aqui quando chegamos. Foi ela
quem falou conosco a pouco. Estou certo disso. Eu a vi abraada a voc, chorando
muito.
-- Foi por isso que me emocionei tanto quando cheguei. Ela estava aqui! Disse que era
prisioneira. O que estaria fazendo? Por que estava com Ins? Ela falou como se a
conhecesse bem. Quando Elisa era viva, ns no a conhecamos. No posso entender.
-- No posso responder isso. O que sei  que era ela e que falou atravs de voc o
tempo todo. Sou mdium consciente. Enquanto Carlos falava atravs de mim, no era
voc quem conversava com ele, era Elisa.
-- Por isso, as palavras me vinham com tanta facilidade. Parecia-me v-lo sangrando,
plido, sofrendo. Como podia saber o que estava acontecendo com ele?
-- Elisa sabia, e voc percebia os pensamentos dela. 
Muito comum. Quando um esprito desencarnado nos envolve, seus pensamentos
misturam-se aos nossos e fica difcil diferenci-los. Podemos perceber isso quando
desconhecemos certos fatos e nos diferimos a eles, quando sentimos ou pensamos coisas
que so muito diferentes dos nossos pensamentos habituais.
-- Elisa chorava, no estava bem. Tanto tempo depois de sua morte, ainda sofre?
-- Ela amadureceu, tenho certeza. Pelos conselhos que deu a Ins, podemos perceber
como ela se modificou.
--  verdade. Ela pensava muito diferente.  triste descobrir que ela est sofrendo.
-- No deve levar a srio esse sofrimento. Ela se emocionou vendo-a, sentindo sua
proximidade. Junto a voc, deve ter sentido mais saudades dos filhos. Mas ela
concordou em seguir com Amlcar, e esse fato foi o mais importante. Eu sabia que ela
estava revoltada e no queria obedecer as orientaes dos espritos superiores que
pretendiam ajud-la. O mundo astral  muito perigoso para quem, sem conhecimento de
como ele funciona, resolva enfrent-lo. principalmente, pretendendo usar os conceitos
que aprendeu no mundo. Cedo descobrir o quanto estava despreparado.  o que deve
ter acontecido com Elisa.
-- E agora, o que acontecer a ela? -- perguntou Olvia.
        -- Se ela atender a disciplina, melhorar a cada dia e logo estar em condies
de visitar a famlia, sem perturbar ningum e at podendo ajud-los com energias
positivas.
-- Ela no quer que outra mulher tome conta das crianas. pediu que eu tome conta
delas. Senti isso muito forte. Todo desespero dela concentra-se nisso. Acho at que ela
j no ama o marido como antes. Senti que ela o despreza.
--  um problema difcil. Com o tempo, ela ter que compreender que no  dona dos
filhos. Eles tero que seguir seu prprio destino e s Deus sabe o que lhes est
reservado. Conheo Eugnio.  um homem romntico, no vai ficar sozinho o resto da
vida. Qualquer dia destes vai se casar de novo. Elisa no poder fazer nada.
-- Ela pediu para eu tomar conta deles. Eu os quero bem, como se fossem meus filhos.
Mas voc sabe como eu penso. A responsabilidade  do pai. Eu no posso querer tir-las
dele. Mesmo sendo como ele , percebi que mudou muito desde que assumiu as
crianas.
-- Eugnio  melhor do que voc pensa.
-- Ele  seu amigo. Voc gosta dele.
-- Gosto mesmo. Para ser franco, acho que tudo aconteceu
por causa da sua honestidade. Se ele continuasse enganando Elisa ela nunca perceberia.
Ele foi sincero, no a amava mais e no desejava engan-la por mais tempo. Isso no 
defeito. Para mim, chega a ser qualidade. Ningum manda nos sentimentos. Voc os
sente, a a vontade no tem nada com isso.
-- . Pode ser que tenha razo, olhando desse lado. Elisa era muito boba. Cansei de
abrir-lhe os olhos.
-- Nenhum homem gosta de ver na esposa apenas a me, ele precisa de algo mais, ele
precisa da mulher, do amor.
-- Pelo que estou entendendo, o esprito da irm de Olvia estava aqui em casa, comigo.
Foi isso? -- interveio Ins.
-- Sim. No podemos entender por que, mas a vida tem seus prprios caminhos --
esclareceu Amaro.
-- Pelo jeito, ela sofreu com o marido, tanto quanto eu -- continuou Ins, interessada.
-- Muito -- respondeu Olvia. -- Ela era muito ingnua. Tudo era para ele, ela se
apagava para que ele brilhasse. Cansei de dizer-lhe que estava errada. Ela no se
cuidava, e ele estava sempre bem, at o dia em que fez a mala e lhe disse que ia embora
com outra.
-- Voc me contou do acidente. Foi por causa dele.
-- Foi.
-- Ele no teve culpa. Nunca pensou que ela fosse sair feito louca pelas ruas. Se houve
culpa, foi dela -- disse Amaro srio.
-- Ela estava cega de dor! -- tomou Ins. -- Se me acontecesse a mesma coisa, nem sei
o que teria feito.
-- Ningum  dono de ningum. As pessoas tm o direito de decidir o prprio caminho.
Voc est iludida. Agarrar-se aos outros, nunca vai dar-lhe felicidade.
-- Felicidade! -- repetiu Ins com amargura. -- Isso no existe. No faz parte deste
mundo.
-- Voc est enganada. Felicidade existe e  possvel a qualquer pessoa conquist-la --
respondeu Amaro.
-- Se isso fosse verdade, no haveria tanto sofrimento no mundo -- retorquiu ela.
--  que para ser feliz  preciso encontrar o caminho. Por enquanto, o que vai pelo
mundo s nos mostra que muitos ainda esto dentro de velhos conceitos, de valores que
nunca deram certo e se recusam a deix-los para tentar algo melhor. Voc se lamenta,
mas continua vivendo h vrias encarnaes, dentro dos mesmos padres de
pensamentos. No percebe que enquanto continuar com as mesmas atitudes, as mesmas
idias, as mesmas crenas, sua
vida vai continuar igual? -- esclareceu Amaro.
-- Como ter certeza de que preciso fazer algo diferente? pois, sinto-me fraca, sem
foras. Como enfrentar a vida principalmente agora, sozinha e desamparada?
--S voc  responsvel pelo que lhe acontece. So suas atitudes que determinam os
fatos de sua vida. Se tudo vai mal, se no est feliz,  porque no tem agido no seu
melhor. No acredita que seja capaz, que tenha capacidade para viver bem. Isso no 
verdade. Todo o poder est dentro de voc. Pendurando-se nos outros, est negando a
prpria fora. Por isso se sente fraca, mas eu garanto que poder retom-la quando
quiser. Basta confiar em voc. Prestar ateno e descobrir o que sua alma sente.
Obedecer seus sentimentos, no fazer o que os outros determinam. Alm disso, voc
no est sozinha nem desamparada. Tem dois filhos e ajuda espiritual.
-- Acha que eu seria capaz de conduzir minha vida?
-- A sua e a de seus filhos, at que tenham idade suficiente.
-- Voc diz isso para me animar.
-- Engana-se. Se Deus confiou em voc deixando duas crianas em suas mos, por que
eu deveria duvidar? Ele sempre faz tudo certo -- concluiu Amaro com um sorriso.
--  verdade -- interveio Olvia. -- O mesmo aconteceu com Eugnio. Deus levou
Elisa e deixou as crianas nas mos dele. A princpio duvidei que ele tivesse condies
de fazer isso. Mas, agora, depois de dois anos, devo confessar que ele saiu-se bem. As
crianas esto alegres, saudveis, e ele cuida de tudo. At Marina, que era to revoltada,
parece que anda s boas com ele. Tenho notado que ela nunca mais se referiu a ele com
raiva e at anda se chegando mais.
-- Eugnio  muito amoroso e adora as crianas. Quando um sentimento  verdadeiro,
tem muita fora.
-- Se ele se casar novamente, as coisas podero mudar. As crianas tm muito cime
dele. A Lourdes  pessoa agradvel e bondosa. O Eugnio tem se esforado para que
gostem dela, mas tenho observado que a tratam com frieza e m vontade -- tornou
Olvia.
Amaro deu de ombros ao dizer:
-- Ele tem todo direito de refazer sua vida afetiva. Assim como eles tambm um dia
escolhero seu prprio caminho. Quando chegar a hora, tero que compreender.
-- Se ele est muito ligado aos filhos, pode resolver no se
casar s para no mago-los -- considerou Ins.
-- Eugnio nunca far isso! -- disse Olvia. -- Ele abandonou Elisa e far o mesmo
com os filhos, se encontrar um novo amor. Vocs vo ver.
-- Voc acha isso errado? -- indagou Amaro. -- Pensa que ele no deveria casar-se
novamente?
Olvia ficou pensativa durante alguns segundos. Depois disse:
-- Seria bem melhor. Casar para qu? Ele pode continuar tendo seus casos como at
agora e no impingir para as crianas uma madrasta.
-- Voc tambm tem medo que ele se case?
-- Tenho. Quando ele colocar outra mulher dentro de casa, no terei mais liberdade de
cuidar das crianas como at agora. Depois, tenho certeza de que elas iro se revoltar.
Principalmente Marina.
Amaro olhou-a srio ao dizer:
-- Apesar das aventuras e do movimento que Eugnio faz, eu sei que ele ainda no
amou de verdade. Gostava de Elisa, mas amor, mesmo, no foi.
-- E a Lourdes?  bonita, e ele na boate parecia muito apaixonado -- disse Olvia.
-- Parecia. No domingo, estava inseguro e no sabia o que queria. No  amor, no. O
dia em que ele amar de verdade, tenho certeza que se casar e ningum conseguir
impedir. Mesmo que voc duvide, o Eugnio  sincero.
-- Para mim, ele  volvel. Pula de aventura em aventura.  incapaz de um sentimento
verdadeiro.
Amaro meneou a cabea negativamente:
--  justamente o contrrio. Por no gostar de fingir, ele troca de namoradas. O que ele
est fazendo so tentativas de encontrar aquela que ele imagina existir em algum lugar.
A princpio se entusiasma, mas com o tempo acaba percebendo que no ama e desiste.
-- Vocs, homens, arrumam desculpas para a leviandade -- disse Olvia.
-- Meu marido nem isso fazia. Tinha outras mulheres e se orgulhava disso -- tornou
Ins, amargurada.
-- Vocs esto olhando a superfcie. No conheci seu marido. No posso opinar.
Porm, Eugnio eu conheo bem. Somos amigos h muitos anos. No  leviano. Vocs
esto muito amargas e generalizando. H homens muito sinceros e capazes de amar com
grande dedicao e sinceridade.
-- Se ele casar-se novamente, quem nos garante que um dia no v fazer o mesmo que
fez com Elisa?
-- Voc no pode garantir seus sentimentos pelo resto da vida. Voc os sente ou no.
Voc muda, as coisas mudam, a vida traa outros rumos para as pessoas. Nada pra.
Como afirmar que vai amar para sempre? Um relacionamento entre pessoas que se
respeitam, vai gerar amizade que pode estender-se por vrias reencarnaes. Mas aquele
algo mais que faz o corao bater mais forte, que coloca magia num simples toque, que
enche a vida de beleza e de motivao, ningum pode comandar. Quando acontece e
encontra reciprocidade,  um encantamento. Quando acaba, no h nada que se possa
fazer, seno dizer adeus. Insistir, tentar reacender a chama, s vai destruir as boas
lembranas que ficaram. Voc, Olvia, j amou alguma vez?
-- No. Pretendo viver em paz. O amor  desgastante.
-- Quando acontecer, no poder controlar -- respondeu Amaro sorrindo.
-- Qual nada. No me impressiono nem me envolvo com facilidade. Gosto de namorar,
mas no pretendo ir alm. No quero perder a liberdade. Vocs, homens, adoram
mandar, e eu no gosto de obedecer. S fao o que sinto vontade. Desde cedo habituei-
me a cuidar da minha vida e tenho me sado muito bem. Sou independente e no saberia
viver de outra forma.
-- No pretende se casar, ter filhos? -- indagou Ins, admirada. -- Deseja ficar sozinha
pelo resto da vida?
Olvia deu de ombros.
-- Nunca rejeito uma boa companhia. Tenho muitos amigos, namoro quando encontro
algum interessante. Quanto a crianas, tenho os meus sobrinhos. Est muito bom
assim. O futuro no me preocupa. Ainda mais agora que Amaro afirma que a vida cuida
de tudo para o nosso melhor. O que tiver que ser, ser.
Nos olhos de Amaro, havia um brilho indefinvel quando ele disse:
-- Tem razo, Olvia. O que tiver que ser, ser

Captulo 23

Elisa levantou-se e dirigiu-se  janela abrindo-A. O sol entrou invadindo o quarto
simples, mas confortvel. O dia estava lindo, porm ela no prestou ateno, imersa em
seus pensamentos ntimos. Que horas seriam? Percorreu o olhar pelo aposento E pensou:
estava sozinha. O que seria dela dali para frente? Como suportar a vida longe dos que
amava?
Na noite anterior, Amlcar incumbira Renata de acompanh-la at sua antiga casa para
ver os filhos. Enquanto se dirigiam para l, Renata dissera:
-- Voc est emocionada, mas precisa dominar-se para no perturbar as crianas.
Lembre-se que essa  a condio para que possa voltar a v-los sempre que quiser.
--  verdade mesmo? Poderei v-los sempre?
-- Poder, desde que sua presena no lhes cause problemas.
-- Eu nunca faria nada que os perturbasse.
-- Voluntariamente, no. Mas se no dominar suas emoes,  isso que vai acontecer.
-- Estou saudosa. Sinto vontade de abra-los, beij-los. No poderei fazer isso?
-- Pode, desde que no misture sentimentos negativos. S alegria, amor, felicidade.
No  isso o que deseja para eles?
-- . Farei tudo para v-los felizes.
-- Ento comece agora.
Entraram. Passava das onze e as crianas dormiam tranqilas. Eugnio, acordado, lia
sentado na poltrona da sala. Vendo-o, Elisa fez um gesto de contrariedade. Renata
observou:
-- Controle-se. No se deixe dominar por seus sentimentos passados.
--  difcil no lembrar -- respondeu ela, triste.
-- Faa um esforo. Um dia compreender que tudo aconteceu da melhor maneira.
-- Depois de tanto tempo, ainda di.
-- Eu sei. Mas perdoe. Esquea. Voc agora est comeando uma vida nova. Deixe o
passado ir embora e junto com ele, as mgoas e as tristezas.
Elisa suspirou, ficou pensativa durante alguns segundos depois disse:
-- Tem razo. Pensei que houvesse esquecido tudo.
-- Em suas condies, reencontrar o passado ajuda a repensar e a ver os fatos de uma
maneira renovada. Aproveite. Limpe sua alma de qualquer sentimento de revolta.
Entregue todos seus problemas nas mos de Deus. Lembre-se que toda a mgoa que
cultivar no corao machucar apenas a voc, impedindo-a de encontrar a felicidade.
Liberte-se dela!
-- Tem razo. Depois do que me aconteceu, s tenho me machucado inutilmente. Por
causa da minha raiva foi que me meti naquela confuso. Muitas vezes me arrependi de
no haver escutado vocs.
-- Ainda bem que compreendeu. Vamos ver as crianas. Uma vez no quarto, Elisa
aproximou-se de cada uma, contemplando-as com amor, beijando-as com carinho.
-- Elas so todo meu tesouro -- disse.
-- Elas so espritos livres, antes de tudo -- considerou Renata. -- No se esquea
disso.
Elisa, embevecida, no se cansava de contempl-los.
-- Veja como esto crescidos! At Nelinha est grande! Meu Deus! O que eu no daria
para poder estar no mundo, vivendo ao lado deles!
--  preciso conformar-se, Elisa. A vida age sempre pelo melhor. Agora temos que ir.
-- Quanto tempo ficarei impedida de vir v-los?
-- No sei. Vai depender de voc. Se continuar como at aqui, no vai demorar.
-- Eles esto adormecidos. Onde estaro seus espritos? Uma vez, voc levou Nelinha
para ver-me. Gostaria de poder encontr-los, falar com eles.
-- No momento no  possvel. Eles esto em um lugar de recreao astral. Sentem
muito sua falta e, por isso, muitas noites so levados para l a fim de renovar energias.
-- Quando eu estiver melhor, podero vir ver-me?
-- De vez em quando, sim. Tudo vai depender de como eles vo reagir  sua presena.
Como so pequenos, podero apegar-se,
o que no seria conveniente. Para voc,  tempo de viver aqui no astral. Para eles, 
tempo de viver na Terra. Tudo anda melhor quando obedecemos os ciclos da natureza.
Elisa permaneceu mais alguns minutos junto aos filhos, beijando-os novamente e
concordou em ir embora. Lutou com as lgrimas, mas, no fim, elas correram por suas
faces, e ela procurou desculpar-se:
-- Sinto muito. No queria chorar. Renata abraou-a:
-- Voc  valente. Vai conseguir.
Elisa procurou sorrir e abraadas, as duas deixaram a casa. Uma vez fora, Renata passou
o brao na cintura dela dizendo:
-- Vamos viajar acima da faixa da organizao dos justiceiros, para evitar encontros
desagradveis.
Elisa olhou-a admirada:
-- Voc pode fazer isso?
-- Ns podemos. Vamos.
Elisa sentiu-se impulsionada para o alto e maravilhou-se com a leveza que sentia. 
medida em que subiam, o cu ia ficando mais claro e a noite mais estrelada e bonita.
Passaram por campos, montanhas, e Elisa encantava-se olhando as cidades terrenas l
em baixo, que iam ficando cada vez mais distantes.
Por fim chegaram a uma muralha cujo comprimento se perdia na escurido da noite, e
Elisa no pde precisar. Pararam frente a um enorme porto, e Renata acionou um
pequeno aparelho que trazia  cintura. Uma voz fez-se ouvir, perguntando quem era.
Renata deu o nome e um cdigo, e logo um espao se abriu na lateral do porto.
Entraram em um enorme jardim, cortado por ruas largas fartamente iluminadas. Elisa
surpreendeu-se com o movimento de pessoas que circulavam, apesar do adiantado da
hora.
Renata sorriu e explicou:
-- Aqui no precisamos dormir tantas horas como na Terra. Podemos aproveitar melhor
o tempo.
-- As pessoas tm aparncia alegre, agradvel, muito diferente das que havia na
organizao... -- Elisa calou-se embaraada.
--  isso mesmo. O nvel aqui  melhor. A maioria superou aquela fase. Vou levar voc
para seus aposentos. Precisa descansar, refazer-se. Amanh ser outro dia. Voc vai
comear uma nova vida!
Elisa, emocionada, entrou com ela em um belssimo prdio, onde a apresentou a uma
atendente que abraou-a dizendo:
-- Seja bem-vinda. Meu nome  Wanda.
Depois de despedir-se de Renata, Wanda conduziu Elisa no segundo andar, abrindo a
porta do quarto e dizendo:
-- Sobre o toucador tem alguns produtos aromticos, as indicaes esto no rtulo.
Sobre a mesa, h sucos e algumas frutas. Tudo que est aqui pode ser consumido,
utilizado. Foram preparados para voc. No deixe de utiliz-los. Aproveite para
descansar. Durma bem.
Quando ela se foi, Elisa olhou curiosa para o aposento onde havia alguns mveis muito
parecidos com os da Terra, em estilo clssico do comeo do sculo. Aproximou-se do
guarda-roupa e olhou-se no enorme espelho oval da porta.
Assustou-se com sua aparncia. Estava magra, abatida, cabelos em desalinho, o vestido
roto. Gostaria de tomar um banho, mas como, se ali no havia banheiro nem chuveiro?
Aproximou-se do toucador e apanhou um frasco cheio de um lquido cor de cenoura. No
rtulo leu "Creme restaurador", utilizar depois da limpeza, aplicando de forma circular.
Havia vrios, cada um de uma cor. Ela os leu e depois resolveu experimentar. Tirou o
velho vestido e abriu o frasco azul que era indicado para usar primeiro. Foi passando no
corpo e logo uma sensao agradvel de frescura a envolveu. Seguindo a indicao,
esperou alguns instantes e aplicou o creme restaurador. Imediatamente sentiu forte
sensao de calor e de bem-estar. Escovou os cabelos, pulverizando neles os frascos
conforme indicao. Depois disso, sentiu-se bem como h muitos anos no se sentia.
Abriu o guarda-roupa e tirou uma tnica verde claro, de tecido leve e macio que a
encantou.
Sentou-se  mesa e ficou indecisa diante dos trs frascos de suco. Cada um era de uma
cor. Escolheu o laranja e o experimentou. Era grosso, mas ao mesmo tempo, leve. Tinha
o cheiro de uma fruta que ela no conseguiu identificar e o gosto muito agradvel.
Tomou tudo. Depois, sentiu-se relaxada e confortvel. H quanto tempo no conseguia
dormir? Deitou-se na cama macia que pareceu abra-la delicadamente, provocando um
sono irresistvel.
Olhando o sol pela janela, concluiu que deveria ser muito tarde. Por que dormira tanto?
O que deveria fazer agora? Como proceder naquele primeiro dia?
Algum bateu levemente e Elisa foi abrir.
-- Bom dia, Elisa. Meu nome  Vera. Dormiu bem?
-- Muito bem. Fazia muito tempo que eu no dormia tanto. Entre, por favor.
-- Parece estar muito bem -- respondeu Vera entrando e sentando-se na poltrona.
Ansiosa por conversar, Elisa sentou-se na outra poltrona ao lado dela e continuou:
-- Estou s. No sei o que fazer. Sinto-me ansiosa. Sei que vocs so muito bons, mas
eu tenho medo de no fazer bem minha parte. Sinto-me insegura.
--  natural. Logo conhecer pessoas, far amigos, se sentir  vontade.
-- Estou me sentindo muito sozinha. Deixei toda minha famlia.
-- A solido tem um recado: est na hora de ficar com voc. De se conhecer e de
aprender a cuidar de si.  para isso que ela aparece.
-- Mas  triste e di muito. Sempre coloquei os outros em primeiro lugar. Fui dedicada
e amorosa. Apesar disso, fui rejeitada e atirada a esta solido. Isso no  justo.
-- Voc se abandonou durante muito tempo.
-- Cumpri meus deveres de mulher e me!
-- No cumpriu o dever mais importante que era cuidar de voc! No construiu sua
felicidade interior, no alimentou seu esprito. Projetou-se nos outros, colocou sua
felicidade nas mos deles e quando eles no assumiram essa posio, voc revoltou-se.
Com a revolta, provocou o acidente que a vitimou.
Elisa sentiu que as lgrimas desciam pelo seu rosto enquanto dizia:
-- Eu fiz tudo por ele e por nossos filhos. O dever dele era fazer o mesmo por mim.
-- Ele no  voc. Tem sua prpria maneira de sentir e de pensar. Querer que os outros
faam isto ou aquilo  uma iluso que continua infelicitando as pessoas. Para ser feliz e
viver bem em qualquer lugar, mesmo aqui,  preciso aprender a respeitar o espao de
cada um. A liberdade de pensar e de ser  que permite s pessoas serem mais
verdadeiras.
-- Quisera pensar como voc. Mas no consigo.
-- Voc no quer deixar de lado as velhas iluses. Um dia descobrir o quanto elas
complicaram sua vida.
-- Tem razo. O amor no existe. A sinceridade  iluso. Os homens so hipcritas e
malvados. Nunca mais vou amar ningum.
Vera sorriu:
-- No seja to amarga, Elisa. Tudo passa e tudo muda. Seu dia chegar. Daqui meia
hora voc tem uma entrevista com o diretor desse andar -- disse Vera levantando-se. --
Est precisando
de alguma coisa? Tudo que quiser, pode falar comigo. Estou aqui para ajud-la. Est
vendo esse aparelho ao lado da cama? O boto cinco  o meu. Durante o dia, sou eu, 
noite  a Wanda. Elisa levantou-se dizendo:
-- Eu preciso saber como as pessoas vivem aqui. Isto , as roupas, como eu fao para
me apresentar ao diretor.
-- No armrio tem algumas roupas. Aqui as pessoas so livres e vestem-se como
gostam. Os funcionrios colocam uniformes. Conforme a cor  a funo. Voc pode se
vestir como quiser. Virei busc-la dentro de meia hora.
Depois que ela se foi, Elisa abriu o guarda-roupa e procurou o que vestir. Estava
indecisa. Preferia que Vera houvesse sugerido alguma coisa. Ela nunca sabia o que seria
oportuno. Quando na Terra, se habituara a perguntar tudo a lvia. Era ela quem lhe
dizia o que ficava bom, o que era mais adequado para esta ou aquela ocasio. Agora
tinha que escolher.
Experimentou vrias sem se decidir. Tudo lhe parecia inadequado. O tempo passava, e
ela acabou vestindo qualquer uma. Olhou-se no espelho e viu que estava com melhor
aparncia. O repouso fizera-lhe bem. J no estava to abatida.
Vera chegou logo depois e conduziu-a ao andar superior, fazendo-a entrar em uma sala
clara e agradvel.
-- Sente-se, Elisa.
Depois de acomodar-se, ela no conteve a curiosidade:
-- Vou falar com o chefe?
-- Vai falar com o assistente do coordenador deste andar. A porta abriu-se, e Elisa foi
convidada a entrar por um
moo de fisionomia agradvel, olhos de um azul muito lmpido que a fixaram
atenciosos.
-- Entre, Elisa. Meu nome  Vtor -- disse ele indicando-lhe uma poltrona para que ela
se sentasse. Quando a viu acomodada, sentou-se por sua vez continuando: -- desejo
dar-lhe as boas-vindas. Sei que chegou ontem e estou  sua disposio para esclarecer
suas dvidas.
Ela, que a princpio estava nervosa, sentiu-se mais  vontade diante da atitude dele.
Confidenciou:
-- Sinto-me muito s.  a primeira vez que deixo minha famlia. No conheo
ningum aqui. No me leve a mal, tenho sido tratada com muita considerao, mas
estou angustiada, sem rumo. No sei o que fazer aqui nem qual ser meu destino daqui
para frente. No estava preparada para o que aconteceu. Morri em um acidente.
Os olhos dele fixos nela pareciam penetrar o mais ntimo dos seus pensamentos. Ficou
calado durante alguns segundos, depois disse:
-- Nossa comunidade  um lugar de recuperao. Aqui, voc vai rever sua ltima
encarnao, estudar suas atitudes, descobrir como atraiu as experincias de sua vida.
-- Como eu atra?
-- Sim. O que lhe aconteceu foi o resultado das suas atitudes. Os acontecimentos de sua
vida foram provocados por voc.
Elisa meneou a cabea negativamente:
-- No posso concordar. E o que os outros nos fazem? Quem criou os problemas foi
meu marido. E eles afetaram toda a vida da nossa famlia.
-- Est querendo dividir a responsabilidade com ele, quando ela  s sua.
Elisa levantou-se indignada:
-- Est querendo dizer que fui a culpada do que aconteceu?
-- No se trata de culpar ningum. Um dia vai perceber que foi sua forma de agir que a
trouxe aqui. Est na hora de crescer, Elisa. De descobrir quem  voc, do que gosta. De
testar a prpria capacidade e perceber o que j pode fazer de bom. Voc tem uma
bagagem muito boa de experincias conseguidas em outras vidas, que podem dar-lhe
mais felicidade e alegria.
Elisa deixou-se cair na poltrona dizendo desanimada:
-- Vocs falam de outras vidas, mas eu no me recordo de nada. Custo a crer que
tenham existido.
-- Esto bloqueadas por enquanto. Seu estgio aqui ser temporrio. Digamos que ser
como uma estao de tratamento. Quando estiver pronta, poder mudar-se para sua
cidade de origem.
-- Voltarei para a Terra?
-- No foi isso que eu quis dizer. Ir para a cidade onde vivia antes de reencarnar. L 
seu lugar de origem.  o lugar que lhe pertence por nvel de evoluo.
Ela remexeu-se na cadeira inquieta:
-- Quer dizer que no ficarei aqui?
-- Ficar durante algum tempo. O bastante para aprender o que ns lhe podemos
oferecer. Depois ir para o seu mundo. Garanto-lhe que ficar muito feliz quando isso
acontecer. L, encontrar as pessoas com as quais se afina e isso lhe dar uma gostosa
sensao de bem-estar.
-- Poderei ver minha famlia na Terra?
-- Poder. Em nossa comunidade, voc tem todos os recursos que necessita para
melhorar suas condies. Vou dar-lhe uma lista de cursos que j poder fazer.
Elisa apanhou a lista que ele lhe oferecia e perguntou:
-- Qual me aconselha fazer primeiro?
--  voc quem vai escolher.
--  difcil para mim. No sei escolher...
-- Leia os nomes com ateno. O que lhe parecer mais atraente, faa.
-- Bem que voc poderia me indicar um.
-- Em nossa comunidade, respeitamos a vontade de cada um. Voc  dona da sua vida.
Tem todo direito de escolher o que quer fazer. Tenho certeza de que escolher o melhor.
Tem capacidade para fazer isso.
Elisa levantou a cabea surpreendida. O tom convicto dele a impedia de retrucar. Teria
ouvido bem? Apesar do que fizera, ele confiava nela?
-- Tentarei -- disse. Ele levantou-se:
-- Est bem. Tem os horrios. Vera lhe dar as informaes sobre nossas atividades de
lazer e a apresentar a outros moradores -- estendeu a mo para ela -- desejo-lhe
muitas alegrias em sua estadia conosco e muito progresso. Felicidades.
Elisa apertou a mo que ele lhe estendera e retirou-se. Vera a esperava do lado de fora.
-- Como se sente? -- indagou.
-- Bem. Embora ele tenha dito coisas com as quais no concordei muito.
Vera sorriu dizendo:
-- Vtor possui um senso de realidade muito desenvolvido. Melhor seria que voc
pensasse bem em tudo quanto ele lhe disse. Posso garantir que ele sabe o que est
dizendo.
Elisa meneou a cabea :
-- No sei, no. Os homens, em qualquer lugar, gostam de se proteger uns aos outros.
Ele quis convencer-me de que s eu fui responsvel pelo que me aconteceu. Posso ter
sido imprudente, mas o Eugnio foi quem criou todo problema. A maior culpa  dele!
-- Quando conhecer melhor o Vtor, saber que ele nunca protegeria nem favoreceria
ningum. Lembre-se de que voc no est mais vivendo na Terra, onde as pessoas
dissimulam e agem de acordo com os prprios interesses. Aqui, cada um aparece como
, no h como mentir, nem encobrir seus sentimentos. Todos os cargos
 em nossa comunidade obedecem  hierarquia espiritual, ao nvel do conhecimento e
capacidade de cada um. Sos escolhidos pelos espritos superiores. Presto servios aqui
h longo tempo e nunca os vi errar. Se no concorda com ele, seria aconselhvel pensar
melhor, rever os fatos e descobrir o porqu das palavras dele. Poupara tempo trabalho.
-- Vou tentar. Quanto aos cursos, no sei qual escolher... Ele me deu uma lista...
-- timo.  sinal de que voc j est madura para entender muitas coisas. H pessoas
que passam por vrios tratamentos antes de iniciar qualquer tipo de atividade
educacional.
-- Ele disse que eu tinha capacidade de escolher -- tornou Elisa com certa satisfao.
-- Tenho certeza que sim. Fico feliz por voc!
-- Em todo caso, no poderia me ajudar nisso?
-- S voc tem condies de sentir o que lhe seria til agora. Todos esses so indicados
para voc.
Elisa abriu a lista e passou os olhos pelos ttulos: -- Tenho me sentido muito s. Talvez,
esse que ensina a vencer a solido seja bom.
-- Equilibrar emoes  fundamental.
--  difcil para mim ficar longe dos meus filhos.
-- Voc tem familiares que j regressaram ao astral. Por que no tenta encontr-los?
-- Gostaria de saber onde esto meus pais. Eles morreram quando eu era adolescente.
Mas no sei como fazer isso. Pelo que percebi, aqui no se pode ir para onde quiser.
Mesmo que pudesse, depois do que me aconteceu, no teria coragem para me aventurar.
O mundo astral me parece mais perigoso do que a Terra.
-- Nas dimenses muito prximas  crosta terrestre, h espaos ocupados por espritos
mais primitivos. Circular por esses lugares sem conhecimento, pode acarretar srios
problemas. Mas, voc pode recorrer aos nossos arquivos e tentar localizar as pessoas
que deseja encontrar.
O rosto de Elisa distendeu-se radiante.
-- Verdade? Posso descobrir onde est minha me?
-- Pode. Dependendo de como e onde se encontra, poder at estabelecer contato.
-- Eu quero. Voc me ajuda?
-- Claro. Vamos at l.
Vera conduziu-a a um outro prdio, onde Elisa preencheu uma ficha com os dados dos
pais.
-- Vamos investigar e lhe daremos uma resposta -- disse-lhe a atendente.
-- Posso esperar aqui? -- indagou Elisa, ansiosa.
-- Pode passar amanh e lhe darei resposta. A lista de solicitaes  grande.
-- Est bem. Virei.
Saram e Vera levou-a conhecer outros departamentos da comunidade. Elisa se
admirava com a organizao e a beleza dos lugares, onde tudo parecia funcionar muito
bem. Andando pelos jardins floridos, Elisa no se conteve:
-- Parece impossvel que eu esteja andando em um jardim fora da Terra.
-- Do que se admira? O universo  dividido em faixas diferenciadas de energias e cada
uma delas  slida para os seres que as habitam. Tudo  relativo. A Terra s  slida
para os que tm um corpo de carne. Para ns,  gasosa e inconsistente.
-- Isso tambm me intriga. Atravessar as paredes das casas na Terra ainda me assusta.
Fiz isso com facilidade.
Vera sorriu dizendo:
-- Espiar a vida das pessoas nunca d bons resultados.
-- Concordo. Para mim at que foi bom. Pelo menos fiquei conhecendo melhor meu
marido. Percebi o quanto estava iludida. Vendo como ele , perdi todo o interesse. No
o amo mais. Acho que nunca o amei.
-- Nesse caso, pode esquecer e deix-lo seguir seu caminho.
-- isso no. E as crianas? Deix-lo casar de novo e arranjar uma madrasta para elas?
-- As crianas necessitam de algum que tome conta delas. J que voc est
impossibilitada, outra ter que fazer isso.
-- No concordo. Uma madrasta no seria como eu. No teria pacincia com elas.
-- Voc est sendo preconceituosa. Ele poder encontrar uma mulher dedicada e
bondosa que ame seus filhos de verdade.
-- No creio. A nica mulher que poderia tomar conta deles  minha irm, Olvia. Ela,
tenho certeza de que seria melhor do que eu. Mas, ela recusou-se a assumir as crianas,
dizendo que o dever  do pai. Ela est certa.
-- Voc prefere que elas fiquem com uma criada, do que com uma pessoa que tenha
mais envolvimento e interesse na felicidade delas?
-- Preferia estar l, com elas.
-- No seja criana, Elisa. Sabe que isso  impossvel.
-- Sei. Mas  isso que eu gostaria.
-- Se sua irm se casasse com Eugnio, seria perfeito. Elisa olhou-a incrdula e deu
uma gargalhada:
-- Olvia! Ela nunca faria isso. No gostava do Eugnio. Vivia dizendo que ele era falso
e que eu era uma boba.
-- As pessoas podem mudar.
-- Olvia, no. Isso seria desejar o impossvel. Vera sorriu.
-- Com relao s suas vidas passadas, voc no se recorda de nada?
-- Nada. O Vtor mencionou isso, mas custo a crer que tenha vivido outras vidas.
-- O clima aqui  favorvel para despertar essas reminiscncias.
-- Se vivi outras vidas, gostaria muito de me lembrar delas. Havia nos olhos de Vera
uma expresso indefinvel quando disse:
-- Isso pode acontecer mais depressa do que imagina! Elisa sentiu ligeiro sobressalto e
uma sensao de medo,
mas apesar do inexplicvel receio que sentia, foi dominada por uma forte curiosidade
que a fez dizer:
-- Gostaria que fosse hoje. Quando ser que vai acontecer?
Vera no respondeu. Deu de ombros e sorriu. As duas continuaram andando silenciosas,
cada uma imersa nos prprios pensamentos.
Na porta do quarto de Elisa, elas pararam. Vera disse:
-- A noite temos vrias atividades interessantes na comunidade. Se quiser sair um
pouco, teremos prazer em acompanh-la. Basta chamar.
-- Est certo.
Elisa entrou e sentou-se na cama pensativa. Sentia-se s. Estava no meio de pessoas
desconhecidas. No negava que eram agradveis, mas ela sentia saudades da famlia e
de sua vida na Terra.
Sentiu fome. Sobre a mesa havia uma jarra de suco cor de laranja e uma bandeja com
alguns pes. Apanhou um e experimentou. Estava delicioso. Tomou um copo do suco
que era espesso e meio adocicado, e ela no pde precisar de que fruta seria.
Sentindo-se alimentada, estendeu-se no leito. Mesmo sabendo que sua situao era
irreversvel, ela pensava na alegria que
teria se pudesse voltar a viver no mundo junto com os filhos. Isso era impossvel! Por
que lhe acontecera aquele acidente, por qu? Lgrimas desciam pelo seu rosto, e ela
deixou-as correr livremente. Comeou a recordar do seu casamento, do namoro e da
infncia.  medida que recordava, viu-se deitada no bero, vislumbrou o rosto de sua
me inclinado sobre ela com carinho. Ela era ainda beb, como poderia lembrar-se?
Depois viu a me grvida e feliz, conversando com o pai, da sua alegria em esperar o
primeiro filho. Percebeu que ela era essa criana. Sentiu-se envolvida por um torpor que
a deixava prostrada, mas, ao mesmo tempo, sentia aumentar sua lucidez. Uma mulher
jovem estava em sua frente e ela reconheceu: essa sou eu!! Sua aparncia era diferente
dela, mas era ela! Tinha certeza.
Quis gritar, mas no conseguiu. Que estranho fenmeno estava acontecendo com ela?
Esforou-se por perceber mais. Fixando melhor o olhar sobre ela, percebeu que estava
em uma sala e havia um homem moo, de boa aparncia, sentado no sof. Embora ele
fosse diferente, ela reconheceu:
--  o Eugnio! Sou eu e ele! Mas quando? Por que estamos diferentes do que somos?
Notou que as roupas eram antigas, assim como a decorao da sala. Viu a moa
aproximar-se dele, sentando-se a seu lado e dizendo com voz triste:
-- Chamei-o aqui, porque no suporto mais viver sem seu amor! Desde que nos
conhecemos, no tenho paz. Sonho com voc, vejo-o por toda parte! Sei que 
impossvel ficarmos juntos! Por isso, quero me despedir. Vou desaparecer. Nunca mais
me ver!
Ele levantou-se emocionado:
-- Por favor! No faa isso! Eu gosto de voc.
-- Mas voc  casado, tem filhos! Nunca poderemos viver juntos!
Ela comeou a chorar, e ele segurou suas mos forando-a a levantar-se.
-- No chore! -- disse.
Ela soluava mais e mais. Ele abraou-a e beijou-a com carinho. Elisa sentiu toda
emoo daquele beijo. Essa cena desapareceu e ela suspirou aflita. Sabia que j havia
vivenciado aquela situao, mas no podia precisar onde. Logo aps, ela viu a moa um
pouco mais madura, em outro local, mais amplo e luxuoso. Estava raivosa e
descontrolada. A porta abriu-se e o mesmo moo, um pouco mais velho, entrou. Ela foi
logo dizendo com raiva:
-- Voc me abandona por causa dela! Quando vai resolver
nossa vida? Tenho dedicado a voc a minha mocidade, feito tudo para que seja feliz.
Tenho sentido que voc no me ama mais.
-- No se trata disso. Voc sabe que tenho responsabilidade com minha famlia. Meus
filhos precisam de mim. Devo acompanhar as meninas em sociedade.
--  mentira! Voc no me quer mais!
-- Na verdade, acho que j prejudiquei sua vida demais. Voc est livre. Dar-lhe-ei,
alm desta casa que passarei em seu nome, uma importncia suficiente para manter uma
boa renda enquanto voc viver.
Ela empalideceu, suplicou, pediu para que ele no a abandonasse. Ao que ele respondeu
triste:
--  intil continuar com isto, Maria Clara. Estou comeando a envelhecer e a ficar
cansado. Pretendo terminar meus dias ao lado da minha famlia e em paz.
-- Voc me traiu! No posso aceitar!
-- Voc sabia que eu era casado e tinha famlia! Nunca lhe prometi que os abandonaria.
-- Mas eu dediquei toda minha vida a voc e esperava que fizesse isso!
-- Estava enganada. No vamos mais prolongar essa cena desagradvel. Amanh, meu
procurador tratar dos papis. Entre ns, tudo terminou!
-- No  possvel! No posso aceitar que voc no me ame!
-- Eu gosto de voc. Mas amo minha famlia. Sinto muito, Maria Clara, mas acabou.
Enquanto ele saa, ela, revoltada, atirava-se no sof esmurrando-o com fora e dizendo:
-- Voc vai me pagar! Voc vai ver!
A cena desapareceu, e Elisa ainda sentia a dor e a revolta dentro de si. Era como se tudo
estivesse acontecendo com ela naquela hora.
Em seguida, viu novamente Maria Clara escrevendo uma carta e mandando um portador
entregar. Depois, enquanto andava na sala de um lado a outro, a porta abriu-se e
apareceu uma mulher. Elisa estremeceu. Era Olvia! Estava diferente, chamava-se
Hortncia, mas ela tinha a certeza de que era Olvia!
Ela entrou e cumprimentou Maria Clara e sentou-se na poltrona que lhe foi oferecida:
-- Mandou me chamar para resolver um assunto do meu interesse. Do que se trata?
-- O que tenho a lhe dizer  sumamente desagradvel, mas no posso guardar esse
segredo por mais tempo!
-- Um segredo? Tem a ver comigo?
Maria Clara hesitou, olhou-a com tristeza, depois disse:
-- Tem. Mas no sei se devo... Essa atitude quem deveria tomar era o Mrio. Ele est
sofrendo muito. Sei que  incapaz de contar-lhe a verdade para no mago-la! Prefere
sacrificar-se pelo resto da vida!
A outra empalideceu, levantou-se perguntando:
-- Como disse? Do que est falando? Que sacrifcio  esse?
Maria Clara suspirou com tristeza dizendo:
-- H muitos anos que ns nos amamos. Ele sonha em viver a meu lado para sempre,
mas continua a seu lado por causa dos filhos. Ainda ontem ele chorou aqui em meus
braos. No acho justo! Depois de pensar muito, achei que era o momento de coloc-la
a par da realidade. Ele nunca teria coragem de confessar seus verdadeiros sentimentos!
-- Voc est mentindo! -- murmurou ela, plida, deixando-se cair novamente na
poltrona. -- No acredito em nada do que disse!
-- Posso provar.
Ela foi at uma pequena escrivaninha e tirou uma caixa com algumas fotos e cartas
colocando-a nas mos da rival que, trmula, manuseou tudo e levantou-se nervosa
dizendo:
-- Seus traidores! Todos esses anos fui enganada! Preciso sair daqui. Faa o favor de
abrir a porta!
Ela saiu rapidamente enquanto Maria Clara, satisfeita, disse em voz alta:
-- Estou vingada. Ele vai receber o troco!
A cena desapareceu e Elisa sentia-se sufocar de aflio. Sentou-se na cama agoniada.
Isso teria mesmo acontecido? No estaria fantasiando? Eles teriam mesmo vivido outras
vidas? Olvia teria sido mulher de Eugnio? Parecia-lhe quase impossvel! Lembrou-se
que ela no confiava nele. Desde que o conhecera, ela anti-patizara com ele. Seria por
causa da traio do passado? Eles teriam se amado? Se isso acontecera mesmo, o que
teria havido depois? Ela precisava saber mais.
Deitou-se novamente tentando descobrir mais, porm, nada aconteceu. Resolveu chamar
Vera. Apareceu um atendente que ela no conhecia, dizendo:
-- Vera est ocupada no momento, posso ser-lhe til?
-- Preciso falar com ela. Aconteceram coisas estranhas comigo.
-- Pode falar comigo.
-- Ela vai demorar?
-- No. Se prefere falar com ela, posso dar-lhe o recado. Vir assim que puder.
-- Obrigada! Estarei esperando.
Depois que ele se foi, Elisa sentou-se na cama pensativa. Por mais estranhas que
pudessem lhe parecer as cenas que presenciara, sentia que, algum dia, em algum lugar,
elas realmente haviam acontecido. E isso dava-lhe um sentimento de culpa e uma
vontade muito forte de descobrir toda a verdade. Dali para frente, ela se empenharia de
todas as formas para saber.

Captulo 24

oras mais tarde, quando Vera chegou, ela foi logo contando o que lhe havia acontecido
finalizando:
-- A princpio pensei que fossem alucinaes, mas depois senti que em algum lugar
esses fatos haviam mesmo acontecido. Estou certa?
-- Certssima. Voc est comeando a recordar-se de suas vidas passadas.
-- Imagine que Olvia foi casada com Eugnio!! Como pode? Eles nunca se
entenderam. Eu no podia imaginar! Depois, a amante era eu! Eu... que sempre fui
contra esse tipo de atitude! No estarei sendo vtima de algum engano? Os fatos no
foram acontecendo claramente. Vi apenas algumas cenas e conversas sem continuidade.
Eu posso estar enganada, misturando os fatos.
Vera meneou a cabea negativamente.
-- No acredito. Voc mesmo sentiu que os fatos eram ver dadeiros.  melhor no
tentar mascar-los e tratar de olh-los de frente.
-- No tem lgica! Sempre fui uma mulher honesta! Esposa exemplar!
-- Pode ter assumido esse papel em sua ltima vida tentando fugir da experincia
anterior.  uma atitude de defesa, muito comum.
-- Fui maldosa, prejudiquei Olvia! Eu que gosto tanto dela. No posso continuar
ignorando o que aconteceu entre ns! O qu posso fazer para descobrir toda verdade?
-- Fique calma. Aos poucos, ir se lembrando de tudo. Tenho uma notcia boa para
voc. Sua me foi localizada.                ,
-- Verdade? Que maravilha! Ela vai me ajudar com certeza. Quando poderei ir v-la?
-- Ela no mora em nossa comunidade. Vive em outra cidade onde voc ainda no pode
ir. Mas ela vir v-la amanh  tarde
-- Mal posso esperar!
-- Voc gosta de msica?
-- Gostava muito.
-- Vim convid-la para um sero musical. Ser muito agradvel. A msica ajuda muito
a conquistar a harmonia interior. Voc se sentir muito bem.
-- No sei... Estou preocupada com tantas coisas...
-- Preocupar-se pode aumentar seus problemas. O que voc precisa agora  refazer-se.
Tenho certeza de que vai ajud-la muito.
-- Est bem. Irei. Pensei que se ficasse aqui sozinha, eu poderia me recordar de alguma
coisa mais.
-- Quando chegar a hora de se lembrar, vai acontecer onde estiver. Ficar relaxada e
tranqila s pode ajudar.
-- Talvez seja bom mesmo eu me distrair. Vai ser difcil esperar a hora de ver minha
me!
Vera sorriu:
-- Tudo acontece na hora certa e de maneira adequada. Quando perceber isso, toda sua
ansiedade vai desaparecer.
-- Quisera ser como voc! Tambm, depois de tudo que eu passei!
Vera riu respondendo bem-humorada:
-- Quem se lamenta do que passou, est confessando a prpria incapacidade. Se deseja
fazer amigos aqui, evite fazer isso!
-- Por qu? S quis me justificar!
-- No precisa. Voc no  ingnua nem fraca. Fingimento aqui  intil, Elisa. Em
nossa comunidade, estamos aprendendo a ser verdadeiros. Descobrimos que todos
nossos sofrimentos decorrem das nossas iluses.
-- Sempre ouvi dizer que ningum vive sem iluses e que a realidade  muito dura!
-- Essa  a maior inverso de valores que algum pode ter! Ns fomos criados para a
felicidade, e todas as coisas no universo trabalham para nos oferecer o que h de
melhor! Essa  a realidade!
-- Se isso fosse assim, no teramos tantos sofrimentos no mundo!
-- Se os homens respeitassem os prprios sentimentos, as foras da natureza e
procurassem perceber como a vida funciona, viveriam saudveis, em paz, mesmo em
seu nvel de evoluo. Creia, Elisa, so as iluses que criam todo o sofrimento humano.
Aqui, estamos aprendendo a evitar a queixa. Desenvolvendo a conscincia da nossa
prpria fora. Por isso, se quer fazer amigos, nunca entre
no papel da "pobre de mim". Eles se afastariam de voc como de algum com molstia
contagiosa.
Elisa ia retrucar, mas preferiu calar-se. Que mundo diferente aquele! Ela no gostaria de
ser marginalizada. Ao contrrio, j que precisava ficar l durante algum tempo,
pretendia ocupar-se e relacionar-se. Tinha horror  solido.
-- Eu quero fazer amigos -- disse por fim. -- Preciso fugir da solido. Mas no sei
como proceder! Vocs pensam to diferente!
-- Saia do formalismo social que aprendeu no mundo. Seja voc mesma. Diga o que
sente, faa o que lhe d alegria. Esquea as frases feitas, os preconceitos, evite interferir
nas idias alheias.
-- Humm. Desse jeito no sei de que assunto falar com as pessoas. Nem sempre posso
falar o que estou pensando. E se no for coisa boa?
Vera riu bem-humorada:
-- Agora voc foi sincera! Esquece que aqui os pensamentos podem ser focalizados?
Acredite, voc no tem que falar nada para ser aceita. No precisa assumir papis para
se relacionar. Em todo caso, procure exercitar-se no bem.
-- Eu quero ficar bem. Como fazer isso?
-- Todas as vezes que notar um pensamento crtico, depreciativo de fatos, pessoas,
coisas, procure focalizar o bem que h neles.  um treinamento muito indicado em
nossos cursos de controle mental. Por mais dolorosa, cruel, odiosa, trgica, que uma
situao lhe parea, acabar descobrindo que, apesar das aparncias, nela s existe o
bem. O resto  distoro, iluso. A nica verdade  o bem. Portanto, quando voc est
julgando os fatos de forma negativa, est alimentando suas iluses e se candidatando 
visita do sofrimento. Ele sempre  mensageiro da verdade!
-- Para mim tudo isso  novo! Parece-me to difcil!
-- Com o tempo se tornar mais fcil. Quando comear a desenvolver mais sua
lucidez, no desejar parar. O desenvolvimento da conscincia amadurece e produz
grande bem-estar.
-- Quando voc fala, fico mais confiante! Voc parece to feliz!
-- Tenho trabalhado para conquistar a felicidade. Voc vai fazer o mesmo e conseguir.
Tenho certeza. O sofrimento cansa. Quando descobrimos que ele no  imprescindvel 
conquista do nosso progresso, nos deslumbramos e colocamos todo empenho em viver
melhor.
Os olhos de Vera brilhavam, e Elisa sentiu uma energia agradvel envolv-la,
emocionou-se. Disse com suavidade:
-- Voc tem razo. Tenho sofrido bastante. Quero ser como voc. Se acha que tambm
posso conseguir, estou disposta a fazer tudo que for preciso.
-- timo, Elisa. Se deseja ir ao sero, tem meia hora para aprontar-se. Virei busc-la.
-- Est bem.
Quando Vera saiu, Elisa olhou-se no espelho e notou que sua aparncia havia se
modificado um pouco. Estava mais corada e seus cabelos, mais brilhantes. Notou que
seu rosto tambm estava mais suave, um pouco diferente do que era. Apesar de
surpreendida, gostou. Estava mais bonita e com mais vida. Como seria esse sero?
Resolveu arrumar-se melhor. Abriu o armrio e escolheu um vestido azul vivo de um
tecido leve e macio. Vestiu-o e olhando-se no espelho, sorriu contente. Estava elegante
e bonita. Afinal, a vida ali na comunidade no era to dura como pensara a princpio.
Encontrou um elegante par de sapatos prateados que combinavam bem com seu vestido.
Sentiu vontade de mudar o penteado. J que seus cabelos estavam to sedosos e
brilhantes, os deixaria  vontade, presos com uma tiara prateada que encontrara na
gaveta da mesa. Lembrou-se dos tempos de adolescncia. Como fora ingnua, casando-
se cedo. Nunca usufrura das alegrias da juventude! Se estivesse na Terra agora,
certamente agiria diferente!
-- No estou na Terra, mas estou livre! -- pensou ela. No estava mais presa aos
compromissos do casamento.
Ao pensar isso, sentiu alvio. Talvez esse fosse o lado bom do que lhe aconteceu. Se no
podia voltar atrs, podia pelo menos seguir os conselhos de Vera e viver melhor. J que
no podia cuidar dos filhos como gostaria, trataria de pensar em si, cuidar da prpria
felicidade. Queria ser feliz!
Quando Vera voltou, vendo-a, no dissimulou a alegria:
-- Elisa! Voc est linda! Parabns! Ela no escondeu a satisfao:
-- Resolvi aceitar sua sugesto. Daqui para frente, vou cuidar de mim, da minha
felicidade.
-- Por isso seus olhos brilham, seus cabelos criaram vida. Voc est comeando a
descobrir sua luz. Vamos. Tenho certeza de que vai gostar.
Ao entrar no imenso salo iluminado, Elisa estava deslumbrada. Ele era circundado por
arcos, o teto decorado com pinturas maravilhosas, cujos desenhos se moviam
modificando as figuras e o colorido matizando-se e conforme Elisa fixava, eles
rutilavam como
atrelas.
Vera conduziu-a para as poltronas, e Elisa no conseguia desviar os olhos daquele teto
maravilhoso, ora nas pinturas, ora nos lustres. Aos poucos, ela foi percebendo o luxo
das cortinas, o palco, a beleza das poltronas e os rostos agradveis das pessoas.
-- Nunca vi nada igual! -- disse ela. -- Que gente bonita! Comeo a pensar que
estamos no paraso! Acho que os anjos vo aparecer a qualquer momento.
-- As pessoas que esto aqui, se interessam em fazer o melhor. A arte e a beleza
comovem, elevam, nos aproximam de Deus.
Quando as cortinas do palco abriram, as luzes da platia se apagaram, as paredes do
palco desapareceram e surgiu uma plataforma no centro dele. Sobre ela, havia uma
orquestra formada por muitos msicos, vestidos com tnica brilhante. Alm dos
instrumentos conhecidos, Elisa notou que havia outros que ela nunca vira. Ao redor da
plataforma, havia um bosque maravilhoso, cheio de pssaros e flores. Quando a
orquestra comeou a tocar, no centro do bosque apareceram danarinos que pareciam
borboletas tal a leveza da sua dana.
Elisa, maravilhada, no conseguia dizer palavra. Lgrimas rolavam pelo seu rosto sem
que ela notasse. Sua alma extasiava-se diante de tanta arte e pela primeira vez ela
esqueceu seu drama, sua dor, seus problemas. Bebia avidamente aquele momento
sentindo-se comovida, no querendo perder nada.
Quando as luzes se acenderam, ela no conseguia articular palavra. Vera abraou-a com
carinho dizendo:
-- Foi lindo demais! Tambm estou comovida! H tempos no via um espetculo como
este!
Elisa no conseguia parar de chorar. As lgrimas continuavam descendo pelo seu rosto,
e ela fez um gesto de impotncia, ao que Vera aduziu:
-- No se preocupe com as lgrimas. Deixe sair as energias reprimidas, Elisa. Sua alma
est se desbloqueando.
Quando ela se acalmou, disse:
-- Estou envergonhada. Sou ignorante. Nunca havia visto nada igual.
-- No se critique por sentir. Agora  que voc est reencontrando sua essncia. A arte
 manifestao de Deus. Vamos aproveitar este momento, Elisa, e sair em silncio para
no quebrar o encanto. Outro dia a apresentarei s pessoas. Assim como ns, ningum
est com vontade de falar agora. Vamos embora.
Uma vez em seu quarto, depois de despedir-se da amiga, Elisa abriu a janela
debruando-se sobre o parapeito, olhando o cu cheio de estrelas. As cenas e o som do
espetculo que acabara de presenciar estavam ainda presentes em sua lembrana.
Como ela era ignorante! Quantas coisas havia ainda que no conhecia? Que mistrios a
vida guardava para o futuro? O que mais lhe aconteceria? Naquele momento, sua vida
na Terra, seus problemas pessoais perderam a importncia que ela lhes atribua. Diante
daquele mundo novo, das sensaes maravilhosas que experimentara, como voltar aos
horizontes acanhados de sua ltima existncia? Eles agora pareciam-lhe distantes. Em
seu corao, havia o mesmo amor pelos filhos, por Olvia, mas, ao mesmo tempo, o
desejo de situar-se em sua nova vida, descobrir mais sobre o passado e experimentar
coisas novas.
Vtor dissera claramente que ela fora responsvel pelo que lhe acontecera. Que suas
atitudes haviam atrado os fatos que a vitimaram. Vera garantia que ele sabia o que
estava dizendo.
Ela no acreditara nele. Mas e se os fatos do passado houvessem mesmo sido diferentes
do que ela pensava? E se ela tivesse mesmo trado Olvia, feito intrigas para destruir seu
casamento com Eugnio? At que ponto poderia confiar nas vises que tivera?
A idia que Eugnio e Olvia se haviam amado um dia parecia-lhe impossvel. Eles
estavam sempre se criticando. Isso a incomodava muito. Seria por causa do que
acontecera no passado? Esforava-se para torn-los amigos. Vivia neutralizando suas
diferenas e fazendo o mximo para que viessem a se querer bem. Quanto mais fazia
isso, mais eles se desentendiam.
Depois de sua partida, Olvia cuidara das crianas, apoiara Eugnio, fizera sua parte,
mas ela notara que continuava no gostando dele. Seria mesmo verdade que um dia ela
o teria amado? Precisava saber.
Na tarde do dia seguinte, Elisa foi avisada que havia visita para ela no salo.
Emocionada, deu os ltimos toques em sua aparncia e, corao aos saltos, dirigiu-se
para l.
Rosa a esperava com olhos brilhantes de alegria. Vendo-a, abraou-a com carinho
beijando-a delicadamente na face. Elisa no conteve as lgrimas. Naquele momento,
todo o sofrimento dos ltimos tempos reapareceu, e ela disse entre soluos:
-- Me! Viu o que me aconteceu? Soube do acidente? Rosa olhou-a nos olhos dizendo
com voz firme:
-- A maneira como voc veio no foi penosa. Voc no sentiu nada! Falemos de coisas
mais interessantes. Como est
sendo sua estadia aqui?
Apanhada de surpresa, Elisa no soube o que responder. Esperava que a me a
confortasse, valorizasse sua dor, porm isso no aconteceu. Vendo que ela no
respondia, Rosa continuou:
-- Vtor informou-me que voc est indo muito bem. At j modificou sua aparncia,
recordou um pouco do passado,
-- Vi algumas cenas, no sei bem se aconteceram mesmo. Rosa olhou-a sorrindo ao
responder:
-- Voc no est sendo sincera. Vim v-la porque a amo muito. Tanto voc, como
Olvia e as crianas, ocupam largo espao em meu corao. Mas gostaria que no me
visse no papel de me, tal como na Terra. Diante das mltiplas reencarnaes, essas
posies so temporrias. Na ribalta do mundo, trocamos de papis vrias vezes. Me,
filha, irm, sogra, cunhada, amiga, inimiga. Os laos de sangue indicam que, de alguma
forma, nos atramos uns aos outros. Nem sempre esses laos so de afinidade espiritual,
companheirismo, amizade. s vezes transformam-se em pesadas cadeias das quais as
pessoas no vem a hora de se desvencilhar. Depois da morte, distanciam-se aliviadas.
Nosso caso  diferente. Ns nos amamos e o amor permanece para sempre. Esteja onde
estivermos, sentimos a alegria de partilhar nossos sentimentos.
-- Sua forma de pensar me surpreende! Sempre pensei que o amor de me fosse a mais
sublime forma de amar!
-- O amor incondicional  sempre sublime. No depende do grau de parentesco.
Depende da alma.  manifestao da essncia espiritual. A condio de me  uma
grande oportunidade de desenvolver a capacidade de amar. A confiana de Deus
colocando em nossas entranhas uma alma, confiando-a a nossa guarda durante o tempo
em que ela descansa na inconscincia, preparando-se para novas experincias,  um
apelo muito forte ao nosso esprito. Depois, a criana to dependente dos nossos
cuidados, to carente da nossa orientao nos primeiros anos, expressando com
espontaneidade seus sentimentos, toca nossa sensibilidade, e nosso amor se manifesta!
--  o que eu sinto pelos meus filhos! O amor de me  o maior e o mais sublime de
todos!
-- Prefiro dizer que ele abre uma porta para o amor incondicional. Principalmente
quando a mulher possui bom senso e discernimento para ajudar verdadeiramente os
espritos que lhe foram confiados.
Elisa fitou-a admirada:
-- No concordo com voc! No existe nenhuma me que
deseje mal a seus filhos! Em sua maioria, so dedicadas, muitas chegam a esquecer de si
mesmas colocando o bem dos filhos em primeiro lugar.
Rosa sorriu ao responder:
-- No estou falando das intenes. Claro, todas ns temos vontade de fazer o melhor.
Estou falando dos resultados. Tanto no mundo quanto aqui, os consultrios dos
terapeutas esto repletos de filhos procurando ajuda, tentando libertar-se dos males de
uma orientao equivocada.
-- Essas foram mes que no cumpriram com seu papel.
-- Est enganada, Elisa. A maioria fez exatamente isso. Tentou cumprir seu papel.
Entrou nas regras do mundo e no ouviu os prprios sentimentos.
Elisa fitou-a pensativa. Rosa prosseguiu:
-- A superproteo e o mimo, tanto quanto o excesso de rigor, no educam. S
acovardam, enfraquecem. O esquecimento de si mesmo apaga o brilho da alma, turva a
conscincia.
-- Voc foi me dedicada. Eu tentei ser. Fiz o que sabia. Esqueci de mim, coloquei
minha famlia em primeiro lugar e deu no que deu.
-- Tem razo, Elisa. Ns demos nosso melhor, fizemos o que sabamos. Fui uma me
dedicada, como voc, esqueci de mim. Quando cheguei aqui, no sabia nada sobre mim.
No conseguia perceber o que gostava, o que me fazia feliz. Recebi ajuda, freqentei
grupos teraputicos na tentativa de descobrir meu mundo interior. Mudei minha maneira
de ver a vida, Elisa, e voc me ajudou muito.
-- Eu?!! Como?
-- Acompanhei toda sua vida conjugal. O nascimento de seus filhos, seu
relacionamento com Olvia, com Eugnio. Confesso que sofri muito, porquanto via
claramente voc ir aos poucos se desvalorizando, perdendo o brilho, tornando-se
medocre.
-- Me! Voc est me magoando! Rosa abraou-a com carinho:
-- Vim disposta a conversar com voc sem rodeios. De certa maneira, sinto-me um
pouco responsvel pelo que aconteceu. Fui eu quem colocou vrias idias erradas em
sua cabea. Foi na inteno de fazer o melhor. Depois, Elisa, esse comportamento  um
crculo vicioso difcil de sair. Os conceitos com os quais eu a eduquei, me foram
ensinados por minha me. Se quisermos renovar nossas vidas, compreender a verdade,
precisamos ter a coragem de questionar o que nos ensinaram, experimentando e
analisando seus resultados.
-- Mas voc morreu antes de eu me casar. No tem culpa nenhuma do que me
aconteceu!
-- Engana-se, Elisa. Eu sempre lhe dizia que a me precisa renunciar a tudo pelo bem-
estar da famlia. Lembra-se? Em nossa casa, tudo de melhor era para seu pai. Eu as
eduquei para que ele fosse o nosso Deus. Ningum se atrevia a discordar de nada do que
ele dizia ou fazia. Sua vontade era ordem. Eu no estava fisicamente l, depois do seu
casamento, mas minhas frases ainda estavam vivas em sua cabea, como regras de
conduta. Voc fazia igual a mim.
-- Eu me orgulhava muito de fazer como voc. Sempre a considerei uma grande me.
-- Ns no sabamos como essa atitude era errada e perigosa.
-- Voc acha mesmo?
-- Acho. No amor conjugai, a chama da atrao precisa ser cultivada. A admirao, a
estima, o respeito so fatores importantes para isso. Quando voc apaga seu brilho
tornando-se uma sombra sem vontade prpria, destri a atrao e mata o amor.
--  triste isso, me. Sempre pensei que quanto mais honesta, dedicada, perfeita dona
de casa e boa me eu fosse, mais o Eugnio me amaria. Pensei que esse comportamento
me valorizasse o bastante para ser amada para sempre! Estava enganada! Fui trada,
abandonada.
-- Prova de que pensava de maneira equivocada. O que aconteceu com Eugnio
poderia haver acontecido com voc.
-- Isso, no. Eu o amava sinceramente!
-- Porque ele continuou se valorizando mesmo dando o conforto  famlia, cuidando da
sua aparncia, do seu trabalho, enquanto voc fazia o oposto.
-- Agora vejo que ele no era um bom marido como eu pensava. No se preocupava
com os filhos. Quando se apaixonou por outra, no hesitou em abandon-los.
-- Foi voc quem no lhe permitiu conviver mais com os filhos. Assumiu a
maternidade e no lhe deu espao.
-- Homem no tem jeito para essas coisas.
-- J esteve com ele depois da sua morte? Observou com que carinho e dedicao ele
tem cuidado das crianas?
-- , no teve outro remdio.
-- Elisa, no seja to resistente! Gostaria que quando voc pudesse sair daqui, fosse
residir em minha cidade.  um lindo lugar e somos muito felizes l. Mas para isso voc
vai precisar aprender algumas coisas. Aqui tem uma oportunidade maravilhosa. No
deixe
que pensamentos negativos tomem conta de sua mente. Esforce-se para mudar. Garanto
que sua felicidade depende s de voc.
-- Me, estou intrigada com algumas vises que tive. Gostaria que me esclarecesse.
Voc conhece minhas vidas passadas?
-- Um pouco.
-- Diga-me: Olvia e Eugnio se amavam?
-- Sim.
-- Tem certeza?
-- Voc no se lembrou j?
--  que isso me pareceu to disparatado, to difcil de acreditar!
-- Mas  verdade.
-- O que mais voc sabe que eu ainda no sei?
-- Que seus filhos eram os filhos deles naqueles tempos.
-- O qu? Meus filhos j foram filhos deles?
-- De que se admira? A reencarnao  lei natural da vida. Elisa suspirou pensativa.
Nunca imaginara tal coisa. Por isso, Olvia gostava tanto das crianas e elas a adoravam.
--  difcil acreditar que Olvia, com aquelas idias modernas de independncia, j
tenha sido me.
-- Todos ns j tivemos muitas experincias na Terra.
-- Voc sente culpa, porque eu a imitei. Acha que me educou errado. No concordo.
Olvia tambm foi educada por voc e sempre foi muito diferente de ns duas.
-- O fato dela ter idias prprias e no aceitar minhas sugestes, demonstra que ela tem
mais conhecimento, no se deixa levar pelas idias dos outros. Contudo, tanto meu
desempenho como esposa e me quanto o seu, a impressionaram de forma desfavorvel.
Ela fecha o corao ao amor, teme o relacionamento mais srio.
-- Vera me disse que ela ficou descrente do amor porque... Elisa deteve-se sem
coragem de continuar.
-- Fale, Elisa. No temos segredos entre ns.
--  que para mim  to difcil... pensar que o Eugnio era seu marido e que ele a traiu
por minha causa... s vezes penso que tudo isso  loucura.
-- No tenha medo da verdade, Elisa. Enfrente-a. Voc ainda ama o Eugnio como
antes? Ainda sofre por ele?
-- No. Quando vi como ele agia, tendo outras mulheres, me enganando todo o tempo,
me decepcionei. Agora, no sinto mais nada.
-- Nem raiva?
-- Nem raiva. Esse tempo passou. Agora pretendo cuidar
de mim. Estou s. No posso voltar para meus filhos. Preciso ocupar-me. Tenho medo
da solido.
-- Voc foi afastada de todos para aprender a olhar para si. Est na hora de amadurecer,
Elisa. De mudar, de crescer. De deixar comportamentos inadequados que s resultam
em dores e sofrimentos.
--  o que eles me dizem aqui. J me matriculei em um curso. Vou aprender.
-- Antes assim, minha querida. Estou preparando uma casa perto da minha para voc.
Quando puder ir, ficarei contente.
-- Papai est l com voc?
-- No. Ele vive em outro lugar. Tem compromissos diferentes dos meus.
-- Eu pensei que estivessem juntos!
-- No. Continuamos bons amigos, mas o casamento foi s na Terra. Acabou.
Pensamos de forma diferente. Nosso compromisso terminou no dia em que morremos
juntos, naquele desastre de trem.
-- Aquilo foi horrvel!
-- Ns no sentimos nada na hora. Sequer nos lembramos como foi. Difcil foi depois,
aceitar a mudana, deixar vocs to crianas, sozinhas no mundo.
-- Foi como eu. Tambm fiquei desesperada.
-- Ns no sabamos que todos estvamos sob a proteo de espritos dedicados.
-- Saber disso conforta. Agora tambm estou mais calma.
-- Precisamos aprender a nos desapegar.
--  isso que no entendo. Dizem que precisamos amar e nos separam dos entes
queridos dizendo que temos que nos desapegar. No  um contra-senso?
-- No, Elisa. Usar o amor como pretexto para nos agarrarmos s pessoas que amamos
 egosmo.  disso que precisamos nos libertar. Na fase em que estamos,  importante
desenvolver a confiana na providncia divina que trabalha em favor de todos
igualmente.  a falta de f que nos d insegurana, medo do futuro, e nos faz pensar
que, sem a nossa presena, nossos filhos estaro em perigo. Creia, Elisa, muitos
ficariam melhor sem os pais.
-- Me! No posso acreditar que esteja falando srio!
-- Estou. Quando os pais so inseguros, transmitem seus medos aos filhos. Tentam
evitar que eles sofram o que temem, mergulham na superproteo. Com isso, impedem
seu desenvolvimento, tolhem seu amadurecimento, tornando-os incapazes e fracos.
--  por isso que voc se acha culpada pelo que me
aconteceu?
-- Sim. Deus nos coloca no mundo para vivenciarmos experincias e desenvolvermos
nossa conscincia.  medida que vamos nos tornando mais lcidos, conhecendo como a
vida funciona, vamos nos tornando mais responsveis e mais felizes. Querer impedir
esse amadurecimento, a pretexto de evitar as lutas necessrias  conquista desses
objetivos,  infelicitar ao invs de ajudar.  por isso que voc v no mundo muitos
filhos que foram superprotegidos e tiveram tudo, voltarem-se contra os pais, procurando
feri-los.
-- O filho de gata. Lembra, me? Era rico, tinha o carro do ano, no trabalhava, os
pais faziam tudo que ele queria. Mas ele era revoltado, vivia envergonhando os pais. Era
um filho ingrato.
-- No era. Embora ele no estivesse consciente disso, seu esprito sabia que estava
sendo prejudicado pelos excessos dos pais. Odiava-os por isso. Reagiu de forma errada.
O melhor teria sido sair de casa e tentar a vida por si mesmo, trabalhar, cuidar de si.
Mas ele no tinha ainda amadurecimento espiritual para isso.
-- Me, como seria bom que soubssemos de tudo isso quando estamos no mundo.
--  verdade. Ns estudamos antes de reencarnar, aprendemos muitas coisas, o que j 
um privilgio diante dos que ainda esto menos conscientes. Mas quando vivemos no
mundo, sofremos o assdio das energias de todos os que l vivem. Suas formas de
pensamento, nos envolvem influenciando-nos pesadamente. Mergulhados na mente
social, nos esquecemos com facilidade do que aprendemos aqui, impressionados com as
aparncias e os conceitos da sociedade.
-- Ao nascer na Terra, seria bom se no houvesse esquecimento do passado e
pudssemos recordar claramente o que aprendemos aqui, e tudo quanto nos aconteceu.
-- Tambm j pensei assim, entretanto, Elisa, estava enganada. Primeiro, porque esse
esquecimento representa uma pausa, um descanso para nosso esprito. Depois, porque
atrapalharia muito nosso relacionamento com as pessoas. Como seria sua vida se voc
soubesse que Olvia e Eugnio haviam se amado ?
-- No me teria casado com ele. Poderia ter tido um marido melhor e estar l, vivendo
feliz com minha famlia.
Rosa sorriu e respondeu:
-- Voc diz isso agora. Mas o que faria da paixo que ele ainda lhe despertava? Teria
foras para renunciar, ou tornaria a fazer o que fez?
-- Se no passado tra Olvia, agora no teria coragem para
isso. Eu mudei. Se soubesse do passado, no teria me envolvido com ele.
-- Voc no poderia, Elisa, resistir a fora das coisas. Os trs estavam unidos em um
relacionamento inacabado. Presos uns aos outros por energias conflitantes. Ningum
tem como fugir dos resultados de suas atitudes. Mesmo que quisesse, no ia conseguir.
Creia, o esquecimento foi providencial. Primeiro, para fazer com que voc e Olvia se
conhecessem melhor, longe dos ressentimentos passados, segundo, para que os outros
envolvidos tambm reciclassem os prprios sentimentos.
-- Como assim? Que outros envolvidos?
-- Suas atitudes no passado deixaram dolorosa marca na vida dos filhos de Olvia e
Eugnio. Reencarnando como seus filhos, eles tambm conheceram seu lado amoroso e
dedicado. Antes, eles faziam outra idia a seu respeito.
Elisa sobressaltou-se:
-- Eles souberam o que eu fiz?
-- Sim. Quando voc chamou Olvia e lhe fez a revelao dos seus amores com
Eugnio, ela ficou muito revoltada. No se lembra?
Elisa pensou na cena que presenciara quando chamara Olvia  sua casa e, de repente,
lembrou-se do que acontecera depois. Angustiada, reviu a revolta de Olvia. Depois, a
cena terrvel com Eugnio, que a procurou criticando sua atitude, dizendo-lhe que a
desprezava. Ameaara-a, prometendo vingar-se, caso voltasse a ver qualquer membro
da sua famlia.
Elisa, plida, nervosa, disse:
-- Me! Foi horrvel! Eu me lembro! Como pude fazer isso? Caiu em soluos e Rosa
olhou-a sria ao dizer:
-- Acalme-se. Isso foi h muito tempo. J passou. Muita coisa mudou desde aqueles
dias.
-- Os filhos deles, isto ... meus filhos... souberam a verdade?
-- Souberam. Olvia tem gnio forte. Depois daquele dia, nunca mais quis saber do
marido. Ele tentou de todas as formas reconquist-la, mas ela no o perdoou. Viveu
sozinha com os filhos. Eles a adoravam e deram-lhe razo. Afastaram-se do pai com
desprezo.
-- E quanto a mim? Estou sentindo que eles tambm me odiaram.
-- Eu no diria isso. Eles odiaram o que voc fez.
-- Estou me lembrando agora. Vivi muito infeliz o resto dos
meus dias. Sofri enorme depresso. Meus pulmes foram atingidos e morri de
tuberculose.
-- Voc morreu sufocada pela tristeza e pelos remorsos. Eles foram responsveis pela
sua doena nos pulmes.
-- Voc me ajudou, eu sei. Na Terra, dizem que quem morre, descansou, se libertou.
Comigo no aconteceu isso. Continuei doente mesmo depois de morta.
-- As impresses de sua culpa estavam muito vivas em sua lembrana. Elas a impediam
de se recuperar. Mesmo depois que Olvia a perdoou, se aproximou de voc e tentou
ajud-la, voc custou a melhorar.
--  mesmo! Ela me visitou, disse que havia esquecido tudo. A princpio, eu no
acreditei, mas depois percebi que era verdade. Ela tinha uma energia brilhante, e sua
presena me fazia muito bem. Passei a admir-la.
-- Olvia  um esprito lcido. Tem mais vivncia do que ns.  por isso que sempre
teve muita ascendncia sobre voc.
-- Mesmo depois de casada, eu no fazia nada sem perguntar a ela. Apesar do que
houve entre ns, continuo confiando nela.
-- Olvia  verdadeira. Inspira confiana.
-- Ela me perdoou, mas os filhos, no. Isso me incomodava muito. Naquela reunio
com Eugnio, onde ele tambm me perdoou, Olvia foi chamada, lembra-se? Nosso
terapeuta me aconselhou a reencarnar junto com eles. Fiquei apavorada. Eugnio,
ansioso para melhorar seu relacionamento com os filhos, aceitou logo, com entusiasmo.
Ele pretendia provar-lhes seu amor e sua sinceridade. Nos disseram que isso s poderia
realizar-se se Olvia concordasse em reencarnar ao nosso lado. Eu temia que ela
recusasse. Mas ela concordou.
-- Sabia que seus filhos precisavam dessa experincia. Eu reencarnei primeiro,
enquanto vocs ficaram se preparando.
-- Me! Agora entendo por que eu me dediquei tanto a eles! Eu queria lavar minha
culpa! Provar-lhes que os amava. Porque eu os amo muito! Sinto que os amo! Como
no gostar de Marina, que embalei com tanto carinho? Do Juninho, que me deu tantas
alegrias com seu jeitinho carinhoso, e de Nelinha, de olhos to brilhantes e que se
fixavam em mim com tanto amor?
Elisa soluava dando vazo aos seus sentimentos. Rosa levantou-se e abraou-a com
carinho.
-- Eu entendo, querida. No chore mais. Agora, o passado est morto. Assim como
voc os ama, eles tambm aprenderam a
am-la. Voc os conquistou. Eles conheceram seus sentimentos, sua capacidade de
amar, e vero voc como , e no pelo que fez, ou foi.
Elisa suspirou profundamente. Depois disse:
-- Me, agora que descobri a verdade, tudo farei para ajud-los. Meu amor por
Eugnio no era verdadeiro. Eu sei. Ele  muito diferente de mim. Hoje no gostaria de
viver com ele. Me sentiria melhor se pudesse apagar definitivamente o passado. Repor
as coisas nos devidos lugares. Devolv-lo a Olvia.
-- Esse  o seu desejo. No sei se ela quer. Me parece bem, do jeito que est.
-- Se estivesse bem, no estaria sem amor. Por que ela no tem ningum?
-- Essa  uma boa pergunta. Pelo que sei, depois do casamento com Eugnio, nunca
mais se uniu a ningum. Viveu muitos anos aqui, sempre avessa a qualquer
relacionamento.
-- Aqui tambm podemos encontrar o amor?
-- No se lembra? Aqui  a vida maior. Os sentimentos so muito valorizados. Todos
podemos amar livremente. H pessoas que vivem muito felizes juntas.
-- Ser que a desiluso que sofreu com Eugnio no est ainda escondida no corao de
Olvia? Ser que ela ainda no o esqueceu?
Os olhos de Rosa brilharam maliciosos quando disse:
-- Quem sabe? S o tempo vai dizer.
-- Talvez o Vtor possa nos ajudar quanto a isso. Vera disse que se eles se casassem, a
soluo seria perfeita.
-- Vtor no interfere na vida de ningum.
-- Pois eu estou comeando a gostar dessa idia. Dessa forma, estaria unindo aqueles a
quem separei.
--  um bom projeto. Mas, ningum pode manipular a vida. Ela sempre decide o que 
melhor. Cuide de voc, faa seus cursos, esfore-se para aprender, e o resto vir com o
tempo. Agora preciso ir. Voltarei breve. Se quiser falar comigo, basta pensar em mim.
Elisa levantou-se e abraou a me com carinho.
-- Obrigada, -- disse -- voc me ajudou muito. Contar com sua amizade  uma grande
graa.
Rosa beijou-a na face, olhos brilhantes, e disse alegre:
-- Cuide-se bem.
Saiu rapidamente. Elisa foi  janela e ficou emocionada, olhando at seu vulto
desaparecer em um dos portes do jardim.

Captulo 25

Eugnio atendeu ao telefone:
-- O que foi, Elvira?
-- Seu Eugnio, a Nelinha est com febre.
-- Ontem ela estava sem fome, mas parecia bem.
-- Ela est vermelha, e a febre  alta.
-- Vou j para casa.
Desligou o telefone e guardou os papis que estava examinando, chamou a secretria,
encaminhou algumas providncias e saiu. Chegando em casa, viu que Elvira no
exagerara. Nelinha estava com muita febre.
-- Vou chamar o mdico.
Enquanto aguardava, conversou com Nelinha que sentia dores no corpo, mal-estar, sede
e arrepios de frio. O mdico chegou, examinou-a. Eugnio perguntou:
-- Ento, doutor, o que ela tem?
-- Por enquanto no posso dizer. Os sintomas ainda so vagos. Pode ser sarampo. 
cedo para dizer. A garganta est um pouco inflamada. Temos que esperar para saber.
Vou dar-lhe alguns medicamentos para alivi-la e evitar complicaes.
Eugnio respirou aliviado. Logo que o mdico saiu, mandou Elvira comprar os
remdios. Assim que ela voltou, comeou o tratamento. Meia hora depois, a febre havia
baixado e ele sentiu-se melhor. Ficava apavorado quando qualquer dos trs adoecia.
Quando Marina teve sarampo, Elisa ainda era viva e cuidou de tudo. J o Juninho,
quando pegou caxumba, ele ficou em pnico. O mdico custou acalm-lo. Para ter
certeza, ele comprou livros de medicina e quis saber tudo sobre o assunto.
Apesar de Nelinha estar melhor, ele no saiu do seu lado o dia inteiro. No voltou ao
escritrio. No fim da tarde, Olvia apareceu.
-- Telefonei e Elvira me disse que Nelinha est doente. O que ela tem? -- disse ela
entrando no quarto da menina.
-- O mdico disse que parece uma gripe.
-- Est com muita febre? -- indagou ela, preocupada, aproximando-se da cama e
colocando os lbios na testa da menina.
-- O que est fazendo? -- indagou ele.
-- Sentindo se ela tem febre. Com os lbios, d para saber. Eugnio achou graa. Era o
que sua me fazia com ele
quando era pequeno.
-- Como voc sabe disso se nunca foi me? Ela limitou-se a dizer:
-- Est apenas febril. Mas  melhor pr o termmetro. Onde est?
-- Aqui -- respondeu ele entregando-o a ela.
Olvia levantou o brao da menina colocando o termmetro em sua axila. Ela remexeu-
se e acordou. Vendo-a, disse:
-- Que bom que voc est aqui!
-- Que histria  essa de ficar doente?
-- Pra voc vir aqui fazer um mingau pra mim. Olvia sorriu e seus olhos brilharam.
-- Pra isso no precisava adoecer. Bastava pedir.
-- Voc no tem vindo me ver.
-- No  verdade. Estive aqui no domingo.
-- Da outra semana.
-- Vou fazer seu mingau, mas voc vai comer tudo. A Elvira me disse que no tem se
alimentado bem.
-- Se voc fizer, eu como.
Olvia foi para cozinha. Eugnio conversou com a filha enquanto esperavam. Ela
parecia-lhe bem. Olvia voltou com o prato dizendo:
-- Vamos, sente-se. Ela tentou levantar-se.
-- Estou tonta. Acho que vou comer deitada.
Olvia olhou para Eugnio admirada. Ela estava quase sem febre. Por que a tontura?
Ele entendeu seu pensamento e disse:
-- A gripe costuma dar tontura.
-- . Pode ser isso mesmo. Sentou-se ao lado da cama dizendo:
-- J que voc virou um nen, vou dar comida em sua boca. Vamos, abra.
Nelinha abriu e, na primeira colherada, estremeceu:
-- No quero -- disse. -- Estou com nsia.
-- Pode ser do remdio -- disse Eugnio. -- Eles curam
Uma coisa e estragam outra.
-- Essa menina precisa se alimentar. A gripe sara com boa alimentao.  melhor falar
com o mdico.
-- Vou telefonar.
O mdico mandou dar um remdio para enjo. Depois disso, ela no se queixou mais.
Passava das dez e Olvia no tinha vontade de ir embora. achava a menina muito
caidinha. Eugnio no dizia nada, mas preferia que ela ficasse. Sentia-se mais seguro
com sua presena.
-- Se voc no se importa, acho que vou ficar aqui esta noite-- resolveu ela por fim.
-- Ainda bem -- desabafou ele. Ela olhou-o surpreendida.
-- Para dizer a verdade, Olvia, sou muito patife. Quando um deles adoece, fico
apavorado. Nunca sei direito o que fazer.
-- Sei como .
-- Sabe? Voc  mais forte do que eu. Est sempre to segura de tudo.
-- Me esforo para reagir. Nelinha j adormecera novamente.
-- Elvira, antes de ir, me disse que voc no jantou. Se quiser ir agora, eu ficarei ao
lado dela.
-- Obrigado, Olvia.
Ele levantou-se e foi at a cozinha. No quis comida. Fez um sanduche e abriu um
refrigerante. Depois de comer, voltou ao quarto de Nelinha.
-- Voc tambm no comeu. Pode ir que eu fico com ela. Ela desceu e ele ficou
pensando em seu relacionamento
com a cunhada. Ela implicava com ele, mas sempre que precisava, estava a seu lado.
Apesar de sua atitude hostil, ele sentia-se seguro quando ela estava perto. Como uma
mulher fria, sem amor, podia gostar de crianas? Tinha um jeito especial para lidar com
os sobrinhos, e eles a adoravam. Tinham para com ela gestos de carinho mais intensos
do que com a prpria me. Amaro lhe dissera que ela no era fria como ele pensava.
Seria verdade? Sob aquela aparncia indiferente, Olvia guardaria um corao
apaixonado? Por que se tornara to ctica com relao ao casamento? Teria tido alguma
desiluso? Alguma paixo no correspondida?
Ela voltou minutos mais tarde, e ele disfaradamente observou seu rosto. Como seria
Olvia quando amasse? Que tipo de homem despertaria seu interesse?
Ela sentou-se em uma poltrona ao lado da cama.
-- Se quiser pode ir dormir. Eu ficarei com ela.-- Voc no vai passar a noite nessa
cadeira.
-- Vou ficar mais um pouco aqui. J que as crianas esto no outro quarto, quando
sentir sono, deito na cama ao lado.
-- Voc precisa levantar cedo para trabalhar.  melhor ir dormir. Eu ficarei ao lado
dela.
-- Voc tambm trabalha cedo. No adianta me deitar agora. No conseguiria dormir.
Estou sem sono.
-- Tambm no poderia dormir. Prefiro ficar aqui. Olvia olhou-o e no se conteve:
-- Voc mudou muito. Quando Marina teve sarampo, voc mal entrou no quarto.
-- Eu era inexperiente. Depois, Elisa cuidava bem de tudo.
--  -- fez silncio por alguns minutos, depois disse: -- Voc est pensando em casar-
se novamente?
Ele sobressaltou-se:
-- Por que pergunta?
Olvia hesitou alguns instantes. Depois resolveu:
-- Embora voc no acredite, Elisa est preocupada com isso.
-- Elisa?!! Como sabe?
-- Ns no contamos, porque voc no acredita. Mas ela esteve comigo e pediu-me
que no deixasse voc casar de novo. No quer que seus filhos tenham madrasta.
Eugnio passou a mo pelos cabelos pensativo. Olvia continuou:
-- Amaro disse que ela tem estado a seu lado e afastado qualquer mulher pela qual voc
se interesse.
Ele lembrou-se de como se sentira inseguro depois de haver decidido casar com a
Lourdes. Teria sido por isso? Disfarou:
-- Ainda no pensei em casar.
-- A Lourdes  uma boa moa. Pensei que estivesse interessado nela.
-- No. Ela  maravilhosa, mas no penso em casamento. Olvia calou-se. Ele queria
perguntar mais detalhes desse
encontro com Elisa. Ele era descrente, mas sabia que Amaro era pessoa sria, que Olvia
respeitava muito a memria da irm para brincar com o assunto. Algo teria acontecido,
mas o qu? Esperou, mas Olvia no contava. Por fim arriscou:
-- Voc diz que conversou com Elisa. Sei que no est brincando com um assunto to
srio. Como pode ter certeza?
-- Para que pudesse entender, eu precisaria contar-lhe todas
minhas experincias. No  fcil. Tenho aprendido muito sobre esse assunto. Indo ao
Centro Esprita, aconteceram comigo tantas coisas, que estou convencida de que a vida
continua depois da morte. Voc pode duvidar,  um direito seu. Mas eu tenho certeza.
Elisa est viva em outro mundo e continua sendo a mesma, embora tudo quanto passou,
tenha mudado sua maneira de pensar.
-- Sua certeza me impressiona. Voc, sempre to materialista...
-- Nunca fui materialista. No sou religiosa, nem freqento igrejas, mas sempre
acreditei em Deus. Voc me conhece pouco.
-- . Pode ser. Mas sei que no seria capaz de brincar com a memria de Elisa.
-- Nem eu nem Amaro. Ele  muito sincero. Jamais se prestaria a uma farsa dessas.
--  isso o que me intriga. Vocs falam com tanta certeza! estou curioso. No quer me
contar como foi?
Olvia olhou-o nos olhos depois disse:
-- Para mim, o que aconteceu foi to forte, to importante que eu no gostaria de dividir
com algum que no possa compreender e compartilhar.
J agora, Eugnio estava ansioso para saber.
-- Se voc me explicar, talvez eu possa entender. Garanto a voc que no tenho
inteno de criticar.
-- Est bem. Vou contar tudo.
Olvia comeou desde a primeira noite em que fora ao Centro Esprita e foi relatando
tudo.  medida em que falava, as palavras tluam fceis, e ela descrevia os fatos com
clareza. Eugnio ouvia admirado. No sabia que Olvia tinha tanta facilidade para contar
coisas. Conforme ela falava, parecia-lhe ver as cenas, e ele chegava a sentir as emoes
de cada momento. Quando finalmente ela relatou os fatos ocorridos em casa de Ins, ele
estava fortemente emocionado. Parecia-lhe ver Elisa soluando, abraada  irm,
pedindo para ir ver os filhos, para tomar conta deles.
Olvia, olhos brilhantes marejados, recordando as emoes daqueles momentos, parecia
outra pessoa. Seu rosto transformara-se, sua voz estava mais suave, seus gestos mais
delicados.
Eugnio a custo controlava a emoo. Seu corao batia descompassado, e ele no
saberia explicar o que estava acontecendo ali. Ele no podia ver que Amlcar estava l,
com a mo sobre sua cabea, e que Renata envolvera Olvia, falando-lhe atravs dela.
-- Eugnio -- finalizou ela -- est na hora de voc pensar em sua vida espiritual. Seus
filhos precisam dessa orientao. Voc
precisa harmonizar sua vida, cuidar da sua felicidade. S quando estiver bem, vai poder
realizar o que veio fazer nesta encarnao, No tenha medo da verdade. Procure
esclarecer-se. Cuide de sua vida interior. Ligue-se com Deus. Voc tem estado indeciso
quanto ao rumo que deve dar a sua vida. As atividades que antigamente o
entusiasmavam, agora j no tm o mesmo sabor. Ele olhou-a admirado:
-- Como sabe? Amaro falou-lhe sobre mim?
-- No. Ele no disse nada. Mas eu sei que voc est insatisfeito. Depois da morte de
Elisa, tambm fiquei assim. Amadureci e mudei. Meus valores mudaram. Questionei a
vida, comecei a perguntar e no obtive resposta. Foi nesse momento que Amaro
conversou comigo e respondeu algumas das minhas indagaes. Fiquei deslumbrada.
Fui buscar mais e encontrei. A certeza de que a vida continua depois da morte, modifica
nossa maneira de ver. Depois, a reencarnao, mostrando que vivemos outras vidas, nos
faz compreender a desigualdade social. O contato com os espritos harmoniza nossa
alma, alimenta e nos d paz.
Eugnio olhava-a como se a estivesse vendo pela primeira vez.
-- Voc encontrou tudo isso?
-- Encontrei. Saber que Elisa vive e est bem, deu-me conforto. Mas ao mesmo tempo
despertou-me a curiosidade. Fiquei pensando: como ser esse lugar onde ela est?
Como sero os mundos para onde as pessoas vo depois da morte?
-- Voc acredita que esses mundos existam mesmo?
-- Acredito. Em algum lugar, Elisa deve viver. H outras pessoas, devem ter uma
sociedade, um tipo de convivncia.
-- Parece incrvel!
-- Por qu? Pensar que neste imenso universo s existe vida na Terra,  acreditar que
Deus tenha desperdiado seus talentos. S porque ns somos limitados e no podemos
sair daqui, no significa que s exista a nossa realidade.
-- Tenho ouvido falar sobre isso, mas nunca parei para pensar.
-- Chegou a hora de fazer isso. Conhecer a espiritualidade transforma nossa vida.
-- Voc mudou muito, Olvia -- fez uma pausa e depois de ligeira hesitao, concluiu:
-- para melhor.
Ela deu fundo suspiro e ajuntou:
-- Voc pediu, eu contei. Dei o recado de Elisa. Era minha obrigao.
Ele ia responder, mas Nelinha agitou-se, abriu os olhos e tentou-se na cama. Olhou para
Olvia e seu rosto emocionou-se:
-- Me! Voc voltou! Estava com tanta saudade!
Passou os braos em volta do pescoo dela, beijando-a na face. Olvia emocionou-se.
Seu corao disparou, e ela no soube o que responder. Apertou Nelinha nos braos
beijando-a tambm.
Eugnio olhava-as sem compreender. Elisa estaria ali? Sentiu-se profundamente
emocionado, e as lgrimas correram pelas suas faces sem que as pudesse conter.
Aquela cena era-lhe familiar, sentiu que j a tinha vivido antes, mas quando? Nelinha
continuava abraada  Olvia, apertando-a com carinho. Eugnio esforou-se para
controlar a emoo e quando conseguiu, perguntou:
-- Voc est vendo Elisa de novo?
Nelinha olhou-o, e ele notou que seus olhos no o fitavam, parecendo perdidos em um
ponto indefinido. Seu rosto estava em extase quando ela respondeu:
-- Minha me se chama Hortncia! Como pode ter se esquecido, papai?
Eugnio encostou a mo na testa de Nelinha para ver se estava com febre. Ela delirava,
com certeza. De repente, seu sorriso desapareceu, e ela deixou pender a cabea no
ombro de Olvia que, muito emocionada, no conseguia falar. Vendo-a adormecida,
delicadamente colocou-a na cama.
Eugnio olhava-a sem saber o que dizer. O que estaria acontecendo ali? Por fim, mais
calmo disse:
-- Pensei que fosse delrio. Mas ela est sem febre. Acho que estava sonhando!
--  -- concordou Olvia esforando-se para dominar-se. -- Acho que sim.
Os dois ficaram em silncio, cada um imerso nos prprios pensamentos. Por fim,
Eugnio arriscou:
-- Quando ela disse aquilo, tive uma sensao estranha! Pareceu-me que ns trs j
tnhamos vivido uma cena igual. Foi to familiar! Isso nunca tinha me acontecido.
Olvia olhou-o pensativa. Ela tambm tivera a mesma sensao. Porm, no disse nada.
Podia estar confundindo as coisas. O relato que fizera de suas experincias espirituais a
emocionara. Sentira a presena de espritos ao redor. Ela j podia perceber quando se
aproximavam. Sentia que eles estavam querendo ajudar Eugnio.
-- Voc acha que Elisa estava aqui? -- indagou ele meio assustado.
-- No sei. No senti sua presena. Depois, ela disse outro nome. Acho que estava
sonhando mesmo.
Eugnio colocou novamente a mo na testa de Nelinha. Estava sem febre.
-- Est dormindo tranqila. Acho que melhorou.
-- . Amanh com certeza estar boa. Se quiser ir dormir, v. Eu vou me deitar um
pouco tambm.
-- Est bem. Deixarei a porta aberta. Se a febre voltar ou ela me chamar, pode me
acordar.
-- Acho que agora ela vai dormir bem o resto da noite. Sua respirao est normal.
Eugnio levantou-se, foi at a porta e parou. Voltou-se e disse:
-- Obrigado, Olvia, por tudo. Sou muito grato a voc pelo que tem feito por ns. --
Hesitou um pouco e continuou: -- obrigado tambm por haver me contado tudo sobre
Elisa. Depois do que aconteceu aqui esta noite, fiquei com vontade de conhecer esse
Centro Esprita que vocs vo. Boa noite, durma bem, Olvia.
Olvia estendeu-se na cama. Sentia-se emocionada. Eugnio estava certo. Aquela noite
havia algo no ar, tudo parecia-lhe modificado. Sabia que os espritos haviam estado ali.
Teria sido apenas para ajudar Nelinha? At Eugnio parecera-lhe diferente. Em outros
tempos, no teria tido coragem para falar sobre Elisa. Quando estava contando suas
experincias, sentiu que ele foi tocado. Teria conseguido faz-lo acreditar que Elisa
continuava viva? A reao dele foi positiva. Perguntou a Nelinha se a estava vendo!
No teria feito isso se no tivesse dado crdito ao que lhe contara!
Lembrou-se da resposta da menina:
-- Minha me se chama Hortncia! Como pode haver se esquecido, papai?
Ao pensar nisso, Olvia sentiu a emoo voltar. Por que emocionara-se tanto com as
palavras dela? Ela estava sonhando, mas reconhecera o pai. Por que trocara o nome da
me?
Precisava conversar com Amaro. Saber sua opinio. No dia seguinte iria procur-lo.
Tentou dormir, mas o sono no vinha. Olvia sentia-se diferente. Mais sensvel, mais
emotiva. No podia esquecer o abrao de Nelinha e parecia-lhe ouvir novamente suas
palavras.
Tentava convencer-se que a menina havia sonhado, que estava dando importncia
demais ao que ela dissera. Mas a sensao forte de j ter vivido outro momento como
aquele voltava emocionando-a. Seriam reminiscncias de suas vidas passadas? J teria
tido uma filha e o abrao de Nelinha a fizera recordar-se?
Se ela pudesse saber! No estaria sendo muito impressionvel? No podia deixar-se
dominar pelas emoes. Teria que reagir. A doena da menina, a dedicao do cunhado
pela sade da filha, a lembrana de Elisa e o fato de Eugnio, pela primeira vez, admitir
a sobrevivncia do esprito haviam-na sensibilizado. Esforou-se para relaxar e
conseguir dormir, contudo estava quase amanhecendo quando ela finalmente
adormeceu.
Acordou na manh seguinte assustada. Eugnio estava em p, ao lado da cama, fitando-
a.
-- O que foi? -- indagou ela. -- Nelinha est bem?
-- Est. No tem febre.
-- Graas a Deus. -- Olvia levantou-se passando a mo pelos cabelos e ajeitando a
roupa.
-- Voc no descansou -- tornou Eugnio. -- Pensei em oferecer-lhe um pijama, uma
roupa mais confortvel. Devia ter feito isso.
-- No se preocupe. Estou bem. -- Deu uma olhada no relgio que conservava no
pulso. -- Minha roupa ficou um horror. Preciso ir para casa tomar um banho antes de ir
para o escritrio.
-- Por que no descansa hoje? Est abatida, parece cansada.
-- Custei a pegar no sono.
-- Eu tambm, -- confessou ele.
-- Foi a preocupao com Nelinha. Ainda bem que a febre se foi.
-- . Elvira ainda no chegou, mas eu fiz caf. Nelinha est dormindo tranqila. Voc
ontem no comeu nada. Vamos tomar caf. Comprei po fresco.
Olvia olhou-o surpreendida, e respondeu:
-- V voc. Vou me lavar um pouco.
Depois de colocar a mo sobre a testa da menina, foi ao banheiro, lavou-se, melhorou a
aparncia e foi  copa. Eugnio estava  mesa tendo diante de si uma xcara fumegante
de caf com leite. Olvia notou que a mesa estava arrumada com bom gosto.
-- Sente-se, Olvia, por favor -- disse ele. --  horrvel tomar o caf sozinho.
Ela olhou-o e no respondeu. Sentiu vontade de dizer-lhe que ele estava s, porque no
valorizara a esposa, mas calou-se. Pela primeira vez, no sentiu prazer em lembrar
antigos problemas. Para qu? Sentou-se calada. Serviu-se de caf com leite.
-- Pensei muito no que aconteceu ontem -- disse Eugnio. -- No sei por que no
consegui tirar aquela cena da cabea.
-- Vai ver que voc j passou por uma cena igual com Elisa.
Ele sacudiu a cabea negativamente.
-- No. Quando as crianas adoeciam, Elisa no me deixava fazer nada. Colocava-se
ao lado da cama e resolvia tudo. Uma situao como aquela nunca nos aconteceu.
-- Provavelmente, no.  melhor esquecer.
-- Isso que me intriga. Sei que no aconteceu, mas por que sinto como se j a tivesse
vivido? A impresso foi muito forte. Muita emoo, quase no dormi pensando nisso.
-- Pigarreou e prosseguiu: -- voc sabe que no sou dado a pieguismo. Sou controlado.
Olvia suspirou dizendo:
--  difcil saber por que certas coisas nos acontecem! -- estava pensando que isso
tambm se dera com ela. -- Talvez o fato de conversarmos sobre coisas espirituais,
recordarmos de Elisa, nos tenha emocionado.
-- Voc tambm sentiu! Eu sei que sentiu!
-- ... no d para negar. Eugnio olhou-a fixamente dizendo:
-- Sinto que alguma coisa aconteceu. Algo mudou e no sei o que .
Olvia no teve coragem para dizer que sentia a mesma coisa. Respondeu simplesmente:
-- Quando comeamos a conhecer as coisas espirituais, tudo muda em nossas vidas.
Ontem, havia ao nosso lado espritos amigos nos ajudando. A presena deles nos
sensibilizou.
-- Pode ser. Mas parece que tudo est diferente. Voc, eu, a situao. No sei o que ,
mas nada  igual ao que era.
Olvia sorriu.
-- Acho melhor falar com Amaro. Ele  quem pode tentar entender o que est dizendo.
Elvira chegou e Eugnio levantou-se, conversou com ela fazendo vrias recomendaes.
Marina e Juninho tambm levantaram e beijaram a tia com carinho.
-- Vou para o escritrio -- disse Eugnio para Elvira. -- Se notar qualquer coisa com
Nelinha, avise-me.
Olvia servia caf para os dois sobrinhos. Eugnio aproximou-se dela:
-- Falarei com Amaro hoje mesmo. Ainda acho que voc deveria descansar hoje. Est
com cara de cansada.
-- Nada que um bom banho no resolva. Eugnio beijou as crianas, depois disse:
-- At a noite, Olvia, e obrigado.
Ele saiu e Olvia foi para casa. Tomou banho, arrumou-se e foi para o escritrio. Tinha
algumas coisas importantes para fazer naquele dia.  tarde telefonou para Amaro
pedindo-lhe para esper-la NA sada do trabalho.
Quando saiu, ele j a esperava. Abraou-a com carinho.
-- Tem novidades pelo que sei -- disse ele, alegre.
-- Tenho. Eugnio no falou com voc?
-- Falou. Quer ir ao Centro conosco hoje  noite. Voc conseguiu um milagre. A
conversa dele mudou.
--  sobre isso que quero conversar com voc. Ontem  noite aconteceram coisas
muito estranhas. Havia algo no ar. Ainda R|o sei o que era, mas de repente tudo ficou
diferente. Quando dei por mim, estava conversando com Eugnio contando tudo sobre
nosso encontro com Elisa. E ele ouvia com ateno, sem aquele ar da descrena que me
irritava toda vez que falvamos sobre isso. No stl, mas ele estava diferente. No
parecia a mesma pessoa.
-- Voc conseguiu tocar sua alma.
-- Senti que havia espritos nos ajudando. Mas no vi Elisa.
-- Eugnio me contou que teve uma reminiscncia.
-- Como assim?
-- Quando Nelinha acordou e a chamou de me.
-- Ela estava sonhando.
-- Ele lembrou-se de j ter vivido uma cena como aquela.
-- Senti a mesma coisa. Parecia-me j ter vivido aquela cena, ns trs ali, juntos,
naquela situao. Mas isso  loucura. Ficamos impressionados. Elisa no estava l
naquela hora. Nelinha disse outro nome, estava sonhando mesmo. Depois foi difcil
dormir. A imagem dessa cena voltava  minha mente e eu me emocionava de novo. 
isso que eu queria perguntar-lhe. O que acha que nos aconteceu?
Nos olhos de Amaro havia um brilho indefinvel quando disse:
-- Vocs tiveram uma reminiscncia do passado.
-- Acho que no foi isso. Penso que a doena de Nelinha e a conversa sobre Elisa nos
emocionaram.
-- Os dois sentiram a mesma coisa. Em outros tempos, em algum lugar, vocs j
viveram essa cena. Foi vislumbre do passado. Por isso, ambos ficaram to emocionados.
Se fosse apenas um sonho de Nelinha, vocs no teriam sentido isso.
-- O que quer dizer com isso? Eu j teria vivido uma situao igual com alguma
pessoa?
-- Voc j viveu uma situao dessas com Eugnio. No se esquea de que ele sentiu a
mesma coisa.
Olvia olhou para Amaro assustada.
-- Isso no pode ser!
-- Porque no?
-- Porque eu nunca teria intimidade com ele. Voc sabe que nunca o suportei.
-- Para mim, o que aconteceu ontem foi mesmo uma lembrana do passado. Vocs j se
conheceram em outra vida. Agora, o que aconteceu entre vocs dois no sabemos. Isso
poderia explicar sua atitude com ele.
-- Minha atitude com ele resultou do que ele fez a Elisa. A infidelidade de Eugnio
sempre me irritou. Elisa era boa demais para ele.
-- Voc teria outra explicao para o que houve?
Olvia ficou olhando sem saber o que responder. Ele prosseguiu:
-- No h, Olvia. Para mim no  novidade. Tenho certeza de que vocs trs j
viveram outras vidas juntos.
-- Amlcar disse alguma coisa?
-- No. Mas sinto que se voc no estivesse ligada a Eugnio e s crianas, por
problemas no resolvidos de vidas passadas, vocs j teriam se separado. J notou que
voc est sempre envolvida com eles?
-- Claro. So filhos de minha nica irm. S tenho eles no mundo. Adoro essas
crianas. Depois, Elisa pediu que tomasse conta delas. Ela confia em mim.
-- Pois . Voc mesma havia dito que no assumiria as crianas. Que o pai  quem deve
fazer isso. Mas no quer que ele se case de novo.
-- J lhe disse o porqu. Amaro olhou-a nos olhos e disse:
--  a vida quem os est reunindo, Olvia. Vocs no vo poder fugir  fora das
coisas.
-- O que quer dizer com isso?
-- Nada.. O importante  que Eugnio ir conosco ao Centro. Vamos ver o que
acontece.
--  -- concordou ela. -- Vamos ver.
No fim da tarde, Olvia recebeu um telefonema de Eugnio.
-- Nelinha no est bem. Elvira me ligou chamando. Vou para casa. Liguei para o
mdico. No vai dar para ir com vocs hoje.
-- O que ela tem? A febre voltou?
-- Elvira no soube explicar. S disse que ela est tendo dificuldade para respirar.
-- Vou j para l.
-- Eu tambm.
Olvia telefonou para Amaro pedindo-lhe para passar em casa de Eugnio antes de ir ao
Centro. Se tudo estivesse bem l, ela Iria com ele.
Eugnio apressou-se em ir para casa. Talvez Elvira houvesse exagerado. Em todo caso,
o mdico estava a caminho. Ainda bem que Olvia estaria l. Sentia-se mais seguro com
a presena dela.
Ao chegar, Eugnio assustou-se. Apesar de estar apenas febril, Nelinha estava plida e
respirava com dificuldade. Quase no podia falar queixando-se de dores na garganta.
Quando Olvia chegou, o mdico j estava examinando Nelinha. Quando terminou, ele
disse:
-- Preciso fazer alguns exames. Para isso teremos que lev-la para o hospital.
-- Hospital! O que ela tem? -- indagou Eugnio, assustado. O mdico olhou-o como
que avaliando cada palavra e
respondeu:
-- Pode no ser nada grave, mas eu preciso me certificar. No posso esperar os exames
de laboratrio. Nesses casos, quanto antes agir, melhor.
-- Do que suspeita? -- perguntou Olvia.
-- Est havendo um surto de difteria na cidade. Precisamos primeiro afastar essa
hiptese.
-- Difteria? -- fez Olvia. --  uma doena muito grave!
--  uma doena que precisa ser cuidada rapidamente. Trata-se de molstia muito
contagiosa. Por isso, precisamos lev-la imediatamente. Se essa suspeita no for
confirmada, ela poder voltar para casa.
-- E se for? -- indagou Eugnio, plido.
-- Bom, se for, ela ter que ficar internada no isolamento. Eugnio estava transtornado.
Foi Olvia quem providenciou algumas roupas da menina. O mdico escreveu as
indicaes e entregou a Olvia dizendo:
-- Com isto, eles providenciaro tudo no hospital. Estarei l dentro de meia hora.
Depois que o mdico saiu, Olvia chamou Elvira:
-- Precisamos levar Nelinha para o hospital fazer alguns exames. Voc tem que ficar
com as crianas. Pode dormir aqui esta
noite? Vou pedir a Glria para fazer-lhe companhia.
-- Eu fico, sim. Vou telefonar para a vizinha da minha casa e pedir para ela avisar meu
pai.
-- Est bem. Pode ser que Nelinha no precise ficar l e que logo estejamos de volta.
Mas se no viermos, voc fecha tudo.
Olvia procurou a vizinha e contou-lhe o que estava acontecendo. Foi quando Amaro
chegou. Informado do que se passava, ele disse:
-- Vocs vo para o hospital, e eu, para o Centro pedir ajuda espiritual para ela.
Quando terminar, passarei no hospital.
-- Faa isso, Amaro. Estou atordoado. No sei o que fazer.
-- Acalme-se, Eugnio. Nessa hora  preciso conservar a serenidade. No h de ser
nada grave!
-- Deus o oua!
Chegando no hospital, colheram material para exame. Enquanto esperavam em um
quarto do pronto-socorro, Nelinha estava inquieta e respirando com dificuldade. Dentro
de alguns minutos, um mdico procurou por eles, dizendo:
-- Precisamos intern-la imediatamente.
-- Internar? -- murmurou Eugnio.
-- Sim. Infelizmente ela est contaminada com difteria. No podemos deix-la sair
daqui. Precisa ir para o isolamento.
Antes que Eugnio e Olvia pudessem responder, entraram duas enfermeiras e,
aproximando-se de Nelinha, disseram:
-- Vem, Neli, vamos lev-la para a enfermaria.
-- Enfermaria? -- disse Olvia. -- Ns queremos um quarto. Eu quero ficar com ela.
O mdico sacudiu a cabea negativamente:
-- Sinto muito, mas no ser possvel. Espero que compreendam que trata-se de uma
doena perigosa e de fcil contgio. H um surto na cidade. Estamos tomando todas as
providncias para que ela no se transforme em uma epidemia.
-- Ela  muito pequena! -- argumentou Eugnio. -- Nunca ficou sozinha com
estranhos. Quero ficar com ela. No tenho medo do contgio.
O mdico olhou firme para Eugnio dizendo srio:
-- Compreendo sua preocupao. Mas no posso permitir a presena de pessoas
estranhas dentro da ala isolada. Pode ter certeza de que estamos equipados e nosso
pessoal  excelente. Sua filha ter tudo que precisa para ficar boa.
-- No posso concordar -- interveio Olvia. -- Vou falar com o diretor do hospital.
No podemos deixar uma criana sem ningum
da famlia.
-- Faa como quiser. Se fosse outro tipo qualquer de doena, vocs poderiam ficar o
tempo todo. Mas em se tratando do isolamento, no posso fazer nada.
Olvia viu as enfermeiras colocarem Nelinha em uma maca. ela a olhava suplicante e
respirando com dificuldade.
-- Vocs no vo lev-la sem que eu possa ir junto! -- resolveu Eugnio.
-- Sua filha est precisando de atendimento urgente. Nesse caso, alguns minutos podem
ser preciosos. Estamos perdendo muito tempo. Temos que lev-la j.
Olvia olhou o mdico, olhou o rosto contrado e inquieto da menina e resolveu:
-- Vai com ela, Nelinha. O doutor receitou, vai tratar de voc e logo estar boa. Voc j
 uma mocinha. Tenho certeza de que vai fazer tudo direitinho. Ns no iremos embora.
Ficaremos o tempo todo. No tenha medo. Ns amamos muito voc.
Beijou-a na face, depois, olhando para Eugnio, disse:
-- No vai dizer nada?
Ele compreendeu. Tentando disfarar o que sentia, aproximou-se dela beijando-a
tambm e dizendo:
-- Vai, filhinha. Tome o remdio direitinho para sarar logo. Eu tambm a amo muito.
Depois que as enfermeiras se afastaram com a menina, o mdico olhou-os dizendo:
-- Ainda bem que entenderam. A menina estava muito assustada, porque percebeu o
nervosismo de vocs. Precisam dar-lhe apoio. Pode ter certeza de que faremos tudo para
que ela fique boa logo.
-- Estou com medo mesmo -- disse Eugnio. -- No quero que minha filha morra!
-- Ela no vai morrer! -- interveio Olvia. -- Apesar de tudo, doutor, eu no desisti da
idia de ficar com ela. Vou falar com o diretor do hospital.
-- Faa como quiser. O mdico dela j chegou e est cuidando do caso. Como se trata
de um caso para o isolamento, vocs precisam preencher uma ficha na secretaria do
isolamento.
-- J preenchi uma na chegada.
-- Essa  especial para os casos contagiosos. Algumas informaes. H outras crianas
na casa. Temos que examin-las tambm. Podem ter sido contaminadas.
Quando o mdico se foi, Eugnio no se conteve:
-- Quer dizer que os outros dois tambm podem adoecer? Meu Deus, o que est
havendo conosco?
Ele estava apavorado.
Olvia tambm estava angustiada, mas sentia que precisava ser forte. No era o
momento de lamentar-se.
Aproximou-se de Eugnio, olhando-o nos olhos, disse com voz firme:
-- No se deixe abater. Reaja. Nelinha precisa de ns. Vamos acreditar que ela vai ficar
boa. Quanto aos outros dois, fazer um exame  at bom. Melhor prevenir do que
remediar. Se Nelinha houvesse feito esse exame antes, tomado o remdio certo, talvez
no estivesse to mal.
-- Meus filhos so tudo que eu tenho no mundo! No quero que nada lhes acontea.
Olvia comoveu-se. Sentiu que ele estava sofrendo muito. Sua voz estava mais branda
quando respondeu:
-- Sei o que  isso. Tambm amo essas crianas. No tenho mais ningum no mundo.
Temos que rezar, Eugnio, pedir a Deus a cura de Nelinha.
-- Gostaria de poder fazer isso. Mas no sei como. No consigo pensar com
serenidade.
De fato, ele estava trmulo e inquieto. Olvia tambm estava assustada e temerosa,
porm esforou-se para reagir. O que seria das crianas se ambos perdessem a calma?
Aproximou-se mais dele dizendo com voz firme:
-- Voc est impressionado e com medo. Isso no  bom para ela. Precisamos
conservar o otimismo. Ela vai ficar boa!
-- A doena  grave!
-- Ela est sendo medicada e vai dar tudo certo. Nelinha  forte e logo estar bem.
Eugnio suspirou fundo.
-- Suas palavras me fizeram bem. Tem razo. Ela vai ficar boa!
-- Isso, Eugnio.  assim que se fala. Amaro foi ao Centro pedir ajuda.
-- Amaro  um homem de f. Gostaria de ser como ele.
-- Ele me ajudou muito quando Elisa se foi. Acabei despertando para a vida espiritual.
E isso me fez muito bem.
Eugnio segurou o brao de Olvia olhando-a nos olhos e perguntando:
-- Voc ainda acha que sou culpado pelo que aconteceu com Elisa?
Olvia mordeu os lbios pensativa. Em outros tempos, no teria hesitado em responder
afirmativamente. Porm, agora, olhando o rosto contrado e angustiado do cunhado, no
tinha certeza de nada. Estava descobrindo que ele no era indiferente e egosta como
sempre pensara. Tinha sentimentos e ela sabia que Elisa tivera sua parcela de
responsabilidade no fracasso do seu casamento.
-- No sei -- respondeu afinal. -- Por que me pergunta isso agora?
-- Por que estou sentindo muito medo. Acha que posso estar sendo castigado?
-- No estou entendendo. Voc nunca se julgou culpado pelo acidente de Elisa. Onde
quer chegar?
-- No sou culpado pelo acidente, nem por haver sido sincero. Meu amor por Elisa
havia acabado. Estava sendo difcil manter uma relao sem interesse.
-- Elisa era uma mulher maravilhosa. Voc no a valorizou.
-- Engana-se. Sempre soube que ela era uma esposa exemplar. Mas eu queria amor e
isso havia acabado.
-- Se pensa assim, por que pensa que pode ser castigado?
-- Fui embora e no pensei nos filhos. Se os conhecesse como agora, teria pensado
mais antes de deix-los. Temo que...
Eugnio parou sem coragem de dizer o que estava pensando.
-- Teme qu? Vamos, diga -- encorajou Olvia.
-- Que Deus agora me castigue tirando Nelinha! -- sussurrou ele por fim enquanto seus
olhos enchiam-se de lgrimas.
Olvia comoveu-se, esforou-se para conter o pranto. Depois de alguns segundos,
quando conseguiu controlar-se, respondeu:
-- Tire esses pensamentos da cabea! Nelinha no vai morrer! Deus no castiga
ningum. Depois, voc tem se revelado um bom pai... -- Olvia parou. Ela ia dizer que
a culpa era de Elisa que nunca o deixara cuidar dos filhos.
O que estaria acontecendo com ela? Onde estava a raiva que sentia de Eugnio? Por que
estava encontrando justificativas para ele? Talvez fosse o momento, o fato dele estar to
fragilizado, to assustado. Ela sempre o julgara frio, egosta e interesseiro. O homem
que tinha diante de si, no parecia ser nada disso. Era um pai amoroso, com receio de
perder a filha.
Vendo que ela se calara, ele tornou:
-- Uma vez voc disse que eu seria castigado. Ainda deseja isso?
-- Eu disse. Isso foi antes. Agora penso diferente. Tenho
estudado a vida espiritual e aprendido que  difcil julgar. Hoje o que eu quero mesmo 
que voc possa criar as crianas bem e dar-lhes tudo quanto elas merecem. Compreendi
que voc tem um papel importante na felicidade deles. Qualquer coisa ruim que lhe
acontecesse, atingiria a eles tambm.
Eugnio suspirou largando o brao de Olvia.
-- Saber disso me deixa aliviado. Nunca quis confessar, mas sua raiva, seu desprezo,
sempre me incomodou. Mesmo no tempo de Elisa. Fico melhor sabendo que no me
odeia mais.
Olvia apressou-se em esclarecer:
-- Nunca odiei voc! No gostava do modo como agia com Elisa. No sentia dio, s
achava que ela era muito ingnua e voc estava abusando. O abuso do forte contra o
fraco sempre me irrita.
-- Elisa nunca foi fraca! Ao contrrio. Ela era muito forte. Sua docilidade e eficincia
eram sua fora. Ela cuidava de mim e de tudo com tanta dedicao, que eu acabava
fazendo tudo quanto ela dizia. Ao lado dela, eu estava sempre com a sensao de que
no estava fazendo o suficiente. Sempre lhe devendo algo. Voc, como irm dela, nunca
percebeu isso?
Olvia olhou-o surpreendida. Elisa a consultava sobre as menores coisas, pedia-lhe
opinio, mas na verdade no fazia o que ela dizia. Era to prestativa e to gentil com
ela! Tanto que era comum Olvia sentir a mesma sensao que Eugnio. Estava sempre
lhe devendo um favor.
Sem saber o que dizer, Olvia respondeu:
-- Elisa era muito boa. No sabia o que fazer para agradar.
-- . Mas essa atitude dela no me deixava abertura para ser verdadeiro. Para dizer o
que sentia.
-- Para dizer que tinha outra mulher e que o amor acabou? Ele segurou novamente
o brao dela apertando-o
ligeiramente:
-- Fiz o que achei melhor naquele momento. Nunca pensei que fosse dar no que deu.
-- No vamos relembrar isso. J passou.
-- Olvia, gostaria que soubesse que sou sincero. Eu poderia ter continuado a levar uma
vida dupla, mas isso no era justo com ningum. No sou um homem leviano e volvel
como voc pensa.
-- Por que est me dizendo essas coisas?
-- Por que preciso de voc. Tem me apoiado muito, cuidando das crianas, dando-lhes
carinho, alegria, amor. Acha que no sou agradecido por tudo que tem feito?
-- Fiz de corao e farei tudo pelas crianas.
-- Como voc disse, da mesma forma que o que me acontecer atinge as crianas, o que
acontecer com elas tambm me atinge. Dando-lhes amor, voc me ajudou muito.
Gostaria de acabar com a animosidade que havia entre ns. De sermos amigos, j que
ns dois somos essenciais para a felicidade delas.
Olvia levantou os olhos e fixou-os nos de Eugnio. No teve dvida de que ele estava
sendo sincero. Na verdade, h muito que a raiva dera lugar a constatao de que ele
estava se esforando para cumprir bem seus deveres de famlia.
-- Concordo -- disse por fim. -- Sempre tive medo que voc se casasse novamente e
sua mulher me impedisse de cuidar das crianas como tenho feito. Sofreria muito se
tivesse que separar-me delas. So minha nica famlia.
-- Seria incapaz de fazer isso. Sei o quanto elas gostam de voc.
Uma atendente chamou-os para a secretaria do isolamento. Depois de obedecerem s
formalidades, procuraram a direo do hospital. No se conformavam em ficar
separados de Nelinha. Mas eles foram irredutveis. Na rea isolada era proibida a
entrada de qualquer pessoa.
Eles voltaram  porta do isolamento em busca de informaes sobre o estado de
Nelinha.
-- Ela foi medicada e est sob observao. Uma enfermeira est a seu lado atenta. Est
tudo bem.
Eles queriam mais, mas tiveram que conformar-se e esperar.
-- Se voc quiser ir descansar, -- disse Eugnio -- eu ficarei aqui.
-- De forma alguma. S sairei daqui quando ela estiver fora de perigo.
Ele suspirou aliviado. No queria pedir-lhe isso, mas ficou contente por ela haver
decidido. No queria ficar s naquela noite.
-- Vamos tomar um caf -- sugeriu ela. -- Ajuda a levantar o nimo.
Ele concordou. Foram at a pequena lanchonete do hospital, e Eugnio perguntou:
-- Quer comer alguma coisa?
-- No. No sinto fome. Apenas um caf.
Ele pediu dois cafs, levando-os sobre uma pequena mesa, convidando Olvia a sentar-
se. Tomaram o caf em silncio, cada um imerso nos prprios pensamentos.
-- O tempo vai custar a passar -- disse ele.
--  preciso ter pacincia. Pensar que logo ela estar boa.
-- Quisera ter a sua confiana! Mas meu corao est oprimido. Tenho medo!
-- Tenho aprendido que pensamento tem fora. Voc no est acreditando que ela vai
ficar boa. Reaja. Procure pensar em Nelinha cheia de sade, voltando para casa.
--  o que eu mais desejo. Mas, desde ontem, tenho sentido uma sensao diferente.
Alguma coisa mudou e no sei o que . Comecei a pensar que a vida  um sopro que
pode se acabar a qualquer momento. Isso me assusta.
-- O que assusta  perceber que no pode controlar a vida.
-- Nunca tive medo de nada, agora comeo a pensar que de um minuto para outro tudo
pode mudar.
-- Por causa disso foi que comecei a estudar os fenmenos espirituais. Ficar s
negando, dizendo que no acredita nisso ou naquilo no significa nada.  preciso mais.
 preciso saber como as coisas acontecem, encontrar respostas as nossas dvidas.
-- De que forma?
-- Experimentando. A vida  perfeita, porque  manifestao de Deus. Logo, tudo
quanto ela faz, tem que estar certo. Deus no erra, seno ele deixaria de ser Deus.
-- Se isso fosse verdade, no haveria tanto sofrimento nem tantas coisas erradas no
mundo.
-- As pessoas so imaturas, abusam, escolhem mal, tm atitudes inadequadas, por isso
colhem resultados desagradveis. Contudo, a vida tem seus prprios caminhos e
consegue transformar esses resultados em experincias produtivas para a alma, fazendo
o esprito amadurecer. Nossa viso superficial v erros onde existem remdios. Eles
podem ser amargos, mas conseguem curar.
Olvia falara pausadamente, olhos perdidos em um ponto indefinido, e Eugnio
admirou-se do tom suave de sua voz. Nunca pensou que Olvia pudesse ser to delicada
de sentimentos e ter tanta f.
--  difcil pensar que o que aconteceu com Elisa e conosco tenha sido um remdio.
Desde que ela morreu, s tenho tido problemas.
-- Tenho pensado muito nisso. Custei a me conformar. Mas, apesar da falta que Elisa
me faz, da dor de ver as crianas sem me, da preocupao com a felicidade delas,
percebo que todos ns mudamos muito. Eu me curei do materialismo, descobri a vida
espiritual, voc curou-se da indiferena, descobriu seu amor de pai. De certa forma, o
que aconteceu alargou nossa conscincia, alimentou
nossa alma. Ns amadurecemos.
-- Isso nos aproximou. Nunca imaginei que encontraria em voc tanta ajuda. Estava
enganado a seu respeito.
--  difcil conhecer as pessoas. Muitas vezes nos enganamos.
Ela no teve coragem de dizer que estava comeando a perceber que tambm se
enganara a respeito dele. Eugnio olhou o relgio e levantou-se:
-- Vou ver se consigo saber como ela est.
-- Vou com voc.
Foram perguntar e obtiveram a mesma resposta.
-- Por que no vo para casa descansar? -- disse a enfermeira. -- Temos o telefone e
se houver necessidade, ligaremos.
-- No sairei daqui -- disse Eugnio. -- Vou ficar naquele corredor. Qualquer coisa,
pode avisar.
Olvia foi  secretaria conversar e voltou em seguida.
-- Havia um quarto vago neste andar, no corredor que leva no isolamento. Aluguei-o
para ns. Assim poderemos descansar um pouco, nos revezar, se for o caso.
-- Por que no vai para casa?
-- No conseguiria ficar l -- e dirigindo-se  enfermeira: -- vamos ficar no 117.
Qualquer coisa, por favor, avise-nos.
Os dois dirigiram-se ao quarto onde havia duas camas, um sof e banheiro.
-- Foi uma boa idia -- disse ele.
-- Precisamos poupar nossas energias. Nelinha pode precisar de ns.
Olvia foi ao banheiro, lavou o rosto, as mos. Voltou para o quarto, tirou os sapatos e
estendeu-se na cama.
-- Por que no faz o mesmo? Se sentir melhor. Eugnio concordou. Lavou-se, tirou os
sapatos e estendeu-se na outra cama.
-- Estou pensando em Amaro -- disse ele. -- Ele ficou de passar aqui.
-- Deixei avisado na secretaria. Quando chegar, vir aqui.
-- timo.
Apesar de se sentirem melhor deitados, nenhum dos dois conseguiu descansar. Vendo
que Olvia se remexeu no leito, Eugnio disse:
-- Voc tambm no consegue dormir.
-- . No d.
-- Est com fome? No comeu nada. Posso buscar um
sanduche.
-- Estou com sede. Vou beber gua.
-- No beba, buscarei gua mineral, ou prefere um suco?
-- gua est bom.
Eugnio levantou-se, calou os sapatos e saiu. Olvia pensou: aquele no era o marido
de Elisa que ficava sentado  espera que ela o servisse. No pegava nem um copo de
gua. Ele sabia ser gentil quando queria!
Logo depois ele voltou junto com Amaro, carregando alguns pacotes. Foi logo dizendo:
-- Passei pela enfermaria, as informaes so as mesmas. Amaro passou quando eu
estava no bar da frente. Ele trouxe algumas coisas.
-- Sei que no esto com fome, mas precisam comer alguma coisa.
-- Obrigada, Amaro -- disse Olvia levantando.
-- Fique deitada -- disse ele -- descanse.
-- Estou bem assim -- respondeu ela sentando-se na cama.
Eugnio abriu a gua e encheu um copo dando-o a Olvia. Depois sentou-se no sof com
Amaro.
-- E ento? -- indagou Olvia. -- Disseram alguma coisa no Centro?
-- Disseram que iam ajudar espiritualmente. Ins estava l e mandou um abrao para
voc. Ficou muito penalizada com a doena de Nelinha.
-- Foi no apartamento de Ins que encontramos Elisa, conforme lhe contei -- lembrou
Olvia. -- Ela est bem?
-- Est. A cada dia melhora mais. Parece at que remoou. No se queixa mais como
antigamente. Parece outra pessoa.
Amaro ficou conversando durante algum tempo. Passava das duas da madrugada
quando resolveu ir embora:
-- Vou embora, porque vocs precisam descansar. Faam um esforo para dormir pelo
menos um pouco. Ficar acordado no vai melhorar o estado dela.
-- Gostaria, antes de ir, que voc fizesse uma prece -- pediu Olvia.
Amaro concordou. Sentou-se novamente, pediu que eles pensassem em Deus e fez
sentida orao, evocando os espritos superiores e pedindo ajuda e proteo para
Nelinha e para eles.
Depois que ele saiu, os dois se deitaram e finalmente conseguiram adormecer.

Captulo 26


Acordaram com o rudo da porta e levantaram-se assustados. Um homem de branco
estava dentro do quarto.
-- Sou o mdico que est atendendo Nelinha. Os dois aproximaram-se ansiosos.
-- Como est ela, doutor? -- indagaram quase ao mesmo tempo.
-- Bem. Vim para conversar. Felizmente ela estava aqui. Teve uma crise respiratria e
tive que fazer uma traqueostomia.
Eles empalideceram:
-- Traqueostomia? -- repetiu Olvia, assustada.
-- . Graas a ela, Nelinha est bem.
-- Preciso v-la -- disse Eugnio nervoso. -- Voc operou minha filha sem nos dizer
nada?!
-- Foi uma emergncia. A garganta dela fechou. Se eu no estivesse l e no fizesse
imediatamente a traqueostomia, ela teria morrido. No houve tempo para avis-los.
Agora ela est dormindo sob efeito de sedativos, respirando normalmente.
Olvia esforava-se para conter as lgrimas. Nelinha passara por tudo aquilo, e ela no
pudera estar do seu lado para confort-la.
-- Doutor, ela vai ficar boa? -- perguntou Eugnio com voz trmula.
--  forte e est reagindo bem. Como  seu nome?
-- Eugnio.
-- Voc assustou-se com a operao, mas com ela sua filha corre menos risco. Essa
doena mata por asfixia. Ns impedimos que isso acontecesse. Na verdade, a vida de
sua filha foi salva com essa traqueostomia.
Eugnio suspirou agoniado. Depois disse:
-- Doutor, desculpe minha ignorncia, mas fiquei desesperado com a doena dela. 
muito cruel ela passar por tudo isso, sem
que ns pudssemos estar do seu lado confortando-a.
O mdico pousou a mo no ombro de Eugnio olhando-o nos olhos e dizendo:
-- Sei como se sente. Mas creia que foi melhor assim. Nesses momentos, a presena
dos familiares costuma atrapalhar. Precisamos dar toda ateno ao paciente e muitas
vezes somos forados a socorrer a famlia. Creia, Eugnio, estamos fazendo tudo para
curar sua filha. Ela est sendo carinhosamente tratada por enfermeiras dedicadas que,
alm de serem boas profissionais, tambm so mes e atendem com amor.
-- Obrigada, doutor, por ter vindo nos avisar -- disse Olvia. -- Posso fazer-lhe uma
pergunta?
-- Pode.
-- No sei muito sobre essa doena. Quanto tempo Nelinha vai precisar ficar no
isolamento? Isto , quando termina o perigo de contgio?
-- At o desaparecimento das placas da garganta. Isso varia e pode levar alguns dias. J
mandei para anlise no laboratrio e ela est tomando o antibitico que mata esse vrus.
Agora vai depender da reao orgnica dela. Isso varia de pessoa a pessoa.
-- Ela est sofrendo dores? -- indagou Eugnio.
-- Agora no. Est dormindo. Quando ela acordar, vamos continuar com os
analgsicos. O mais importante  que ela est livre da asfixia.
Depois que o mdico saiu, Eugnio sentou-se na cama com a cabea entre as mos.
Olvia aproximou-se:
-- No se desespere -- disse. -- Viu o que ele disse? Ela  forte, vai se recuperar.
-- Minha pequena, to cheia de vida, to alegre, est l agora, com o pescoo cortado,
dopada, e eu no posso sequer estar com ela!
Sem poder conter mais a tenso, Eugnio comeou a soluar, chorando copiosamente.
Olvia no conseguiu conter as lgrimas. Ela tambm estava desesperada. Aproximou-se
dele, penalizada, colocando as mos em seus ombros. Quando conseguiu falar, disse:
-- O que aconteceu com a nossa menina  muito triste. Chore, desabafe, mas pense que
poderia ter sido pior. Apesar de tudo, ela foi salva.  doloroso, mas pelo menos ela est
viva e eu sei que ficar boa!
Eugnio levantou os olhos e viu o rosto de Olvia transtornado e lavado em lgrimas.
Levantou-se e abraou-a dizendo:
-- Desculpe, Olvia. Sou um patife mesmo. Ao invs de dar-lhe coragem, fiquei deste
jeito.  que tenho medo! No quero perder Nelinha! Como fui cego! No sabia o que
meus filhos significavam para mim! No tinha capacidade de avaliar esse sentimento
que agora se manifesta to grande! Voc que sabe rezar, pea a Deus que no me
castigue levando Nelinha. Eu juro que vou me dedicar exclusivamente  felicidade
deles. Me ajude, Olvia. Voc  mais forte do que eu!
Eugnio, abraado a Olvia, chorava. E ela, sentindo o corao bater mais forte, no
sabia o que fazer para confort-lo. Sem encontrar palavras para dizer, apertou-o de
encontro ao peito esperando que ele se acalmasse. Aos poucos, ele foi serenando. Seu
corpo estremecia de quando em quando.
Olvia afastou-o delicadamente conduzindo-o ao sof e fazendo-o sentar-se. Depois,
encheu um copo com gua e entregou-o a ele dizendo:
-- Beba.
Ele tomou o copo com mos trmulas e bebeu um pouco. Depois, ela respirou fundo,
tentando reagir e disse:
-- O dia est amanhecendo. Vou ver se arranjo um caf. Ela saiu e voltou em seguida:
-- A moa da copa j estava preparando e vai trazer. Eugnio estava calado, parecendo
ainda um pouco alheio.
Ela foi ao banheiro, lavou o rosto, tratou de melhorar um pouco a aparncia. Estava
plida, abatida. Quando voltou, a moa j trouxera a bandeja com o caf.
Ela preparou uma xcara de caf com leite e deu-a a Eugnio dizendo:
-- Beba. Se sentir melhor.
Ele obedeceu. Olvia apanhou a xcara colocando-a na bandeja.
-- E voc? No vai tomar nada?
-- Vou.
Serviu-se de caf com leite e sentou-se ao lado dele no sof tomando seu caf devagar.
Eugnio conservava-se silencioso. Ao cabo de alguns minutos, Olvia olhou-o de
relance depois disse:
-- Vou perguntar como ela est. Ele levantou-se de um salto.
-- Eu vou, pode deixar.
Saiu, e Olvia, colocando a xcara sobre a bandeja, o seguiu.  porta do isolamento, a
enfermeira ligou o telefone e informou-se sobre o estado de Nelinha. Os dois esperavam
ansiosos.
-- E ento? -- indagou Eugnio assim que ela desligou o telefone.
-- Ela est dormindo. Est tudo bem.
-- No poderia v-la nem que fosse de longe? -- pediu Eugnio.
-- No  possvel. Para v-la, teria que entrar dentro da zona proibida. Pode ficar
tranqilo. Falei com a pessoa que est cuidando dela e ela me garantiu que sua filha
passa bem.
-- Se tivesse qualquer problema, voc me diria? -- indagou ele olhando-a desconfiado.
-- Claro que sim. Pode ter certeza de que no estou escondendo nada. Por que no vo
descansar um pouco e voltam mais tarde? Ela est sob efeito de sedativos e vai dormir o
dia inteiro.
-- Por favor, pea  enfermeira que est l que, quando ela acordar, lhe diga que ns
no fomos embora, que estamos aqui.
-- Est bem. Darei seu recado.
-- O que faremos agora? perguntou Eugnio assim que voltaram para o quarto.
-- Eu vou ficar esperando. Vou telefonar para Elvira, saber como esto as coisas. Ligar
para o escritrio e para minha casa.
-- Boa idia. Eu tambm preciso falar com o escritrio.
O telefone era no corredor e Olvia foi primeiro. Depois Eugnio. Quando ele voltou
para o quarto, trouxe algumas revistas para Olvia e o jornal.
-- O dia vai custar a passar -- justificou-se ele.
Ela folheou as revistas, ele, o jornal. Algum tempo depois, ela deixou as revistas sobre a
cama e foi  janela. Eugnio fez o mesmo.
Depois de alguns minutos, ele disse:
-- Ainda bem que est comigo. No sei o que seria de mim se estivesse sozinho aqui.
Ela olhou-o e no respondeu. Estava pensando a mesma coisa. No gostaria de estar s
ali. A presena de Eugnio, sua preocupao com o bem-estar da filha a confortava. Era
bom saber que as crianas que tanto amava podiam contar com a proteo dele e que,
apesar de haverem perdido a me, no estavam desprotegidas como pensara a princpio.
Sentia que podia confiar em Eugnio como pai. Essa sensao era-lhe muito agradvel e
ela suspirou aliviada.
-- O que foi? -- indagou ele ouvindo-a suspirar.
-- Apesar de tudo que aconteceu,  bom saber que posso confiar em voc como pai.
-- Voc nunca acreditou em mim -- reclamou ele.
Ela no respondeu. Sentou-se novamente, apanhou uma revista voltando a folhe-la. O
tempo foi passando e a espera os deixava angustiados. Se ao menos o mdico viesse
dar-lhes alguma notcia!
Quase na hora do almoo, ele apareceu e pediu-lhes que trouxessem os irmos de
Nelinha para serem examinados. Eugnio saiu para busc-los.
Os dois foram examinados, mas felizmente no estavam contaminados e puderam voltar
para casa. Ao lev-los de volta, Eugnio aproveitou para tomar um banho e mudar de
roupa. Quando voltou ao hospital, foi a vez de Olvia ir para casa.
-- No vou demorar -- disse ela ao se despedir.
Ela tomou um banho e quando estava se preparando para sair, o telefone tocou.
Sobressaltada, ela atendeu imediatamente. Era Amaro:
-- Falei com Eugnio. Soube que Nelinha foi operada.
-- Foi. Sabe se ela est bem?
-- Est. Foi o que ele disse. Estive falando com Marilda e ela se ofereceu para
acompanhar-me at o hospital para fazermos uma prece. O Eugnio concordou. O que
voc acha?
-- Muito bom! Vocs vo agora?
-- Combinamos s sete.
-- J terminei aqui e estou indo para o hospital.
-- Est combinado. At logo mais.
Olvia voltou ao hospital. Eugnio esperava-a com ansiedade. Vendo-a chegar, respirou
aliviado.
-- Ainda bem que chegou! -- desabafou ele.
-- Por qu? Aconteceu alguma coisa? Nelinha est bem?
-- No aconteceu nada. O mdico passou aqui e garantiu que ela est reagindo bem.
Mas mesmo assim fico angustiado. Se ao menos ns pudssemos v-la, nos
certificarmos que ela no est sofrendo!
Olvia suspirou. Ela sentia a mesma coisa. Tentou reagir:
-- Claro que Nelinha est bem. Ela vai ficar boa. Deixe de ser pessimista.
-- Tem razo.  que ficar longe dela, imaginando o que ela est sofrendo sem que eu
possa fazer nada, me deixa muito nervoso.
-- Eu tambm fico, mas precisamos nos controlar. No podemos fazer nada seno
esperar e confiar que ela vai ficar boa. Fiquei confortada ao saber que Amaro vir com a
Marilda rezar conosco.
-- Ele me ligou e eu concordei. Farei qualquer coisa para
ajudar Nelinha a ficar boa logo.
Amaro chegou acompanhado de Marilda e Ins. Olvia as abraou confortada. Depois
de apresent-las a Eugnio, Amaro perguntou:
-- Vocs esperam alguma visita agora?
-- No -- esclareceu Olvia.
-- Vou fechar a porta  chave. Preferia que ningum nos interrompesse.
Amaro colocou as duas cadeiras que havia de frente para o sof e pediu que todos se
sentassem. Quando os viu acomodados, fechou os olhos e evocou a presena dos
espritos superiores pedindo-lhes ajuda para Nelinha e para Eugnio que, emocionado,
acompanhava suas palavras.
Naquele instante, ele sentia a prpria impotncia e reconhecia que a vida de Nelinha
estava nas mos de um poder maior, no qual ele nunca se detivera para pensar. Que por
mais que fizesse, a vida  quem iria decidir se Nelinha ficaria com ele ou iria embora
para o lado da me!
A esse pensamento, seus olhos encheram-se de lgrimas. Amaro havia se calado.
Eugnio no se conteve e murmurou:
-- Meu Deus! Me devolva minha filha! No me castigue. No a leve de mim. Ajude-
me, por favor!
Ouvindo as palavras angustiadas de Eugnio, Olvia no conseguiu conter as lgrimas.
De repente, do peito de Marilda saiu um doloroso soluo:
-- Meu Deus! Me perdoe. No posso ver Nelinha sofrer! A culpa  minha! Sou mais
culpada que o Eugnio. Vocs que tm mais f do que eu, que sabem coisas que eu
desconheo, me ajudem. Peam a Deus que me perdoe. Olvia, diga que me perdoa!
Olvia estremeceu. Pensou em Elisa. Seria ela? Por que lhe pedia perdo?
-- Sou eu, sim, Olvia -- continuou Marilda entre soluos. -- Voc estava enganada.
No sou aquela mulher bondosa e dedicada que quis parecer. Sou maldosa, tra voc,
destru seu lar, prejudiquei seus filhos. Meu Deus! Agora eles tambm so meus.
Quando eu iria pensar que um dia sofreria por eles? Ouvi o Eugnio dizer que ele estava
sendo castigado. No  verdade. Sou eu que estou sendo castigada. Nelinha est
passando por tudo isso e a culpa  s minha! Fiquem sabendo que eu fui a causadora de
tudo!
Marilda torcia as mos desesperada enquanto Eugnio e Olvia olhavam sem entender
bem o que estava acontecendo, embora sentissem o corao apertado e a voz embargada
de emoo.
Amaro interveio dizendo:
-- Acalme-se, Elisa. No se martirize. O passado est morto. Acabou. Deus no castiga
ningum.
-- Olvia precisa saber que eu errei muito. Que eu prejudiquei toda a sua famlia. Eu
sou mais culpada do que o Eugnio. Ela ficou com raiva dele, no quer perdo-lo, no
confia nele. Vim para dizer-lhe que est errada e pedir-lhe que me perdoe. Voc me
perdoa, Olvia?
-- Nada tenho a perdoar -- respondeu Olvia deixando as lgrimas correrem
livremente.
-- Voc est esquecida, no lembra do passado! Mas eu sei o que estou dizendo.
Lembrei de tudo que nos aconteceu em outra vida. Eu no sou como vocs pensam! Foi
por minha culpa que Nelinha fez o que fez!
-- Acalme-se, Elisa! -- tornou Amaro. -- Ningum a est culpando. No precisa se
justificar.
-- No agento mais o remorso.  preciso que vocs saibam de tudo e que me
perdoem! S depois poderei refazer minha vida. Por favor, no me impeam de dizer o
que sinto! Se no passado vi em Olvia uma rival e fiz tudo para tir-la do meu caminho,
hoje eu a amo muito. Sei o quanto ela  melhor do que eu. Ela sempre foi sincera
enquanto que eu menti, no titubiei em destruir sua paz e em desunir sua famlia. E
agora, ela  a nica pessoa com a qual posso contar para cuidar das crianas que eu
tanto amo! Meu Deus! Nunca poderia supor que um dia isso pudesse acontecer!
Marilda soluava e os presentes, emocionados, no conseguiam articular palavra.
Depois de alguns instantes, ela prosseguiu:
-- Preciso me redimir e agora  minha hora de colocar tudo nos devidos lugares. De
reunir aqueles a quem eu separei. A vida me deu esta oportunidade e eu no a quero
perder.
-- Se  assim, fale, Elisa -- disse Amaro. Marilda respirou fundo e continuou:
-- Nossa histria  simples. Voc, Olvia, era casada com Eugnio e tinha trs filhos.
Eu me apaixonei por ele e acabamos por nos relacionar. Nos tornamos amantes. Um dia,
porm, ele me disse que no podia mais continuar nosso relacionamento. Fiquei
desesperada, pedi, implorei, mas ele me disse que nunca havia me prometido nada e que
seus filhos estavam crescendo e ele pretendia dedicar-se mais  vida familiar. Depois de
esperar inutilmente que ele mudasse de idia, resolvi agir. Estava desesperada. Escrevi
um bilhete para voc, Olvia, pedindo-lhe que fosse a minha casa. L, quando voc
compareceu, eu menti dizendo que Eugnio me amava e que s estava
com voc por causa dos filhos. Mostrei-lhe provas do nosso relacionamento, fotos,
bilhetes, coisas assim. Voc acreditou e separou-se dele e nunca o perdoou. Embora
vocs no se lembrem agora, no fundo do corao, sentem que estou dizendo a verdade.
Ela fez ligeira pausa e continuou:
--  intil dizer que Eugnio nunca mais voltou para mim. Acabei meus dias solitria e
triste. Mas ao voltar para a vida astral, fiquei sabendo que minha atitude no ferira
apenas Eugnio, como eu pretendia, mas seus filhos que sofreram muito com a
separao dos pais. Principalmente Nelinha, muito apegada  me. Ela era como uma
flor mimosa que comea a desabrochar. Precisava de uma mo protetora que a
conduzisse. Naquele tempo, uma mulher separada no era vista com bons olhos. Suas
filhas eram olhadas como presa fcil dos conquistadores sem escrpulos. Nelinha se
apaixonou por um jovem volvel que a abandonou e no sabendo como suportar essa
mgoa, desatinada, ela ingeriu formicida. Vendo-a no astral em sua fase de recuperao,
com a garganta toda em feridas, me comovi e chorei. Comecei a pensar que se eu no
lhe tivesse tirado o pai, talvez ela no houvesse passado por isso.
Marilda parou alguns segundos, respirou fundo e prosseguiu:
-- Eu me arrependi sinceramente e quando nos reunimos no astral, antes do nosso
nascimento, pedi perdo e vocs me perdoaram. Aqui, disseram que vocs poderiam se
casar de novo na Terra e recomear. Entretanto, Olvia no aceitou. Ela dizia haver
perdoado, mas eu sabia que no fundo ela ainda guardava ressentimento pela traio do
Eugnio. Vendo-se rejeitado, ele aceitou se casar comigo tendo Olvia na famlia para
que juntos pudssemos nos entender. Entretanto, deu no que deu. Eugnio nunca me
amou de verdade. Casou comigo porque tinha que ser, mas no se sentia plenamente
realizado com nossa unio. Hoje eu sei que se ele procurava outras mulheres, era porque
no havia encontrado aquela que preenchesse suas necessidades de afeto.
Por outro lado, eu mergulhei no papel da boa esposa, na tentativa de esquecer minha
antiga situao de amante. Agora eu era a esposa legtima! Caprichei no papel e tornei-
me passiva s vontades do Eugnio, o que acabou por apagar rapidamente a atrao que
ele ainda sentia por mim.
Voc, Olvia, guardando ainda a mgoa no corao, nunca quis se casar. A presena de
Eugnio causava-lhe desconfiana e certa averso. Essa foi a nossa vida at o dia em
que vendo desmoronar minha iluso de esposa, temerosa de voltar ao antigo papel, me
desesperei. No aceitei a separao. No compreendi que quando o amor acaba, no h
nada que se possa fazer. Se eu tivesse compreendido, talvez ainda estivesse a, cuidando
dos meus filhos.
Disseram-me que meu tempo nessa vida tinha acabado. Que eu reencarnara apenas para
unir vocs todos e para conseguir apagar a raiva que sentiam contra mim. Quanto a isso,
acho que consegui. Sei que voc me quer bem, Olvia, e que voc, Eugnio, me respeita
e tem amizade. As crianas tambm me estimam. A inimizade acabou. Entretanto, eu
me sentiria muito feliz se pudesse v-los reunidos de novo. Que voc, Olvia, realmente
perdoasse Eugnio e que se casassem, assumindo as crianas que j foram suas, agora
tambm so minhas. Eugnio, voc  duas vezes pai!
Disseram-me que eu no posso lhes pedir que se casem, porque essa  uma deciso que
s vocs podem tomar, mas eu ficaria muito feliz se isso acontecesse. Olvia, no amo
mais o Eugnio como antes. Tenho andado com ele nos ltimos tempos e reconheo que
ele  muito diferente de mim. Ns nunca seramos felizes juntos. Quero refazer minha
vida de outra forma.
-- O Eugnio no acreditava que voc o estivesse acompanhando -- disse Amaro.
-- Ele no sabe nada da vida espiritual. Eu estava mesmo. Vi tudo que ele tinha no
escritrio, as coisas que ele deixava l para sair e passear, ele sabe do que estou falando.
Das mulheres que ele namorava e que eu ficava com raiva e partia para cima dele. Voc
se sentia mal, ia ao mdico, pensava que estava doente, mas era eu. Ficava indignada.
Mas eu ainda no havia lembrado o passado e era muito ignorante. Agora aceitei ajuda e
estou mudada. Reconheo que estava errada.
-- Meu tempo acabou, querem que eu v embora. Mas estou angustiada. Ainda no sei
se Nelinha vai superar essa crise. Tenho implorado ajuda para ela. Disseram que ela
pegou essa doena, porque seu corpo astral ainda estava sensvel por causa do seu
suicdio!
Eugnio no se conteve:
-- Elisa, por favor! Voc que est no outro mundo, que tem tido tanta ajuda, implore
que eles ajudem. Pea a Deus que no leve Nelinha! Juro que farei tudo que estiver a
meu alcance para a felicidade dela e dos outros dois. Me dedicarei o resto da vida s a
eles. No me tirem esta oportunidade de ser um bom pai. Sei que nunca fui o que
precisaria ter sido. Que no valorizei a famlia como deveria, que no correspondi 
responsabilidade que a vida me deu de orientar e ajudar o desenvolvimento dos meus
filhos. Mas, agora, eu juro e
tomo a todos por testemunha que farei o melhor que puder. No foi s voc quem errou,
Elisa, eu errei tanto ou mais do que voc. No me tirem a chance de recomear e de
fazer o meu melhor!
-- Ainda bem que compreendeu, Eugnio! -- disse Marilda.
-- Antes de ir, Olvia, gostaria que falasse comigo, dissesse o que vai em seu corao.
O silncio se fez por alguns segundos. Depois, Olvia, esforando-se para tornar a voz
firme, disse:
-- Eu amo voc, Elisa! O passado est morto. S sei que voc  minha irm querida,
recordo com saudade os momentos que vivemos juntas. Para mim, voc  e ser sempre
uma pessoa querida! -- Voz embargada, Olvia calou-se.
-- Preciso ir agora. Eu tambm sinto que amo todos vocs. Obrigada, Amaro, Ins e
Marilda pela oportunidade. Deus os abenoe. Vamos ter f e acreditar na cura de
Nelinha.
Marilda estremeceu e abriu os olhos. Ningum disse nada. A comoo era geral.
Eugnio, olhos vermelhos, parecia alheio. Olvia estava imersa em profundos
pensamentos. Amaro levantou-se e apanhou copos onde colocou gua e cada um tomou
um pouco. Depois ele disse:
-- Vamos agradecer a Deus a ajuda que recebemos. Murmurou sentida prece e ao final
sua voz modificou-se ao
dizer:
-- No se deixem levar pela emoo desta hora. Antes, encham seu corao de alegria
por mais uma etapa vencida em vossas vidas! O momento  de limpar o corao de
todos os pensamentos tristes.  hora de ligar-se com a luz, irradiando alegria e energia
de refazimento para nossa menina. Vamos dar-lhe foras para vencer essa etapa de sua
vida. Ela vai precisar do amor de todos vocs para atravessar essa existncia e
desenvolver a prpria fora interior. Lembrem-se disso e no permitam que o mimo, a
superproteo, a enfraquea de novo como da outra vez. Aprendam a lio. Fiquem em
paz.
Amaro calou-se, e todos esperaram que ele abrisse os olhos e dissesse alguma coisa.
-- Vamos tomar um caf -- disse ele por fim levantando-se.
-- Estou louco por um.
Todos se levantaram e Olvia disse:
-- Ainda temos na garrafa trmica. Enquanto tomavam caf, Ins disse:
-- Pelo que Amlcar disse no final, nossa menina vai ficar boa!
-- Voc acha isso? -- interessou-se Eugnio.
-- Claro -- tornou Ins. -- Se ela fosse embora, ele no teria feito tantas
recomendaes para a educao dela.
--  mesmo! -- interveio Olvia. -- Eu tinha certeza de que ela ia se recuperar.
-- No podemos nos esquecer que ele recomendou tambm a mudana interior.
Esquecer os ressentimentos, as tristezas, pensar na luz e na alegria. S assim criaremos
um ambiente positivo para que Nelinha possa recuperar-se.
Eugnio lanou um olhar furtivo a Olvia e considerou:
-- Da minha parte, farei o possvel.
Olvia no disse nada. Estava chocada com tudo quanto ouvira naquela noite. Sentia-se
fragilizada, insegura, como nunca fora antes. No conseguia falar no assunto. Sentia que
precisava de tempo para acalmar-se, deixar serenar as emoes dos ltimos dias. Apesar
disso, notava que alguma coisa havia se modificado dentro dela. A dor, a presso que
sentia, o aperto dentro do peito que de quando em quando a incomodava, desaparecera
deixando-a aliviada. Quando todos se retiraram, Eugnio foi perguntar sobre Nelinha.
-- E ento? -- indagou Olvia quando ele voltou ao quarto.
-- Continua dormindo. Disseram que est bem.
Nenhum dos dois atreveu-se a comentar as revelaes de Elisa sobre o passado. Depois
de alguns minutos de silncio, Eugnio considerou:
-- Amaro estava certo. Elisa estava comigo e eu no sabia.
-- Acredita agora?
-- Ela relatou direitinho certos fatos que Marilda no podia saber. No os contara nem a
Amaro.
-- Voc sentia-se mal mesmo?
-- Tudo quanto ela disse aconteceu... -- ele parou olhando-a hesitante. O fato de pensar
que havia sido marido dela em outra vida o embaraava. No sabia como proceder. --
Sempre que me interessava por alguma mulher, me sentia mal. Agora faz sentido.
-- Algumas coisas fazem sentido enquanto que outras... -- Olvia parou pensativa.
-- Sei no que est pensando. Tem lgica tambm.
-- No quero falar nisso agora. No me atrevo a duvidar do que Elisa disse. Tenho
certeza de que era ela. Sei que no iria mentir numa hora destas. Mas no estou me
sentindo bem. O que ela disse foi muito forte para mim.
-- A idia de haver sido casada comigo a perturba tanto
assim? Continua me odiando apesar de tudo?
-- Quantas vezes tenho que afirmar que nunca o odiei? No gostava das suas atitudes,
s isso.
-- Ainda no me respondeu.
-- Estou chocada com tudo isso. No tenho condies de responder. Sinto-me diferente,
parece que no estou em mim.
Eugnio suspirou. Ele sentia a mesma coisa. Parecia que estavam vivendo um sonho,
algo irreal e que nada daquilo havia acontecido. Logo iria acordar, e Nelinha estaria em
casa, bem, como sempre.
Mas no. Olhando em volta, ele podia perceber que no estava sonhando e que tudo
acontecera mesmo.
-- Compreendo como se sente. No me recuperei at agora.
-- O mais importante  que Nelinha est sendo ajudada e que ficar boa.
-- Voc acha que o excesso de cuidados, o mimo, pode mesmo estragar uma criana?
Que ela pode ficar fraca por causa disso?
-- Acho. Ns ficamos rfs na adolescncia e tivemos que assumir nossas vidas. Tive
que aprender a cuidar de mim, me defender, e com isso tornei-me forte.
-- Se Nelinha foi fraca e se suicidou em outra vida, j foi penalizada. Por que agora
teria que sofrer outra vez?
-- Pelo que tenho lido, existem outros mundos, gravitando em faixas energticas
diferentes das nossas, para onde vo as pessoas quando morrem. Dizem que ns viemos
de l ao nascer aqui. Que temos um corpo astral, que  prprio para viver l, que se
envolve das matrias deste mundo quando reencarnamos. Quando o corpo de carne
morre, continuamos vivendo com o corpo astral, do qual nunca nos separamos. O
suicdio interfere na natureza de maneira agressiva, machucando o corpo astral. Elisa
afirmou que Nelinha apanhou a doena por causa disso. A doena  uma forma de jogar
fora as energias ruins, de limpar o corpo astral e retomar o seu equilbrio.
--  fantstico o que me conta! Ser mesmo possvel?
-- Quando percebemos isso, entendemos por que h tanta gente nos hospitais,
principalmente crianas.
-- Isso sempre me pareceu injusto.
-- A vida tem recursos infinitos e ns no conhecemos quase nada a respeito deles.
Viver j  um milagre. Nunca pensou nisso?
-- Tem razo. Por mais que eu queira duvidar, o que aconteceu hoje foi impressionante.
Alm das palavras de Elisa, havia a emoo. No sei por que, mas eu acreditei em tudo
quanto ela dizia, parecia estar ouvindo uma histria conhecida... -- ele parou olhando
embaraado.
-- Sei o que est dizendo. Senti a mesma coisa. Por isso me abalou tanto.
-- Tenho ouvido falar de reencarnao, de comunicao de espritos. Amigos me
contaram coisas, mas parecia-me to louco! Nunca quis aceitar.
-- A vida guarda mistrios que no podemos imaginar.
-- Em tudo isso, estou mais animado. Nelinha vai ficar boa. Ela tem que se curar.
Quero ter a chance de ser um bom pai.
Eugnio calou-se. Olvia no disse nada. Sabia que ele estava sendo sincero. Assistira
seu desespero pela doena de Nelinha, ouvira seu pedido aflito a que Deus no a
levasse, vira as lgrimas (iurrorem pelos seus olhos. Sentia-se confortada. Ele amava
verdadeiramente os filhos. No precisava preocupar-se com o futuro deles.
-- Quer comer alguma coisa? -- indagou ele.
-- Talvez um sanduche.
-- Vou buscar.
Depois que ele saiu, ela ficou pensativa. Seria mesmo verdade? Ela teria sido esposa do
Eugnio? Ao pensar nisso, sentia um aperto no corao, como um susto, um receio, no
sabia do que. Ele era um homem bonito, tinha que reconhecer. Mas seria capaz de am-
lo? No. Ela no amava ningum. Por que nunca confiara em homem algum? Por que se
fechava sempre que se interessava por algum com medo de amar? Teria sido mesmo
por causa da traio que sofrera no passado? Seria por causa disso que o comportamento
de Eugnio a incomodava tanto? Claro que no era cimes. Para Isso, era preciso que
ela o amasse, e isso nunca aconteceria.
Pensou nas crianas. Teriam mesmo sido seus filhos? Seria por isso que as amava tanto?
Passou a mo pelos cabelos sem encontrar resposta.
Elisa lhe pedira que tomasse conta dos filhos. Isso ela faria de bom grado. Apenas isso.
E se Eugnio se casasse outra vez? Do jeito que ele era, no ia querer ficar o resto da
vida sozinho. Ela poderia cuidar da educao das crianas do mesmo jeito? Ele poderia
ser influenciado pela mulher e afastar as crianas do convvio dela. Enquanto elas eram
pequenas, ele precisava de ajuda, mas depois que crescessem no.
Eugnio voltou com os sanduches e a garrafa de caf com leite. Olvia observou-o
enquanto dispunha os pacotes sobre a mesa. Como seria ele na intimidade? Nunca havia
pensado nisso antes. Quando ele a chamou para comer, tentou dissimular. No queria
que ele percebesse o que estava pensando.
Enquanto ela comia em silncio, Eugnio olhava-a disfaradamente. Ela era uma
mulher bonita, mesmo assim na intimidade, sem pintura e  vontade. Elisa dizia que ela
tinha muitos admiradores e que os tratava com displicncia. Teria tido algumas
aventuras? Era uma mulher livre e assumida, cuidava da prpria vida, como ela mesma
dissera. Teria ido para cama com muitos homens? Teria amado algum?
Ela levantou-se, e ele desviou os olhos temeroso que ela desconfiasse o que ia pela sua
cabea.
-- Mais uma noite aqui, nesta espectativa -- disse ela por fim.
--  verdade. Agradeo voc ter ficado comigo. Sozinho teria ficado louco.
-- Espero que amanh tenhamos uma notcia boa. Ela est resistindo bem at agora,
acho que o pior j passou.
-- Deus a oua.
J era tarde e eles se deitaram, cada um em uma cama. Eugnio, apesar da preocupao
com a filha, no pde deixar de pensar na situao que estavam vivendo. Ele, ali, ao
lado daquela mulher bonita, a noite toda, sem poder fazer nada. Como ela seria quando
amasse? Teve vontade de aproximar-se dela, mas conteve-se. Ela poderia pensar que ele
estivesse se aproveitando da situao. Precisava conter-se. A idia de que eles j haviam
sido casados dera voltas  sua cabea. Suscitara pensamentos novos, diferentes dos que
havia tido. Reconhecia que Olvia era atraente, mas acontecesse o que acontecesse, ele
precisava se conter. Ela no ia compreender. Do jeito que ela era prevenida contra ele!
Remexeu-se na cama. O que estava acontecendo com ele? A idia de j haver sido
casado com ela o impressionara tanto assim? No podia deix-la perceber como estava
se sentindo. No queria que ela risse na sua cara e lhe jogasse no rosto o quanto o
odiava. Agora que ela estava mais cordata, que podiam conversar como amigos, no ia
estragar tudo com uma atitude louca.
Ouviu Olvia suspirar. Ela tambm no estava conseguindo dormir. O que estaria
pensando? Teve vontade de levantar-se e de dizer-lhe o que estava sentindo, mas no
teve coragem. Por fim, a custo conseguiu adormecer

Captulo 27

Eugnio abriu os olhos assustado e levantou-se Imediatamente. O mdico estava dentro
do quarto.
-- Aconteceu alguma coisa? -- indagou ele.
-- O que foi? -- disse Olvia levantando-se por sua vez.
-- Precisamos conversar.
-- Nelinha est bem? -- indagou Eugnio.
-- Ela teve um pequeno problema, mas j foi medicada. Os dois olharam-se assustados,
e Olvia tornou:
-- Ela piorou?
-- Essa doena tem momentos delicados. Ela teve um dos pulmes inflamados. Mas foi
medicada.
-- Preciso v-la de qualquer jeito -- disse Eugnio.-- Vou entrar na enfermaria agora.
O mdico tentou impedi-lo dizendo:
-- Sua presena no vai ajudar em nada. Tente compreender. Ela est sendo bem
atendida. Estamos fazendo o possvel para cur-la.
-- Seu estado ainda  grave? -- indagou Olvia com voz que o medo enfraquecia.
-- Eu diria que ainda no est fora de perigo. Contudo, ela tem reagido bem.  corajosa
e cooperativa.
Eugnio deixou-se cair na cadeira segurando a cabea entre as mos.
-- No fique assim -- disse o mdico. -- Acredito que esta noite  crtica. Se ela
ultrapassar as prximas doze horas, estar fora de perigo.
Olvia aproximou-se do mdico dizendo com voz que a emoo embargava:
-- Doutor, peo-lhe encarecidamente. Se o estado dela se agravar, gostaria que nos
avisasse. Se tiver que acontecer alguma coisa com ela, no queria que fosse longe de
ns.
-- No vou esperar nada. Vou entrar l e pronto -- disse Eugnio levantando-se.
Pelos olhos do mdico passou um lampejo de emoo. Aproximou-se dizendo:
-- Vou ver o que posso fazer.
-- Vamos poder v-la? -- indagou Olvia.
-- Vou autorizar uma visita rpida. Mas tero que mudar as roupas e tomar todas as
precaues necessrias. No podero se aproximar muito dela nem toc-la. Se me
prometerem obedecer e controlar as emoes, os levarei l.
-- Farei qualquer coisa para v-la -- disse Eugnio.
-- Ela est dormindo e no quero que a perturbem. O sono  remdio para ela.
-- Faremos o que quiser -- prometeu Olvia.
O mdico conduziu-os a um local onde tiraram a roupa e vestiram-se com roupas do
hospital, colocando uma mscara na boca e luvas. Depois foram introduzidos na zona
proibida, e a uma enfermaria onde havia vrias crianas. Nelinha estava separada das
outras por um biombo.
Eles se aproximaram com o corao batendo forte, e Eugnio, instintivamente, procurou
a mo de Olvia, segurando-a com fora.
-- Aqui est bom -- disse o mdico. -- Como podem ver, ela dorme tranqila.
Nelinha adormecia, mas sua respirao era diferente por causa do pequeno aparelho que
havia em sua garganta.
-- Ela tem febre? Seu rosto est corado e sua respirao acelerada -- considerou
Olvia.
-- Tem. Estamos tentando resolver a infeco pulmonar com penicilina.
-- Ento ela vai ficar boa -- disse Olvia.
-- Vai depender da sua resistncia fsica. S ficaremos sabendo nas prximas horas.
Eugnio estava calado. Sem desviar os olhos do rostinho da menina, sentia o corao
apertado. Sabia que aqueles momentos seriam definitivos. Era como se a vida dela
estivesse suspensa por um fio que a qualquer instante poderia se romper. Ela lhe parecia
to frgil, to delicada, deitada ali com o bracnho amarrado para a agulha do soro no
sair da veia.
O mdico olhou a papeleta na prancheta nos ps da cama, escreveu algumas anotaes e
colocou-a no lugar. Foi conversar com a enfermeira que circulava pela sala.
Eugnio continuava apertando a mo de Olvia, sem encontrar palavras para expressar
seus sentimentos. Nunca havia sentido nada igual. Era a primeira vez que enfrentava
uma situao como aquela. A morte de Elisa fora um choque, mas estava longe de
sensibiliz-lo a esse ponto.
Depois de circular pela sala e verificar o estado dos outros pacientes, o mdico
aproximou-se novamente de Nelinha, tomando-lhe o pulso delicadamente. Por fim,
dirigiu-se a Eugnio dizendo:
-- Precisamos ir agora.
-- Gostaria de ficar mais -- disse ele.
-- Voc prometeu ser razovel. Ser melhor para ela.
-- Vamos, Eugnio -- convidou Olvia. Vendo que ele relutava, o mdico afirmou:
-- Tem minha palavra que se o estado dela se modificar, irei avis-lo. Mesmo que ela
continue na mesma, ao deixar o planto, passarei pelo quarto de vocs para dar-lhes
notcias. Podem confiar.
Eugnio, lanando um olhar doloroso para Nelinha, concordou em deixar a enfermaria.
Voltaram  sala para trocar novamente de roupas, e depois de lavar as mos com lcool,
voltaram ao quarto.
-- So duas horas -- disse Olvia.
Ele pareceu nem ouvir. No podia tirar do pensamento a figura de Nelinha naquela
cama. Olvia sentia a mesma coisa, mas vendo o abatimento de Eugnio, aproximou-se
dele, colocando as mos em seus ombros.
-- No fique assim, Eugnio. Precisamos ter coragem. No podemos desanimar agora!
-- No consigo pensar em outra coisa. Nunca senti uma dor Igual!
-- Nem eu! -- concordou Olvia esforando-se para conter as lgrimas.
Ele abraou-a dizendo com voz emocionada:
-- Estou sendo castigado!  isso. Estou sendo punido pelo que fiz. Meu Deus! Estou
arrependido! Quero mudar, cuidar de minha famlia, trabalhar pela felicidade dela! Ser
que Deus no vai me perdoar?
Ele chorava e Olvia no conseguiu mais controlar a emoo. Durante aqueles dias,
lutara para manter o controle, sentindo o peito oprimido, mas agora, diante do estado de
Nelinha, da dor de Eugnio, da insegurana do momento, ela no agentou mais.
Rompeu em soluos. Ele apertou-a nos braos com fora. Vendo-a soluar em
desespero, esforou-se para se controlar. Alisou-lhe os cabelos dizendo:
-- Olvia! Desculpe. Tenho sido egosta, pensado s em mim. Voc tambm est
sofrendo! Ao invs de dar-lhe foras, eu estou fraquejando. Voc tem sido a melhor
coisa que apareceu em minha vida depois que Elisa se foi. Se no fosse voc, nem sei o
que teria sido de mim, to ignorante, pretensioso, descrente e ftil. Voc, mesmo no
me apreciando, soube ser digna, me ajudar, separar seus sentimentos em favor do bem-
estar das crianas. Ainda agora est comigo, me amparando nesta hora to difcil. O que
seria de mim se estivesse aqui sozinho? Quem iria me ouvir, dar foras e confortar?
Vendo que ela continuava soluando, ele fez ligeira pausa e prosseguiu:
-- Voc  uma mulher especial, Olvia, e eu aprendi a admir-la. Sei que no sente o
mesmo por mim e eu reconheo que tenho contribudo para isso. Mas hoje, depois de
tudo que estamos passando juntos, do apoio que tem me dado, espero que me
conhecendo melhor, possa gostar um pouco de mim e nos tornarmos amigos.
Olvia foi se acalmando e parou de soluar. Continuou abraada a Eugnio, enquanto
ele lhe alisava os cabelos, e suas palavras, ditas com sinceridade e carinho, tiveram o
dom de acalm-la. Naquele instante, estava cansada de ser forte, de enfrentar tudo
sozinha. Sentiu-se bem nos braos fortes de Eugnio e descansou a cabea em seu
ombro deixando-se ficar. Parou de chorar, mas seu corpo estremecia de quando em
quando, e ele continuava alisando-lhe os cabelos com carinho. Por fim, ela disse
baixinho:
-- Estou to cansada!
-- Venha, -- disse ele conduzindo-a para a cama, sentando-se e fazendo-a sentar-se
tambm.
Ela deixou-se ficar em seus braos, sem dizer nada. Eles ficaram assim, esperando o
tempo passar. Sabiam que o mdico passaria s sete.
-- Voc quer se deitar e tentar dormir? -- indagou Eugnio.
-- No conseguiria -- disse ela. -- Prefiro ficar assim.
Ele aconchegou-a mais em seus braos. Era agradvel saber que ela no o odiava mais e
que aceitava apoiar-se nele naquele momento. Era como se ele houvesse se reabilitado,
sido absolvido de todos os erros do passado. Sentiu-se digno e forte.
-- Vamos rezar -- props.-- Tenho feito muita bobagem. Desejo pedir a Deus uma
chance de recomear. Quero conhecer a vida espiritual, aprender com voc e com
Amaro o caminho da f. Olvia, me ajude a falar com Deus!
-- Esse dilogo  pessoal. No posso falar por voc. Acho que VOC j est falando com
ele. Basta dizer o que sente.
-- Voc j no me odeia mais e se Nelinha ficar boa, minha felicidade ser completa.
Olvia no respondeu. Sentia-se cansada, mas os braos de Eugnio ao redor do seu
corpo a confortavam. Parecia-lhe que enquanto estivesse ali, nada de mal aconteceria.
Tinha receio de que, se sasse, o que temia com Nelinha acontecesse.
-- Nossas foras esto unidas. Seja o que for que acontea, -- disse ela --
enfrentaremos juntos.
Ele apertou-a nos braos um pouco mais e no respondeu. Tambm sentia que a melhor
forma de esperar o desfecho seria ficar juntos. Foram ficando e, aos poucos, recostaram-
se na cabeceira da cama e ainda abraados, acabaram por adormecer.
Olvia acordou primeiro com o sol entrando pela janela do quarto. O brao de Eugnio
ainda estava em volta do seu corpo e sua cabea sobre o peito dele. Um pouco
assustada, ela fez um movimento para levantar-se, e ele abriu os olhos:
-- O que foi? -- perguntou -- o mdico j veio?
-- No -- respondeu ela levantando-se.
-- So mais de nove horas. Ser que ele no veio?
-- Ele prometeu.
A enfermeira entrou dizendo:
-- O doutor Melo deixou um recado para vocs.
-- Ele j foi embora? -- indagou Olvia.
-- Foi. Ele passou por aqui, mas vocs estavam dormindo e ele no quis acordar.
Nelinha est bem e ele ficou de passar aqui na hora do almoo.
-- Ele disse s isso? -- perguntou Eugnio.
-- Disse.
Olvia foi ao banheiro, lavou-se, tentou melhorar um pouco a aparncia. Estava plida e
abatida.
-- O caf est sobre a mesa, acho que ainda est quente. Voc quer?
-- Quero. Vou me lavar um pouco.
Ele foi ao banheiro enquanto Olvia se servia de caf com leite. Quando ele voltou, ela
disse:
-- Pelo jeito, Nelinha venceu bem a noite. Se o mdico foi embora, acho que ela
melhorou. Voc no acha?
-- . Tem razo. Mas s vou me sentir aliviado quando ele disser que ela est fora de
perigo. A, sim.
-- . Minha roupa est amassada, suja, mas s vou para
casa depois que o mdico vier. Vou telefonar para saber como esto as coisas com
Elvira e as crianas.
-- Vou com voc. Quero falar com eles. Marina estava muito assustada.
-- Percebi isso. Ela quer se fazer de forte, mas estava arrasada. Elvira disse que a viu
chorando escondido.
-- Ela tem sido muito amiga dos irmos.
-- Acha que  a mais velha e que precisa tomar conta deles.
-- J notei. Ultimamente, quer tomar conta de mim tambm.
-- Ela  muito amorosa. De todos  a que tem mais cimes de voc.
-- Talvez esteja comeando a gostar de mim.
Olvia no respondeu. Ela tambm mudara com relao a ele. Naqueles momentos
difceis que estavam vivendo, ele mostrara seus sentimentos e ela agora sentia que podia
confiar nele. Olhando seu rosto um tanto abatido, ela j no o culpava pela infelicidade
de Elisa.
De repente, lembrou-se das palavras da irm. Seria verdade mesmo? Ela teria sido
casada com Eugnio em outra vida?
-- Em que est pensando? -- perguntou ele. Ela estremeceu:
-- Nada -- mentiu.
-- Vou sair e comprar os jornais. Quer vir?
-- No. Pode ir.
Ele saiu e ela sentou-se em uma poltrona. No podia negar que o que Elisa dissera a
emocionara profundamente. Sua emoo, suas lgrimas, sua sinceridade haviam tocado
fundo seus sentimentos. Apesar de no ter raiva de Elisa, suas palavras provocaram
forte sensao de alvio. O que aconteceria dali para frente? Como seria seu
relacionamento com Eugnio?
Levantou-se e foi at a janela. No queria pensar nisso. Estava fora do seu natural, sem
condies de analisar claramente os fatos. O importante era que Nelinha se salvasse. No
momento, nada mais importava.
O mdico os visitou ao meio-dia dizendo que o estado de Nelinha continuava estvel e
que at a noite ele esperava poder ser mais objetivo. Aconselhou-os a ir para casa
descansar, mas eles recusaram.
Olvia pediu a Alzira para apanhar algumas roupas, fizesse o mesmo em casa de
Eugnio e levasse tudo para eles no hospital.
 noite, Amaro foi visit-los tendo antes o cuidado de passar
pela casa de Eugnio para ver as crianas. Eugnio havia sado para comprar algumas
frutas.
-- Como esto as crianas? -- indagou Olvia.
-- Marina me pareceu mais preocupada. Fiz o que pude para acalm-la.
-- Ainda bem que esteve l.
-- Voc precisa refazer-se, Olvia. Est muito abatida. Por qu no vai para casa
descansar esta noite? Eu posso ficar com Eugnio.
-- Obrigada, mas quero ficar. O estado dela  delicado. Depois, h o Eugnio... Ele
est arrasado. No posso abandon-lo nessa hora.
-- Seu apoio  muito importante para ele. Acho que voc j notou isso.
-- . Ns passamos por momentos de muita tenso. Isso nos aproximou. Estamos
lutando pelo mesmo objetivo, amamos aquela criana. Isso fez com que nossas foras se
unissem. Sinto que temos de ficar juntos nisso at o fim.
Amaro ficou silencioso por alguns segundos depois disse:
-- Considerando os fatos do passado, acho que tem razo.
-- Por que diz isso?
-- Porque o amor tem muita fora. O amor que sentem por Nelinha vai ajud-la a ter
foras e querer viver.
-- Se ela se suicidou mesmo em outra vida, agora ela no ter que ir embora? Sempre
ouvi dizer que o suicida reencarna para cumprir os anos que cortou com o suicdio e
morre cedo.
-- No podemos generalizar. Cada caso  um caso. Pelo que sei, Nelinha, com o
suicdio, lesou seu corpo astral e nasceu com sade delicada em alguns pontos sendo
portanto sujeita a certas doenas. Mas o tempo que ela vai viver na nova encarnao
depende do fludo vital que ela consegue armazenar. E a captao desse fludo ocorre
atravs da vontade de viver, da alegria interior, do entusiasmo. J reparou que quando
algum entristece, fica deprimido, morre logo?  como se desistisse da vida. Dessa
forma, deixa de armazenar as energias vitais, adoece e morre.
-- Quer dizer que Nelinha adoeceu de tristeza?
-- Ela se suicidou de tristeza. Ficou com a sade frgil, mas se sua alegria, seu prazer,
for estimulado, ela vai se recuperar, ficar forte e poder viver muitos anos. Isso pode
acontecer com qualquer um, mesmo que nunca tenha cometido suicdio.
-- Juro que se ela se curar, vou me dedicar em faz-la recuperar a alegria e se
fortalecer.
Eugnio chegou, colocou os pacotes sobre a mesa e abraou o amigo confortado com
sua presena. Conversaram um pouco sobre as crianas, depois Eugnio tornou:
-- Amaro, tenho pensado muito em tudo quanto voc tem me falado sobre a vida
espiritual. Gostaria de conhecer um pouco mais.
-- Fico contente em saber. O conhecimento de como a vida funciona, ajuda a entender
o mundo que nos rodeia, conforta e ensina a viver melhor.
-- Quero encontrar algumas respostas para os fatos que tem me acontecido desde que
Elisa morreu. Preciso entender. No quero mais ser joguete das circunstncias, sem
saber o que h por trs nem ter atitudes que possam resultar em sofrimento para mim e
para os que amo. Tenho pensado muito e estou decidido. Sinto que existe um poder
maior; desejo conhec-lo.
-- Posso trazer-lhe alguns livros.
-- Quero ir ao Centro com vocs.
-- Quando quiser.
Quando Amaro se foi, passava das onze. Eugnio o acompanhou at a rua, quando
voltou disse:
-- Mais uma noite. At quando teremos que esperar? Olvia suspirou:
-- Est nas mos de Deus. Ele aproximou-se dela:
--  melhor se deitar. Ela hesitou, depois disse:
-- Tenho medo. Gostaria que ficasse comigo. Ele abraou-a confortado. Sentia a
mesma coisa:
-- Sei o que quer dizer. Parece que juntos nos tornamos mais fortes. Mais capazes de
mandar foras para Nelinha.
--  isso.
-- Ficaremos juntos.
Deitaram-se um ao lado do outro na mesma cama. Eugnio segurou a mo dela dizendo:
-- Vamos rezar em favor dela.
Fecharam os olhos e silenciosamente pediram a Deus pela sade de Nelinha. Depois,
ficaram assim, em silncio, cada um imerso nos prprios pensamentos e acabaram por
adormecer.
-- Sr. Eugnio, acorde!
Ambos acordaram assustados. O mdico estava perto da cama. Com o corao batendo
descompassado, levantaram-se de um salto, boca seca, olhos ansiosos:
-- Desculpe se os assustei. Mas no resisti.
-- O que foi? -- murmurou Eugnio.
-- Sua filha est fora de perigo!
Eugnio no conteve a alegria. Abraou o mdico com euforia, depois abraou Olvia
que, olhos brilhantes de alegria, apertou-o de encontro ao peito.
O mdico sorria satisfeito. Vendo-os mais calmos, disse:
-- Ela est sem febre e respirando normal. Amanh cedo fecharei a inciso e a
traremos para o quarto. Dentro de um ou dois dias, ela poder ir para casa.
Depois que o mdico saiu, eles deram vazo  alegria.
-- Gostaria de ter uma garrafa de champanhe para comemorarmos -- disse Eugnio.
-- Vamos tomar caf com leite. Estou com fome. O peso do estmago sumiu. Vamos
comer alguma coisa.
-- Eu tambm estou com fome. Parece que faz um ano que no como.
Eles riram enquanto abriam os pacotes preparando um lanche. Quando acabaram de
comer, Eugnio disse:
--  melhor descansar, tentar dormir. Amanh cedo Nelinha vir para o quarto e
teremos que cuidar dela.
--  verdade.
Cada um deitou em uma cama. Eugnio no conseguia dormir. Ouvindo Olvia
remexer-se no leito, levantou-se e foi deitar-se a seu lado, tomando-lhe a mo.
-- Olvia, no consigo dormir. Quero ficar perto de voc. Seu corao batia
descompassado, e Olvia estremeceu
sentindo a emoo dele. Sem dizer nada, apertou a mo dele e foi o bastante. Ele
abraou-a e beijou-a longamente nos lbios. Sem pensar em mais nada, ela retribuiu o
beijo sentindo enorme emoo.
No queria pensar nem saber o que aconteceria depois. Naquele momento, sentia um
prazer enorme em estar nos braos dele deixando a emoo extravazar como nunca se
lembrava de haver sentido.
Eugnio beijava-a ardentemente. Um sentimento forte, ine-briante, tomara conta dele
que, sem poder conter-se, dizia emocionado:
-- Eu amo voc! Amo como nunca amei mulher alguma. De repente, descobri isso. No
me rejeite mais. Deixe-me ficar a seu lado e am-la para sempre!
Olvia ouvia suas palavras inebriada, tomada de emoo, sem poder dominar a fora
daquele sentimento que a envolvia intensamente.
Entregaram-se ao amor que sentiam e horas mais tarde, quando o dia j comeava a
clarear, eles, ainda abraados, deixavam-se ficar silenciosos, com medo de quebrar o
encanto mgico daquele momento de entrega, de amor e de felicidade.

Captulo 28

Olvia abriu os olhos, e Eugnio estava em p ao lado da cama fitando-a. Encabulada,
levantou-se dizendo:
-- Que horas so?
-- Oito.
Apanhou o vestido que estava sobre a cadeira e foi ao banheiro. Quando saiu, estava
vestida e arrumada.
Ao lembrar-se do que acontecera na vspera, sentia-se perturbada. No tocou no
assunto.
-- Quer caf? Est quente -- sugeriu ele.
Ela serviu-se e sentou-se na poltrona. Ele aproximou-se sentando-se na beira da cama,
olhando-a fixamente.
-- J perguntou a que horas vo trazer Nelinha?
-- s dez ou onze.
Vendo que ela tomava o caf em silncio sem olhar para ele, Eugnio continuou:
-- Precisamos conversar, Olvia.
Ela colocou a xcara sobre a mesa e levantou-se dizendo:
-- Preferia no falar sobre isso.
-- No d para ignorar. Temos que conversar. Aproximou-se dela segurando suas mos
e dizendo:
-- Venha, sente-se aqui.
Hesitante, ela obedeceu. Quando a viu sentada a seu lado no sof, pediu:
-- Olhe para mim. Ela obedeceu.
-- Aconteceu, Olvia. No planejamos, mas aconteceu. Descobri que amo voc. Talvez
tenha sido por isso que sua opinio sobre mim me incomodava tanto.
-- Voc no me ama! Est confundindo seus sentimentos por causa do apoio que eu lhe
dei e por tudo que passamos nestes dias. Quando pensar melhor, ver que tenho razo.
-- No  isso, Olvia. Sei o que estou dizendo. Tive muitas mulheres em minha vida,
mas nunca havia sentido o que senti ontem quando estivemos juntos.  a voc que eu
quero, agora eu sei. Sei que tambm me quer. Voc vibrou em meus braos e sentiu o
mesmo que eu. Vamos nos casar e ficar juntos para sempre.
Olvia abanou a cabea negativamente:
-- Isso no pode ser. No tenho certeza de nada. A tenso e a insegurana dos ltimos
dias nos perturbou. O que nos aconteceu pode ter sido apenas uma catarse, uma quebra
de tenso, uma forma de aliviar o corao.
-- Sei que no foi isso. A emoo e o prazer que senti foram muito alm de uma quebra
de tenso, ou de um acontecimento ocasional. Ainda agora, Olvia, ao olhar para voc,
ao falar sobre isso, sinto meu corao bater mais forte e o desejo de t-la novamente em
meus braos.
Aproximou-se dela abraando-a e tentando beij-la, mas ela o repeliu dizendo:
-- No, por favor. Agora no. Preciso refletir. Sinto-me fragilizada e insegura. No
posso responder nada por enquanto. Gostaria que fizesse de conta que no aconteceu
nada.
-- No posso, Olvia. O que estou sentindo  muito forte e difcil de controlar. Eu quero
voc! Sinto que tambm me quer. Por que reluta?
-- No estou em condies de analisar meus sentimentos. Preciso de um tempo para me
equilibrar e decidir o que quero.
-- Voc  livre e eu tambm. As crianas amam voc. Nada nos impede de ser felizes.
-- Pelo amor que sinto pelas crianas  que eu no posso decidir agora. Nunca pensei
seriamente em casamento. Sei que sou diferente das outras mulheres. No sou cordata
nem tolerante com o que achar que  errado. S me casarei com voc, ou com outro
qualquer, quando tiver certeza de fazer o que meu corao deseja. Mesmo amando
muito as crianas, no me casaria com voc apenas para ficar junto deles e servir-lhes
de me. Minha felicidade pessoal  um direito que no abdico de forma alguma. Sei que
poderei am-las e orient-las mesmo como tia. Entendeu?
Eugnio levantou-se andando de um lado a outro do quarto um tanto nervoso.
Depois, parou em frente dela dizendo:
-- Se voc pensa que quero me casar com voc s porque as crianas a aceitariam como
minha mulher, est enganada. Por que pensa que no me casei com a Lourdes? Por que
no a amava o
bastante. Minha experincia com o casamento no foi muito boa. Elisa no teve culpa
de nada. Nosso casamento foi um erro desde o Comeo. Ns tnhamos temperamentos
diferentes. Ela me deu o que eu tinha buscado no casamento, foi a esposa digna,
honesta, leal e dedicada. Mas agora eu sei que isso no bastava para mim. No me
satisfazia. Eu queria amor, paixo, romance, e isso ela nunca teve para me dar. O erro
foi meu que coloquei minhas necessidades pessoais em segundo plano. Voc diz que
no vai abdicar de sua felicidade pessoal.  isso que eu quero. Agora, depois de tudo
que passei, sei o que quero para ser feliz.
Aproximou-se dela segurando-lhe as mos e dizendo:
-- Eu sei que voc pode responder a esse meu anseio de amor e paixo. Voc  a
mulher que tenho procurado durante toda a vida sem encontrar. No me abandone
agora, Olvia! Fique comigo. Vamos ser felizes juntos!
Abraou-a beijando-lhe o rosto, procurando-lhe os lbios sofregamente.
Beijaram-se longamente e ela de repente desvencilhou-se de seus braos dizendo:
-- Por favor, Eugnio! Assim, no consigo pensar. Preciso acalmar o corao, analisar
meus sentimentos, saber o que quero. No podemos nos entregar a uma iluso. Peo-lhe
um tempo para pensar.
Ele soltou-a dizendo:
-- Est bem, Olvia. No quero for-la a nada. Sinto que a amo e que sou
correspondido. Vou esperar. S peo que no seja por muito tempo.
-- Preciso pr meus pensamentos em ordem. Quando estiver pronta, darei uma
resposta. At l, gostaria que fizesse de conta que no aconteceu nada entre ns.
-- Farei o que quiser. Estarei esperando.
Olvia respirou fundo. Sentia-se perturbada. Estava habituada a controlar-se. Sentira-se
atrada algumas vezes por algum namorado, mas nunca sentira esse atordoamento, esse
descontrole que sentia quando Eugnio a beijava. No queria entregar-se assim. Estava
com medo de perder o controle. Ela no era uma mulher fraca. Precisava dominar-se.
Entretanto, quando se recordava da noite anterior, estremecia e no podia controlar a
emoo.
Durante os dias que se seguiram, Eugnio no se aproximou mais dela.
Nelinha se recuperou, foi para casa, e Olvia voltou ao
trabalho, mas durante a noite ia dormir com Nelinha.
Ela sentia o olhar de Eugnio pousado nela com amor, mas evitava aproximar-se dele.
Naqueles dias, por mais que tentasse pensar com calma, estremecia quando ele se
aproximava, quando ouvia sua voz, quando ele lhe dirigia a palavra.
Ela lutava contra esse sentimento dizendo a si mesma que no podia se apaixonar por
ele.
Tentava recordar-se dos tempos em que ele era marido de Elisa e abusava da
passividade dela. Mas, fazendo isso, agora encontrava novas justificativas para as
atitudes dele. No podia negar que eles eram muito diferentes mesmo. Conhecendo
melhor o Eugnio, ela percebia que Elisa, como mulher, nunca poderia suprir as
necessidades dele.
Estremecia ao recordar como ele era impetuoso e cheio de paixo. Intimamente
reconhecia que ele seria capaz de lhe dar o que ela sempre desejara de um homem.
Olvia estava no quarto das meninas, tendo Nelinha ao colo, Juninho no cho
entretendo-se com um carrinho, e Marina sobre a pequena escrivaninha fazendo lio.
De repente, Nelinha passou o brao no pescoo de Olvia dizendo:
-- Tia, por que no busca sua roupa e se muda para c? Ela sorriu:
-- Porque minha casa no  aqui.
-- Pois eu queria que fosse.
Juninho levantou-se e abraou Olvia dizendo:
-- Isso mesmo. Eu tambm queria. Por que no vem?
-- Porque tenho minha casa, e vocs, a sua.
-- Por que no se casa com papai e fica sendo minha me? -- disse Nelinha.
Olvia corou sem querer e no respondeu. Foi Marina que se aproximou delas e
respondeu:
--  isso o que eu tenho pedido a Deus. Mas no temos o direito de sacrificar tia Olvia.
Ela  livre e ns damos muito trabalho. Principalmente vocs que no se comportam.
Eugnio entrou no quarto, e eles pararam. Calmamente ele se aproximou dizendo:
-- Vocs tm razo. Eu tambm gostaria que ela se casasse comigo e viesse morar aqui
para sempre.
Os dois penduraram-se no pescoo dela com exclamaes de contentamento:
-- Vem, tia Olvia! -- dizia Juninho contente.
-- Fica, fica, -- pedia Nelinha beijando-a na face sem parar.
S Marina estava calada.
-- E voc, minha filha, o que diz? -- indagou Eugnio. Ela hesitou um pouco e por fim
respondeu:
-- No posso falar por mim. Eu adoraria que ela ficasse como nossa me. Mas acho
que no temos o direito de exigir isso dela. Ela sempre me disse que s se casaria por
amor. Pelo que sei, ela no...
-- Ela no me ama.  isso o que quer dizer? -- tornou Eugnio emocionado.
-- , pai.
-- Fale, Olvia. Estamos esperando sua resposta. Acho que J tem condies de dizer.
Olvia levantou-se emocionada.
Olhando fixamente os quatro rostos ansiosos que a fitavam esperanosos, disse:
-- Tenho. Eu amo voc e aceito a proposta de casamento que me fez.
Eugnio abraou-a com fora, enquanto as crianas os abraavam tambm com
exclamaes de alegria.
-- Mas antes quero dizer que no  nenhum sacrifcio tomar conta de vocs.
-- Que bom ! Que bom! -- dizia Nelinha. -- Tia Olvia vai morar aqui!
-- E voc vai se comportar, seno ela muda de idia! -- disse Marina para Juninho.
-- Eu sabia que ia sobrar pra mim. Vou ficar um santo, vocs vo ver.
Mais tarde, quando as crianas se recolheram, Eugnio tornou:
-- Venha, Olvia. Precisamos conversar.
Sentados no sof da sala, Eugnio abraou-a e beijou-a longamente.
-- Hoje voc me fez muito feliz -- disse. -- Vamos nos casar imediatamente. Amanh
mesmo darei entrada nos documentos em cartrio.
-- Tem certeza de que  isso mesmo que quer?
-- Tenho.
-- Antes preciso dizer-lhe que no sou de gnio fcil. Gosto de ser independente, ter
meu prprio dinheiro. Vou continuar trabalhando mesmo depois do casamento. No
gosto de cozinhar e no sei. Trarei a Alzira para c, ficaremos com as duas empregadas.
Pode deixar que eu continuarei pagando o salrio dela.
-- Acha mesmo que deve fazer isso?
-- Sim. Posso cuidar do meu prprio sustento. Se sobrar dinheiro, poderemos comprar
uma casa melhor. As crianas esto crescendo e precisamos ensin-las a ser
independentes. Ter seu prprio espao, cuidar de suas coisas.
-- A idia  boa.
-- No quero que se case enganado. No sou passiva, embora seja sensata e tenha boa
vontade. Gosto de me cuidar, compro roupas caras, da moda, freqento cabeleireiro e
tudo que precisar para me manter bonita e bem-disposta. Ganho bem e d para tudo
isso. No vou mudar com o casamento. Concorda com tudo isso?
Eugnio abraou-a alegre dizendo feliz:
-- Voc  justamente o que eu gostaria que fosse. Desejo que no mude mesmo,
conserve-se como , sem queixas nem reclamaes, alegre, bonita, bem-disposta e
amorosa. Principalmente amorosa -- completou ele, beijando-a com paixo.
Foi a que eles ouviram risinhos abafados e perceberam que os trs estavam escondidos
na escada espiando.
-- Venham c -- disse Eugnio -- isso no se faz!
Os trs saltaram sobre eles no sof, abraando-os contentes, querendo saber tudo sobre
o casamento, quando seria, se eles poderiam assistir, quando Olvia se mudaria para l.
Com olhos enevoados de alegria, Elisa assistia a cena em um canto da sala. Finalmente
eles estavam reunidos!
Agora, dali para frente, ela estava livre para rever a prpria vida e construir sua
felicidade.
Nunca mais se envolveria com homens comprometidos nem com a vida alheia. Havia
aprendido que o mais importante era tomar conta de si, buscando viver melhor. Tinha
certeza que conseguiria.
Renata, que observava calada, disse por fim:
-- Vamos embora, Elisa. Sua tarefa aqui acabou. Temos coisas interessantes e
melhores para fazer.
-- Sim -- concordou ela. -- Vou me despedir deles. Aproximou-se das crianas e
beijou-as amorosamente, depois beijou Eugnio na testa dizendo:
-- Seja feliz e cuide bem deles!
Aproximou-se de Olvia abraando-a e dizendo comovida:
-- Minha irm querida! Vou rezar pela sua felicidade! Deus a proteja!
Depois de um ltimo olhar carinhoso, Elisa saiu com Renata.
Em seu peito havia uma alegria que antes nunca sentira. O
mundo era maravilhoso, a vida, uma ddiva divina.
Sentiu o prazer de amar, de desejar o bem, de poder agir com bondade.
Suspirou satisfeita dizendo:
-- Ai, Renata, como  bom ser bom!
Renata sorriu contente.
Abraadas, as duas se prepararam para partir. A noite era linda e cheia de estrelas.
Logo, seus vultos radiosos desapareceram rumo ao infinito.
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11- Eu e o equilbrio
'd.
VDEO
SEXTO SENTIDO
Conhea neste vdeo um pouco do mundo dos mestres da pintura,
que num momento de grande ternura pela humanidade,
resolveram voltar para mostrar que existe vida alm da vida,
atravs da mediunidade de Gasparetto.
MACH PICCH
Visite com Gasparetto a cidade perdida dos Incas.
srie VDEO & CONSCINCIA
Com muita alegria e arte, Gasparetto leva at voc, numa viso
metafsica, temas que lhe daro a oportunidade de se conhecer
melhor:
0 MUNDO DM AMEBAS JOGOS DE AUTO-TODTDA
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R. Professor Serafim Orlandi, 356 / 364 Jd. da GlriaSo PauloS.R CEP
04115090 ( 574-568 FAX: 571 -9870
